ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 507 - 24/11/2009
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ESPÉCIES AMEAÇADAS
As notícias que não se cruzam

Por Maurício Tuffani em 14/10/2008

Publicado originalmente no blog Laudas Críticas, 14/10/2008

A BBC News parece ter sido o único veículo de toda a imprensa internacional que produziu a informação de que os governos não conseguirão cumprir a meta de reduzir a perda de espécies animais e vegetais até 2010, fixada pela Convenção da Diversidade Biológica (CDB). No Brasil, alguns portais, como Globo Online, G1 e Agência Estado, reproduziram a matéria "Governos devem fracassar em meta de biodiversidade, dizem especialistas", divulgada no país pela BBC Brasil.

Presente em Barcelona ao Congresso Mundial da Conservação, promovido pela ONG IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza), o repórter Richard Black entrevistou dez representantes de instituições de pesquisa, ONGs e órgãos multilaterais. Segundo o jornalista, todos eles afirmaram que os governos não conseguirão cumprir a meta de

"Atingir até 2010 uma redução significativa no atual índice de perda de biodiversidade a nível global, regional e nacional, como uma contribuição para a redução da pobreza e para o benefício de toda a vida na Terra."

Essa meta integra o Plano Estratégico estabelecido na 6ª Conferência das Partes da CDB, realizada em abril de 2002, em Haia, na Holanda. De acordo com a reportagem de Black,

Nem todos os especialistas questionados pela BBC quiseram tornar públicas suas opiniões e alguns dizem que há certa relutância em `envergonhar´ os governos sobre seus fracassos nessa questão. Outros sugerem ainda que a meta já não era `atingível´ quando o documento foi assinado, há seis anos.
Ahmed Djoghlaf, secretário-executivo da CBD, disse à BBC que a meta para 2010 só seria cumprida através de ações de urgência dos governos, o que `segundo todos os indicadores, seria pouco viável´".

Resgate da notícia

Assim como a notícia da BBC News, a declaração de Djoghlaf merece ser relacionada a um fato recente do Brasil, que foi a lista das espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em 19/09/2008, com 472 espécies. A lista anterior, de 1992, tinha 108 espécies. Mas houve um desentendimento entre o MMA e a instituição que pesquisou os dados, a Fundação Biodiversitas, que contestou a relação oficial e afirmou que já havia 1.495 espécies ameaçadas na lista entregue por eles ao governo em dezembro de 2005, conforme mostraram algumas reportagens, como "Ministério lista 472 espécies de plantas ameaçadas", da Agência Estado, e "Flora ameaçada racha governo e biólogos", da Folha de S. Paulo, segundo a qual...

"O ministro [Carlos Minc, do MMA] também usou a falta de estrutura do ministério como argumento. `Eu me pergunto se temos capacidade de fiscalizar essas 472 espécies. Incluir mais mil é, aparentemente, mais defensivo, mas vulgariza e cria um número que não teremos condições de fiscalizar´, disse.
A Fundação Biodiversitas contestou. `Nossa avaliação é biológica, não é política. O ministério tem uma lista política; nós, uma científica´, afirmou Gláucia Drummond, que disse lamentar a divulgação da lista e a `falta de diálogo´ com o ministério".

Sediada em Belo Horizonte, a Biodiversitas teve para seu estudo a colaboração de 299 pesquisadores de diversas instituições de pesquisas brasileiras e estrangeiras. Há motivos de sobra para resgatar a notícia anterior em função da atual, da BBC News, e apurar se o MMA teve ou não razão em sua decisão. Até a data desta postagem, o site da fundação mineira não apresentava nenhuma manifestação sobre sua discordância com o MMA.

No final das contas, são notícias que, como tantas outras, não se cruzam.

Comentários (9)
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Maurício Tuffani , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 19/10/2008 às 7:57:25 AM
O artigo nº 50 da Constituição Federal estabelece que as Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal podem encaminhar pedidos escritos de informações a ministros de Estado ou ou quaisquer titulares de órgãos diretamente subordinados à Presidência da República, "importando em crime de responsabilidade a recusa, ou o não-atendimento, no prazo de trinta dias, bem como a prestação de informações falsas". O prazo começa a contar na data de recebimento do requerimento. Já solicitamos ao deputado que nos informe sobre a reposta.
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - Biólogo
Enviado em 17/10/2008 às 1:47:34 PM
E de mais a mais, Felipe Cabral, é bom também que o ministro Reinoldo Stephanes esclareça direitinho à sociedade o que significa aquela frase "se não abrir a lei o país para". Ué, ué! Quer dizer que o desmatamento, as queimadas, a invasão dos ecossistemas por sistemas de produção de energia são sinônimo de país "aberto", em desenvolvimento?
Felipe Cabral , Brasília-DF - Jornalista
Enviado em 16/10/2008 às 6:15:13 PM
Informo que o Deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP), com base no artigo, apresentou nesta semana requerimento de informações ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). No documento, o parlamentar paulista solicita esclarecimentos ao MMA sobre as razões da não inclusão de determinadas espécies na Lista Oficial das Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção. Felipe Cabral, assessor de imprensa do Deputado Ricardo Tripoli.
Sérgio Rodrigues Manfra , São Paulo-SP - Professor de ciências
Enviado em 16/10/2008 às 5:56:17 PM
Parabéns ao articulista, que aponta a falta de memória da mídia até mesmo para os fatos recentes. O Ministério Público Federal deveria abrir uma ação contra o MMA por conta dessa decisão política encima de um assunto científico.
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - Biólogo
Enviado em 16/10/2008 às 7:55:06 AM
Meu caro Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico, o modo de produção baseado na exploração desenfreada de recursos é capitalista. Foi e é aplicado por socialistas, capitalistas, corintianos, e palmeirenses. Não importa quem os aplique. E de mais a mais, todos nós sabemos que se a URSS, por exemplo, seguisse a cartilha marxista não seria o que foi. E a China, cá pra nós, pode ser tudo, menos um país socialista. Cantam hinos da Internacional, agitam bandeiras vermelhas, batem no peito de emoção, cerram os punhos em sinal de luta, mas não deixam de lado seus quinhões capitalistas. Mas isso é outra conversa. O modo de valorizar a produção, de aumentar reservas dos tesouros, de enriquecer setores dos processos industriais e de incentivar o comércio, baseando-se exploração de fontes de recursos, pode ser dado o nome que se quiser, mas casa exatamente como o sistema de produção capitalista. Não estou defendendo que se fossem socialistas (autênticos!) isso seria diferente, ou melhores, mas a forma como o fazem é uma continuação dos processos das economias de mercado. E é esse modelo que está na bancarrota. Ou a gente, homens de bem e de sensibildade, passa a difundir uma proposta alternativa de crescimento, ou vamos morrer todos afogados. Concordo com você: Malthus tinha razão.
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 15/10/2008 às 9:17:29 AM
Caro Biólogo Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - apenas uma correção no seu raciocínio. A destruição ambiental nada tem a ver com o capitalismo. O país mais destruído do mundo foi a URSS, com a cidade mais poluída com sobrevida média de 40 anos, o desastre do Volga que acabou com o caviar russo, a "drenagem" do Mar de Aaral, o desastre de Chernobil. Todos ocorridos na época do comunismo. A China é campeã de desastres ecológicos e de acidentes de trabalho, apesar de dominado pelo Partido Comunista Chines. Países pobres como da África e da Ásia destroem tudo pela frente em busca do que comer, nada a ver com capitalismo, mas uma mistura do impacto da medicina que diminui a mortalidade infantil no mundo, mas estes países não desenvolvem meios de subsistências avançados ao mesmo tempo. O que leva a pressão contra as reservas em busca de alimentos e proteína pela população que está explodindo! O comunismo não fez melhor em nenhum local do mundo. A pressão da população crescendo sem parar leva a predação do ambiente em qualquer sistema de produção! Talvez você queira se referir entre uma democracia e uma ditadura, em que esta última poderia impor medidas impopulares rapidamente e não dar direitos e ouvidos para as vozes que clamam de fome! Pessoas em países comunistas também desejam consumir ilimitadamente. Apenas produzem menos e pior!
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - Biólogo
Enviado em 15/10/2008 às 7:42:17 AM
É mais do que evidente que os sistema de produção atual, esse que está se desfazendo, nunca esteve "nem aí" para a tal SUSTENTABILIDADE. É apenas um discurso bonitinho para angariar "selos verdes" e certificados de qualidade, cujo objetivo final é aumentar sua produtividade. Entenda-se invadir os ecossistemas e buscar mais recursos naturais, se possível, aqueles ainda virgens. Os governos europeus declararam ainda essa semana que não é viável manter o processo de sustentabilidade, pois é oneroso. Ou seja, para um bom entendedor ponto é vírgula, na hora do "vamo ver", que se lixem os animais e plantas. Cuidar do meio ambiente é uma bazófia para o capitalismo e o único verdinho que lhes satisfaz é aquele que enche os bolsos.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 15/10/2008 às 2:30:01 AM
O suicídio da raça humana é inveitável. De um jeito ou de outro.
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 14/10/2008 às 1:47:41 PM
E até hoje existem pessoas que defendem que Thomas Malthus estava errado. Que com jeitinho dava para levar. Nem com toda tecnologia se alimenta as enormes populações, e para conseguir isto, só cada vez mais indo ao ponto de não retorno. Não só de espécies, mas de sustentabilidade. A crise do petróleo já mostrou a disposição dos americanos de sacrificarem as reservas na busca de petróleo. E numa época com esta, tudo vai as favas em troca de dinheiro.
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