ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 511 - 17/11/2009
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VELOCIDADE & CREDIBILIDADE
O preço de um furo

Por Lívia de Souza Vieira em 11/11/2008

"O bom repórter é aquele que sabe encontrar quem sabe." Ouvi essa frase do dono do jornal onde trabalhei e nunca a esqueci. É simples, mas sintetiza bem a arte da apuração precisa, um dos maiores desafios de um jornalista.

A credibilidade da fonte é tão importante quanto o próprio fato. Explico: uma notícia bombástica, com todos os "ingredientes" para ser a capa de um jornal, só pode ser considerada se a fonte que forneceu a pauta é de confiança. Existem várias formas de checar isso e uma das mais simples é a investigação: saber quem é, coletar dados, tirar a prova, questionar, perguntar, perguntar e perguntar. Se a informação não for verdadeira, é batata: a fonte cai em contradição.

A boa apuração, grande prazer dessa profissão tantas vezes injusta, parece estar sendo deixada de lado. Afinal, o Google resolve metade dos problemas de um repórter com deadline estourado e o maravilhoso mundo da internet está aí para ser explorado. Mas o problema é exatamente esse: a outra metade, que pode comprometer toda a matéria.

Velocidade em detrimento da verdade

Exemplos? Tenho dois. Ivete Sangalo anuncia que está grávida. Imediatamente, o site Ego publica uma matéria cuja fonte é a página no Orkut do namorado da cantora (veja abaixo). Eles reproduzem frases inteiras do tal perfil e as consideram como verdade. Resultado: o perfil do rapaz era falso.

O outro exemplo teve conseqüências bem piores. As ações da Apple caíram assim que foi divulgada pela CNN a notícia de que Steve Jobs havia sofrido um ataque cardíaco. Após o desmentido, descobriu-se que um jovem de 18 anos foi o autor do boato. Ele postou a notícia na área colaborativa do site da CNN.

As redes sociais e a web 2.0 trouxeram enormes benefícios à comunicação e prometem ainda mais. O erro não está nas ferramentas, mas na falta de apuração por parte dos veículos de imprensa. Uma notícia dada por uma fonte por telefone, pela internet ou pelo Orkut deve ser checada com a mesma responsabilidade. Alguns jornalistas só não fazem isso porque preferem apostar no furo a qualquer custo. A velocidade em detrimento da verdade.

Comentários (5)
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Flávio Nogueira , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista
Enviado em 18/11/2008 às 10:55:42 AM
Pois é, Lívia. Já diziam os mais antigos, que prezam o bom português: "A pressa é inimiga da perfeição". A apuração da informação se torna capenga, a revisão do texto, digitado apressadamente, também. Sobre a segunda linha de discussão aberta nos comentários (o estrangeirismo): checar é uma palavra que integra o Vocabulário Ortográfico da ABL (e como tantas outras, tem origem em outras línguas). Outras tantas palavras são adotadas sem o aportuguesamento, como "customizar", quando temos "personalizar". Engraçado foi que ao se checar, conferir ou apenas ler o texto, ninguém reclamou do "deadline"! Mas é o assunto levantado pela Lívia que deve ser o foco dos comentários.
Mariana Leonhardt , Farroupilha-RS - Bancária
Enviado em 17/11/2008 às 9:37:41 PM
Venho eu contribuir com algumas palavras. Creio que a geração que brigou, lutou, apanhou e venceu a repressão, infelizmente não soube educar. Não estou aqui para desmerecer tanto sangue derramado e mágoas inapagáveis, muito pelo contrário. Acho apenas que a liberdade trouxe a libertinagem. Talvez nem tenha sido culpa daquela geração, talvez seja culpa da intencionalidade em alienar o povo. Somente quem já estava morto não viu(ou ouviu) o badalado caso Eloá (isso para citar o mais recente). Pois bem, daquelas 30 mil pessoas que estiveram por lá, qual delas vai à câmara de vereadores cobrar o que é necessário para sua comunidade? Banalizam a informação e a massa perde. Tenho 27 anos e vejo um futuro qualquer, onde a tv vai mandar cada vez mais, haverão candidatos virtuais e promessas iguais. Desculpa-me se estou batendo numa tecla tão batida, mas não podemos perder o ideal. Queremos que a notícia informe, transforme e fortaleça.
Adriana Cattelani , Santo André-SP - Jornalista
Enviado em 17/11/2008 às 7:38:26 PM
Concordo com você Roberto. Sou contra todo esse estrangeirismo, mas confesso que, às vezes, também sou vítima dele (ou a grande vilã, depende do ponto de vista). O que eu acho é que o fato proposto pela Lívia para discussão é muito mais importante agora. A irresponsabilidade com a qual informações são transmitidas, atualmente, são inadmissíveis. Ao invés de pensarmos no receptor da mensagem, em como ele irá entender e interpretar a informação, pensamos em nós e nos nossos empregadores, e em quanto um furo nos poderá ser rentável, sem nos preocuparmos com as conseqüências. Na minha opinião, esse não é só um problema dos jornalistas. É um problema cultural que se manifesta em todas as áreas de atuação, em cada uma à sua maneira. Nem me atrevo a pensar nesse tipo de coisa na área da saúde...
Roberto Ribeiro , Aracaju-SE - Arqueólogo
Enviado em 17/11/2008 às 5:33:38 PM
"Existem várias formas de checar isso..." Será que é tão difícil escrever em português: "Existem várias formas de apurar isso/ Existem várias formas de verificar isso/Existem várias formas de averiguar isso..." POR QUE o verbo "to check" tem de ser usado obrigatoriamente no lugar de tantos verbos portugueses? Isso é lei? Isso é norma das escolas de jornalismo? To check, to check, to check... Arre!
Elise Gonçalves , Brasília-DF - Publicitária
Enviado em 13/11/2008 às 5:32:42 PM
Se tem uma coisa que me enerva é ler uma mátéria mal-apurada. E não é raro! Poxa, esse ano acompanhei uma seqüência de matérias de uma empresa da área de saúde; lá pela 3º/4º dia tratando do assunto, a notícia trazia o slogan da empresa, missão, visão, incluindo-se inclusive isso nas legendas das fotos; até aí tudo bem, se as sei-lá-o-quê" que escreveram a matéria não tivessem retirado essas informações institucionais do site DE OUTRA EMPRESA (praticamente homônica, mas de outro estado, poxa). E como já era a 3ª ou 4ª reportagem da série, falta de tempo não é desculpa. Talvez, mais 30 segundos de Google teriam bastado para que elas vissem o erro. É preguiça, incompetência? Falta de comprometimento com o público e com a profissão? Negligência? Azar? E nesse caminho,realmente, a credibilidade cada vez mais deixa a desejar.
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Lívia de Souza Vieira

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