ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 520 - 24/11/2009
  Tv em Questão
Início > Índice Geral > Tv em Questão + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

JORNAL NACIONAL
Quarenta anos de "Boa noite"

Por Robson Terra em 13/1/2009

O ano de 1969 foi emblemático para a história da humanidade, que viu o homem chegar à lua e testemunhou outras transformações definitivas. A BBC começou a transmitir a programação da TV em cores, a Sony lançou o videocassete que promoveu a grande democratização do conteúdo da TV e cinema para o uso doméstico e criou nova ordem mundial no registro das memórias familiares. É como se cada lar se transformasse numa emissora de TV. O festival de Woodstock, a apologia da filosofia hippie, transfigurou o comportamento de jovens no mundo inteiro. Mágico.

A chegada do homem à lua trouxe a representação da passagem do mundo arcaico para a modernidade. Seiscentos milhões de pessoas no mundo assistiram ao feito. A lua não era mais o limite. O fato aconteceu no dia 20 de julho daquele ano, com o pouso da nave Apolo 11, e foi definitivo na história da TV Globo, que transmitiu, ao vivo, pois "o céu não é mais o limite". O astronauta Neil Armstrong pronunciou a frase histórica: "É um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade." Para a Globo foi decisivo, pois estar no céu é estar perto de Deus.

Sob o espectro do AI-5, criado no ano anterior, nasceu o Jornal Nacional, elemento fundamental para a escalada de sucessos da emissora. Dentro da estratégia de expansão da rede, o surgimento do satélite integrava a nação numa "corrente pra frente". A tecnologia como sustentáculo do projeto de integração nacional, via Embratel, começou em 28 de fevereiro, em Itaboraí, com a Estação Terrena de Comunicação, via satélite, atendendo ao "projeto dos militares de mostrar que o Brasil era um país de primeiro mundo".

Telespectador mais crítico e seletivo

Com a primeira transmissão em 1º de setembro de 1969, foi o primeiro programa em rede nacional da televisão brasileira. Junto ao slogan "É o Brasil ao vivo aí na sua casa", surge o envolvente "Boa noite" de Cid Moreira, ao final de cada edição. Era fundamental um programa diário, "que entrasse ao vivo em vários estados para estimular as outras emissoras a se afiliarem à Rede Globo. Com mais emissoras, podíamos oferecer aos nossos clientes a audiência de outras praças, cobrando mais caro por isso. E, obviamente, não havia nenhum programa de TV diário melhor para fazer essa integração nacional que um telejornal" conforme Walter Clark, um de seus fundadores, no livro O campeão de audiência.

Os anos vindouros, na década de setenta, brindaram o momento de chegada da transmissão via satélite e do modelo norte-americano de administrar TV, da novidade da transmissão em cores e o Jornal Nacional, entre duas novelas, promoveu picos de audiência da emissora. Acusado de oficialista até 1970, quando a esquerda o nomeava porta-voz oficial da ditadura militar, sofreu ingerências da censura em suas veiculações. Apontado, inicialmente, como omisso na campanha das diretas em 1984, de editar um debate favorável a Collor de Mello, em 1989, e motivar o desmonte da Nova República, se redimiu quando, na primeira eleição de Lula, levou o presidente para a bancada sacrossanta. A representação do povo na redoma da telinha.

Atravessou quatro décadas, diariamente, trazendo o Brasil para dentro da casa do povo brasileiro e, segundo Eugênio Bucci, no livro Videologias (com Maria Rita Kehl) – uma das melhores obras sobre TV, no Brasil – "sem a Globo a identidade nacional brasileira não teria a face que tem. (...) Digamos que ela tenha ajudado a modernizar a sociedade por automatismo ideológico. Tendendo a moldá-la à sua semelhança". O quarentão JN foi o principal porta-voz dessa estratégia, aliado à produção das telenovelas. É a principal ou única fonte de informação da maioria do povo brasileiro. Acostumado à sofisticação do noticiário, o telespectador fiel se tornou mais crítico e seletivo, o que pode garantir, ou não, a comemoração dos oitenta anos. Num restaurante da orla marítima carioca a placa colada na TV determina: "Favor não mexer na televisão na hora do Jornal Nacional. É assim há quarenta anos."

Comentários (1)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade de idéias e pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Evite vulgaridades e simplificações grosseiras. Não escreva em maiúsculas: isso dificulta a leitura do texto e, na linguagem da internet, é interpretado como gritos. Mensagens que não atendam a estas normas serão deletadas, e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Alexsandro Lima , Jataí-GO - Estudante
Enviado em 17/1/2009 às 4:10:55 AM
Reconheço o Jornal Nacional como um ponto na historia do Brasil, mais negativo que positivo, ressalta-se. No instante em que um veículo de comunicação ignora a ética da informação e passa a ser uma reles ferramenta de interesses, perde toda a essência de ser, de se denominar "informativo". A omissão nas "Diretas Já" e a manipulação eleitoral de 1989, são apenas os dois exemplos mais clássicos. Respeito quem o assiste, mas não consigo ver William Boner sem lembrar das declarações dele chamando seus telespectadores de "Homer" (alusão á Homer Simpson). Isso me dá azia!!!
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Robson Terra

Outros artigos desta Seção
TV PÚBLICA
O direito democrático à informação e à cidadania
Walquiria Domingues
Leão Rego
13/1/2009
JORNAL NACIONAL
Quarenta anos
de "Boa noite"

Robson Terra
13/1/2009
PARAÍSO DE ILUSÕES
Narcose e Narciso
na tela quadrada

Felipe Brida
13/1/2009

Últimos 5 artigos de
Robson Terra
GLOBO vs. IURD
Dízimo de lá, dízimo de cá
25/8/2009
MÍDIA & MITOS
Sucesso e pacto com diabo
28/7/2009
MICHAEL JACKSON (1958-2009)
A metamorfose do divino
30/6/2009
VOZ & CORPO
Repensando posturas no telejornalismo
16/6/2009
CARAS & BOCAS
Macaco volta ao circo da TV
9/6/2009
Mais artigos de
Robson Terra >>