ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 529 - 24/11/2009
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ENTREVISTA / LUIZ GONZAGA MOTTA
"O jornalismo deve ser um curso autônomo"

Por Observatório do Direito à Comunicação em 18/3/2009

Reproduzido do Observatório do Direito à Comunicação, 16/3/2009

Que a formação dos jornalistas não vai bem não é novidade para ninguém. Não precisa ser do campo da comunicação para perceber que muitas vezes falta profundidade nas matérias, contextualização dos fatos e cuidado na apuração, deficiências graves na boa prática do jornalismo. Em razão deste quadro, o MEC instituiu em fevereiro de 2009 uma Comissão de Especialistas para rever as diretrizes curriculares do curso de jornalismo (ver "MEC inicia reformulação das diretrizes curriculares").

Esta reforma pode ser o início de um importante passo para a mudança no perfil dos jornalistas. Até agora, a discussão tem se concentrado na oposição entre o atual modelo de integralidade do curso de Comunicação Social e a separação das habilitações como cursos autônomos.

O professor Luiz Gonzaga Motta, membro da Comissão de Especialistas formada pelo MEC, professor associado da Universidade de Brasília e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) desta universidade, é partidário da segunda posição. Na opinião do acadêmico, o jornalismo "é uma prática profissional de tradição muito consolidada, com séculos de exercício prático" e "não deve permanecer submetido a um curso de comunicação". O Observatório do Direito à Comunicação conversou com o experiente professor sobre os trabalhos da Comissão e sobre os requisitos necessários a uma formação de qualidade para os jornalistas.

***

Como foi formada a Comissão de Especialistas? Você considera que nela estão representados todos os segmentos interessados no processo?

Luiz Gonzaga Motta – Os membros foram indicados ao presidente da Comissão, professor José Marques de Melo. Ele foi escolhido para esta função pelo MEC. Cada entidade indicou um nome. O presidente da Comissão, consultando o MEC, nomeou os membros. Eles não representam, certamente, todos os segmentos. Mas, representam todas as entidades da área acadêmica, a mais interessada, a mais envolvida e a mais afetada por qualquer mudança nas diretrizes curriculares.

Na sua opinião, é necessário que o jornalismo torne-se um curso autônomo em relação ao de Comunicação Social?

L.G.M. – Sim, penso que o jornalismo deve transformar-se num curso autônomo, não permanecer como simples habilitação da comunicação social. Penso isso porque o jornalismo é uma prática profissional de tradição muito consolidada, com séculos de exercício prático. Ele não deve permanecer submetido a um curso de comunicação. Essa submissão nas últimas décadas resultou em cursos muito teóricos e muito críticos (num sentido negativista) sem relação com a profissão, sem uma inserção profissional necessária.

O que você acha que deve prevalecer na formação do jornalista nessa revisão das diretrizes curriculares do curso?

L.G.M. – Um vínculo mais efetivo com a profissão, uma atualização política para atender as demandas de uma sociedade democrática onde a sociedade civil tem demandas próprias e novas, uma formação mais adequada aos recursos técnicos recentes (um jornalista multimídia, por exemplo, que seja capaz não só de escrever e editar textos, mas também produzir imagens e editá-las).

Qual é a melhor forma de garantir uma formação em jornalismo comprometida com as questões sociais? Pensar um profissional que saiba avaliar criticamente o meio em que está atuando profissionalmente é uma preocupação da Comissão de Especialistas?

L.G.M. – O jornalista hoje deve estar bem preparado para o exercício técnico-profissional, mas também para situar-se e atender às demandas de uma sociedade democrática. Hoje, não são só as redações que demandam serviços profissionais do jornalismo, mas também os políticos, os partidos, as igrejas, os sindicatos, as organizações da sociedade civil. Toda a sociedade está se organizando para ganhar visibilidade e conquistar capital simbólico no Brasil de hoje. Esse profissional precisa saber atender à demanda de voz destes segmentos, cuja característica é muito diferente das redações dos grandes jornais e emissoras. Mesmos as redações da grande mídia têm hoje demandas diferenciadas devido ao aumento do monitoramento e das cobranças dos segmentos mobilizados da sociedade.

Quais serão os próximos passos da Comissão?

L.G.M. – As três audiências públicas já programadas. No Rio de Janeiro [sexta-feira, 20/3, na sede da representação do MEC, Rua da Imprensa, nº 16 – Castelo – Ed. Palácio Gustavo Capanema – Salão Portinari, 2º andar, das 9h às 12h30], no Recife e em São Paulo. Em cada uma, a prioridade será dada a um segmento interessado. No Rio, se manifestará a área acadêmica. Em Recife, o mercado e as corporações. Em São Paulo, a sociedade civil. Por fim, em junho, será realizada a reunião final da comissão em Brasília, para fechar suas sugestões ao MEC.

Concluído o relatório da Comissão, como a mudança será encaminhada?

L.G.M. – A comissão fará sugestões, ela não tem poder deliberativo. O MEC fará posteriormente um documento final que será enviado ao Conselho Nacional de Educação.

Comentários (8)
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Nídia Martins , SP-SP - jornalista
Enviado em 20/3/2009 às 7:52:35 AM
Escolhi Comunicação quando chegou a hora de optar e me decepcionei com o curso. Mas se as propostas que o professor Luiz Gonzaga Motta cita forem adotadas, a exigência do diploma passa a ter sentido,. Hoje não se justifica, a julgar pela qualidade da maioria dos formandos dos cursos que estão aí. Sou uma poeira no deserto, mas, se for assim, mudo meu posicionamento sobre o tema.
rafael candaten , itajaí-SC - jornalista
Enviado em 19/3/2009 às 7:37:51 PM
Creia que hoje a formação do jornalista está muito mais voltada ao teórico, a fabricação em massa de jornalistas. As faculdades, a maioria delas, não possuem as minimas condições de educar um universitário. Seja porq não possui bons professores ou simplesmente não dão valor aos laboratórios. Não há nada na estrutura fisica. A cada dia que passa estão mais preocupados com o teórico e esquecem a pratica. Disciplinas como sociologia, filosofia, história da comunicação e geral estão ficando de lado pra fomar o profissional padrão, o operário. Não querem estimular o pensamento. Hoje, quem sai da faculdade sem nunca ter feito um estágio esta perdido no mercado de trabalho, não conhece a batalha diaria em busca da informação. O resultado, muitas vezes, é ficar por um longo tempo desempregado ou se sujeitar por baixos salários. Em relação a escrever e saber filmar e editar, acho um absurdo. Devemos, sim, saber fazer estas coisas, mas não utilizar no dia a dia. É sobrecarregar uma pessoa, o que tras a falta de apuração e outros problemas no texto. Devemos ser multimidia, estar envolvidos em todas as areas da comunicação, mas cada um no seu lugar.
sylvia moretzsohn , rio de janeiro-RJ - professora
Enviado em 19/3/2009 às 2:51:51 PM
Não há perigo algum no profissional multimídia. Pelo contrário, acho ótimo saber lidar com as múltiplas possibilidades que a tecnologia oferece. O perigo - que não é perigo, porque não é expectativa, é realidade objetiva - é como esse profissional trabalha. Porque uma coisa é saber lidar com a tecnologia, outra é ter de desdobrar-se em múltiplas funções - o que, em linguagem acadêmica, pode ser traduzido por assoviar e chupar cana. O comentário da repórter portuguesa que citei aí embaixo me parece bem claro que a consequência disso é a perda de densidade já na apuração, o que é fatal para a qualidade da informação. Claro que sempre poderemos apelar para efeitos especiais - por exemplo, holografias, como fez a CNN na cobertura da vitória do Obama - para compensar a falta de substância. E ainda teremos a possibilidade de concorrer a algum Oscar... Quanto aos cursos de baixa qualidade, eles simplesmente jamais deveriam ter sido abertos, porque eram uma tragédia anunciada. Mas a proliferação deles é resultado da irresponsabilidade de sucessivos governos, aliada ao lobby dos empresários do setor.
Claudio  Deno Domingos Cruz , Santa Rita do Araguaia-GO - Estudante de Jornalismo
Enviado em 19/3/2009 às 11:20:41 AM
A falta de qualidade ou a baixa qualidade dos profissionais da área de Comunicação Social (jornalismo) é preocupante, assim como a falta de qualidade da maioria dos formados em universidades brasileiras. Instituições educacionais falidas, mal geridas, e principalmente carentes de laboratórios que possa resguardar o pragmatismo do amontoado de teorias, e então, nos vemos no fundo do poço, sem esperanças diante do querer ser um bom profissional e não termos recursos suficientes (mínimos) para tal formação. Qual questão esta em analise? Onde mora o perigo do profissional multimídia? Isso me parece com a situação de um estudante de medicina em se preocupar com a sua especialização. É ideal que ele seja especialista em quantas áreas? E quando é que ele estará pronto para estar atendendo ao publico?
sylvia moretzsohn , rio de janeiro-RJ - professora
Enviado em 19/3/2009 às 8:00:24 AM
Eu concordo plenamente com o Bruno.
Bruno Martins , Maceió-AL - Estudante do 4° ano de Jornalismo
Enviado em 18/3/2009 às 11:44:54 PM
Preocupe-me demais a forma como os profissionais que decidirão o futuro do curso de Jornalismo querem atrelar as mudanças ao tecnicismo. Não vejo comentário algum quanto à manutenção de disciplinas de formação humanística importantíssima como Sociologia, Filosofia, Psicologia, Antropologia, entre outras. Como melhoraremos o futuro do jornalismo se não há compromisso em fazê-lo pensar, mas sim de apenas formar um profissional multimídia que saiba escrever, editar, mas que não saiba o que colocar no papel nem saber pensar criticamente nossa sociedade? O futuro parece mais sombrio do que é o presente.
sylvia moretzsohn , rio de janeiro-RJ - professora
Enviado em 18/3/2009 às 10:05:03 PM
Ao mesmo tempo - e aqui discordando do Motta -, qualificar o estudante para o manejo dos múltiplos recursos tecnológicos hoje disponíveis é de fato indispensável, mas se quisermos qualidade não podemos pensar nesse "jornalista multimídia". Pelo menos não no atual sistema, que tende à superexploração do profissional e à consequente simplificação dos procedimentos. Uma colega portuguesa que está desenvolvendo pesquisa sobre o perfil dos jornalistas da televisão pública de lá obteve, a propósito, um depoimento que sintetiza bem esse problema: "Se sei que vou ser eu a montar [editar], torno a recolha de informação o mais simples possível, para ter tempo".
sylvia moretzsohn , rio de janeiro-RJ - professora
Enviado em 18/3/2009 às 9:57:56 PM
As "deficiências graves na boa prática do jornalismo" apontadas na apresentação desta entrevista decorrerão mesmo da má qualidade dos nossos cursos? Aliás, serão, de fato, "deficiências"? Ou o mau jornalismo que tanto criticamos (pelo menos nos bons cursos, de maneira muito bem fundamentada) decorre de uma opção editorial? O jornalismo "Homer Simpson" resulta de quê? O comportamento dos jornalistas no caso daquele sequestro em Santo André deve-se a quê? O açodamento na denúncia da brasileira na Suíça é consequência de falha de formação? Uma formação melhor seria capaz de evitar o enfoque preconceituoso em relação aos marginalizados e o apoio às campanhas de "choque de ordem"? Reduziria o grau de frivolidade do noticiário cotidiano? Sabemos que a melhor formação do mundo é incapaz de confrontar-se com uma política editorial orientada para silenciar o discurso crítico. Por isso não se pode falar em relação direta entre boa formação e bom jornalismo. Por isso, também, seria tão importante que nossas representações acadêmicas se manifestassem mais enfaticamente diante das muitas barbaridades que os jornais produzem todos os dias.
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