ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 540 - 24/11/2009
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MÍDIA SOBRE A MÍDIA
O novo nasce, o velho ainda resiste

Por Venício A. de Lima em 2/6/2009

Após participar de debates sobre a mídia em diferentes cidades do país nas últimas semanas, ocorreu-me a famosa passagem de Antonio Gramsci (1891-1937) nos Cadernos de Cárcere quando ele comenta sobre a "crise de autoridade" (Selections of the Prison Notebooks; International Publishers, New York, 1971; págs. 275-276). Embora, por óbvio, as circunstâncias fossem outras e seja necessária uma pequena adaptação no texto, penso que se aplica ao momento de transição que a mídia vive no Brasil a idéia de que "o velho está morrendo e o novo apenas acaba de nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece". (A frase original correta é: "A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece".)

O novo e o velho

Não há dúvida de que o espantoso crescimento da inclusão digital, cuja melhor expressão é o acesso à internet através de suportes como o computador pessoal e os celulares, está provocando uma mudança profunda na produção, distribuição e no "consumo" de informações e entretenimento (ver "A mudança sem retorno").

Não há dúvida, também, de que essas mudanças indicam uma quebra da unidirecionalidade histórica da comunicação de massa e a possibilidade de maior pluralidade e diversidade no espaço público com o surgimento, por exemplo, de sites alternativos, blogs e a criação capilar de novas redes sociais. Atores tradicionalmente excluídos do espaço público de discussão e formação de opinião na sociedade brasileira estão tendo, afinal, alguma chance de serem ouvidos. Abriu-se uma enorme janela de oportunidades.

Por outro lado, a velha mídia – sobretudo os jornais diários, mas também as revistas, o rádio e a televisão – apesar das quedas globais de circulação e audiência, do fechamento de jornais e da migração do impresso para a internet, não só resistem em buscar as adaptações que garantirão sua sobrevivência de longo prazo no mercado, mas se apegam às velhas fórmulas. É aí que "sintomas mórbidos aparecem".

Neste contexto, a conhecida prática da busca de leitores pelo desencadeamento de campanhas de denúncias contra pessoas e/ou instituições, independente da procedência das acusações, continua a provocar danos em imagens e reputações que dificilmente serão reparadas, mesmo, se e quando, uma decisão judicial que garanta o direito de resposta for eventualmente cumprida.

"Sintomas" contraditórios

A confirmação do fechamento da Gazeta Mercantil – um jornal especializado em economia que não previu as transformações porque passa o seu setor; a recente compra da agência de notícias global Reuters pela canadense Thomson e o anunciado desmembramento da AOL – provedora de internet – do grupo Time Warner (apesar do controle acionário permanecer integralmente no grupo) são sinais difusos e, aparentemente, contraditórios da universalidade do terremoto na economia política do setor.

Enquanto isso, entre nós, às vésperas da realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, outros sintomas aparecem: o Supremo Tribunal Federal revoga por completo a Lei de Imprensa (5.250/1967), deixando a descoberto o "direito de resposta" e provocando a insegurança jurídica de empresas, instituições e, sobretudo, de cidadãos; o ministro das Comunicações insiste em "reprimir" a juventude que "vive dependurada na internet"; o Senado Federal aprova um projeto de lei que pretende controlar a liberdade existente na internet; o Superior Tribunal de Justiça decide que "não se pode exigir que a mídia só divulgue fatos após ter certeza plena de sua veracidade" e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) concentra seus esforços na exclusão de todos aqueles que não possuem diploma de jornalista do exercício da atividade jornalística.

Riscos da transição

Um dos riscos que se corre, enquanto a transição não se completa, é esquecer que o velho resiste e sobrevive e está mais ativo do que nunca em defesa de seus antigos privilégios. E essa é uma verdade que tem diferentes e matizadas dimensões.

Perder de vista essa realidade significa não só ignorar as lições do passado como adiar possíveis conseqüências que, tudo indica, permitirão que a maioria excluída da população participe do espaço público brasileiro e que tenhamos, afinal, uma mídia mais democratizada.

Comentários (5)
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sylvia moretzsohn , rio de janeiro-RJ - professora
Enviado em 4/6/2009 às 8:45:04 PM
Caro Venício, creio que os "sintomas mórbidos" não podem ser atribuídos apenas à mídia tradicional. A hipótese de um mundo inteiramente devassável, a partir do momento em que "todos" (em tese) possamos difundir o que quer que seja na rede é, ela mesma, preocupante, pela ausência de limites. Um exemplo: a notícia recente sobre a mulher que recebeu indenização do ex-namorado que postou fotos dela nua e fazendo sexo oral, e depois disso nunca mais conseguiu trabalhar como professora: esse ex-namorado agiu da maneira mais abjeta, sem ter sido estimulado pelas empresas de mídia ávidas por novas emoções. Não sei, mas recordo nosso grande filósofo Roberto Jefferson e sua frase sobre os instintos mais primitivos: sem limites éticos disseminados pela sociedade (e sem leis que sancionem o desobedecimento desses limites), a "nova" midia pode se tornar um campo fértil para a satisfação desses "instintos". E já que estamos fazendo remissão aos clássicos, não custa lembrar das muitas vezes em que o velho se vestiu de novo.
Ronald FACURY WIGG , rio de janeiro-RJ - empresario Jornalista em telecomunicação
Enviado em 3/6/2009 às 12:23:44 PM
Após investir mais de 1.000.000,00 em infra estrutura de telecomunicação, de cidades extremamente carentes. Já se passaram 8 meses e ainda não consegui autorização, porque o CREA ditou que o responsável tem de ser um engenheiro. Construi o que há de mais moderno e tecnologia de vanguarda, com técnicos alatamente especializados. mas só agora estou recebendo autorização para iniciar a conclusão do projeto. Após contratar um engenheiro responsável, que sequer sabia de nossa tecnologia. Agora pegunto: quem será responsável pela área de jornalismo do site que estamos fazendo? É claro que tem de ter ter alguem preparado e respons´vel. Por muito menos o CREA impede o crescimento de um país; porque os jornalistas tem de servir de bode expiatório? claro , o poder da imprensa assim exige. Mas não será o meu caso, pois será mais uma luta que vou travar contra o corporativismo. A lei tem de valer para todos e todas as profissões, ou vai tudo virar bandalha, num país que já tem todas as credenciais para isso.
Jaime Collier Coeli , Itanhaem-SP - Aposentado
Enviado em 3/6/2009 às 9:16:18 AM
Banalidades, somente banalidades, no sentido estrito da origem da palavra, que vem de "ban", tributo pago por servos e vilões para usar o instrumental do castelo. Banalidades economico-financeiras, no caso da Gazeta e banalidaes dos meganhas, no caso do Datena. Também banalidades poliiticas, no caso da disputas para gerir o castelo. O banal, corriqueiro, sem profundidade ou interesse no futuro. Por essa razão, fracassos sisstematicos, onde uma "tranding company" vale mais que um jornal (e será que essa não é uma "verdade"?) Onde um pavãozinho lê o texto em frente as cameras e entra em discussão com o que oredator escreveu, porqued o apresentador nem quis sabercom antecedencia qual era o tema. Bastam, portanto, bordões do tipo "essa é a grande realidade" ou ""estou errado, me digam". E o show continua. De fato, o jornalismo apenas persegue os fatos, não os interpreta nem jamais tentou entendê-los. Basta identificar "um ppublico" e afirmar o que esse publico quer ouvir. Não tem nada a ver com "velho" ou com "novo", mas apenas em apresentar banalidades.O "novo" é dado por novas tecnicas de difusão dessas mesmas banalidades.
Luciano Prado , Rio de Janeiro-RJ - advogado
Enviado em 2/6/2009 às 10:38:18 PM
A velha imprensa poderia começar fazerendo um grande favor a ela mesma, render-se aos fatos e verdades e voltar a praticar Jornalismo, com “J” maiúsculo mesmo.
Edilson Luiz da Silva , Sanharó-PE - Funcionário Público
Enviado em 2/6/2009 às 2:17:22 PM
Quando o assunto é informação fica difícil estabelecer a fronteira até onde vai o nosso direito de cidadão de tomarmos conhecimento de determinado assunto, e até onde este mesmo assunto só diz respeito aos particulares envolvidos. Vide o mundo das fofocas. No jornalismo de primeira categoria, as matérias, agora sem o direito de resposta, ficam a cargo dos jornalistas. Mas por tratarem-se de pessoas com interesses vários, e nem sempre interesses nobres, as páginas dos jornais podem se transformar em terra de ninguém. Como tenho espírito anarquista, considero que a melhor regra é produzirmos informação aos milhões e o povo decida em quem acreditar. Uma seleção natural. Claro que os jornalistas, diplomados ou não, precisariam se questionarem, como acontece aqui no observatório. Óbvio que vai haver muito joio, mas sou esperançoso de que no fim o trigo prevalecerá. A qualquer momento estou em meu quintal. WWW.QUINTALDOPROFETA.BLIG.IG.COM.BR
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Venício A. de Lima

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