ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 541 - 24/11/2009
  Caderno da Cidadania
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PAUTA URGENTE
A educação (in)visível

Por Gabriel Perissé em 9/6/2009

No primeiro semestre de 2009 os problemas da educação ganharam espaço constante na mídia, confirmando a tendência (positiva) de que é tema urgente, vital, imprescindível.

Não pode realmente permanecer em relativa invisibilidade, em modesto lugar, aquilo que é crucial para destinos individuais e coletivos. Recente matéria da revista The Economist diz com agressiva clareza que nossas escolas emperram o crescimento do país. E é verdade. (Mas é verdade também que, no país, muitas decisões políticas tomadas ao longo das últimas décadas emperraram o crescimento das escolas...)

Por isso é tão importante colocar muita lenha na fogueira das discussões em torno da formação e da carreira dos professores, em torno de um novo ensino médio, em torno de uma reformulação dos vestibulares, da avaliação dos alunos, do ensino técnico, da qualidade dos cursos de nível superior – enfim, de toda a complexa questão da educação brasileira.

Em primeiro lugar, porém, não percamos demasiado tempo e papel com escândalos, como no caso do poema de Joca Reiners Terron, que recebeu mais destaque na primeira página de Agora São Paulo de 28/5/2009 do que o Corinthians!

Selecionar livros didáticos e paradidáticos é questão delicada, mas ainda mais chamativo, naquele mesmo dia 28, foi a Folha de S.Paulo definir como manchete o que todos já sabíamos, e era preciso ganhar força de notícia principal – a inadequada formação de nossos professores:

Sugestões práticas

Três dias depois, Gilberto Dimenstein, na mesma Folha, escreveu um artigo com título provocativo: "Você seria professor de escola pública?". Argumentando que não existem atrativos suficientes (muito menos salariais!) para "um jovem de elite trabalhar em escola pública", desenhou uma realidade que torna visíveis (e ainda mais assustadoras) situações e problemas que afetam boa parte das redes estaduais e municipais de ensino, e, pelo que podemos supor, é o espaço em que vai trabalhar o professor proveniente de classes econômicas mais baixas e menos instruídas:

"Vida de professor de escola pública é um massacre diário, especialmente nas grandes cidades. As salas são superlotadas, boa parte dos alunos tem doenças, inclusive mentais, os laboratórios não funcionam, os pais se envolvem pouco na educação dos filhos, cujo repertório cultural é, geralmente, baixo. Existem as mais variadas formas de violência – do xingamento às agressões físicas. O sistema de aulas dissertativas é insuportável para quem gosta de criatividade e inovação. (...) Logo, o professor terá uma doença ou desequilíbrio emocional."

Novo pequeno salto no tempo e chegamos à reportagem da revista Veja (nº 2115, de 3/6/2009), na qual, como já é hábito, vai se procurar no exterior (neste caso, em Cingapura!) soluções para o Brasil. "Ensinar é para os melhores". A premissa fundamental é que os professores de lá são melhores porque mais atraente é a carreira do professor – bom salário inicial, prestígio social, formação continuada, exigência de resultados compatíveis. E, de fato, estão aí sugestões práticas, embora insuficientes por aqui, se não houver paralelamente outras iniciativas, com relação ao entorno violento (tráfico de drogas, gangues...), à deficiente infraestrutura, à baixa participação das famílias na vida escolar dos alunos.

Tema pertinente

No domingo (7/6), de novo Gilberto Dimenstein se manifesta sobre a educação e, depois de opinar um pouco sobre tudo, termina seu artigo – "Empresários à esquerda de sindicalistas" – em tom de perplexidade:

"Apenas 5% dos alunos que concluem o ensino médio na rede estadual de São Paulo dominam adequadamente a leitura e a escrita. Mesmo assim, questionados sobre como vai a educação, 47% dos mais pobres e menos escolarizados estão plenamente satisfeitos, apontando-a como ótima ou boa. Entre os mais ricos, o nível de ótimo e bom é igual ao de ruim e péssimo: 33%.

Não vai ser fácil mudar rapidamente a situação se tanta gente mostrar tanta ignorância sobre o que ocorre nas escolas públicas, vítima de uma tripla aliança: a incompetência governamental, a mediocridade sindical e omissão familiar."

Mais lenha na fogueira, portanto. E por isso meritória a iniciativa do Estado de S.Paulode promover, na segunda-feira (8/6), debate entre dois nomes diretamente ligados ao destino educacional do país: o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o secretário de Educação de São Paulo, Paulo Renato (ver íntegra aqui).

Estive presente ao debate, em auditório lotado. O ministro e o ex-ministro se trataram com cordialidade, embora algumas farpas tenham sido lançadas... o que sempre anima um pouco o ambiente. Mas o decisivo encontrava-se no fato mesmo de haver dois debatedores discutindo, entre outros temas, o da formação dos professores.

Ações inteligentes

Paulo Renato insistiu em que a formação docente deve voltar-se para as questões práticas da sala de aula. Haddad, sempre mais abrangente, ponderou que, além disso, é preciso pensar nos fundamentos teóricos que fortaleçam uma boa prática didático-pedagógica. Paulo Renato defendeu a política de bônus. Haddad defendeu uma visão em que o professor seja tratado como profissional de primeira categoria. Paulo Renato prometeu medidas de segurança nas escolas de São Paulo que se baseiam na vigilância contínua, na denúncia, e na presença policial. Já Fernando Haddad prefere o caminho do esporte e da arte para que a violência perca espaço dentro da escola, e a própria escola consiga influenciar o ambiente circundante.

A educação precisa de mais debates assim, de mais reportagens, precisa dessa visibilidade para que as famílias acordem, para que os sindicatos se aperfeiçoem, para que os governantes cuidem das escolas, da formação inicial e continuada dos professores, da atratividade da carreira docente, que implantem quanto antes a educação em tempo integral em todos os municípios e estados, que aproveitem este momento em que, como a revista Época demonstrou no mês passado (edição de 18/5), a opinião pública tende a considerar a educação como um dos maiores problemas do país e, por conseguinte, a melhor solução...

E que as pesquisas, os debates e discussões evoluam no tempo, na forma, nas conclusões... e se transformem, afinal, em ações. Ações inteligentes que promovam melhorias reais neste campo que interfere, para o bem ou para o mal, em todos os setores de nossas vidas.

Comentários (5)
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Geraldo Silva , Belo Horizonte-MG - **
Enviado em 15/6/2009 às 6:32:57 PM
Até quando vocês vão insistir nessa idéia de que a educação nos colégios públicos está mal? Os ativistas das ações afirmativas (dentre eles jornalistas de peso e dirigentes de grandes universidades como a UFBA, UFSC, UFF) já publicaram vários textos na Folha de São Paulo dando conta de que o desempenho dos alunos cotistas é igual ou melhor do que o desempenho dos demais alunos. Esses ativistas também afirmam que o que impedia esses alunos de entrarem nas melhores universidades não era a deficiência na formação escolar, mas o vestibular, por ser um instrumento perverso e excludente. Ora, considerando esses argumentos e o fato de que quase a totalidade dos alunos cotistas estudou em colégios públicos, isso significa que o ensino fundamental e médio públicos não está mal como andam dizendo. Vocês, assim como o vestibular, é que estão sendo perversos com a educação pública. Com que finalidade é que não sei.
Gregório Guerra , São Paulo-SP - Professor
Enviado em 15/6/2009 às 4:36:21 PM
A primeira coisa que está faltando em nossas escolas é o RESPEITO pelo professor! Fui professor durante 20 anos, em escolas públicas e da rede privada. Graduei-me em uma boa faculdade do Estado de Minas Gerais. Logo após ter ingressado em uma conceituada Universidade para fazer cursos de especialização e Pós-graduação, onde obtive o título de Mestre, resolvi abandonar definitivamente a carreira de magistério nos ensinos fundamental e médio. Isto para não sofrer falta de respeito, agressões de alunos e nem piorar minha formação conseguida através de meu próprio esforço. Eu conheço vários outros profissionais em educação que fizeram opção semelhante á minha. Nossas escolas estão preparando uma sociedade bem degradada em valores humanos e mão-de-obra qualificada. Isto porque nenhum seguimento da sociedade brasileira, inclusive a família, está comprometida com a formação de nossas crianças e jovens, e a escola virou um território sem metas, critérios, limites, respeito, leis e, sobretudo, sem educação. Sendo assim, é bom pensarmos em quem vai cuidar do nosso país e de nossa aposentadoria quando o quadro atual de dirigentes e trabalhadores envelhecer e morrer. Este é nosso país do futuro?
Adma Viegas , Rio de Janeiro-RJ - Professora
Enviado em 12/6/2009 às 10:26:22 PM
Há algo de novo em relação ao rame-rame habitual do Sr. Dimenstein sobre a educação. Com o artigo "Você seria professor de escola pública?" ele parece sair um pouco do seu estilo de atacar e acusar os professores por todos os males da educação. Apesar do exagero fatalista de dizer que "todo professor terá um desequilíbrio ou doença emocional" (sic), ao menos ele reconhece as enormes dificuldades que este professor enfrenta para exercer seu ofício, desde a violência de pais e alunos ao descaso do governo. Esqueceu-se de dizer do papel da mídia, que procura sempre desacreditar e negar a competência dese professor.
J. Batista , sp-SP - func publ
Enviado em 12/6/2009 às 9:50:24 AM
Há falta de uma educação de qualidade PARA TODOS e sim políticos com prioridades particulares e para “minorias na distribuição privilégios e impunidades(castas) ;ignorando a moralidade publica e não no fortalecimento de uma Nação. Nosso sistema educacional falido não é páreo para uma mídia manipulando informações, propagandas enganosas e se destacando em sensacionalismo, sexo, drogas licitas,promiscuidades.Politica de cotas somente aflora conflitos e baixa estima, em vez de se criar condições iguais para todos,sem privilégios para alguns. A não observância da moralidade publica e civismo, nos leva a suspeitar de uma incompetência ou conspiração, numa versão atualizada da Guerra do Ópio, episódio em que o Império Britânico do Século 19, vitorioso nas Guerras Napoleônicas, impôs a uma China de joelhos o consumo da droga e a capitulação colonial, no âmbito da estratégia voltada a enfraquecer uma Nação. Parece familiar?
Poliana  Inocência , Belém-PA - Pianista
Enviado em 11/6/2009 às 8:30:23 PM
Realmente urge solucionar o problema da Educação, a começar pelas compras irregulares e imorais. Livros e materiais didáticos são adquiridos sem o menor critério de qualidade técnica, de empresas que se especializaram em enquadrar-se nas entrelinhas da lei. Os absurdos históricos e doutrinação política mostrados por Veja há mais de um ano já eram inadmissíveis e de lá para cá isso só aumentou. Em Brasília, o GDF comprou pelo preço de dois hospitais um kit de Ciências para oito anos. Composto de copinhos plásticos e outros itens baratos, sequer chegaram ao segundo ano, apesar de pagos na totalidade do contrato.
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Gabriel Perissé

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