ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 542 - 24/11/2009
  Caderno da Cidadania
Início > Índice Geral > Caderno da Cidadania + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

LIVROS DIDÁTICOS
O moralismo é falta de ética

Por Gabriel Perissé em 16/6/2009

Uma coisa é criticar o livro didático que, num dos seus mapas, apresenta falhas inaceitáveis, como no caso dos dois "Paraguais" que comentei neste Observatório (ver "A educação que não está no mapa"). Outra atitude, bem diferente, é fomentar uma visão moralista, catando nas páginas de livros distribuídos nas escolas o mais leve atentado ao pudor, pinçando palavrões, esquadrinhando imagens impróprias, descobrindo insinuações criminosas...

O caso do poema de Joca Reiners Terron mostrou que, subitamente, nós nos tornamos pessoas delicadas ao extremo, temerosas de que nossas crianças leiam frases terríveis como "Nunca ame ninguém. Estupre", "Tome drogas, pois é sempre aconselhável ver o panorama do alto" e "Seja um pouco efeminado. Isso sempre funciona com estilistas", quando sabemos que, pela TV e pela internet (ou na rua, ou no vizinho, ou no clube, ou em casa mesmo) nossos filhos com 7 anos de idade ou menos estão sujeitos à zorra e ao pânico total, bombardeados por convites tão ou mais assustadores, e por cenas de violência e erotismo explícitos.

Obviamente, o texto "Manual de autoajuda para supervilões" não será o mais fácil de trabalhar em contexto educacional, numa classe de crianças, de adolescentes ou mesmo de adultos. Muitos professores terão dificuldade para interpretá-lo! O fato, porém, é que não foi avaliado corretamente e, chegando às escolas, serviu como uma luva para pôr em xeque a atuação da Secretaria da Educação de São Paulo. O governador José Serra já deve ter encontrado o bode expiatório...

Uma visão à la Savonarola

Mas agora está inaugurada a temporada de caça aos livros imorais! No Rio de Janeiro, na semana passada, uma ilustração da autoria do inocente editor e gravador Theodore de Bry (1528-1598) tornou-se motivo para que os pais e a mídia rasgassem as vestes em público (ver matéria de O Dia), desnudando, na verdade, o seu moralismo! 

Tomemos cuidado com este escandalizado moralismo... atalho certo para a falta de ética, e de sensatez. Ou então sejamos coerentes – fechemos os bailes funks, censuremos programas de rádio e TV (inclusive os científicos e religiosos!), coloquemos sob suspeita as bancas de jornal, especialmente as que estão perto das escolas!

Se temos de assumir uma visão à la Savonarola, reivindico que se recolham todos os livros didáticos em que Tiradentes aparece obscenamente esquartejado, imagem de herói que é também advertência velada – viu o que pode acontecer com quem enfrenta as autoridades?

Comentários (13)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade de idéias e pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Evite vulgaridades e simplificações grosseiras. Não escreva em maiúsculas: isso dificulta a leitura do texto e, na linguagem da internet, é interpretado como gritos. Mensagens que não atendam a estas normas serão deletadas, e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
marianne faithfull , ssa-BA - professora
Enviado em 11/9/2009 às 3:49:43 PM
discordo inteiramente. os livros didáticos no brasil ten servido mais à doutrinação política. é muita ideologia e pouca geografia, história. ser bom em física e matemática tornou-se copnstrangedor, porque todo mundo tem que ser "igualmente" medíocre. ser culto tornou-se um problema. também, com o presidente que temos, um cara que faz questão de ser tosco. Lulla podia ter estudado nestes anos e dado um exemplo.
Roberto Ribeiro , Aracaju-SE - Arqueólogo
Enviado em 17/7/2009 às 10:39:38 AM
Outro dia estava olhando uns quadros barrocos da Sagrada Família. Nela aparece o menino Jesus nu, peladinho! Fiquei imaginando pq no século XVII isto não foi considerado um escândalo. Hoje seria. São José com olhar distraído mexe na bundinha do garoto! Claro que é um ato obsceno! E Maria? Que mãe despudorada! Claro que ela concorda como o abuso! Durante o período rococó a coisa piorou. Inúmeros anjos pelados rolam aos pés de Maria, uma evidente manifestação de pedofilia pedolátrica, ou pedolatria pedofílica. E no período romântico? Os anjos se tornam pré-adolescentes! Sim, pré-adolescentes nus! Caramba! É por isso que há tantos padres pedófilos!
Ivan Moraes , Newark, NJ-MG - sem profissao
Enviado em 19/6/2009 às 12:12:09 PM
Um prazer enorme ver o juiz da primeira foto, mas eles nao tinham outro uso melhor pro diploma de jornalista?
Ibsen  Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 18/6/2009 às 5:59:27 PM
Discordo em tudo do autor. Não é porque na Internet e TV vislumbramos o mais baixo nível da programação que temos que transferí-lo para a educação. Além disso, colocar um texto com esse grau de dificuldade para que os professores muitíssimo mal preparados da rede pública trabalhem com seus alunos muito mal preparados em casa é uma temeridade. Nada de falso moralismo, a verdade é que uma interpretação minimamente coerente do livro seria improvável. Caramba, com a argumentação do epnúltimo parágrafo podemos nos arrogar o direito de sair sonegando impostos, burlando as leis e tudo o mais, afinal, os políticos e empresários fazem isso em larga escala. Se eles pode, porque eu não. Êta argumentaçãozinha perversa essa. De mais a mais se não quiser que meus filhos assistam à programação erotizada e violenta da TV é só desligar o aparelho. Se eu o impedir de ler um livro didático ele repete de ano. Não é possível juntar coisas tão diversas sobre a mesma linha argumentativa. Sob a pecha de censura enfia-se tudo no mesmo saco. Lamentável
Julio Prático Souza , São Paulo-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 18/6/2009 às 5:30:42 PM
Lendo um pouco mais os textos do Joca Terron, cheguei a uma conclusão: Se em nossa época, a punição fosse similar à que vemos no quadro de Tiradentes, o Joca se contentaria hoje em ser um feliz Office-Boy. Pelo menos uma coisa a ditadura perversa tem de bom - ela separa os homens de verdade dos meninos.
Alexandre  Sodré , Rio de Janeiro-RJ - Administrador
Enviado em 18/6/2009 às 3:58:12 PM
É , a que ponto estamos chegando...... é a ignorancia passando de Pai para filho.....É mais fácil condenar aquilo que não entedemos do que se informar e tentar compreender. A Educação, que já está com uma qualidade abaixo do mínimo, agora tem que conviver e aceitar o completo desconhecimento de nossa história. Pobre do País que tem seu Povo desinformado.....
Marcelo Ramos , São Paulo-SP - Publicitario
Enviado em 18/6/2009 às 3:04:18 PM
Concordo com o autor. A educação em São Paulo é mal-tratada há alguns anos mas, quando vejo a mídia estimulando essa mentalidade inquisitória, há diversas intenções ocultas. Uma delas é a mídia se fazer de catalizadora da "moral e dos bons costumes", papel já ocupado em história recente no Brasil. Se fosse pra ser coerente, essa mesma mídia deveria ter criticado o governador de São Paulo, José Serra, por permitir que tais livros "escandalosos" possam macular a inocência de nossas criancinhas... Bem, como se sabe, nossas crianças não são mais tão inocentes, nem a mídia vai criticar o Serra. Mas o alerta do Gabriel está muito bem feito. Vamos banir palavrões e baixaria? Vamos. Vamos fazer isso também nas TVs, rádios e bailes funks? Ahn... como? Parece a piada o padre. Quem quer ir para o céu? eeeeeeeuuu. Quem quer ir para o céu agora? .....
Julio Prático Souza , São Paulo-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 18/6/2009 às 1:45:49 PM
Meu Deus! Como é grande o lobby desse Joca Terron - é o terceiro artigo que leio aqui em "defesa" desse autor. O livro desse cidadão deve ser até engraçado, mas deixa ele na banca, junto com a Mad e a Playboy, tudo bem? Nada de transformar a transgressão em material didático por favor! Luciano Garrido, parabéns pelo comentário. Gabriel Perrissé, não confunda realidade com baixaria e vulgaridade. A realidade hoje está vulgar justamente por culpa dessa confusão. A gravura de Tiradentes confronta a criança com a realidade, o que é bom, não com a vulgaridade.
Ruy  Acquaviva Carrano Junior , São Paulo-SP - analista de sisteas
Enviado em 18/6/2009 às 1:18:53 PM
Concordo plenamente com o autor. São coisas diferentes que devem ser tratadas de acodo com a situação. O caso dos livros didáticos com "dois paraguais" é inaceitável. Não se trata de um simples erro tipográfico ou uma pequena falha de revisão. Trata-se de um erro craso, com informação errada e não é um caso isolado, foram identificados vários erros de porte semelhante, indicando inequivocamente a péssima qualidade do trabalho realizado, desperdiçando recursos públicos e comprometendo o processo educacional. Em relação ao poema do Sr. Terron, trata-se de uma insdequação etária, conforme reconhecido pela própria editora. O texto é bom e pode muito bem ser trabalhado na rede pública, porém em uma faixa etária muito diferente da que foi contemplada. Aí houve um grave erro de planejamento, erro esse que também não é um caso isolado e portanto outro indício de terrívl incompetência e descaso com o material didático. Já no caso da ilustração de Theodore de Bry, trata-se evidentemente do que se chama popularmente de "procurar pelo em ovo", pois a gravura não apresenta nenhuma conotação negativa e é adequada para o material didático em que foi utilizada. Essa ilustração inclusive fez parte do material didático de meus livros de história do Brasil, utilizados nos já distantes anos sessenta sem ferir de forma alguma o moralismo rígido da época.
Luciano  Garrido , Brasília-DF - Psicólogo
Enviado em 18/6/2009 às 12:54:02 AM
O nosso "educador" está propugnando como diretriz básica da educação o contrário do moralismo que condena, isto é, pretende implantar nas salas de aula a libertinagem ampla e irrestrita. Segundo ele, como não podemos evitar que nossas crianças sejam expostas a conteúdos impróprios na internet ou na tevevisão, sugere candidamente que os livros didáticos possam também aderir definitivamente a esse clima de libertinagem geral. Como se um problema acolá justificasse moralmente o problema daqui. Isso é o que ele entende por ética. É preciso alertá-lo de que bailes funks bancas de revista e televisão não necessariamente estão compromissados com a educação de ninguém, muito menos das crianças, diferentemente dos livros didáticos. Ser coerente, portanto, não é fechar bailes funks e censurar programas de TV (pois sempre haverá adultos que possam assistir essas "porcarias" por decisão pessoal). Ser coerente é tratar criança como criança, e na medida do possível sempre evitar que elas sejam expostas a conteúdos impróprios sobretudo por aqueles que deveriam cuidar de seu desenvolvimento.
Alexandre Marcelo Fernandes da Silva , Caconde -SP - Engenheiro
Enviado em 16/6/2009 às 6:51:21 PM
Caro Gabriel Perissé: e por acaso as frases deste Joca Reiners Terron não são realmente terríveis? Será que num tempo de malandragem e cinismo a malandragem e o cinismo devem ser exaltados em livros didáticos? Onde está a educação para as virtudes? Muito mais do que saber que não existem dois Paraguais é preciso colaborar, um pouco que seja, para poupar a juventude da maré de perversão que está por aí.
Cristiane  Calheiros , Rio de Janeiro-RJ - Atriz
Enviado em 16/6/2009 às 6:42:47 PM
E a do gabarito: "A coisa é notícia.", não tem nada dizendo que pode ser positiva. Analisei de acordo com o contexto geral, pois foi este entendimento que o texto me deu; baseando-me na expressão "que coisa", que geralmente aparece sempre quando alguém se depara com uma notícia negativa, nunca o contrário. Esta frase analisei de acordo com o título. Desde já, agradeço a atenção. E gostaria de pedir uma atenção especial a minha dúvida. Abraço Cristiane
Cristiane Calheiros , Rio de Janeiro-RJ - Atriz
Enviado em 16/6/2009 às 6:41:45 PM
Boa noite! Meu nome é Cristiane Calheiros, fiz uma prova esta semana, onde tinha um texto de cujo nome era "Que Coisa!", do escritor Gabriel Perissé. Em uma das questões de interpretação, com a resposta do gabarito, logicamente, não foi a que marquei, não concordei. Gostaria de poder estar recebendo de quem escreveu o texto a interpretação correta, para que do autor eu possa ter a certeza de que o que eu pensei consiste em erro; do contrário eu poderei entrar com recurso da questão, coisa que só farei se eu tiver certa. A questão estava da seguinte maneira: "Marque a opção cuja palavra "coisa", no contexto em que se insere, pode apresentar conotação positiva. (A) "A coisa é notícia" -- (gabarito) (B) "O coisa-ruim é coisa do outro mundo." (C) "Mas isso é coisa feita." (D) "A coisa foi por água abaixo." (E) "... (a coisa tá preta)," - (Esta foi a alternativa que eu escolhi). A minha análise, baseada no contexto geral do texto, do verso e do parágrafo, deu-se devido ao termo anterior e o seguinte, onde o texto destaca esta frase, com ironia e depois diz que é melhor uma coisa do que nada, no meu entender esta oração está ligada à primeira. E a do gabarito:
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Gabriel Perissé

Outros artigos desta Seção
MÍDIA & ENSINO
Saliva, manuscrito,
lauda, livro, computador

Deonísio da Silva
16/6/2009
LIVROS DIDÁTICOS
O moralismo é falta de ética
Gabriel Perissé
16/6/2009
RORAIMA
Coação de jornalistas
e desamparo sindical

Luiz Valério
16/6/2009
LEI ANTIFUMO
A apologia da delação
Jô Amado
16/6/2009
URUGUAI
Congresso aprova
Lei de Imprensa

Comitê para a Proteção dos Jornalistas
16/6/2009
GUATEMALA
Repórter de TV é
assassinado a tiros

Comitê para a Proteção dos Jornalistas
16/6/2009
ESTADOS UNIDOS
Abu-Jamal e o
jornalismo no inferno

Repórteres sem Fronteiras
16/6/2009

Últimos 5 artigos de
Gabriel Perissé
LEITURAS DA FOLHA
Uma página para a educação
10/11/2009
MÍDIA & EDUCAÇÃO
Outubro, mês dos professores: um balanço
3/11/2009
ATAQUE AO ENEM
Amadorismo ou terrorismo?
13/10/2009
MÍDIA & EDUCAÇÃO
Disque Enem para matar
6/10/2009
ECONOMIA DO CONHECIMENTO
A educação brasileira e seus números
29/9/2009
Mais artigos de
Gabriel Perissé >>