ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 545 - 24/11/2009
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MICHAEL JACKSON (1958-2009)
Os dois corpos de M.J.

Por Muniz Sodré em 7/7/2009

É famosa a análise do alemão Ernst Kantorowicz (1895-1963) sobre o fenômeno do desdobramento do corpo do rei na monarquia absoluta. Haveria o corpo natural e o corpo divino: ao lado da dimensão física, mortal, se alinha a simbólica, suprarreal, crística, que asseguraria o poder quase divino do soberano. Um e outro convivem numa unidade, em que parece vigorar uma alteridade interior.

Essa hipótese do "dois em um" encontra hoje uma variante na esfera global do entretenimento, onde um superstar pode transitar fisicamente na terra e, ao mesmo tempo, no espaço mítico dos seres de espírito. É assim possível que, extinto o corpo físico, sobreviva o simbólico, sustentado por valores que nada têm de abstratos, já que se traduzem materialmente em cifrões.

Isso ocorreu com Elvis Presley, por exemplo, e tem tudo para se repetir agora com Michael Jackson. O primeiro índício é a cobertura midiática da morte do artista. Na internet, com todas as suas inovações em acesso (Facebook, Twitter etc.), o acompanhamento do fato foi maior do que aquele que se seguiu à eleição de Barack Obama. Em todas as outras formas de mídia, do papel à eletrônica, o acontecimento recebeu acolhida espaçosa.

Paradigmas do horror

Talvez não seja para menos. A morte de um compositor-cantor-performer, com um crédito de 750 milhões de discos vendidos, como que obriga o sistema de informação pública, visceralmente conectado com o sistema de entretenimento, a mobilizar-se até a exaustão dos detalhes. No primeiro momento se esmiuçam as circunstâncias algo novelescas do falecimento, a situação dos filhos, os depoimentos dos próximos e os informes sobre a péssima condição financeira do astro. Depois virá certamente o drama das querelas judiciais em torno do espólio, avaliado pelo alto em 800 milhões de dólares.

Não se pode deixar de observar, porém, que Michael Jackson caminhava há muito tempo numa zona de sombras. E não era em moonwalk (o famoso "passeio lunar"), já que suas pernas, dizia-se, andavam enfraquecidas, devido à saúde precária e ao paraíso do Demerol. Aliás, ele próprio teria declarado, durante um dos ensaios para a tournée iminente, estar "acabado, morto". Psicologicamente, era de fato penosa a sua condição: um infantilismo progressivo (regressivo em estrutura), que o levava a inclinar-se obsessivamente sobre a própria infância e sobre infantes outros, com a má repercussão pública que se conhece.

No total, era um ser humano profundamente afetado pela suprarrealidade das formas virtuais de vida – o bios tecnomercadológico – que de certo modo condicionaram a sua incontida mutação corporal. Entre ele e algo como o Hulk pode haver mais em comum do que mostram as aparências imediatas, descartando-se as óbvias diferenças entre um personagem de ficção e um ser vivo que ficcionalizava a vida real. Se no filme o homem transforma-se em Hulk devido a um acidente radioativo, o artista transforma-se, na vida real, em um outro (ou outra, visto que seu reflexo no espelho cirúrgico era a cantora Diana Ross), por ativa irradiação dos simulacros da mídia. Em ambos os casos, os resultados podem ser conotados como monstruosos.

A temática do monstro, dá para se ver, vem se popularizando há alguns anos em mais de uma frente pública. Na esfera da política internacional, existe o que parece ser uma secreta demanda do capital – o mesmo que tenta assegurar-se da organização integral da existência humana – em exibir ou dramatizar a monstruosidade como contraponto para a sua legitimidade advogada pelos EUA: de Saddam Hussein à coleção de ex-parceiros ditatoriais em todas as latitudes, o sistema de sentido hegemônico vem erigindo os paradigmas do horror que servem, por inversão, como escala de medida para as suas qualidades apregoadas. É preciso um "outro", o monstro, para encarnar o pior – sustenta o ensaísta francês Jean-Paul Curnier.

Parentes e atravessadores

Na esfera do entretenimento, por outro lado, assiste-se a um interesse crescente, sobretudo entre os jovens, por mutantes, transformers, vampiros, ou seja, formas de uma monstruosidade soft, que nada mais é do que a busca do outro em si mesmo. Michael Jackson foi um dos pioneiros com o espetáculo Thriller, em que dança com zumbis.

Mas as implicações culturais do fenômeno não dizem nada ao sistema de produção e consumo do entretenimento em escala global, para o qual sempre foi bastante real o talento como compositor, cantor e dançarino de Michael Jackson – não um sucedâneo de Fred Astaire, muito mais um Nijinsky da pós-modernidade. Assim como na monarquia absoluta francesa a política consistia na construção de aparências divinas para o rei, a mídia de entretenimento engendrava uma "política" de informação em que o corpo físico e o corpo simbólico do artista se fundiam numa imagem de trânsito mundial.

Com tal pano de fundo, não é de se estranhar o tamanho do espaço dedicado pela mídia à morte do show-man. Não é tanto porque tenha desaparecido o corpo físico, mas possivelmente porque passe a viver com força ainda maior agora o corpo simbólico. Haverá, como no caso de Elvis Presley, romarias ao túmulo, multidões de fãs em Neverland, clones que tentarão imitá-lo em covers performáticos, monumentos feitos de bits na internet, programas de TV sobre aspectos da vida do astro. Cada um terá muito a se comover com cada instante narrado de sua existência, certamente muito mais do que aparentam seus próximos ou mesmo o seu pai, que aparece sorridente nas fotos, falando de negócios. Em imagem nenhuma se viu alguém chorando ou compungido com a morte de M.J. É que no bios da mídia parece a todos garantida a eternidade dos corpos virtuais.

No mais, indústria, parentes e atravessadores estarão de olho na possibilidade de mais 750 milhões de itens vendidos.

Comentários (15)
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Gersier Lima , Montes Claros-MG - Radialista
Enviado em 12/7/2009 às 6:43:02 PM
E para comprovar o que parte do texto diz,basta assistir ao DV "Michael Jackson Number Ones".A medida que o corpo físico mudava,a genialidade aumentava,se é que se pode aumenta-la.Então é melhor dizer,aflorava.Aos invejosos que o perseguia via mídia,restará o ostracismo.Mesmo após a sua morte física,teimam em ser dúbios.Quem admira o seu talento,está pouco se lixando para os que,pra variar,ávidos por audiência e lucros,continuam batendo nas velhas teclas.
janes pretto , canoas-RS - farmácia
Enviado em 11/7/2009 às 7:24:58 PM
Sempre lembrarei de MJ pelo seu talento, sua criatividade.
rogerio cardozo , Tubarão-SC - operario
Enviado em 11/7/2009 às 3:35:32 PM
Professor outro rei tambem é explorado comercialmente por um bando de picaretas,mas isso só o tempo ,escola,menos corrupção na midia vai resolver.
mano  nunes , belém-PA - fp
Enviado em 11/7/2009 às 11:04:51 AM
...o fato que tem muita coisa externada nisso tudo; o ser humano, as vontades, interesses, sentimentos, talento. Tudo natural do ser humano, M.J. tinha tudo isso e, acredito que não criminoso, pelo contrário, foi vítima desses aspectos do ser ser humano. Acho que vão deixa-lo em paz agora. Mas, continuarão a explorá-lo.
Jorge Fernando dos Santos , Belo Horizonte-MG - Escritor e jornalista
Enviado em 8/7/2009 às 4:02:51 PM
A história de Michael Jackson me lembra a peça Roda Vida, de Chico Buarque, cujo protagonista é devorado pelos fãs. MJ tinha um grande talento e acabou vítima da própria engrenagem do sucesso. Seu texto, caro Muniz, é de uma lucidez sem par. Poderíamos dizer que artistas como ele, Elvis, Lennon, Elis, Cazuza e outros não morrem, ficam encantados e continuam dando lucros para a indústria. Abs., Jorge F.:
kelly  cristina de aquino , Belo Horizonte -MG - estudante de jornalismo
Enviado em 8/7/2009 às 10:38:56 AM
O que chamou a atenção no funeral de Michael Jackson são dois acontecimentos: a frieza de sua família, não se via lágrimas, tristezas exceto a filha Paris, ademais é uma criança que conviveu dia-a-dia com o Pai. E a falta de respeito pelos fãns ao esconder onde ele seria enterrado. A impressão que dá é que a família não ve a hora de colar a mão em milhões de doláres que serão lucrados após a morte do maior astro que o mundo já teve. Descanse em paz.
Mauro Castro , Rio de Janeiro-RJ - Radialista
Enviado em 8/7/2009 às 10:16:46 AM
Who s dead? (Paródia da pergunta, who s bad? , que fecha a música homônima ao título do disco de 1987)
Alexandre Cavalho , Recife-PE - servidor público
Enviado em 7/7/2009 às 11:30:04 PM
O que me espanta mesmo nesse momento, felizmente ou infelizemente, são certas faces do consumismo irracional e da radicalização da lei do mercado-pode-tudo, no momento da morte desse brilhante artista, que sem dúvida, tem bilhões de fãs espalhados por todo o mundo. Sem recorrer a sentimentalismos ou argumentos "cristãos" de culto aos mortos, mas observando que o ídolo é também humano, assim como sua família, como justificar que seu corpo possa virar objeto de veneração e consumo depois de mais de uma semana da morte, distribuir gratuitamente 17.500 ingressos para esconder o caráter comercial do evento, enquanto as ofertas divulgadas na net chegavam a até US$20.000,00... ou módicos R$40.000,00, o que aliados ao valor pago pelas emissoras de TV do mundo inteiro para transmitir o funeral, bancados com a publicidade e venda de produtos associada à imagem de Jackson, realizando um showneral em um estádio para "faturar" mais um antes que o seu corpo esteja a sete palmos debaixo do chão. Fico me peguntando: o que ele próprio estaria achando disso tudo? Como o cara era um gênio/maluco qualquer resposta é admissível.
Márcia Guimaraes Guimarães , São Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 7/7/2009 às 11:08:14 PM
Há pessoas que o criticarão no campo pessoal. Uma infância pobre e sofrida, plásticas de gosto duvidoso, relacionamentos complicados, acusações sexuais, enfim, pautas e mais pautas que fizeram a alegria dos fofoqueiros de plantão. Jackson para mim é um anjo negro. Veio à Terra dar-nos um pouco de sua genialidade. Viveu o céu e o inferno como Dante já nos ensinou. Fez da vida terrena um grande palco e teve a coragem de expor suas vísceras em público. Tudo para ele foi um grande truque. E quando se preparava para uma grande turnê mundial fez um Moonwalk e saiu de cena. --- Reproduzo aqui e foi inteligentemente escrito pelo brilhante Jornalista Sylvio Micelli.
Márcia Guimarães , São Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 7/7/2009 às 11:05:31 PM
Gostar ou não de Michael Jackson é uma opção do arbítrio de cada um. Como já disse Nelson Rodrigues, outro gênio, "toda unanimidade é burra". Desconhecer ou minimizar sua importância, porém, é impossível. Há mais de 40 anos ele esteve aí, entre nós - pobres mortais - fazendo sucesso em cima de sucesso: do menino prodígio à frente do Jackson Five ao maior artista pop de todos os tempos. O que entendo ser mais curioso é que Jackson não planejou seu sucesso como algo datado. Era tudo comum para ele, simples assim, desde cantar "ABC" à superprodução de Thriller, o disco mais vendido da história. Qualquer adjetivo, por mais superlativo que seja, não consegue designar o homem que dividiu o pop americano e mundial em duas fases distintas: o antes e o depois. Dançarino como poucos, dedicado e perfeccionista ao extremo, criou videoclipes que mais se assemelhavam a curtas-metragens. Seus shows eram uma aula de mainstream elevada à enésima potência. Fez do rhythm and blues, hip hop, soul, funk e rap, sonoridades aceitas em todo o planeta e jogou o racismo nojento, que a hipocrisia humana diz não existir, para escanteio. Lembremos de "Black or White"... "It Don t Matter If You re Black Or White"! Há pessoas que o criticarão no campo pessoal. Uma infância pobre e sofrida, plásticas de gosto duvidoso, relacionamentos complicados, acusações sexuais, (...) continua
Gilberto Scofield Jr. , Washington-IN - jornalista
Enviado em 7/7/2009 às 9:44:42 PM
Mestre, estou publicando seu excelente texto no meu blog, se o senhor me permitir, com as devidas fontes. Muito obrigado.
Ana Paula  Kwitko , são paulo-SP - Fonoaudióloga
Enviado em 7/7/2009 às 3:16:15 PM
Em meio a tantos artigos furiosos e pouco consistentes encontramos esta perspicaz análise sobre o "caso MJ". Obrigada Professor!
Fernando Timba , São Paulo-SP - Editor
Enviado em 7/7/2009 às 1:16:55 PM
E sobre o Hulk, não sei se você sabia do detalhe engraçado, mas o personal trainer dele nessa turnê de retomada era o Lou Ferrigno. O Hulk dos anos 70.
Robson  Terra , Juiz de Fora-MG - Jornalista
Enviado em 7/7/2009 às 12:55:21 PM
Prof. Sodré, A sua contribuição para a reflexão sobre a cultura de massa, desde os anos 1970, é sempre sempre bem-vinda. Obrigado. O mito MJ traz o mundo híbrido que perpassa do sagrado ao profano. Iconoclasta de si mesmo revelava vigorosa atitude cênica e fragilidade na vida pessoal. Como no enigma da esfinge: "Decifra-me ou devoro-te". Foi devorado...
Ines Bernal , Florianópolis-SC - jornalista
Enviado em 7/7/2009 às 12:35:45 PM
Execelente análise, bem abrangente... vou divulgar o artigo entre amigos e conhecidos... grata
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