ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 546 - 24/11/2009
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QUESTÃO DE CURRÍCULO
Quem não Lattes...

Por Gabriel Perissé em 14/7/2009

Preencher comme il faut o currículo na Plataforma Lattes/CNPq (e mantê-lo atualizado) não é tarefa simples. Mesmo (ou sobretudo) para os "Ph.Deuses", como se diz maldosamente dentro e fora da academia. É um trabalho manual, burocrático, cheio de detalhes a observar.

E sempre surgem dúvidas que, embora pequenas, consomem tempo mental que deveríamos dedicar à pesquisa. Onde inserir a informação de que fui paraninfo ou professor homenageado em determinada faculdade? Não existe seção específica; então, muitos recorrem à que se destina aos "Prêmios e títulos", uma imprecisão. Ou de que modo classificar minha participação como revisor externo de conferência? Na seção "Produção técnica", certo, mas na subseção "Trabalhos técnicos" ou, mais modestamente, em "Demais trabalhos"?

A polêmica em torno das informações do currículo Lattes da ministra Dilma Rousseff (já comentada por Deonísio da Silva em artigo neste OI) despertou a atenção do grande público para uma questão em princípio restrita ao interesse daqueles que lá incluíram seus dados (cerca de 1 milhão de pessoas).

Em nota oficial, a Casa Civil esclarece que Dilma "jamais incluiu ou autorizou a inclusão de seu currículo na plataforma Lattes". Ora, isso significa que, possuindo-se um número de CPF, é fácil gerar (e forjar) à revelia da pessoa um currículo que servirá de base para a consulta da comunidade científica, de possíveis empregadores, dos desafetos, ou da mídia. Portanto, você também pode ter feito um doutorado sem saber!

Presteza e detalhamento

Na Folha de S.Paulo (11/7), Rogerio Meneghini e Roberto Romano expuseram suas opiniões na seção "Tendência/Debates" a respeito da necessidade ou não de maior controle oficial sobre os currículos da Plataforma Lattes, que está completando 10 anos de existência.

O professor Meneghini defende que o controle seja realizado pelos próprios usuários do Lattes. Se eu afirmo que orientei determinado mestrando, ou publiquei por determinada editora, ou participei de determinado evento, tais informações serão apuradas por quem o desejar, inclusive pela revista piauí, consultando o Lattes do meu mestrando, o catálogo da editora, o site do evento.

Já o professor Roberto Romano sugere que sejam punidos severamente os que quiserem ilustrar os seus currículos com títulos e feitos imaginários. Mas há nisso um outro perigo. Rigor por rigor, aqueles que não atualizam o Lattes com a devida presteza e detalhamento não estarão pecando por omissão? E, neste caso, quem poderá salvar-se?

Comentários (9)
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Julio Prático Souza , São Paulo-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 17/7/2009 às 11:54:05 AM
" Conheço alguns professores que se recusaram a adotar o "sistema" pois não concordaram com a Paulorenatização da educação superior...". Ótima !!! Os pedagogos deveriam apenas informar o seguinte: NÚMERO DE TURMAS FORMADAS. E só!
Onofre Santiago , Salvador-BA - aposentado
Enviado em 17/7/2009 às 2:35:01 AM
Aqui na Bahia alguns chamam esse tal Lattes de Orkut de dotô. O notável é que esta plataforma se tornou mais importante no meio que uma plataforma de divulgação científica integrada, o que mostra a quantas anda a praxis acadêmica no país. Conheço alguns professores que se recusaram a adotar o "sistema" pois não concordaram com a Paulorenatização da educação superior. Todos estão hoje devidamente marginalizados pelo Cnpq. Agora quanta hipocrisia a nossa: só quem nasceu com QI nunca inflou um CV.
Henrique Rodrigues , BH-MG - Professor
Enviado em 16/7/2009 às 9:19:18 PM
O difícil é se adaptar à ideologia lattes de produtividade; a quantidade importa, e não a relevância. Ao professor Romano, cabe lembrar que há muitas maneiras de ilustrar o currículo: mesmo artigo publicado em diferentes revistas com mudanças apenas cosméticas; mesma conferência em diferentes eventos; participação em congressos só para preencher mais uma linha do currículo; etc etc etc. Com as quinhentas mil revistas acadêmicas em circulação (sobretudo com a facilidade da era virtual) e com os quinhentos mil eventos anuais, não é difícil "bombar" o currículo. Basta um pouco de fôlego ou de cara de pau. Mas, se o professor Romano deseja tanto punir, sugiro que o Cnpq o indique para fiscal de currículo alheio. Taí, mais uma carreira de Estado a ser criada.
rogerio cardozo , tubarão-SC - operario
Enviado em 16/7/2009 às 7:42:14 PM
Deixa-que-salvo.Faz muito tempo o Colunista do diario catarinense Cacau Menezes,preconceituozamente disse:Santa Catarina é o Piaui do sul do Pais,Querio denucioar ele para o povo do Piaui.Deveria o colunista saber que o Piaui é um estado do nordeste onde saiu os piores politicos do Brasil.E tudo nesse pais passa pela vontade dos governates,aqui em SC tivemos ate ministro da educaçao(não atira no saco dele que vai acerta um monte de mãos de jornalistas).Esse negocio de diploma latus senso e bobagem,o que interessa nesse mundo é grana,conheço um monte de gente que não tem estudo mas tem vivencia.Na verdade aqui não se vende a revista Piaui ,só sei dela que os donos estudaram na PUC(aula de historia na PUC deve ser surrealista),coisa para poucos.O certo é que vemos que acontece no mundo real,acontece no mundo da fantasia da midia,se voce é filho de artista vira artista,se é filho de medico vira medico,se é filho de jornalista vira jornalista,se é filho de politico vira politico.Cada um pucha a sardicha pra sua brasa(mora bicho).Assim como devemos saber as campanhas politicas eleitorais são uma chatice.Não concordo com o Senador Alvaro Dias que o governo está antecipando a campanha de Dona Dilma,na verdade ela começou com acordo do governador de São Paulo com a rede Globo para a trammissão do tele curso ,que por sinal tem algumas coisas boas.PAREI DE ENGANAR QUANDO PAREI DE BEIJAR.
Luiz Henrique Quemel , Brasilia-DF - Dotô em Consultoria Doméstica em Informática
Enviado em 16/7/2009 às 6:52:44 PM
O que mais que impressiona é achar que um papo furado desse cola nesse espaço. Gabriel, como vc pôde?
José Mariano , Florianópolis-SC - .....................
Enviado em 16/7/2009 às 6:28:44 PM
Temos uma certa verve humorística: "meu currículo Lattes não está lattindo". E é parecido com aquele general que vai acumulando estrelinhas: minha profissão é: inserir dados de minha formação no Currículo Lattes, a fim de obter o primeiro lugar em concursos públicos, especialmente para docentes. O gerenciador da veracidade dos dados no Lattes deveria ser o da Instituição de Ensino Superior. Aliás, caberia a ela verificar a veracidade das informações e "certificá-las". Há várias participações em Congressos e pequenas publicações que não aparecem no Lattes. Já o profissional que adora um teclado: ah! este está feito. Ph.Deuses do Lattes a distância. Podem latir em qualquer lugar do Brasil. Estará lá o que o arrivista quer. Com todas a estrelinhas a que ele tem direito. Seria muito bom que a inserção de dados fosse efetuada pelas Instituições de Ensino Superior. A própria certificação dos dados deveria passar pelo MEC. Do jeito que está, está muito bonitinho. Mas bem ordinário. O melhor a fazer é comprar um "notebook" e pensar em inserir tudo quanto for possível. Ainda que não tenha nada a ver com Pesquisa Científica. Se você publicou um artigo sobre frivolidades, numa revista qualquer, não se preocupe, o Lattes saberá incluí-lo em seu currículo, que somará muitos pontos e muitas estrelinhas. Será um currículo cinco estrelas. Especialmente feito pra você!
maria natalia lebedev martinez moreira , belo horizonte-MG - médica
Enviado em 15/7/2009 às 4:08:43 PM
Na realidade a intenção do artigo é livrar a cara da ministra-candidata que usa o recurso de seu criador -"eu não sabia...-. A intenção do artigo não é aprofundar o debate sobre a plataforma Lattes mas, sublinarmente colocar que a ministra é inocente. Não ela não é. Ela jogou para ver se os titulos de mestre e doutora colavam. Não colaram... e ela iniciou sim, sua campanha com uma mentira que implica no desrespeito a todas pessoas que estudam e tentam se aperfeiçoar num pais onde o presidente faz pouco do estudo, mas veja bem , parece que ele não dispensou seus filhos de terem o diploma universitário. Contradições do pais cordial, onde o doutor em educação acima compactua com uma "esperteza", com o "jeitinho brasileiro". Continuaremos o Gigante Adormecido se não corrigirmos nossos erros.
Luiz  Armando , São Paulo-SP - Advogado
Enviado em 15/7/2009 às 3:57:09 PM
Certamente é mais fácil preencher o Currículo Lattes do que realizar pesquisa em nível de pós-graduação... O institinto punitivo do Professor Romano é mais severo do que o próprio Código Penal. Obviamente não é pra tanto! O policiamento da plataforma não combina com o espírito de liberdade que deve prevalecer na Universidade. A visão do professor Meneghini parece mais razoável e ponderada. No âmbito da autonomia acadêmica, é mais saudável a auto-regulação do que o patrulhamento curricular.
Ricardo Camargo , Porto Alegre-RS - advogado
Enviado em 14/7/2009 às 10:57:31 AM
Eu mesmo, com o meu título de doutor, tive sérias dificuldades no preenchimento do Lattes e, o que é pior, agora não tenho nem mesmo como acessá-lo. Informo isto menos para socializar o meu caso pessoal e mais como uma ilustração de como, realmente, lidar com a plataforma Lattes é complicado. Até me alivia um pouco saber que eu não sou o único que se "embrulha" com o Lattes.
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