ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 551 - 24/11/2009
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GLOBO vs. IURD
Uma guerra privada com armas públicas

Por Rodolfo Vianna em 18/8/2009

Reproduzido do Observatório do Direito à Comunicação, 17/8/2009

Não há mocinhos em nenhum dos lados da recente briga entre a TV Globo e a Rede Record de Televisão. Também não há mentiras nos ataques de uma contra a outra: os Marinho sempre tiveram uma relação espúria com o poder e a Record, uma interação promíscua com a Igreja Universal do Reino de Deus. Mas o problema central nessa guerra é que estão guerreando com armas alheias. Estão guerreando com armas públicas.

É ingenuidade de pouco eco crer que não existem interesses econômicos e ideológicos guiando os grandes grupos de comunicação do país. A comunicação de massa tem papel estratégico na organização social e criação de valores e a informação também sofre diversos tipos de manipulações, das mais explícitas – edições de texto/imagens, escolha das fontes, qualificações – às mais sutis – o que é silenciado, o "tom" sobre o informado, as relações de uma notícias com outra, a ordem de apresentação.

É por isso que a luta pela democratização da comunicação não se restringe à criação de normas de conduta ao jornalismo hoje praticado, buscando a isenção e objetividade. Essa luta tem de visar a possibilidade de multiplicação de vozes, a multiplicação do que é informado e como é informado, permitindo ao cidadão obter mais dados sobre uma determinada realidade para que, com eles, forme seu juízo. Com o monopólio ou oligopólio da informação, restringem-se as versões da realidade, orientando visões de mundo.

Amadorismo tacanho

Qual o problema, então, com a recente disputa entre a Rede Globo e a Rede Record? Esta última está expondo a milhões de telespectadores informações que antes só eram conhecidas de um grupo restrito sobre a tenebrosa história da maior emissora do país. A Globo, por sua vez, ataca o sistema nervoso da segunda maior emissora, os incontáveis problemas da Igreja Universal do Reino de Deus. O conflito quebra um tácito pacto de não agressão entre os poderosos, e mais informações são disponibilizadas ao público. Quando dois gigantes brigam, os pequenos podem tirar proveito, imagina-se.

Só que esta "guerra" escancara de uma forma sem precedentes uma prática ilegal e imoral: os interesses privados estão sendo defendidos com armas públicas, as concessões de TV entregues aos Marinho e a Edir Macedo. Ao lançarem mão destas "armas", comprometem a função social dos meios de comunicação e, mais, infringem normas de utilização de uma concessão pública de radiodifusão.

Diferentemente de um jornal impresso, que é privado e responde atualmente somente às leis dos códigos Civil e Penal (já que não existe mais a Lei de Imprensa...), as emissoras de televisão operam por meio de concessões públicas e, como tais, estão obrigadas a cumprir determinações legais para o seu funcionamento. Não podem fazer o que bem entender com a sua programação, uma vez que só possuem o direito de chegar aos lares de praticamente todos os brasileiros porque o Estado brasileiro, em nome do povo, as tornou concessionárias públicas de radiodifusão.

Portanto, não importa quem tem razão nessa guerra privada entre Globo e Record. As duas cometem um gravíssimo erro ao utilizar a arena pública da radiodifusão de forma privilegiada para travarem as batalhas privadas que lhes interessam. A Rede Globo, caminhando por mais anos nessa estrada, tem mais expertise. Seus interesses são mais bem travestidos de "notícias" relevantes apresentadas à sociedade nos seus telejornais. A Record peca por um amadorismo tacanho, com a edição de "reportagens" em que nem sequer se preocupam em fazer a clássica divisão da objetividade aparente entre "opinião" e "informação".

Mesmo lado

Mas não importa o nível de sofisticação de cada uma delas. A disputa Globo x Record é a mais recente e nítida apropriação do público pelo privado.

Em tempo: nestes mesmos dias de "guerra" entre as duas maiores emissoras de TV do país, os representantes dos empresários da área de comunicação se retiraram da comissão organizadora da I Conferência Nacional de Comunicação. A Conferência, prevista para ocorrer no final desse ano, visa a ser um amplo espaço de debate e deliberação sobre temas da área, incluindo as formas de concessão e renovação de espectros de radiodifusão, conteúdo e programação, publicidade etc.

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) foi uma das entidades que se retiraram do processo. Mais do que isso, foi a entidade que liderou o movimento de esvaziamento da Conferência pelo empresariado.

A Rede Globo e a Rede Record são associadas da Abert. Estão, portanto, do mesmo lado quando a tarefa é sufocar a justa reivindicação do direito de a sociedade brasileira discutir a comunicação.

Malandro é o gato que já nasce de bigode...

Comentários (3)
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Marcus  Santana , Salvador-BA - Jornalista
Enviado em 19/8/2009 às 9:53:42 AM
A Record precisa ter uma identidade como emissora, porque até o momento é uma cópia da Globo. A Globo já copia as americanas, algo abominável, mas que vem dando certo. O Jornalismo televisivo precisa de qualidade; ao invés desta competição infantil "eu sou melhor".
Irineu Tolentino , Mogi das Cruzes-SP - Escritor
Enviado em 18/8/2009 às 8:48:40 PM
Parece-me que a "cobertura" da imprensa sobre o caso "Globo X Record" está fora foco, pelas seguintes razões: a) Não há caso GloboxRecord. Há caso Record/IURD/Edir Macedo e Cia. São estes os investigados; b) Não é a Globo que acusa a Record/IURD/Edir e Cia, é o Ministério Público. É o Estado que faz a acusação. A Globo está apenas divulgando, pois, além do dever de informar isso lhe interessa comercialmente, nada mais justo, ela é uma empresa comercial. A Record faria o mesmo (embora seja de propriedade de um "santo homem de Deus"). c) A Globo é uma empresa privada, constituída com o fim de dar lucro, como toda empresa comercial. Isso é normal numa sociedade capitalista; mas uma "Igreja" visar o lucro não é normal em sociedade nenhuma; e) As transações da IURD/Record prejudicam o povo brasileiro pois há acusação de sonegação de impostos e quem paga é o povo. Este deve ser protegido pelo Estado. Daí o interesse Estado em investigar e da Globo em divulgar. f) As práticas da Record/IURD ferem os principios da livre concorrência, pois não há tributação na fonte dos recursos, há desvio de finalidade no emprego do dinheiro, etc. Se a FIAT fosse isenta de impostos e as demais montadoras não, seria justo? Além de não ser, todas as outras se revoltariam legitimamente. Então ou tribute a empresa IURD/Record ou dê isenção tributária à Globo e às demais.
Anderson Porto , Niterói-RJ - Analista de Sistemas
Enviado em 18/8/2009 às 2:05:57 PM
Falta só a Record exibir o documentário "Beyond Citizen Kane", da BBC de Londres. Seria uma golpe brilhante !!! A Record podia também divulgar a reportagem do Helio Fernandes, sobre o "Homem que Enganou Roberto Marinho". Seria divertido...
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