ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 561 - 24/11/2009
  Caderno da Cidadania
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AÇÃO AFIRMATIVA
É necessária uma nova Abolição?

Por Muniz Sodré em 27/10/2009

Há uma questão atravessada na garganta de grupos empenhados na defesa das políticas afirmativas da cidadania negra. Trata-se de saber por que os jornalões (nome talvez mais palatável do que "grande mídia impressa") brasileiros não dão voz alguma a quem se manifesta favorável a medidas como a instituição das cotas ou ao Estatuto da Igualdade Racial. Como bem se sabe, esses jornais vêm dando largo espaço a jornalistas e intelectuais decididos a demonstrar que as ações afirmativas constituem uma nova forma de racismo, já que raça não existe e, ademais, como a população brasileira é predominantemente miscigenada, todos os nossos concidadãos teriam a sua cota de negritude. Logo, não faria qualquer sentido ficar procurando saber quem é negro ou branco para proteger o primeiro.

Foi essa a questão debatida nos dias 14 e 15 de outubro, durante o seminário "Comunicação e Ação Afirmativa: o papel da mídia no debate sobre igualdade racial", realizado na Associação Brasileira de Imprensa por entidades como Comdedine, Cojira e Seppir. É bem sabido que há vozes discordantes das opiniões oficiais dos jornalões, por parte de jornalistas de peso, alguns dos quais pertencentes aos quadros desses mesmos jornais. É o caso de Elio Gaspari, Miriam Leitão e Ancelmo Gois. Estes dois últimos, aliás, foram palestrantes no seminário.

Uma instituição retrógrada

Na mesa sobre "a responsabilidade social da mídia e o debate sobre raça" – que dividi com a jornalista Márcia Neder, da revista Claudia –, comecei afirmando que há certas visibilidades que nos cegam. O sol, por exemplo, se tornado excessivamente visível (olhado de frente), nos impede de enxergar. Mas há também objetos sociais que, se tornados visíveis demais, podem bloquear a visão de quem antes acreditava ver. Parece-me ser este o dilema da cor, do fenótipo escuro, na atualidade brasileira, onde vislumbro um caso de cegueira cognitiva.

De fato, a questão vem sendo tratada como ser pró ou contra o racialismo. A maioria dos favoráveis a propostas como o Estatuto da Igualdade Racial, cotas para universitários etc., lastreia os seus argumentos com as razões do anti-racismo; os desfavoráveis, embora reconhecendo a existência episódica e anacrônica de incidentes racistas, tentam fazer crer que vivemos no melhor dos mundos em termos de conciliação das diferenças étnicas e que seria, portanto, um retrocesso civilizatório racializar a população. Curioso é que esses mesmos argumentos desfavoráveis, sem que seus autores se dêem conta, são racialistas em última análise, ao apelarem para as noções de miscigenação biológica.

Por outro lado, de modo geral, todos se habituaram a pensar na escravidão ora como uma mácula humanitária, ora como um anacronismo, uma instituição retrógrada na história do progresso. Vale, entretanto, apresentar uma opinião de outro matiz, a de Alberto Torres, autor de O Problema Nacional Brasileiro. Foi um dos grandes explicadores do Brasil entre o final do século 19 e início do 20.

A saudade do escravo

Conservador em termos sociais (refratário à urbanização e à industrialização), propugnador de uma República autoritária, Torres revela-se, entretanto, interessante em termos metodológicos e teóricos. Diz em seu livro que "a escravidão foi uma das poucas coisas com visos de organização que este país jamais possuiu. (...) Social e economicamente, a escravidão deu-nos, por longos anos, todo o esforço e toda a ordem que então possuíamos e fundou toda a produção material que ainda temos".

Torres era, insisto, autoritário e conservador. Gerou epígonos como Oliveira Vianna, esse mesmo que chegou a justificar em sua obra o extermínio do "íncola inútil", isto é, do habitante das regiões empobrecidas do país. Era, entretanto, um conservador diferente: discordava das teses sobre a inferioridade racial do brasileiro, não era racista. Sua frase sobre a escravidão é algo a ser ponderado, principalmente quando cotejada com o dito de Joaquim Nabuco: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. (...) Ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância" (Minha Formação).

É célebre essa passagem sobre a memória afetiva da escravidão – a saudade do escravo. Ela é a superfície psicológica do fato histórico-econômico de que as bases da organização nacional foram dadas pelo escravismo. Por isso, vale perguntar que apreensão os brasileiros fazem desse fato, pouco mais de um século depois da Abolição.

Perpétuos cães de guarda

Alguns pontos devem ser considerados:

1. A palavra "apreensão" não diz respeito a concepções intelectuais, e sim, à incorporação emocional ou afetiva do fenômeno em questão. No interior de uma forma social determinada, nós apreendemos por consciência e por hábito o seu ethos, isto é, a sua atmosfera sensível que nos diz, desde a nossa mais tenra infância, o que aceitar e o que rejeitar.

2. A reinterpretação afetiva da "saudade do escravo", que envolve (a) as relações com empregadas domésticas e babás (sucedâneas das amas-de-leite); (b) o afrodescendente como objeto de ciência (para sociólogos e antropólogos); (c) imagens pasteurizadas da cidadania negra na mídia.

Diferentemente da discriminação do Outro ou do racismo puro e simples, a saudade do escravo é algo que se inscreve na forma social predominante como um padrão subconsciente, sem justificativas racionais ou doutrinárias, mas como o sentimento – decorrente de uma forma social ainda não isenta do escravagismo – de que os lugares do socius já foram ancestralmente distribuídos. Cada macaco em seu galho: eu aqui, o outro ali. A cor clara é, desde o nascimento, uma vantagem patrimonial que não deve ser deslocada. Por que mexer com o que se eterniza como natureza?

Nada, portanto, da velha grosseria racista, da velha sentença de "pão, pano e pau" proferida pelo padre Antonil a propósito dos negros. Não há mais lugar histórico para o "pau" desde a Abolição, ou melhor, desde a Lei Caó. O argumento explicitamente racista não leva ninguém a lugar algum no império das tecnologias do self incrementadas pelo mercado e pela mídia.

Mas é imperativo para o senso comum da direita social que as posições adrede fixadas não se subvertam. O escravismo é mais uma lógica do lugar do que do sentido. É dele que, de fato, têm saudade os que acham um escândalo racial proteger as vítimas históricas da dominação racial. E os jornalões, intelectuais coletivos das classes dirigentes, não fazem mais do que assim se confirmarem ao lhes darem voz exclusiva em seus editoriais e em suas páginas privilegiadas, ao se perpetuarem como cães de guarda da retaguarda escravista. É oportuno prestar atenção à letra da canção de Cartola ("Autonomia") em que ele afirma a necessidade de "uma nova Abolição".

Comentários (19)
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Sandra Martins , RJ-RJ - jornalista
Enviado em 8/11/2009 às 3:24:08 PM
Revolvendo a memória virtual... essa veio de 2008 !!! Democracia é incompatível com discriminação, diz Amorim (Agência Brasil) Brasília - O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que uma verdadeira democracia é “incompatível” com a discriminação. Durante a abertura da Conferência Regional das Américas para a revisão da 1ª Conferência Mundial contra o Racismo, ele lembrou que o Brasil, durante muito tempo, negou a existência do racismo. ONU avalia que racismo no Brasil ainda é preocupante Brasília - A situação de racismo no Brasil – com destaque para a presença da discriminação em comportamentos cotidianos – ainda é preocupante. A avaliação é do representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, Vincent Defourny. Durante a abertura da Conferência Regional das Américas para a revisão da 1ª Conferência Mundial contra o Racismo, Defourny ressaltou alguns avanços brasileiros, como a implementação da Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino da cultura e da história africanas na rede pública de ensino. Resumo da ópera: Se o Estado Brasileiro, há decadas, vem assinando tratados internacionais de combate ao racismo que defendem a obrigação de promoção de políticas públicas focalistas, como ainda o senso comum insiste em desrespeitar a CF/1988 Sandra Martins - jornalista - COJIRA-RIO
alfredo sternheim , são paulo-SP - joralista-cineasta
Enviado em 1/11/2009 às 8:38:09 PM
Assim como não dão voz e espaço para quem defende a pólítica de cotas, os jornalões também não dão voz e espaço para outras questões. Nada ou pouco se vê em SP sobre a aproliferação das faveras, a fracassada política de insegurança pública nos últimos 15 anos, o caos no transporte urbano de ônibus.Não se dá voz e espaço aos anseios de policiais e carcereiros. Não se dá voz e espaço aos defensores da pena de morte. Eu a defendo em casos de assassinos reincidentes que já passaram dos 30 anos de idade e acumulam três sentenças condenatórias em últim,a estância por esse tipo de crime ou algo similar (sequestro com tortura). O sujeito com idade superior a 30 anos é irrecuperável, especialmente em nossas prisões. e custa caro a sociedade. Enfim, não se dá voz e espaço para muitos temas. Os jornalões "democráticos" são seletivos. E no caso da questão de cotas para negros, mais ainda.
Herodoto Carneiro , Rio de Janeiro-RJ - estudante de jornalismo
Enviado em 1/11/2009 às 7:20:18 PM
Caríssimo autor; A política de cotas é a política da Casa Grande que os senhore$ querem impor aos negros,pobres,oprimidos e pagadores de impostos mil. Um dos personagens mais nefastos da História da Humanidade é a do conhecido Capitão-do-mato,este que sabia trair e contrariar os interesses da senzala. O autor omite a privatização das instituições públicas de ensino superior;e mesmo que o ve$tibular seja extinto a maioria continuará excluída,pois a ciência, a cultura e a educação são oferecidas na pó$-graduação para uma elitizinha mesquinha... O autor omite o projeto genoma nesta inútil discussão sobre cotas e políticas afirmativas. Estes temas,considero saturados e não nos levarão a uma sociedade mais justa... Chega de bláblá !
Evandro  Trigueiro Tavares , Manaus-AM - Escrivão
Enviado em 1/11/2009 às 6:55:28 PM
ERRATA: onde se lê: "probramos", leia-se "programas televisivos".
Roberto Grün , São Paulo-SP - professor
Enviado em 1/11/2009 às 2:04:07 PM
Sou professor universitário; sou favorável às cotas raciais; concordo com a impressão de que falta espaço na grande mídia para seus defensores, mas acho muito ruim essa caricaturização da posição contrária. Existe uma concepção jacobina de democracia, que é, aliás a original no mundo moderno, no seio da qual as cotas não cabem. Muitos dos que são contra as cotas professam essa doutrina, inclusive bons professores e alunos com os quais convivo. Imaginar que eles são nostálgicos de um passado escravocrata, além de ser errado intelectualmente, é ofendê-los e jogar uma boa, saudável e oportuna discussão para o mato.
RILDO  Ferreira dos Santos , Nova Iguaçu-RJ - Ag de Saúde
Enviado em 31/10/2009 às 2:59:07 PM
Pessoal, isso dá "panos pra manga". Eu escrevi um artigo em que falo e defendo cotas para ingresso no ensino superior (pedagogosdofuturo.blogspot.com/2008/07/sobre-cotas-nas-universidades-por-rildo.html). Lembrei a curvatura da vara de Saviani para fazer um gráfico representando a escolarização de brancos e negros. Lógico que a curva mais acentuada foi a do branco e digo que, se não é possível fazer uma curvatura inversamente proporcional na educação dos brancos hoje para equalizar as diferenças, até porque seria um crime, é preciso que algo seja feito para acentuar a curva da linha que representa a escolarização dos negros e negras. Acontece que o Estado tem sido historicamente favorável a manutenção do estado das coisas e os grandes meios de comunicação, que pertencem a 5 ou 6 famílias do eixo Rio-São Paulo, pulula a ideologia de uma cultura eurocêntrica. Ora, as cotas para pobres e negros/as representa uma quantidade de vagas a menos para os ricos, ou vocês pensam que Universidade Pública até bem pouco tempo era frequentada por pobres? Um negro lá ocupa a vaga que seria do filho do dr. tal, filho do deputado tal etc. Não à toa que ensino fundamental público sempre foi ruim, mas no ensino superior, a qualidade das públicas eram inquestionáveis. Agora, preconceito e discriminação não está restrito aos negros/as. Devemos incluir aí os brancos/as pobres.
Evandro Trigueiro Tavares , Manaus-AM - Escrivão
Enviado em 31/10/2009 às 1:46:56 PM
Em relação a cotas, não há critério mais justo do que a faixa de renda, ou seja, cotas, sim, mas para os mais pobres. Cotas raciais podem fazer sentido para um país birracial como os Estados Unidos são (ou já foram), mas classificar o brasileiro por "raça" ou cor, seria muito mais problemático. Quanto à falta de democracia na mídia concordo com o articulista. Acho incrível probramos como o "Bom (ou seria Mau) Dia Brasil" em que sempre que vão debater algum assunto, todos têm a mesma opinião.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 30/10/2009 às 11:47:51 PM
Raça não existe? Com certeza. Mas na prática a teoria é outra. Já me disseram que no Brasil não existe preconceito racial - existe preconceito contra pobre. Foi um branquelo, é claro. Argumentei que sim, existe também o preconceito contra pobres, mas o pobre branco leva vantagem, pois para ele há mais oportunidades - principalmente para empregos onde se exige "boa aparência". O que acontece é que, nesse processo, quem acaba permanecendo abaixo da linha da pobreza é o pobre de descendência africana. Não sei se o sistema de cotas é justo, mas é o primeiro passo que algum governo brasileiro toma para mudar essa realidade. Quem critica o sistema de cotas sem propor alternativas para esses rejeitados está querendo que tudo permaneça como está.
Cláudio Dias , Brasília-DF - servidor público
Enviado em 29/10/2009 às 5:05:00 PM
Olá, Luiz Paulo, tudo bem? Você leu mal minha mensagem: não há uma única palavra minha desclassificando o professor Muniz Sodré. Ele, sim, tacha os discordantes de racistas e escravagistas. Eu, não. O que fiz foi criticar o ARGUMENTO dele - não convém confundir o argumento com a pessoa que argumenta. O argumento dele é falacioso. Mais: não há uma linha minha sobre as cotas - nem a favor e nem contra. Minha mensagem restringiu-se à identificação das falácias do professor. No mais, achei sua mensagem embasada em chavões (a velha história dos defensores dos desassistidos, da inexistência da neutralidade axiológica etc). De certa forma, você também fugiu do assunto. Note-se, em princípio, todos querem uma sociedade mais igual. A questão é: as cotas colaboram para isso? Essa é a discussão. O fato de ser um esforço da sua parte e de muitos não diz nada, infelizmente. Não tenho dúvida que a intenção é a melhor possível. Pode ser um esforço bem-intencionado e resultar em uma sociedade racialista, como dizem seus críticos (e não me incluo entre eles, só pra deixar claro. Mas quero um debate sem falácias). Então, minha mensagem é só esta: discutamos o assunto, mas deixemos de lado a etiquetagem de quem pensa diferente, bem como lugares-comuns em que "os bondosos e generosos progressistas estão a defender os excluídos e a direita social só quer a desgraça do hipossuficientes. Abç.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 29/10/2009 às 4:34:32 PM
Não há como haver a necessidade de uma "nova" abolição!. Pois, se nunca houvera abolição nenhuma, então, não há como haver "nova" abolição!. É necessário, sim, haver "a.bo.li.ção"!. Mas, não é só aos negros, não!. Aos pobres, né!.
Felipe Faria , Rio-RJ - estudante
Enviado em 29/10/2009 às 12:17:25 PM
Racismo a favor é racismo igualmente. Será isso conveniente para alguém, indiferente de cor?
Marinilda Carvalho , Rio-RJ - jornalista
Enviado em 29/10/2009 às 11:52:25 AM
Uma análise inovadora saída de nossa universidade, que orgulho! E o comentário do Luiz Paulo Santana, que show!
Lucas  Milhomens , Parintins-AM - Professor Ufam
Enviado em 28/10/2009 às 7:26:15 PM
Os velhos "cães de guarda" da intelectualidade dirigente continuam a mesma. Na formulação de seus argumentos para provarem a "inexistência do racismo", ou a "não-raça" ou a "raça-única" tentam criar, com seus holofontes midiáticos um país alinenígena, que ignora a gigantesca e massificada exclusão social dos sim, afrodescendentes e pobres do Brasil. Uma sugestão: para que tenham olhos mais atentos, assistam (e analisem) a atual novela do Manoel Carlos, vejam quão miscigenado e igual é esse país, onde todos têm um padrão de vida elevadíssimo e helicopteros para viajar no final de semana.
Ana Paula  BRAVO , GOIÂNIA-GO - Jornalista
Enviado em 28/10/2009 às 1:40:54 PM
A saudade do escravo no Brasil é tanta q muitos "barões" de hj transformam assalariados - independente da raça - em trabalhadores "voluntários" por LIVRE e ESPONTÂNEA PRESSÃO, os quais têm o ônus do pagamento de contas e impostos, sob as bênçãos da Justiça do Trabalho (?) e o silêncio conivente do restante da sociedade. Tudo em nome da manutenção do status-quo escravista, atualmente bem mais democrático, ao recrutar para seus quadros brancos, negros, amarelos, mestiços - desde q sejam TODOS pobres. Devemos lutar por uma Nova Abolição ou pelo Fim da Ditatura Econômica? Ou por ambos os dois conjuntamente juntos?
Miro Nunes , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista
Enviado em 28/10/2009 às 2:17:35 AM
O autor do artigo lido e comentado pelo funcionário público deve ter sido escrito mesmo pelo senhor Muniz Freire. Já o publicado neste Observatório da Imprensa foi escrito pelo professor Muniz Sodré. Saudações sindicais e cojirísticas a todos, em especial ao meu querido professor Sodré. Miro Nunes (Cojira-Rio/SJPMRJ).
Luiz Paulo  Santana , Belo Horizonte-MG - Economista
Enviado em 27/10/2009 às 11:39:33 PM
Sr. Cláudio Dias, o articulista pensa diferente do Sr.. Expôs o argumento que lhe pareceu oportuno acrescentar. Pelo visto, o sr. não concorda, é um direito seu. Mas não faça o que o sr. critica, isto é, não o desclassifique. E digo-lhe mais: somos todos preconceituosos por formação histórica e cultural. É inconsciente, e, veja bem, eu disse somos, portanto, somos todos, inclusive os fenotipicamente negros, porque puros, nenhum de nós é. Com relação às cotas, a medida não é perfeita. Apenas traduz um esforço, e de minha parte, um esforço generoso em benefício da parcela que, entra século, sai século, constitui os bolsões da base da pirâmide socioeconômica brasileira. Para mim, mais que a proposta das cotas, valeu a pena o grande debate sobre o tema que de fundamental importância para o presente e para o futuro da sociedade brasileira.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 27/10/2009 às 6:25:10 PM
Muniz, sou contra as cotas, concordo porém que a mídia não se põe corretamente. Não abre muito espaço à discussão democrática nem aos argumentos favoráveis às cotas. Aliás, a mídia tem sido muito parcial em tudo ultimamente. Sobre o preconceito de cor (já que cor não é raça), sou mais ou menos negro e mais ou menos branco; café com leite para ser mais exato (pai negro, mãe branca). O preconceito existe, é maior do que imaginamos e menos aparente do que deveria. Nos Estados Unidos ele é mais fácil de ser enfrentado porque é assumido e escancarado, aqui é enrustido e às vezes a pessoa nem tem consciência de seu preconceito. A imprensa não favorece o enfrentamento desse problema justamente porque se coloca do lado dos que acreditam que o país seja quase isento desse mal. Como o debate aqui gira em torno do papel da mídia, não cabe me aprofundar no tema preconceito, mas é um fato que a mídia o favorece e, não só o de cor da pele, mas de nível social e intelectual também. Havia uma jornalista de economia (acho que da folha), não me recordo o nome, que foi algumas vezes ao programa do Jô (as meninas do Jô). Ela destilava preconceito contra a falta de escolaridade do presidente. Acho que era recalcada porque com toda a instrução não vai chegar lá. Veja que não sou favorável à evasão escolar, mas todos sabemos que esse é um problema social a ser enfrentado.
Cláudio Dias , Brasília-DF - servidor público
Enviado em 27/10/2009 às 3:24:40 PM
Superficial o texto, eis que ancorado em falácias. No final das contas, é o mesmo argumento de sempre: se a pessoa não é favorável às cotas, ela necessariamente é racista, escravista ou coisa que o valha. Para o articulista e para a imensa maioria dos defensores do sistema de cotas é impossível não ser favorável às cotas (que é apenas uma dentre várias ações afirmativas possíveis) sem ser racista. Assim fica difícil um debate democrático saudável, pois a discussão perde o foco, visto que um dos lados não pode manifestar sua posição sem ser tachado de racista. São vários os argumentos dos intelectuais contrários às cotas, mas o articulista não enfrentou nenhum deles - preferiu utilizar a falácia ad hominem e a falácia do interesse revestido. Ah, claro, no mundo em preto e branco do Sr. Muniz Freire, isso só pode ser coisa da "direita social", como se não houvesse muitos esquerdistas contrários ao sistema de cotas... Enfim, parece profundo, mas o artigo é apenas um festival de falácias e etiquetagem de quem pensa diferente do articulista...
Angélica Basthi , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista
Enviado em 27/10/2009 às 2:18:13 PM
Muniz, parabéns pelo excelente artigo. A sua participação seguida desta publicação valorizam ainda mais o evento na ABI. Que os colegas midiáticos, façam agora o tão aguardado gesto e abandonem a cegueira que os aflige, nos emudece e ajuda a eternizar as desigualdades neste país. Abs. Angélica Basthi, da Cojira-Rio.
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Muniz Sodré

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