ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 561 - 24/11/2009
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AQUECIMENTO GLOBAL
Imprensa olha para trás

Por Luciano Martins Costa em 29/10/2009

Comentário para o programa radiofônico do OI, 29/10/2009

Para os jornalistas e outros profissionais que acompanham com maior interesse as questões relativas ao problema do aquecimento global, a leitura diária dos principais jornais do país, especialmente daqueles dirigidos ao público em geral, precisa ser um exercício de permanente condescendência ou de constante irritação.

O noticiário sobre o aquecimento global, que se tornou mais intenso após o mês de fevereiro de 2007, com a divulgação dos resultados dos estudos da comissão criada pela ONU para discutir as questões climáticas, permanece basicamente estático quase às vésperas do encontro internacional que deverá decidir sobre mudanças em políticas econômicas, modos de produção e comércio e comportamento. E, salvo raras exceções, a imprensa em geral vem tratando o tema como se fosse mais uma banalidade da pauta diária.

Lanterna na popa

As decisões que serão pactuadas em Copenhague, em dezembro, poderão afetar muitos dos temas com os quais a imprensa se preocupa prioritariamente nesses dias que se convenciona tratar de pós-crise.

Desde a questão da exploração das reservas de petróleo do pré-sal até os planos de governo dos futuros candidatos à eleição presidencial de 2010, passando pelas exigências que serão impostas à realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, e até mesmo regras comerciais globais e as negociações de commodities e do mercado futuro de moedas e produtos, praticamente tudo que hoje ocupa os jornalistas poderá ser diferente a partir das decisões que serão tomadas pelos líderes mundiais.

Também é possível que nada mude, e que os líderes globais continuem liderando suas nações na direção do futuro incerto desenhado pelos cientistas que estudam as mudanças climáticas e suas conseqüências. Mesmo esta possibilidade – e talvez ela mais ainda – deveria estar ocupando os corações e as mentes dos profissionais e donos da imprensa.

Mas a imprensa parece fascinada com o passado. Como uma lanterna na popa de uma embarcação, prefere iluminar o caminho que já foi percorrido do que clarear o que está adiante.

O estado do mundo

Existe no Brasil uma imprensa socioambiental formada basicamente por sites, blogs e newsletters na internet e um punhado de revistas que sobrevivem por mera teimosia. As grandes empresas anunciantes não costumam apoiar a chamada imprensa alternativa; muito menos as iniciativas jornalísticas que costumam desmascarar o chamado "marketing verde".

A maior parte das informações técnicas sobre questões climáticas e temas relacionados ao desenvolvimento sustentável circula nesses meios alternativos e nas redes sociais, através de grupos de debates freqüentados por especialistas. Ali se encontram as principais fontes de informação que a grande imprensa poderia consultar para informar seus leitores sobre o verdadeiro estado do mundo.

No mês que se encerra, houve uma redução no número médio de reportagens dedicadas ao tema do aquecimento global na imprensa brasileira de alcance nacional. Apenas doze ocorrências, em média, para cada grande diário, e menos de uma página por edição das revistas semanais.

Os jornais ocuparam mais espaço para a repercussão de uma frase do presidente da República sobre o papel da imprensa, na semana passada, do que para discutir os planos para a Conferência da ONU em Copenhague. Declarações de políticos foram consideradas mais importantes, ao longo do ano, do que o destino do planeta.

Enquanto isso, desenham-se as fórmulas para o mercado internacional de carbono e define-se no Congresso Nacional, com influência dominante da bancada ruralista, a futura legislação de proteção ao patrimônio natural brasileiro.

Caminho desimpedido

Daqui a alguns anos essas páginas sairão dos arquivos para a análise dos historiógrafos e outros pesquisadores. Será o registro da contribuição que a imprensa terá dado para os debates sobre o que deverá ser o século 21 para o Brasil.

Empurrado para uma posição privilegiada na linha de largada para a nova configuração das forças econômicas internacionais, o país tem a chance de demonstrar que foi capaz de encontrar a trilha do desenvolvimento e ao mesmo tempo preservar suas riquezas naturais.

Ou teremos deixado o campo livre para a transformação do cerrado e das florestas em um grande deserto.

Comentários (6)
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Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 2/11/2009 às 4:34:03 PM
A pior parte de tudo isso, pegando o gancho do tema onde foi inserido o comentário radiofônico do Luciano Martins Costa, é que há pouco tempo atrás surgiu a hipótese de um "esfriamento global" [ http://www.cafecolombo.com.br/2008/04/13/a-tese-do-esfriamento-global/ ]. Não digo "pior parte" no sentido de não haver lógica nesta hipótese (aliás parece haver certo sentido na questão colocada), mas sim em relação ao fato de que "aquecimento global" virou um rótulo quase indelével da imprensa e da própria sociedade civil. Quem se der ao trabalho de ler o link sugerido acima, que se refere a uma entrevista feita com Luiz Carlos Baldicero Molion, professor de dinâmica de clima da Universidade Federal de Alagoas, depois pode ler o próprio artigo científico dele aqui: http://www.alerta.inf.br/files/molion_desmist.pdf (Nota: o artigo está no formato PDF, mas algum bug do servidor onde está hospedado faz o mesmo ser baixado com a extensão AVI, que seria um formato de vídeo. Até pelo tamanho do arquivo - parcos 526 KB - é fácil deduzir que não se trata de vídeo algum. Para corrigir o problema, depois de baixado o arquivo basta alterar a extensão do mesmo para ".pdf", em substituição ao surreal ".avi" que vem nele). É um contraponto bem interessente à tese do aquecimento global. É pertinente dizer que o professor não defende a poluição, apenas contesta alguns parâmetros utilizados até então.
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - Biólogo
Enviado em 30/10/2009 às 9:11:36 AM
Discutir meio ambiente, sustentabilidade, aquecimento global virou modismo, corroborado pela mídia. Isso é deplorável, pois os incentivos em diminuir os impactos à natureza dependem de conehcimento e não de deslumbramento. Se uma árvore estiver sendo cortada próxima à sua casa, ali, na pracinha do bairro, um monte de desocupados irá até lá para abraçá-la, serão feitas reportagens, documentários, teremos o depoimentos de mães zelosas, crianças com discursos prontos. E todos, ou a sua maioria, chegarão até ali de carro ou de ônibus. É a mesma história da banda irlandesa U2, qua anda pelo planeta fazendo shows pela causa da paz e do ambientalismo de jatinho particular. Ou o Al Gore, que lança uma campanha contra o aquecimento global valendo-se da massificação cultural que levou a este dead line. Muita jardinagem e pouca Ecologia.
Ricardo Dias , Rio de Janeiro-RJ - Sem profissão
Enviado em 30/10/2009 às 2:40:37 AM
Meu caro Luciano, o único aquecimento global que preocupa qualquer dono do poder é o aquecimento da Economia e a vantagem dele decorrente que cada um poderá usufruir para si e/ou para um determinado grupo de privilegiados, que bem sabemos quem são. Pelo andar da carruagem, claro está que somente futuros e sensíveis escafandristas lamentarão por todos os que não estiveram no poder e nunca tiveram privilégios. Quanto à imprensa, por tabela, evidente que sua preocupação fixa é o aquecimento global das vendas. Infelizmente. Parabéns pela "luz na proa" desse seu pequeno mas valente "barco" (artigo).
eduardo lettieri , São Paulo-SP - free
Enviado em 29/10/2009 às 4:17:28 PM
O que mais me incomoda é restringir o meio-ambiente à Amazônia Legal e à emissão de CO2. São Paulo, a cidade menos pobre do Brasil, ainda não possui um sistema de tratamento de esgoto que colabore com a despoluição de seus rios. Isso passa batido, sempre os problemas são os outros. Enfim, o sudeste tem licença para matar, mas o pessoal da Amazônia é manchete quando come uma tartaruga. A imprensa local deveria olhar mais para o seu jardim.
Allan Campos , Santa Maria do Salto-MG - Jornalista
Enviado em 29/10/2009 às 2:50:55 PM
Quando analisamos as matérias mais vistas nos principais sites jornalísticos - como Folha de São Paulo, Globo.com, Estadão - o que encontramos são matérias que poderiam ser classificadas como de pouca relevância mundial. Exemplo: Ex-BBB brica e vai preso ou Filha de Xuxa escreve errado e internautas reclamam. Então, as empresas jornalistas querem publicar mais e mais matérias que são lidas, que tem interesse do público e que vendem. De certa forma é a lógica do negócio. É triste mas real. E é difícil mudar isso. Depende de uma ampla mobilização social... uma nova pespectiva... e isso custa atingir. Então, o nosso jornalismo segue com suas velhas táticas... Querem apenas vender jornal.
Sebastião Arlém Oliveira , Goiânia-GO - operário
Enviado em 29/10/2009 às 11:21:43 AM
Eu não havia pensado sobre esta matéria. Em termos relativos, sobre sua importância, nos moldes aqui descritos. Acho que estava dormente, conduzido por caminhos outros, interessado noutras matérias jornalísticas, assim como os que as escrevem. Faltava, em meio a tantas, esta matéria. Mas que posso fazer, quando a própria imprensa descura-se deste trato?
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