ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 561 - 24/11/2009
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MÍDIA & DEUS
A imprensa informa ou desinforma?

Por Aluízio de Araújo Couto Júnior em 27/10/2009

O bom artigo de Eugênio Bucci – "Notícias sobre a inexistência de Deus" –, além de mostrar que a alegada notícia não é mais algo tão bombástico quanto se pensa, pode oferecer outra reflexão. Estão os jornalistas, de modo geral, devidamente preparados para lidar com a questão filosófica da existência ou inexistência de Deus?

Nos últimos anos, na esteira dos lançamentos de autores como Sam Harris, Richard Dawkins, Christopher Hitchens e outros profetas do ateísmo moderno, o imbróglio teológico veio com força às pautas. E a aceitação passiva de certas declarações tem demonstrado que os profissionais de imprensa não estão preparados para lidar com um assunto que, não é todo mundo que sabe, possui alto grau de sofisticação teórica. É possível que o despreparo venha de uma visão obtusa da filosofia como atividade desprovida de rigor. Ou até mesmo de um desconhecimento da história do tratamento filosófico da questão – enfim, má realização do dever de casa.

O resultado disso tudo é desinformar. Quando José Saramago diz em entrevista ao Estado de S. Paulo que "Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele creem", está comprometido com uma tese metafísica altamente controversa e nem um pouco nova. O ar explosivo da frase do escritor perde um pouco de sua força quando nos damos conta que Anselmo, já no século 11, considerou a diferenciação entre entidades que existem somente na imaginação e aquelas que existem tanto na imaginação quanto na realidade. Deus, para Anselmo, existe tanto na imaginação quanto na realidade. Posteriormente, outros filósofos tentaram desenvolver o pensamento de Anselmo ao longo da história. Ora, se o jornalista que entrevistou Saramago já sabia da posição do escritor, poderia ter levantado a objeção de que a afirmação dada não é consensual entre os estudiosos do assunto.

Metafísica e filosofia

A frase seguinte, dita na Itália, também merece consideração:

"Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem."

Parece que Saramago só consideraria como evidência verdadeira da existência de Deus aquela que nos tocasse os sentidos. Um estudo filosófico sério nos diria que não necessariamente. A questão toda é, novamente, de fundo metafísico e sua implicação principal é saber se Deus é uma entidade necessária na estrutura da realidade. Por "necessário", dentro do jargão, entendemos algo que existe e não poderia não existir. A disposição de Deus para tomar um café com o papa é algo de importância secundária. Em outras palavras, não precisamos captar Deus para que sua existência seja verdadeira.

É possível que esta concepção, digamos, materialista da evidência, seja resquício de um senso comum que considera a existência de Deus um assunto pertinente somente às ciências empíricas, esquecendo a importante contribuição que o estudo sistemático da metafísica pode oferecer. É claro que um jornalista ao lidar com o assunto não precisa estudar conceitos modais como necessidade ou possibilidade, inerentes à metafísica. Mas seria proveitoso para qualquer jornalista presente no momento da declaração entender que a via proposta por Saramago não é a mais adequada. Novamente, é só ir aos livros de história da filosofia.

Aspectos da lógica

Uma vez que o jornalismo é uma atividade crítica, uma boa sugestão para aguçar o caráter crítico da profissão é o estudo da lógica. Não é aceitável que um profissional que lida com argumentos tenha pouca idéia do que, afinal, é um argumento (uma experiência interessante seria perguntar para jornalistas uma definição de argumento). Com maior domínio da lógica (sobretudo aspectos da lógica informal), o jornalista do Estado poderia indagar a Saramago quais premissas sustentam sua conclusão de que Deus só existe dentro da cabeça daqueles que nele creem. No caso da declaração feita na Itália, seria pertinente perguntar o que sustenta o citado materialismo em relação à evidência.

Existem no mercado bons manuais de lógica que podem dar ao jornalista preciosas noções de argumento, validade ou invalidade de argumentos e, importantíssimo, dicas para evitar falácias. Assim como o estudo da história, é dever de casa do jornalista dominar com alguma eficácia prática a disciplina que está por trás da argumentação, pois querendo ele ou não, os argumentos estarão lá. Logo, a lógica também.

Quando o padre Manuel Morujão, citado no artigo de Bucci, diz que "um escritor da craveira de José Saramago deveria ir por um caminho mais sério", é provável que esteja correto. Partindo das falas de Saramago, tanto na entrevista ao jornalão paulistano como na Itália, pode-se concluir que o escritor andou ignorando os livros de metafísica. Portanto, não poderia posar de autoridade no assunto.

Os jornalistas, por sua vez, deveriam ir com mais freqüência ao estudo da história da filosofia e, podendo aplicar também a usos mais gerais, ao estudo dos aspectos da lógica. Todos ganhariam. A discussão sobre a existência ou inexistência de Deus seria mais precisa e o leitor seria premiado com uma abordagem de qualidade. Já que é para colocar na mesa de debates tal problema teológico, que se faça isso respeitando certos aspectos fundamentais do assunto e que se mantenha o espírito inquisitivo e informado perante as supostas "autoridades".

Comentários (35)
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Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 11/11/2009 às 1:37:47 AM
Tentando responder pela última vez e já pedindo desculpas pela demora - meu fim de ano está ocupadíssimo. Marcelo, não acho que seja falta de imparcialidade escrever um artigo abordando, digamos, os furos de como a imprensa trata o ateísmo ao mesmo tempo em que deixo o teísmo para outra oportunidade. Talvez ficaria melhor se o título do texto fosse algo como "ateísmo e mídia" ou qualquer coisa assim. Reiterando, não vejo nenhum problema em se escrever um artigo dessa natureza porque eu queria abordar, sobretudo, a questão do ateísmo mesmo - dentro do tema existência ou inexistência de Deus. É uma questão de recorte. Quando eu quiser tratar do teísmo, trato em outro texto. Mais ou menos analogamente, se eu escrevo um artigo (como até fiz) criticando um governo autoritário de esquerda, tenho obrigatoriamente de abordar os regimes autoritários de direita? Não acho que seja preciso. Ao Edson, recomendo a leitura de "Será que Deus existe?" do autor que já citei e, se se interessar mesmo pelo assunto, alguns ensaios em "Philosophy of Religion: a guide and anthology", da Oxford University Press. Não que eu não queira discutir o assunto. Preciso, de fato, estudá-lo mais e ando sem tempo por agora. Só estou te indicando os textos para você ver que há quem defenda a simplicidade de Deus.
Edson Marcon , Manaus-AM - Professor
Enviado em 2/11/2009 às 11:21:58 PM
"Swinburne considera Deus uma entidade simples" - Simples como? Uma mente simples não pode ter ideias complexas. Galinhas não podem estudar matematica. Como uma mente simples poderia criar algo complexo como o universo? Não dá....
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 2/11/2009 às 5:45:55 PM
Marcon, Swinburne considera Deus uma entidade simples. Recomendo a leitura de "Será que Deus Existe?" do autor. Não vou me focar nas explicações de Swinburne porque a intenção do artigo é longe de ser essa. Marcelo, assim que puder, te respondo.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 1/11/2009 às 3:07:13 PM
Tudo bem, Aluízio, suponhamos que os autores que você citou (e ridicularizou, chamando-os de "profetas do ateísmo moderno") no texto "dizem coisas nem sempre certas em nome da razão". Mas o que motiva uma pessoa a se ocupar de flagrar essas supostas inconsistências e paralelamente a isso ignorar, ou omitir, a seara de inconsistências presentes no discurso criacionista? Se você pretendia ser isento e imparcial, como sugere que se pense que você é, por que então não arrolou lado a lado as besteiras ditas por cada vertente, do ateísmo ao criacionismo? Eu não me importaria com isso, francamente, porque eu sou capaz de arrancar um braço do meu corpo se ao cabo de tudo for possível concluir que a existência de deus é uma hipótese mais plausível do que o inverso. O problema não está em apontar que alguma coisa do "discurso ateu" (moderno ou antigo) tem senões, mas sim que curiosamente as pessoas que têm feito isso não se importam muito que se dê credibilidade a um livro escrito e manipulado por várias mãos humanas durante séculos - justamente a única "evidência" de deus. Criou-se uma estória absurda, sem pé nem cabeça, e dão sustentação a ela através da impossibilidade humana (ainda) de compreender todo o universo, como se a loucura não explicada automaticamente devesse ser loucura concedida e aceita. A "lógica" que se aplica a deus se aplica a fadas, duendes, unicórnios e tudo mais.
Edson Marcon , Manaus-AM - Professor
Enviado em 31/10/2009 às 6:33:06 PM
"Penso que ele diria apenas que é menos provável -" Se ele acha que é difícil o universo ter se auto-organizado, por ser muito complexo, qual seria a probabilidade de existir algo muito mais complexo que o próprio universo ( o seu deus)?
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 31/10/2009 às 1:42:52 AM
Edson, recomendo que leia o ensaio do filósofo. Meu resumo de poucas linhas pode não transmitir bem o pensamento de Swinburne. E não acho que ele negaria que pode surgir ordem de um sistema inicial qualquer. Penso que ele diria apenas que é menos provável - os argumentos indutivos tornam suas conclusões prováveis, e não garantidas, como é o caso em argumentos dedutivos. Swinburne está longe de ser um desses criacionistas vulgares que vemos por aí.
Edson Marcon , Manaus-AM - Professor
Enviado em 30/10/2009 às 9:12:33 PM
"Richard Swinburne pretende, por exemplo, que o estado improvável de ordem que existe no universo é mais bem explicado com a presença de Deus do que com a ausência." Isso é argumento típico de criacionistas. O uso da segunda lei da termodinâmica tambem. Nada impede que surja ordem a partir da desordem, desde que, na soma da entropia total do sistema - no caso, o universo - esta sempre aumente. Porque alguns atribuem tudo que não conseguem entender a um deus? Acham que, se não conseguem entender, ninguém mais conseguirá?
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 30/10/2009 às 8:33:33 PM
Marcelo, não existe nenhum filósofo que é inquestionável. Assim como não existe nenhum cientista inquestionável e nenhum teólogo inquestionável – e ser “concreto” (seja lá o que isso quer dizer) não significa que é inquestionável. Eu nem cheguei perto de sugerir isso. E não estou arregimentando aqueles que sustentam meu enfoque, até porque eu ainda não tenho um enfoque bem definido. Só estou tentando, com custo, argumentar que a inexistência de Deus não é algo tão óbvio quanto se pensa usualmente – demanda levantada por você. Sobre o artigo, não lestes nada mais de minha autoria sobre Saramago (que adoro como escritor) precisamente porque é meu primeiro artigo sobre ele. No mais, é evidente que a filosofia não vale apenas quando Deus é confrontado: ela vale quando ele é confrontado e quando ele é afirmado. Sobre o assunto, você há de concordar que é oportuno e “quente”. Os escritores que citei no texto – que surgiram no assunto de poucos anos para cá - dizem coisas nem sempre certas em nome da “razão”.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 30/10/2009 às 8:06:59 PM
A propósito, não tem nada de "asserção filosófica" no que eu disse. Até as crianças em idade primária sabem a diferença entre concreto e abstrato. Para isso não é necessária nenhuma Filosofia. Como também não é para desacreditar em deus, como lembrou a ex-editora do OI, Marinilda Carvalho, lá embaixo. Esse negócio de ficar fazendo filosofia de tudo à sua volta parece aquela coisa do amigo químico que estraga o churrasco de tanto falar nas reações - químicas - provocadas pela combustão do carvão.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 30/10/2009 às 7:55:40 PM
Pois é, Aluízio, mas é que eu não quero saber nada de profundo sobre a Filosofia, até porque quem quis - nesta área - ainda hoje é objeto de contestação. Cite-me um filósofo inquestionável e eu vou acreditar que estou enganado. Mesmo. O que ocorre é que você arregimenta aqueles que dão sutentação ao teu enfoque. Nada mais natural e humano, devo admitir. Saramago virou artigo seu simplesmente porque cita deus, porque até então não me lembro de ter lido outra análise sua sobre o escritor português. E menos ainda quando alguém diz bobagens muito maiores acerca da existência de deus. Ou a Filosofia só vale quando deus é confrontado? De qualquer modo, quando você encontrar deus me passe o endereço ou o telefone. Terei o maior prazer em constatar que a Filosofia estava certa ao admití-lo como hipótese plausível.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 30/10/2009 às 7:53:38 PM
Pois é, Aluízio, mas é que eu não quero saber nada de profundo sobre a Filosofia, até porque quem quis - nesta área - ainda hoje é objeto de contestação. Cite-me um filósofo inquestionável e eu vou acreditar que estou enganado. Mesmo. O que ocorre é que você arregimenta aqueles que dão sutentação ao teu enfoque. Nada mais natural e humano, devo admitir. Saramago virou artigo seu simplesmente porque cita deus, porque até então não me lembro de ter lido outra análise sua sobre o escritor português. E menos ainda quando alguém diz bobagens muito maiores acerca da existência de deus. Ou a Filosofia só vale quando deus é confrontado? De qualquer modo, quando você encontrar deus me passe o endereço ou o telefone. Terei o maior prazer em constatar que a Filosofia estava certa ao admití-lo.
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 30/10/2009 às 7:05:29 PM
Marcelo, quando você diz que “nada é concreto na filosofia”, se complica um pouco. Porque a frase pode ser tomada como uma asserção filosófica e refuta-se a si mesma – não há como testá-la empiricamente (além disso, alguns resultados da lógica modal, por ex., podem te desautorizar). Além do mais, o fato de você não poder tocar ou ver Deus não implica que ele não exista. Parece que você tem uma resistência em ler os argumentos em favor da existência de Deus e confrontá-los diretamente. O artigo que te indiquei, por exemplo, não dá milhares de voltas para nada: é claro e conciso, na melhor tradição analítica. A existência ou não de Deus não é algo que sobrevive apenas em imaginações e construções: trata-se de um problema metafísico tão estimulante e vivo quanto, por exemplo, a causação, universais e particulares e o problema do tempo. Infelizmente, falta estudo e sobra palpite. No mais, é engraçado que você destitua a filosofia de um assunto que é dela por natureza. Sobre argumentos, os criminosos também têm, a diferença é que são maus argumentos, e podemos avaliar argumentos. E Swinburne oferece um bom argumento indutivo (tipo de raciocínio também usado em ciência). Sobre filosofia, você aparenta saber tanto quanto eu sei sobre diagramação.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 30/10/2009 às 3:48:53 PM
Aluízio, absolutamente nada é concreto na Filosofia. Se vários pensadores que admiramos sempre conseguiram desdizer o outro, como vou pretender que me faça definitivo sob à luz de quem dá quinhentas voltas para explicar um copo de vidro? A mim, pelo menos neste aspecto, não interessa o que a dialética, e mais oportunamente o silogismo (grande estandarte dos nós intrínsecos), dizem do copo: só me importa é que conheço o processo de fabricação de um copo de vidro - in loco - e sei que posso tocá-lo, manuseá-lo e descartá-lo porque ele está ali, não apenas à minha vista como à vista de qualquer pessoa. Aliás o copo é tão evidente que até mesmo quem tem limitações visuais pode tocá-lo. Não se pode dizer o mesmo de deus, que só sobrevive (e vive) no plano da imaginação humana e das construções filosóficas. Eu tenho imenso respeito pela Filosofia, que praticamente criou as bases da condição humana, mas não acho muito pertinente a sua utilização para dar sentido a coisas que são mais práticas e mais dinâmicas. O mais engraçado é que tive dois anos de Filosofia em nível ginasial, o que evidentemente nem eu considero como aprofundamento. Na verdade é uma matéria tão complexa que qualquer pessoa com menos de 30 anos de estudo deveria calcular bem as veredas por este terreno. Salvo, claro, os gênios naturais. Argumento por argumento, até os criminosos costumam ter. O que não os legitima.
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 30/10/2009 às 1:40:50 PM
Marcelo Idiarte, quando falamos de Deus, pelo menos o Deus cristão, estamos comprometidos com uma série de propriedades essenciais que os teólogos tradicionais e os cristãos de modo geral aceitam. A questão é saber se, por exemplo, existem inconsistências entre a onipotência e a suma bondade ou até mesmo entre a presciência divina e o livre arbítrio e etc. É nesse sentido que o estudo se dá. Assim, para você argumentar contra a existência de tal coisa, precisa também, antes, conhecer que tipo de coisa é essa. Se conseguir fazer tais tipos de incompatibilizações, poderá dizer, positivamente, que Deus – dotado de tais propriedades essenciais - não existe. Por outro lado, existem bons argumentos indutivos a favor da existência de Deus que um ateu que se pretenda fundamentado deve enfrentar. Richard Swinburne pretende, por exemplo, que o estado improvável de ordem que existe no universo é mais bem explicado com a presença de Deus do que com a ausência. Tais argumentos têm de ser lidos e considerados. Recomendo a leitura do seguinte artigo: http://www.mrrena.com/misc/Swinburne.shtml. Concordo com você que não existe unanimidade em filosofia, mas daí não se segue que “todos têm razão e ninguém tem razão”. Essa frase é uma bobagem gigantesca, própria de quem gosta de palpitar sobre a filosofia sem a estudar.
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 29/10/2009 às 11:53:06 PM
Edson, a frase que você colocou entre aspas foi dita por certos juízos meio categóricos que vi aqui. Juízos, acho eu, que foram ditos sem estudar o assunto. Bom, sobre Saramago, o que eu disse é que com base nas falas, ele parece não conhecer bem do riscado. A consideração que ele tem de evidência no caso, por exemplo, ao menos indica isso. Sobre o repórter (ou repórteres, tanto aqui como lá), concordo com você.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 29/10/2009 às 10:39:55 PM
Aluízio, sabe o que é proposto lá no Camp Quest, aquela colônia de férias britânica que recebe filhos de pais dispostos a investir numa educação infantil livre de dogmas? Que os jovens saiam à procura de dois unicórnios invisíveis. Para isso as premissas são as seguintes: os unicórnios não podem ser vistos, provados, cheirados ou tocados, não conseguem fugir do acampamento, não se alimentam de nada e a única "evidência" deles é um livro antigo repassado de geração em geração. Apesar disso os alunos são estimulados a "provar" que os unicórnios NÃO existem. Daí de repente você conjectura: isso é um tiro no próprio pé do ateísmo... Mas acontece que os responsáveis pelo acampamento colocam essa questão justamente para demonstrar o quão complexa e covarde é propor tal exigência sob a luz do entendimento filosófico - que por si só não tem unanimidade em nenhuma direção, haja visto a quantidade de filósofos de vertentes absolutamente diferentes umas das outras que se tornaram famosos. Na Filosofia todos têm razão e ninguém tem razão. Mas na vida prática as coisas são mais simples e mais objetivas: ou a coisa é palpável ou não é, o resto é exercício filosófico. Como vou acreditar em unicórnios e deuses apenas porque alguém - inegavelmente inteligente - construiu todo um emaranhado de raciocínios criativos? NÃO EXISTE prova objetiva de deus. E isso não vai se criar invertendo a questão.
Edson Marcon , Manaus-AM - Professor
Enviado em 29/10/2009 às 8:40:19 PM
"O que eu vejo aqui é o que escrevi no artigo: um profundo desconhecimento sobre as bases e estruturas teóricas do assunto." Vc criticou Saramago por não ter declarado as "premissas"... Não seria o caso tambem de criticar o repórter por não ter perguntados sobre as premissas a ele? Vc parece querer dizer que Saramago não tem conhecimento sobre o assunto. Eu prefiro a hipótese da má qualidade do jornalista.
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 29/10/2009 às 6:36:24 PM
Mas a partir do momento que alguém diz que "é óbvio que não existe", também está comprometido com demonstrações - ou tentativas. É uma afirmação categórica acerca da estrutura da realidade. E, portanto, uma afirmação metafísica. E para ser aceita precisa de argumentação para sustentá-la. Acha que um ateu inteligente como Russell simplesmente disse que "Deus não existe" e deixou por isso mesmo? O que eu vejo aqui é o que escrevi no artigo: um profundo desconhecimento sobre as bases e estruturas teóricas do assunto. Quando isso acontece, ficamos nas mãos de palpiteiros. Algo como um ateísmo (ou teísmo, na via contrária) de mesa de bar.
Edson Marcon , manajus-AM - Professor
Enviado em 29/10/2009 às 5:39:07 PM
¨Eu vou esperar, então, que você demonstre o óbvio: que Deus não existe. ¨ - Os que afirmam - e os que lucram tambem - com a afirmação da existência de deus é que possuem o ônus de provar a existência do dito cujo.
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 29/10/2009 às 2:29:38 PM
Marcelo Idiarte, para mim a existência de Deus é, ainda, racionalmente indecidida. Se por um lado há bons argumentos contrários à existência de Deus, há bons argumentos favoráveis. Você permeia seu comentário de conclusões, como dizer que é “apenas o óbvio” ou que “deveria ser automático” e esquece de sustentar as conclusões. Eu vou esperar, então, que você demonstre o óbvio: que Deus não existe. Porque quando isso acontecer ninguém mais vai precisar de Hume, Russell, Aquino e Agostinho e outros que dedicaram tempo de suas carreiras dissecando o assunto. Espero ansiosamente.
João Batista Alves da Silva , São Paulo-SP - Professor
Enviado em 29/10/2009 às 1:42:00 PM
O que foi um pedido de seriedade e aprofundamento para alguns ouvidos virou defesa de fé. Isto se chama simplesmente "preconceito". Vejam o filme "EXPELLED: no intelligence allowed"e parem de tomar esse tipo de atitude caso não darem motivo a este tipo de filme.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 29/10/2009 às 11:21:00 AM
Mas quem está falando de NECESSIDADE, meu caro? Quem lhe disse que não acreditar no absurdo é uma "necessidade"? Para mim é apenas o óbvio. Aliás deveria ser tão automático quanto acordar e abrir os olhos: não é pela necessidade de ver, é um impulso involuntário. Em vez de ficar sugerindo leituras para todos que apontam a tendenciosidade do teu texto, por que não começa você próprio a reler as obras que recomenda? Cuidado com as metonímias...
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 28/10/2009 às 11:45:57 PM
Marinilda Carvalho, é claro que ninguém precisa entender de filosofia para ser ateu. E é também claro que o Saramago pode falar o que quiser. É só uma questão de saber que o assunto requer estudo para ser seriamente tratado.
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 28/10/2009 às 11:44:45 PM
Marcelo Idiarte, novamente, não acho que disse muita coisa. Para você, a filosofia é usada para sustentar Deus tornando o lógico ilógico. Bom, lhe proponho um desafio: elabore um argumento que torne a inexistência de Deus uma necessidade metafísica. Para isso, recomendo o estudo profundo de lógica formal e metafísica.
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 28/10/2009 às 11:43:10 PM
Luiz Claudio Santos, em nenhum momento eu faço uso da lógica para justificar minhas convicções pessoais. Leia o texto novamente. No mais, procure saber o que é a lógica antes de dizer que é de “auto ajuda”. Vou te ajudar: para a lógica informal, recomendo o livro “Lógica Informal”, de Douglas Walton. Se for mais curioso, vá atrás de “Lógica: um curso introdutório”, de Newton Smith. Boa parte da lógica estudada hoje foi desenvolvida por Bertrand Russell, um notório ateu.
Aluízio  Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 28/10/2009 às 11:38:47 PM
Edson Maicon, eu não forneci premissas para a existência de Deus por um motivo simples: eu não me comprometo em nenhum momento do artigo com a proposição “há Deus”. Ao contrário, Saramago disse categoricamente que não há Deus. Logo, não estou na mesma posição que ele no que se refere a oferecer premissas.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 28/10/2009 às 11:07:55 PM
Nem informar estão querendo que a imprensa o faça!. Mas, a desinformação é lamentável!. E ainda bem que o tal Jo$é $aramago informou à Humanidade que Deus não existe!. Mas, essa informação é intempestiva. Eu, por exmplo, já sabia disso desde o século passado!. Mas, jornal não lido é jornal novo, né!.
Edson Marcon , Manaus-AM - Professor
Enviado em 28/10/2009 às 8:53:02 PM
"Professor, uma pergunta, evidentemente, não exclui a outra. Quando alguém diz que "há um Deus...", devemos também nos preocupar com as premissas." . . . Vc cobrou as "premissas" de Saramago, mas foi incapaz de fornecer as SUAS premissas para a existência de deus.
Luiz Claudio Santos  Santos de Souza , Rio de Janeiro-RJ - Médico
Enviado em 28/10/2009 às 7:49:40 PM
Estranho quando o articulista faz uso da lógica para justificar suas convicções pessoais, pois notadamente há jornalistas religiosos e jornalistas ateus. Ambos são mestres na arte de dissimular o que lhe é desconfortável. Para os jornalistas ateus o desconforto de assumir perante a incompreensão e o desagrado de 95% seus leitores. É melhor apenas se mostrar simpático a intelectualidade do assunto. Já o segundo grupo cita um manual de lógica do tipo "lógica da auto-ajuda" para contra-argumentação teológica.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 28/10/2009 às 3:24:18 PM
Aluízio, ALGUNS ateus podem ter simpatia por "profecias" pelo simples fato de que ALGUNS ateus podem ser até loucos ou doentes, mas seguir profecias não foi o plano de partida para o ateísmo, ao contrário das religiões, repito. O ateu não quer fazer profecias sobre os destinos da humanidade: ele simplesmente não acredita na possibilidade de um deus, por mais remota que seja, posto a completa ausência de elementos concretos que o sustentem. Só abstrações sustentam deus. Ou a Filosofia, se usada com interesse específico de conferir lógica ao ilógico. O ateu não quer que os homens sigam outros homens ou outras abstrações, espera apenas que os homens sigam a eles mesmos, afinal tudo está no próprio homem: da inteligência à loucura, todas as dualidades e filosofias possíveis. Foi por isso que Saramago reportou a questão de deus estar na cabeça das pessoas: não foi deus que criou o homem e sim o inverso. De uma mentira fez-se uma verdade. Antigamente não havia escolha, era acreditar ou morrer. Hoje quando alguém questiona essa verdade-mentira, infelizmente certos profissionais que são mais cristãos do que profissionais usam - indevidamente - suas especialidades para tentar sustentar a velha estória do criacionismo (e tudo que dela derivou), imputando loucura e astúcia aos outros. A Teologia, pelo que se vê, é a segunda especialidade de muita gente. Isso quando não é a primeira.
Marinilda Carvalho , Rio-RJ - jornalista
Enviado em 28/10/2009 às 3:23:57 PM
Com todo o respeito, que baboseira. Ninguém precisa de leis e categorias filosóficas para ser ateu. Saramago tem todo o direito de dizer o que quiser. E o Bucci tem todo o direito de divulgar. Até o padre ouvido tem direito de pregar.
Ana Paula  BRAVO , goiânia-GO - Jornalista
Enviado em 28/10/2009 às 2:15:12 PM
Deus? Deuses? Há mais coisas entre o céu e a Terra do q supõe nossa vã filosofia? Creio q sim. Para mim, talvez ainda seja cedo para dizer se creio ou não em Deus. Talvez creia mais em deuses. Particularmente, não aceitar toda e qualquer informação como verdadeira, questionar, invesigar, procurar respostas... encontrá-las (ou não)... ponderar, analisar... acho q isso é mais importante, tanto para quem escreve, como para quem lê. Existem respostas prontas? Se existem, ainda não as encontrei. Q Deus me ajude! rs
Aluízio Couto , Ouro Preto-MG - estudante
Enviado em 28/10/2009 às 11:53:45 AM
Professor, uma pergunta, evidentemente, não exclui a outra. Quando alguém diz que "há um Deus...", devemos também nos preocupar com as premissas. Marcelo, seu comentário me pareceu completamente destituído de sentido. Mas só um apontamento: alguns ateus também tiveram (e alguns ainda têm) simpatia por um tipo de profecia. Vide a dialética hegeliana.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 27/10/2009 às 11:25:11 PM
Fica até engraçado citar "profetas do ateísmo moderno", porque até onde se sabe esse negócio de profetas e profecias não foi invenção dos ateus, MUITO pelo contrário. Mas a nova tática cristã é chamar Ciência de dogma e dogma de Ciência. Daqui a pouco, seguindo esta astuta lógica da inversão, vou acabar convencido de que se deus existe é porque nós não existimos. Daí talvez faça sentido diante da total falta de sentido. Enfim, outro artigo dissimulado pró-"ciência" da Teologia.
Edson Marcon , Manaus-AM - Professor
Enviado em 27/10/2009 às 6:10:48 PM
¨(...)quais premissas sustentam sua conclusão de que Deus só existe dentro da cabeça daqueles que nele creem.¨ E quais premissas sustentam a conclusão de que existe um deus FORA da cabeça daqueles que nele creem ??
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Aluízio de Araújo Couto Júnior

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