ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 562 - 17/11/2009
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CASA BRANCA vs. FOX
Copo meio cheio

Por Lúcia Guimarães, de Nova York em 4/11/2009

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 2/11/2009; intertítulos do OI

A última semana começou com um número que preocupou muitos jornalistas americanos. A rede CNN despencou para o quarto lugar de audiência do jornalismo na TV a cabo. E a Fox, comemorando sua condição de "perseguida" pelo governo Obama, disparou para um folgado primeiro lugar.

A CNN inventou o jornalismo de 24 horas e o fundador da Fox, Roger Aisles, inventou o comício eletrônico travestido de jornalismo.

Desde que uma assessora de Barack Obama fez o calculado primeiro disparo, no dia 12 de outubro, afirmando que a Fox não passa de uma ala do Partido Republicano, comentaristas de variada coloração ideológica discutem a sensatez da tática.

América desprezada

A venerada Primeira Emenda da Constituição americana, que garante a liberdade de expressão, imprensa e religião, é invocada frequentemente pelos que não acreditam nela.

No ciclo viral de notícias, a estupidez se propaga com a velocidade da luz. Exemplo: Barack Obama foi comparado a Richard Nixon, o garoto-pôster da perseguição à imprensa. Desde quando um presidente que se indispõe com a imprensa ou setores dela é uma anomalia? E qual é a semelhança entre Nixon, notoriamente paranoico e conspirador, que grampeava e ameaçava jornalistas, e o atual presidente americano?

Um excelente artigo editorial no Wall Street Journal assinado por Thomas Frank, cujo espaço é um oásis de sensatez entre as tropas de choque de Rupert Murdoch, lembrou que a perseguição nas mãos das "elites" é um dos motes da rede Fox.

O levante conservador americano a partir da década de 1990 alimentou-se desta falácia narrativa – entre Nova York e Los Angeles, a middle-America é explorada e desprezada pelas hordas de privilegiados que comem rúcula e dirigem carros híbridos.

Ópera-bufa

Frank oxigenou o debate com dois argumentos: Obama está certo, a Fox News é um contínuo talk-show conservador. Ela foi criada pelo homem que salvou a carreira de Nixon na década de 1960, reinventando o futuro presidente para a TV. Roger Ailes perde seu sono com a Primeira Emenda tanto quanto eu perco o meu com golfe.

Obama está errado na forma desajeitada como colocou a rede na berlinda. Frank diz que a Casa Branca "jogou gasolina numa fogueira" ao alimentar as teorias conspiratórias da rede adversária quando podia ter apelado para o humor, a ironia e o sarcasmo (ver, neste Observatório, "A mídia como partido político" e "Contra-ataque com guinada populista").

Um bom cursinho preparatório para enfrentar jornalista crasso é assistir a gravações não editadas das coletivas de John Kennedy, que reagia com um humor relaxado de quem está diante de um Martini e não de um microfone.

E assim voltamos a uma fundação que tem aparecido com frequência na imprensa americana. O Pew Research Center for the People & the Press toma o pulso do público americano em sua reação à mídia. O centro se tornou uma fonte preciosa de informação neste momento de confluência de duas angústias coletivas: a crise econômica na mídia tradicional e a epidemia de jornalismo ideológico.

A última pesquisa do Pew Center confirma o que sabemos: o papel da ideologia no consumo de notícias é cada vez maior. E a Fox é vista como a mais ideológica das redes de cabo. Explica-se o quarto e último lugar da CNN, atrás até de sua parente, o canal HLN, um híbrido de notícias curtas e talk-shows. A rede, apesar de vista pela maioria como "liberal" (à esquerda do espectro político americano) e de abrigar figuras como Lou Dobbs, o profeta do apocalipse causado por imigrantes, não se posiciona como pró ou contra Obama. A ópera-bufa da esquerda e da direita no cabo é protagonizada pela MSNBC e a Fox.

Cólera da Fox

Enquanto o musculoso e peripatético Anderson Cooper enxuga as lágrimas com a queda de mais de 70% da audiência de seu programa em horário nobre na CNN, vale a pena notar um número mais interessante para quem acredita que o jornalismo tem um papel em qualquer democracia.

O site cnn.com de notícias está muito à frente das rivais. O publisher do New York Times, Arthur "Pinch" Sulzberger, fez analogias com o Titanic, ao ser consultado, num evento público, sobre o futuro dos jornais mas não destacou outro dado: o seu notável site teve sólidos 21 milhões e 500 mil visitantes únicos em setembro.

Vou argumentar que o declínio do jornal impresso convive com o apetite por noticiário objetivo. Já a falta de apetite pelas aventuras de Anderson Cooper pode mostrar o que acontece quando o jornalismo fica com o ouvido no chão, tentando detectar o tropel dos cavalos.

A revista Time perguntou aos leitores, logo após a morte do lendário Walter Cronkite, em julho, qual o âncora em que os americanos mais confiam. Jon Stewart, o comediante com vasta audiência jovem e apresentador do falso telejornal The Daily Show, ganhou disparado, com 44% de votos. Um sinal de triunfo da ironia como embalagem da notícia?

Em 2008, metade dos espectadores da Fox tinha mais de 63 anos e a maioria dos espectadores dos programas mais agressivamente ideológicos da rede era formada por homens. Os números foram citados por Louis Menand, na New Yorker, que comparou a cólera da Fox a um Viagra político.

Estou enganada ou há uma luz demográfica no fim deste túnel?

Comentários (4)
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marcos muniz , sao paulo-SP - comerciante
Enviado em 7/11/2009 às 11:25:03 PM
Acho que o presidente lula,tem que fazer algo parecido aqui no Brasil,.digo por os donos de jornaloes em seu devido lugar, entao veremos como funciona,porque é muito facil dizer o que quer usando o aparelho televisivo opinando as cores preferidas e achar que pode ser intocavel..parabens ao pres.obama,espero tbm atitude do pre.do Brasil contra o PIG....
Dante Caleffi , Rio de Janeiro-RJ - Publicitário
Enviado em 5/11/2009 às 5:44:15 PM
Já é um progresso. Ao invés do colonizado "Manhattan Conecction",emitir opiniões inteligentes sobre o que ocorre na antiga metrópole. Imagine programa equivalente,transmitido para Paris,Londres Moscou ou mesmo Roma. Traço ,já seria muito na audiência. Com a agravante tupiniquim, de reunir reacionários&fascistas sob a mesma câmera. Ainda assim, parabéns pelo gesto de independência. Aquele retrógrado machismo, reduziu sua talentosa participação. Avanti !
Carlos N  Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 4/11/2009 às 11:17:27 AM
METADE dos espectadores da Fox tem mais de 63 anos? Como eu queria que essa fosse a média de iddade dos leitores da VEJA...
Carlos N  Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 4/11/2009 às 11:13:39 AM
Gostei do conselho sobre o Kennedy e o martini. Mas que o Lula não o ouça. Com o Churchill até que deu certo, mas não funcionou como Jânio.
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