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ARMAZÉM LITERÁRIO
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
PT E A MÍDIA
O jornalista, escritor e professor Bernardo Kucinski lançou em São Paulo, em 2 de agosto, seu livro As cartas ácidas da Campanha de Lula de 98 – que reúne as 52 mensagens enviadas por e-mail, a cada madrugada, ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva e ao comando da campanha, a partir da leitura crítica da mídia.
Diz Lula a respeito das Cartas Ácidas:
"Eu recebia cada carta ácida logo cedo. Às vezes, nem precisava mais ler os jornais, eu lia a carta ácida e já sabia as cascas de banana que estavam no caminho de nossa campanha. Sem elas, a campanha teria sido diferente. Então, quando eu ia conversar com a imprensa, por exemplo, já estava com a adrenalina preparada para as provocações. [...] É preciso que as pessoas tenham acesso a informes como as Cartas Ácidas para perceberem como é que a imprensa trabalha sem isenção em uma campanha eleitoral."
(*) As cartas ácidas da Campanha de Lula de 1998, de Bernardo Kucinski, Editora Ateliê Editorial, São Paulo, 2000; 255 pp; R$ 22,00; e-mail <atelie_editorial@uol.com.br>; fone (11) 7922-9666
O que são as cartas ácidas
Bernardo Kucinski
Todas as manhãs, onde quer que estivesse, durante a campanha presidencial de 1998, Lula recebia um e-mail, analisando a mídia e os fatos do dia anterior, antecipando o dia que começava, sugerindo iniciativas, falas e atitudes, tudo o que pudesse ajudar a ganhar a eleição. Eram as "cartas ácidas". Apenas 30 a 40 linhas escritas em linguagem telegráfica, forte. Iam para ele e para mais quatro dirigentes da campanha.
A eleição foi perdida, como sabemos, e a culpa pode até ter sido das cartas ácidas. Mas uma culpa paradoxal. Acontece que as cartas ácidas anteciparam toda a crise do Real, o que permitiu a Lula e ao comando da campanha a elaboração de um discurso vigoroso e maduro de alerta contra a crise e contra a demagogia de Fernando Henrique Cardoso. O povo não queria esse discurso. Queria tanto acreditar em Fernando Henrique que votou nele mesmo sabendo que ele mentia quando esticava os cinco dedos de promessas. Assim, Lula saiu derrotado no voto, mas moralmente vencedor, porque só falou verdades. Não foi um ventríloquo de marqueteiros.
A idéia de publicar as "cartas ácidas" em livro foi do próprio Lula e encontrou alguma resistência dentro do PT. Afinal, as "cartas ácidas" revelam táticas que em outros partidos seriam consideradas segredo de campanha. E algumas tratam de episódios sensíveis – como foram as tentativas de difamar Lula, com a cumplicidade de alguns veículos de imprensa. Sua publicação mostra que o PT não tem nada a esconder. Lula termina seu depoimento no livro com essas palavras: "Eu acho que é preciso que principalmente estudantes de jornalismo tenham acesso a informes como as Cartas ácidas, para perceberem como é que a imprensa trabalha sem isenção em uma campanha eleitoral".
Foi Lula quem as batizou de "cartas ácidas", porque ele me acha, com razão, ácido e sempre mal-humorado.
A primeira Carta Ácida foi enviada no dia 27 de julho de 1998, quando o assunto quente era o escândalo da falsificação dos medicamentos. É impressionante como o tema dos remédios continua nas manchetes, dois anos depois. Sobre isso eis o que dizia a Carta Ácida nº 1:
"Além de seu poder simbólico, o escândalo da falsificação dos remédios afeta grande número de brasileiros. Ao contrário da privatização, que para a maioria das pessoas é uma coisa abstrata, o remédio está no dia-a-dia das crianças, dos idosos, dos doentes crônicos. E apesar de o governo ser o culpado, quem está faturando é o José Serra.
Proponho um ataque em várias etapas:
Primeira etapa, imediata: jogar a frase de que o escândalo dos remédios falsos é mais um ‘incêndio de Roraima’. Há anos as multinacionais vinham alertando que cerca de 30% do mercado era de remédios falsificados. E o que fez o governo? Nada. Há dois anos, o ministro da Saúde Adib Jatene também advertiu o governo . E o que fez o governo? Nada. Agora , corre para apagar o incêndio que poderia ter evitado.
Segunda etapa, que pode ser iniciada desde já: entrar no mérito da crise dos remédios mostrando o outro motivo das falsificações: o preço dos remédios no Brasil está entre os mais altos do mundo. Falsificar remédio dá mais lucro do que o Proer. E por que os remédios custam tão caro no Brasil? Porque o governo Fernando Henrique liberou os preços dos remédios, depois de 40 anos de preços controlados. Liberou alegando que haveria competição. Mas a única competição é entre remédio caro e remédio falsificado. Qualquer dona de casa sabe que médico não compete com outro. Que o médico receita um determinado nome de medicamento e não o nome genérico da substancia ativa. Resultado: somente durante o Real, os preços dos remédios subiram de 50% a 70%. O faturamento da indústria farmacêutica quase dobrou de 6,2 bilhões de dólares em 1994 para 11 bilhões de dólares em 1998. Alguns remédios dobraram de preço."
A Carta Ácida nº 10 (de 7/8/98) faz um balanço geral do comportamento da mídia naquele início de agosto. Eis seu trecho inicial:
"Repetem-se práticas que já conhecemos de outras campanhas, tais como a desqualificação do Lula, o ocultamento ou não divulgação das propostas do PT, as fotos desajeitadas do Lula, etc.
Vou me concentrar naquilo que eu acho diferente nesta campanha. A base de nossa desvantagem está no fato de que pela primeira vez temos do outro lado não apenas um adversário mas todo um elenco de ministros. A outra particularidade é de que todos agem na certeza de que FHC já está reeleito. Outros aspectos:
1. Os colunistas, em geral, estão sendo mais isentos, e vários deles bem críticos ao FHC. Minha impressão é de que agem assim porque têm como certo que FHC vai ganhar e que logo em seguida virá o arrocho, senão coisa pior. Nessas condições privilegiam resguardar sua credibilidade. Também são mais independentes hoje, trabalham em casa, e têm melhor formação do que a massa do reportariado.
2. Algumas reportagens isoladas dos jornais também têm sido bem críticas ao governo, mas sem vincular as críticas à uma outra opção eleitoral.
3. As principais e mais sistemáticas agressões ao Lula originam-se da revista Veja, TV Globo, e os dois diários de São Paulo, Folha e Estado. Veja faz hoje no jornalismo escrito o papel da TV Globo na mídia eletrônica: pretendem defender interesses da classe média mas agem para impor a todo custo o consenso de Washington. A diferença é que Veja usa a falsidade e a difamação, TV Globo age mais bloqueando o acesso a Lula. O Estado de S.Paulo faz simplesmente o que sempre fez. A Folha está diferente: demonstra mais vontade de provocar o PT e fazer molecagens do que nas campanhas anteriores.
4. Os mecanismos ativos mais freqüentes desta vez são: grande pressão sobre a personalidade de Lula; manchetes distorcidas, irônicas ou insultantes; fotos desagradáveis de Lula, cobertura muito mais ampla e de caráter mais respeitoso do FHC e de seus planos
5. A Gazeta Mercantil cobre a campanha dando como certa a vitória de FHC, alocando espaço diminuto a Lula.
6. Jornais cariocas têm sido em geral mais honestos e objetivos."
Eduardo Jorge e Lalaugate
Eu continuo a fazer esse exercício regular de análise da mídia, só que agora uma vez por semana, aos domingos. É oferecido como um serviço do Instituto Cidadania a cerca de 60 lideranças do campo popular – o Lula no topo da lista. Para distinguir das Cartas Ácidas, eu as chamo de Carta Crítica. Gostaria de passar aos leitores do Observatório da Imprensa o essencial da Carta Crítica nº 16, enviada em 9 de julho deste ano, logo depois da entrevista de Eduardo Jorge ao jornal Valor que deflagrou a atual crise política:
"O cadáver político de FHC
As reações da mídia nas próximas três semanas à entrevista de Eduardo Jorge Caldas Pereira ao jornal Valor indicarão se a burguesia ainda considera FHC indispensável ao seu projeto estratégico e vai tentar abafar este escândalo,como abafou os anteriores; ou se, ao contrário, vai romper com o ‘consenso de Brasília’ (aquela famosa reunião com os barões da imprensa em maio de 1998) e rifar FHC porque ele se tornou um risco excessivo a esse mesmo projeto estratégico. Como a entrevista saiu na quinta-feira, já era tarde para as revistas semanais e jornais de domingo investirem coisa grande.
Objetivamente, a segunda hipótese é mais lógica porque permitiria à burguesia livrar-se do cadáver político de FHC, que já está apodrecendo e tornando difícil até mesmo fazer uma campanha municipal. O pacto político entre a opinião pública e FHC já se quebrou, segundo um analista citado por Sonia Racy no Estadão. Resta saber se nessas condições pode ser mantido o pacto buguesia-FHC. Note-se a discussão na chamada ‘base aliada’, de como tratar a imagem putrefata de FHC nos comícios em que inevitavelmente seu nome será vaiado. Antecipar o fim do mandato de FHC , colocando em seu lugar Marco Maciel, seria uma forma de reassumir o controle da situação através de uma mudança completa de cenário, sem que nada mude na substância. Uma bela jogada. FHC já foi a grande solução para a burguesia. Hoje é seu grande problema.
O modelo jornalístico referencial do comportamento da mídia nesses casos é o Watergate, que fez a cabeça dos jornalistas dos anos 70 e 80. Nesse modelo, os meios mais poderosos de comunicação disputam entre si o mercado e a primazia do ‘furo’ jornalístico, criando uma espiral crescente de revelações que acaba derrubando um presidente – desde que isso convenha ao sistema. Deu certo com Nixon em Watergate, porque convinha ao establishment. Não deu certo com Reagan no Irã-Contragate, caso muito mais grave, porque o sistema e os próprios editores concluíram que não seria conveniente. Deu certo Com Collor, porque a disputa jornalística feroz entre Veja e IstoÉ tinha com pano de fundo o repúdio da burguesia à maquina de extorsão de PC Farias e o repúdio da classe média ao confisco da poupança. Os Civitas demoraram a se decidir por publicar a entrevista de Pedro Collor. Sempre há instâncias de mediações entre o jornalista e o sistema.
A entrevista de Eduardo Jorge a Valor não pode ser descontextualizada do sistema ao qual o jornal pertence: um conglomerado empresarial Folha-Globo. Ou seja, o próprio sistema. O fato de a Folha já ter saído na frente mais de uma vez, expondo a corrupção em FHC, não pode sr explicado apenas pela linha denuncista e crítica do jornal, mas também por corresponder a um anseio pela abreviação de um segundo mandato que nasceu morto, criando assim um vazio político de quatro anos. Valor deu mais um passo nessa direção. Ao que parece: (a) sem antecipar toda a extensão da revelação e, portanto, sem que tenha havida necessariamente muita mediação); (b) por desespero de mercado, pois se o jornal não emplacar e corre o risco de torrar todo o seu capital de 50 milhões de dólares e ter que fechar as portas; (c) dando a Eduardo Jorge a oportunidade de vender uma explicação para os 117 telefonemas que recebeu do foragido juiz Lalau.
Primeiras reações
Mesmo sem terem muito tempo, e ainda indecisos, os meios de comunicação já trouxeram algumas nova revelações. A Folha investigou os procedimentos nos dissídios coletivos em São Paulo e desmontou a explicação de Eduardo Jorge. O poder dos juízes classistas de derrubarem o Real ficou igual aquela desculpa para ajudar o Banco Marka – o pretexto de que o mercado financeiro corria risco sistêmico.Valor também mostra que a explicação está furada, numa reportagem que por outro lado mostra um TRT corrupto, no qual cargos de juizes classistas eram vendidos por até 50 mil dólares. O Estadão mostra que sete assessores de Eduardo Jorge foram trabalhar no gabinete de Luiz Estevão. Época saiu com reportagem sobre as conexões da indústria de grilagem de terras em Brasília com Joaquim Roriz. Da mesma ‘tchurma’.
O potencial do Lalaugate
Sobre o caráter potencialmente explosivo do Lalaugate não há dúvidas. Depois de tentar cooptar os jornalistas num café de manhã ainda na sexta-feira [7/7/00], no qual o tiro saiu pela culatra, FHC decretou a lei do silêncio sobre o caso. O ambiente no Palácio, segundo um jornalista, é de ‘mal-estar absoluto’. Até Luiz Estevão reclama: é evidente que falta o cabeça. Boris Casoy vivia dizendo: falta alguém graúdo no caso Lalau. Essa é a pergunta na boca de todos. Quem mais está faltando? Onde foram parar os 160 milhões de reais nunca recuperados?"
RESENHA
Para compreender a campanha de 98
Victor Gentilli
As cartas ácidas da campanha de Lula em 1998 são um documento fundamental para todo estudioso que queira compreender a campanha eleitoral em que Fernando Henrique conseguiu sua reeleição. Seu autor, Bernardo Kucinski, é um jornalista de velha cepa: não se contaminou com as novidades mercadológicas que fizeram do jornalismo brasileiro este amontoado de informações desimportantes e descontextualizadas.
Parceiro de uma série de outros jornalistas, o nome de Bernardo pode ser encontrado em todas as listas negras de nossos jornais. Bernardo é da melhor safra: aquela que viu seu acesso aos cargos dirigentes de jornais cerceado definitivamente após a greve de 1979. Depois disso, veio a ANJ, o marketing jornalístico acompanhando o marketing político.
Desde então o autor dedica-se à pesquisa e ao ensino de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP. Mas preserva a velha amizade com Luiz Inácio Lula da Silva.
Limitado a pensar
As cartas ácidas começaram a ser enviadas por fax, na campanha de 1994. Elas surgiram porque o autor observou que o acúmulo de tarefas práticas na militância criava um fato perturbador: muitos trabalhavam na campanha, poucos se dispunham a pensar a campanha.
Na campanha de 1998, Bernardo limitou-se a pensar. Via os programas eleitorais e os telejornais; na madrugada, ia buscar na internet os jornais do dia seguinte. Pela manhã cedinho disparava diariamente uma carta áspera. E aquilo que ele pensou para a campanha era enviado por e-mail, a Lula e a outros integrantes da cúpula da campanha.
No conteúdo das cartas, o leitor encontrará muita reflexão sobre a política e o jornalismo brasileiro. O autor não explica muito, tudo é telegráfico. Afinal, ele escreve para meia dúzia de leitores que não podem perder tempo, mas conseguem compreender claramente o sentido das mensagens. Escrever mais do que isso é perda de tempo para quem está no dia-a-dia de uma campanha presidencial. Por isso, é necessário muita atenção na leitura destes documentos.
As cartas são frias, mas mostram os fatos que mereciam manchetes embora estivessem escondidos em cantos de páginas. Por exemplo: Lula sabia, sempre – pela leitura dos jornais que Bernardo Kucinski fazia –, das centenas de bilhões de dólares que iam escorrendo para fora do país à medida em que a crise apertava. Ainda em 15 de setembro, BK iniciava sua carta suspeitando "que o governo já negocia com o FMI, bem discretamente, de forma que os banqueiros fiquem sabendo disso, mas o povo ainda não".
Bernardo oferecia sugestões, mas sabia que estava numa luta inglória. Tinha dois inimigos poderosos: FHC e a mídia.
A principal qualidade deste novo livro de Bernardo Kucinski é a valorização do verdadeiro jornalismo e da grande política. Quem procurar lições de marketing político não vai encontrar nada. Eis o maior mérito deste livro.
ENTREVISTA / ISABEL LUSTOSA
Insultos impressos
Isabel Lustosa (*), 45 anos, é formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu doutorado em Ciência Política – defendido em 1997, no IUPERJ – foi conquistado com a tese Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência, que agora sai em livro (Companhia das Letras, 2000, São Paulo, 497 pág., R$ 35).
Realizou duas exposições no BNDES sobre o Rio de Janeiro dos anos vinte (1992) e sobre caricaturas de presidentes brasileiros (1993). Atualmente chefia o Setor de História da Casa de Rui Barbosa, onde trabalha como pesquisadora desde 1985. Dirigiu a área de pesquisa do Museu da República (1989/1990) e trabalhou no Patrimônio Histórico, IPHAN (1991/1992).
Esta é a entrevista de Isabel Lustosa a Alberto Dines a próposito de seu novo livro, da imprensa de hoje e d’antanho.
Vê alguma semelhança – não no estilo, mas no espírito – entre a imprensa do período que você examinou (1821-1823) e a contemporânea? Robert Darnton, o especialista na vida cultural francesa nas vésperas da Revolução, em artigo recente no New York Review of Books e republicado no caderno Mais!, na Folha (30/7/00), tenta demonstrar que além das tecnologias e da escala, muito pouca coisa mudou. Você também pensa assim?
Isabel Lustosa – Robert Darnton é referência fundamental para o meu trabalho. Seus estudos sobre a imprensa e a literatura boemia durante o processo da Revolução Francesa inspiram e orientam o meu livro. Ao mesmo tempo, a utilização dos métodos de análise e mesmo a orientação da escolha de seus objetos de análise encontraram na antropologia (principalmente sob a influência de Clifford Gertz), desde O grande massacre dos gatos, um caminho novo e instigante que tem se mostrado profícuo para as novas gerações de historiadores.
O excelente artigo publicado na Folha segue a linha de seus trabalhos anteriores e chama a atenção para um aspecto que também me fascinou no período que trabalhei: o importante papel da intriga no processo político e sua influência sobre a imprensa do tempo.
Darnton diz que cada era terá sido, à sua própria maneira, uma era da informação e que os sistemas de comunicação sempre moldaram os acontecimentos. Todo o meu trabalho em Insultos Impressos se direcionou para a demonstração de que aquela imprensa precária, de jornalistas anônimos, muitas vezes incultos, agressivos, passionais, usando muitas vezes um linguajar pra lá do chulo, fez a Independência do Brasil. Foi ela que orientou o processo, provocando acontecimentos fundamentais como o "Fico", a Assembléia Constituinte, a queda dos Andradas e o fechamento da Assembléia. De certa maneira seu papel foi tão fundamental para seu tempo (ou talvez ainda maior) quanto o é o da imprensa contemporânea.
Pode-se distinguir alguma diferença entre Hipólito José da Costa e os outros?
Isabel Lustosa – Sempre me pergunto o que levou um homem como Hipólito, afastado do Brasil desde os 17 anos, a produzir o Correio Braziliense. Um jornal que começou a ser publicado em Londres, em 1808, poucos meses depois que D. João VI chegou ao Brasil. Um jornal que defenderá os interesses brasileiros, associados mas sempre acima dos interesses do império lusitano. Hipólito é o idealista, o homem do Iluminismo por excelência, tem um projeto para o Brasil que se vincula ao ideal da construção de uma grande pátria americana, orientada pelos novos valores da humanidade, os valores do liberalismo monárquico constitucional que ele via com sucesso serem implementados na Inglaterra.
Creio que Hipólito, por sua situação peculiar, acaba por se distinguir muito dos homens de seu tempo. Hipólito era o puro ideal; os demais, metidos na corte do Rio de Janeiro, representavam idéias que, com raras exceções, estavam comprometidas por interesses locais. Não que isso os diminua, mas faz diferença. Sem contar que, de todos eles, Hipólito é o dono do texto mais arejado e contemporâneo, merecendo por inteiro o belo elogio que lhe fez Antônio Cândido em sua História da Literatura Brasileira.
Você encontrou, no período, aquele movimento pendular característico da política brasileira em que os libertários, quando chegam ao poder, tornam-se anti-liberais ?
Isabel Lustosa – O período que trabalhei foi muito curto, mas como o observei detidamente pude me deparar com situações bem engraçadas. O exemplo melhor é o de Cairu, que, defensor intransigente da censura, da repressão aos "pregoeiros de desordens", como chamava os liberais que seguiam a linha do constitucionalismo francês, depois da instauração da Assembléia Geral Legislativa e Constituinte do Brasil, em maio de 1823, mudaria de pensar. Ele condenaria com veemência os deputados que exigiam que se remetessem ao Juízo de Jurados os autores de cartas anônimos publicadas no Diário do Governo contra a Assembléia: "Por que não se deixa a verdade lutar com a falsidade em solitário duelo sem padrinhos?", perguntava. Era justamente a tese dos que defendia a liberdade de imprensa.
Outro caso impressionante é o dos Andradas que, 15 dias após serem apeados do ministério começaram a publicar O Tamoio, jornal que, já pelo nome (a tribo que no período colonial se aliou aos franceses contra os portugueses), atacava os portugueses em geral e o imperador, em particular. Os Andradas, por intermédio de seu jornal, foram os críticos mais impiedosos do regime e sua ação na imprensa foi o que provocou a violenta reação de D. Pedro I, fechando a Assembléia.
Quer dizer: o movimento pendular neste caso foi no sentido contrário – os autoritários é que, a partir da liberação do prelo, perceberam a importância fundamental da palavra impressa na formação das consciências e como fator de reação. Mas, ao longo da história, a gente sabe que os que sobreviram tiveram muitas oportunidades de mudar de lado.
Explique a opção de escrever um trabalho densamente investigado numa linguagem viva, anti-acadêmica.
Isabel Lustosa – Venho de uma família de intelectuais de província. Antes do advento dos modernos meios de comunicação no Ceará, e vivendo numa família católica muito conservadora, sobravam como opção de lazer apenas os velhos romances franceses, em boas traduções da biblioteca do meu irmão, Lustosa da Costa. Crescemos cultivando o amor às belas-letras, à boa palavra, ao dito espirituoso, dando valor a essas bagatelas que estão meio fora de moda: uma certa vaidade do escrever bem, o cuidado com o estilo, a preocupação de agradar ao leitor, de não ser pesado, nem aborrecido. Naturalmente que paga-se um preço por isso e a facilidade de acesso ao seu pensamento pode às vezes ser confundida com leveza de conteúdo. Que remédio, não é mesmo? Tendo que escolher, preferi ser fiel aos meus valores e continuar escrevendo coisas que a minha mãe possa ler. Ao mesmo tempo, ver este estilo ser reconhecido como uma qualidade importante do meu livro, tal como sugere a sua pergunta, me parece já ser compensação suficiente.
(*) Autora de Histórias de Presidentes - a República no Catete, Brasil pelo método confuso - humor e boêmia em Mendes Fradique e Nássara – o perfeito fazedor de artes. Escreveu dois livros de história do Brasil para crianças: O Chico e o avô do Chico (Prêmio Carioquinha 1996 – Prefeitura do Rio de Janeiro) e História dos Escravos (Companhia das Letrinhas, 1998).
ASPAS
Robert Darnton
"Rede de intrigas", copyright Folha de S. Paulo, 30/7/00, tradução de Clara Allain.
O historiador discute como a fofoca, as canções populares e os folhetins movimentavam as notícias na França do século 18. Clique aqui para ler o texto.
Jean Marcel Carvalho França
"Gazeteiros apaixonados", copyright Folha de S. Paulo, 30/7/00
"Em abril de 1823, no número inaugural do ‘Sentinela da Liberdade’, Cipriano Barata, um dos mais atuantes jornalistas do Primeiro Império, lamentava a quantidade exorbitante de ‘gazeteiros’ então em atividade no Brasil, gazeteiros que, segundo ele, publicavam ‘coisas que pouco ou nada’ podiam ‘contribuir para a ilustração de povos livres’. Barata tinha certa razão, era realmente notável o número de gazetas que, desde a liberação da imprensa em 1821, circulavam pelo país. Evaristo da Veiga, outro influente jornalista do período, informa que, por volta de 1823, eram publicados cerca de 54 jornais pelo Brasil afora, 16 deles na corte. Tratava-se, em geral, de periódicos de vida curta, tiragem limitada, linguagem virulenta e, acima de tudo, linhas editoriais apaixonadamente partidárias. Em ‘Insultos Impressos’, livro da historiadora Isabel Lustosa, o leitor encontrará um esclarecedor mapeamento desse jornalismo passional e desmedido dos tempos de Barata. Debruçando-se sobre os periódicos editados na corte entre 1821 (o regresso de dom João 6º para Portugal) e 1823 (dissolução da Assembléia Constituinte), Lustosa identifica os principais jornalistas em atividade no período, analisa os seus estilos, demarca as suas posições políticas e reconstitui as principais polêmicas em que se envolveram. Ao término do percurso, o leitor sai não somente com uma visão detalhada dos três primeiros anos de existência da imprensa livre no Brasil, como ainda com um quadro amplo das discussões sobre os destinos do país travadas no seio da emergente elite política nacional. A história narrada em ‘Insultos Impressos’ tem início no primeiro semestre de 1821, meses antes do regresso de dom João 6º a Portugal. O ponto de partida de Lustosa é a atuação de dois periódicos: o ‘Conciliador do Reino Unido’, jornal governista editado pelo respeitado José da Silva Lisboa (futuro Visconde de Cairu), e o ‘Correio Brasiliense’, editado em Londres pelo mais importante jornalista brasileiro do período joanino, Hipólito José da Costa. Desses jornais pioneiros, de estilo educado e pedagógico, a pesquisadora passa àqueles de tom mais agitado e contundente, como o ‘Revérbero’, de Januário da Cunha Barbosa e Gonçalves Ledo, o ‘Espelho’, órgão semi-oficial redigido por Manuel de Araújo Ferreira Guimarães, e ‘A Malagueta’, do polêmico Luís Augusto May.
Consciência patriótica
Lustosa, analisando os debates suscitados nesses periódicos pelas medidas recolonizadoras que a corte portuguesa queria impor ao Brasil, põe em relevo o quanto tais debates influíram no rumo dos acontecimentos, mobilizando a opinião pública, despertando a consciência patriótica e, sobretudo, influenciando o comportamento do ainda inexperiente dom Pedro. Mais adiante, a autora põe em cena outro periódico, o ‘Correio do Rio de Janeiro’ (1822), de José da Silva Lisboa. Lustosa dedica muitas páginas de seu livro a esse singular personagem do alvorecer da imprensa brasileira.
Homem pobre e de pouca instrução, esclarece-nos ela, Lisboa compensava as suas carências intelectuais com um estilo apaixonado e popular, o que acabou por garantir-lhe um espaço nada desprezível nos debates políticos da época. Um dos muitos e polêmicos artigos que publicou levou-o às barras dos tribunais e fez dele o primeiro jornalista brasileiro processado por abuso da liberdade de imprensa.
A historiadora nos conduz ainda, sempre por meio das inflamadas e nem sempre edificantes polêmicas estampadas nos periódicos da corte, ao ‘grito do Ipiranga’, à ascensão e queda do gabinete de José Bonifácio de Andrada, à instalação da Assembléia Constituinte e à dissolução da mesma em 1823. Pelo caminho, entre dezenas de outros aspectos, dá a conhecer a perseguição que sofreu a imprensa durante o governo dos Andradas, os combates entre a Assembléia Constituinte e o ‘Diário do Governo’, a violenta campanha antilusitana movida por certos órgãos da imprensa em 1823 e, como anuncia o título do livro, os muitos excessos verbais (e não só) cometidos pelos inflamados polemistas da época.
A esse propósito, a historiadora narra um caso exemplar envolvendo o próprio dom Pedro. Conta-nos ela que, em 1823, o Imperador do Brasil publicou um artigo anônimo no ‘Espelho’, no qual atacava o redator de ‘A Malagueta’, Luís Augusto May, da maneira mais grosseira possível, indo ao extremo de insinuar que May mantinha relações homossexuais com seu protetor, o conde das Galveias. Haveria muitíssimo mais a destacar nesse excelente ‘Insultos Impressos’. O melhor, porém, é que o leitor recorra diretamente ao livro, que cedo deverá se tornar uma obra de consulta obrigatória para todos os que se interessam por aquele rico e conturbado período da história pátria -primeiro quarto do século 19-, durante o qual teve início a construção das bases do Estado e da cultura nacionais."
Fernando Savater
"A importância do efêmero", copyright El País / Folha de S. Paulo, 23/7/00
"Em certa passagem do ‘Tao-te King’, dão-se conselhos de como fazer política e compara-se esse ofício com a arte de fritar peixes pequenos: é preciso que o fogo não seja tão forte a ponto de estorricá-los nem tão fraco a ponto de ficarem crus. No meu entender, o segredo para escrever bons artigos reside em um equilíbrio parecido. As idéias devem ser tratadas como peixinhos: se você as cozinhar demais, terminarão carbonizadas e indigestas; se apenas as insinuar, o leitor ficará com vontade de saber o que você realmente queria dizer. Uma das realidades fundamentais acerca dos jornais pertence à escola de La Palisse: recebem o nome de diários porque aparecem todos os dias. Nenhum artigo, por melhor ou certeiro que seja, sobrevive muito além do dia em que sai impresso. Pelo menos não é saudável que quem o escreva pense que está cunhando um ditame para os séculos vindouros, devendo contentar-se em se dirigir àqueles que compartilham com ele a luz desse mesmo amanhecer. Isso é uma dificuldade adicional para os aprendizes de filósofo que escrevemos na imprensa, pois todos sonhamos em arengar as gerações futuras. Mas os artigos de jornal não se inscrevem no bronze perene, e sim no transitório e reciclável papel.
Tratam não do ser, e sim do passar, como diria Montaigne (que poderia ter sido também um excelente colunista se tivesse nascido um pouco mais tarde). José Bergamín (1897-1983) intitulou ‘As Coisas Que Não Passam’ uma série de colaborações jornalísticas de sua autoria. A arte do articulista com certa aspiração a aprofundar seus temas consiste em falar das coisas que passam como se não fossem passar. É um autêntico desafio, alegre e difícil ao mesmo tempo.
Dia após dia, cada qual tenta vencê-lo -e vez por outra o consegue. Mas sempre se fracassa ao pensar que um artigo é capaz de salvar ou condenar o mundo. Não, o melhor artigo, o verdadeiro ‘bom’ artigo não é mais do que um artigo. Nada mais nem nada menos. Quem são os melhores articulistas de jornal que tivemos o gosto e o proveito de ler? É inevitável começar por Mariano José de Larra, que não fez apenas a sátira dos usos de sua época, mas algo parecido a uma metafísica irônica dos costumes: transformou suas caricaturas em esboços do destino humano, como também conseguira Cervantes. Larra reconcilia-me com a opaca literatura espanhola do século 19. Os artigos de Borges para a revista ‘Sur’ ou aqueles aparentemente ainda mais humildes para o semanário ‘El Hogar’ são micromonumentos perfeitos à página leve que a atualidade arrasta. Ele comenta uma leitura, uma moda ou um preconceito com um toque ligeiro e fundo que resulta irresistível: Borges é um dos poucos articulistas que nos proporciona mais prazer quando discordamos dele do que quando exprime uma opinião que compartilhamos. E, claro - acima de todos? - adoro o Chesterton jornalista. Seus artigos são estritamente ‘mágicos’: nada por aqui, nada por ali, e de repente surge uma brevíssima teoria sobre o que quer que seja, em que se concentra mais pensamento e mais sabedoria que em qualquer pesado volume filosófico escrito por alguns dos meus colegas acadêmicos. O título mesmo de uma de suas recopilações de artigos mostra como Chesterton entendia bem em que consiste a genialidade do gênero: ‘Enormes Minúcias’.
Calhamaços e notas
Larra, Borges e Chesterton e também ilustres predecessores, como Montaigne e Voltaire. Costumo lembrá-los quando algum asno solene, desses tão comuns e que tanta veneração suscitam, menospreza a página perfeita e frágil que ele não seria capaz de escrever, dizendo: ‘Bah, isso é jornalismo!’. Para essa escória, nada é mais respeitável que o pedantismo que ocupa calhamaços e vem com notas de rodapé. Ignoram que a tarefa humana, ao menos desde que a modernidade aposentou as ‘Summas’ mais ou menos teológicas, tem consistido basicamente em ler os jornais.
Agora também essa ocupação parece que se tornará obsoleta, por obra da Internet e seus ‘chats’. Continuarão a existir bons artigos na nova era digital? Seja como for, alguns de nós não vão mais poder nem querer prescindir deles: quando chegar a hora fatal, que me enterrem envolto nas páginas de opinião. Afinal, como qualquer artigo, eu também terei durado apenas a brevidade de um dia."
Valor
"Os jornais da época do ‘rei sujinho que comia franguinho’", copyright Valor, 27/7/00
"D. Pedro I: tempos de imprensa rica.
Diagramação confusa, impressão precária de debates apaixonados, palavrões, piadinhas contra ‘o bom rei que comia franguinhos, era sujinho e tomava banho de mar nos trópicos’, um grave soneto ao lado de anúncio de tratamento de doenças venéreas, crônicas literárias em francês, provocações para brigas. Esse mosaico que caracteriza o nascimento da imprensa no Brasil é tema do livro ‘Insultos Impressos’ (Cia. das Letras, 512 págs., R$ 28,40), de Isabel Lustosa, que acaba de ser lançado.
No começo da imprensa no Brasil, os jornais não noticiavam, produziam acontecimentos. Da partida de d. João VI (abril de 1821) ao fechamento da Assembléia (novembro de 1823), a imprensa, sem lei e sem rei, viveu um de seus momentos mais ricos, variados e fervorosos.
Isabel, pesquisadora da Casa de Rui Barbosa, no Rio, investiga esse período de completa autonomia da imprensa, quando Estado, leitores e jornalistas estavam em processo de formação. A imprensa busca uma definição do formato político que a nação brasileira iria tomar. A imprensa, surgida em 1821, consistia em publicações de periodicidade esparsa, tiragem desprezível (em poucos casos tiveram mais de 200 assinantes) e duração efêmera. ‘Revérbero’, lançado em 1821, com outros panfletos e jornais, teriam papel decisivo no combate às medidas da Corte portuguesa contra o Brasil e, sobretudo, para o Dia do Fico.
A vinda da família real para o país inaugurou, na opinião do crítico Antonio Candido, a ‘época das luzes’. O homem de letras passa a subsituir a aristocracia da ex-colônia. Os jornalistas da época eram políticos envolvidos diretamente com o modelo político que estava ruindo, liberais exaltados, comerciantes maçons, arrivistas e os que simplesmente se aproveitavam da ocasião para se lançar na nova elite intelectual, a recém-criada profissão de jornalista. Os leitores, raros e caros, eram o príncipe regente, os pequenos proprietários e negociantes, donos de escravos fugidos, professores, uma pequena classe média.
Outro aspecto preponderante do livro é a relação da elite com d. Pedro I e deste com o poder e a imprensa. Importante e curiosas as modificações do discurso do príncipe regente, em 9 de janeiro de 1822, Dia do Fico. Prevaleceu o tom solene e nacionalista: ‘Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto: diga ao povo que fico.’
O grande mérito da historiadora é o seu caráter de cronista, de empatia com os jornais que lhe servem de objeto de estudo. Há, sem dúvida, exageros e ufanismos do tipo: ‘Eram brasileiros admiráveis os que atuaram na vibrante cena impressa da Independência.’
Mas a mão leve com a qual retrata a imprensa da época é o melhor método. Não haveria sentido em julgar a imprensa da época com os instrumentos de hoje: diagramação ‘clean’, objetividade, clareza, busca pela imparcialidade e o ‘lead’ perfeito.
Embora seja o resultado de uma tese de doutorado em Ciência Política, a abrangência e a linguagem agradável têm de tudo para conquistar tanto o leitor especializado quanto o mais leigo possível."
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"Uma relação delicada nos anos de chumbo", copyright Valor, 27/7/00
"Um Acordo Forçado: o Consentimento da Imprensa à Censura no Brasil, de Anne-Marie Smith, Editora FGV, 264 págs., R$ 29,00
A imprensa brasileira sofreu do complexo de Caim em diversos momentos da história, sobretudo em 1964, quando funcionou como catalisadora para o golpe militar. A polêmica abordagem é de Anne-Marie Smith em ‘Um Acordo Forçado: o Consentimento da Imprensa à Censura no Brasil’, livro que acaba de ser lançado no Brasil.
Segundo a historiadora americana, a grande imprensa foi complacente com a ditadura militar e os jornais alternativos, ainda que denunciassem as torturas, eram de péssima qualidade. De sua crítica implacável não escapa nem mesmo ‘O Pasquim’. Para Anne- Marie, o jornal era ‘sexista e sistematicamente racista que seria de perguntar alternativa a quê’. Mesmo assim, é preciso lembrar que os tablóides sensacionalistas, a ‘imprensa nanica’, com suas fotos macabras e manchetes exageradas cobriam mais das verdadeiras notícias do que os reputados grandes jornais.
Anne-Marie, de 39 anos, Ph.D. em ciência política pelo Massachusetts Institute of Technology, trabalhou em várias organizações não governamentais no Brasil (onde viveu durante dois anos para compor seu estudo).
Valor: Por que a censura à imprensa no Brasil foi tão peculiar?
Anne-Marie: Todo exercício de dominação é único. A meu ver, a particularidade desse regime e o que moldou o modo como ele tratou não só a imprensa, mas outras instituições sociais, foi o seu duplo desejo de controle e de legitimidade. Por um lado, o regime queria manter o controle e estava disposto a exercer a repressão para tal. Com essa finalidade, não só criou um sistema de censura à imprensa como se envolveu em outras ações repressivas – incomodar jornalistas individuais, não lhes conceder credenciais, persegui-los por meio da Lei de Segurança Nacional, cancelar publicidade do governo, fazer auditoria financeira da imprensa, confiscar publicações, etc. Ao mesmo tempo, o regime negava a existência de censura, chamava suas proibições de notícias de meros ‘bilhetinhos’ e recusava-se a colocar uma assinatura de autorização neles. Ele fazia de tudo para negar e insistia na manutenção da liberdade de imprensa. Isso condiz com a maneira particular com que o regime militar tratou outras instituições. O regime aprovou leis que violavam a Constituição, mas nunca aboliu a Constituição; fez expurgos e reduziu muito o poder do Congresso, mas nunca o aboliu; impôs restrições severas à realização de eleições, mas elas continuaram sendo realizadas. É o mesmo padrão particular – peculiar, talvez. O regime era poderoso, mas seu desejo de legitimidade, entre outros fatores, pôs limites ao que ele poderia fazer e moldou as suas práticas.
Valor: Qual seria a diferença entre censura prévia e autocensura?
Anne-Marie: A censura ‘prévia’ ocorria ‘depois’ que um assunto havia sido selecionado, pesquisado e escrito. E a ‘auto’ censura era menos auto-imposta e mais um sistema rigoroso e elaborado de censura policial. Apesar de eu argumentar que a imprensa foi cúmplice e complacente com muito dessa censura, não creio que ela fosse absolutamente auto-imposta.
Valor: A sra. cita a praxe nas redações de assinar formulário acusando o recebimento da proibição. Isso parece ter evitado os enfrentamentos diretos com a autoridade.
Anne-Marie: A assinatura de recibos formais foi um dos muitos aspectos burocráticos da censura. A linguagem das interdições também foi, muitas vezes, formal e oficial, imitando documentos legais. O sistema funcionava de maneira suave e uniforme, dia após dia. E as proibições eram manejadas diretamente por um número muito pequeno de pessoas, em geral. Tudo isso contribuiu para a sensação, expressada por muitos jornalistas, de que eles viveram a censura mais como um aspecto do procedimento operacional padrão do que como um confronto sério com as autoridades repressoras.
Valor: ‘A imprensa brasileira não padeceu de uma cultura do medo’: se não houve resistência, por que tantas mortes e torturas?
Anne-Marie: Embora eu tenha concluído que a criação de uma rotina é uma questão-chave para entender a prática da censura, o medo que a imprensa tinha do governo e o seu apoio a ele também foram relevantes. Havia muitas declarações e ações diferentes a julgar para chegar a essa conclusão. Algumas eram espantosas, como a expressão ‘imprensa papel-carbono’, que era a citação de um militar descrevendo a imprensa no Estado Novo. Houve uma resistência criativa montada pelas poucas publicações submetidas à censura prévia, como ‘O Estado de S. Paulo’, ‘Movimento’ e ‘Opinião’.
Valor: Já houve algum período de autonomia da imprensa?
Anne-Marie: Não, não vejo nenhum período róseo de autonomia da imprensa. A imprensa faz parte das mesmas estruturas de poder que caracterizam os outros aspectos da sociedade. Fala- se da maior democratização da informação que virá via Web, um meio mais difícil de controlar que os jornais. O futuro dirá.
Valor: É quixotesco pensar que a imprensa teve papel decisivo no esgotamento do regime militar?
Anne-Marie: Tudo indica que a paranóia do regime militar é a melhor maneira de explicar isso. Essa não é a única área em que esse regime foi culpado de cometer ‘excessos’. Mas muitos membros da imprensa compartilham a noção de que a imprensa não representou grande ameaça ao regime e sugerem que a censura diz mais sobre a paranóia do regime do que sobre o poder da imprensa.
Valor: Como explicar esta realidade implacável: ignorância dos censores, falta de vontade e criatividade na classe jornalística?
Anne-Marie: O regime tentou conduzir a abertura com cuidado, mas só em parte foi bem-sucedido. Duas forças empurraram a abertura para fora do caminho desejado pelo regime: as disputas internas e a crescente organização e atividade da sociedade civil – da qual a imprensa foi, com certeza, parte importante. Sobre a abertura e a imprensa, considero fascinante que a volta da liberdade de imprensa pudesse tornar-se uma ferramenta de facções do regime. Ao permitir a cobertura das ações e posições dos defensores da ‘linha dura’, Geisel fortaleceu o próprio poder, aumentando a pressão pública quando os recursos de sua facção foram insuficientes para subjugar os adversários de ‘linha dura’ no regime. Quando há divisões no regime, a liberdade de imprensa pode ser um recurso de uma fração contra a outra. A derrocada de regimes repressivos costuma ficar fora de controle."
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