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ARMAZÉM LITERÁRIO
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
RESENHAS
Mídia refém do entretenimento
Cristiane Costa
Vida, o Filme: como o entretenimento conquistou a realidade, de Neal Gabler. Tradução Beth Vieira. Companhia das Letras, São Paulo, 2000, 293 páginas, R$ 30,50
É possível colocar num mesmo saco a morte de Daniela Perez, a violência de Sandro no assalto do 174, a ascensão de Adriane Galisteu, os milhares de votos para Enéas e o ibope de No Limite? O americano Neal Gabler muito provavelmente nunca ouviu falar na cabelereira Elaine. Mas, ao criticar o papel dos meios de comunicação nos Estados Unidos, no instigante Vida, o filme, Gabler deu de bandeja ao leitor brasileiro instrumentos perfeitamente adaptáveis à realidade nacional. Trata-se de um desses livros fundamentais para se compreender a cultura contemporânea. O problema é que a abordagem sistêmica promovida por Gabler é tão iluminadora que não há como não ficar na dúvida. Ou esse sujeito criou uma bruta teoria da conspiração ou somos todos trouxas porque nunca ligamos uma coisa com a outra.
O elemento que amarra áreas aparentemente díspares como a mídia, artes plásticas, criminalidade e esporte é o entretenimento. Pós-frankfurtiano, Gabler naturalmente relativiza o preconceito da alta cultura com tudo o que cai no gosto popular. Mas também "não é preciso franzir o cenho, em desaprovação, para admitir que o entretenimento é tudo aquilo que seus detratores dizem que é: divertido, fácil, sensacional, irracional, previsível e subversivo. Na verdade, pode-se dizer que é justamente por isso que tantas pessoas o adoram".
A questão é o que fazer quando tudo, absolutamente tudo, é submetido à indústria do entretenimento. Segundo Gabler, com o objetivo de atrair audiência ou criar celebridades estão sendo deliberadamente aplicadas técnicas teatrais na política, religião, literatura, comércio, guerra, crime. O resultado é o que ele chama de "lifies", fusão de "life" (vida) com "movies" (filmes).
Mas quais as chances de a ficção continuar competindo com as histórias da vida real? É só pensar nas horas em que as pessoas ficaram pregadas na televisão assistindo a violência de um assalto no Jardim Botânico, ou a antipatia coletiva provocada por certos concorentes de No Limite, ou ainda em certos sites na internet que mostram apenas pessoas comuns vivendo a rotina de suas casas. Tudo isso se resume, para Gabler, numa nova tendência descoberta pelos meios de comunicação. Depois de décadas convivendo com as celebridades nas telas e fotos das revistas, qualquer um está apto – e deseja avidamente – a ter seus 15 minutos de fama. De preferência sem roteiro, para a coisa ficar mais emocionante.
"Um segmento crescente da economia dedica-se agora a projetar, construir e aparelhar os cenários em que vivemos, trabalhamos, compramos e nos divertimos: a criar nossos trajes, a fazer com que nosso cabelo brilhe e nosso rosto cintile; a emagrecer nosso corpo; a fortalecer nossos acessórios cênicos – de tal forma que possamos nos apropriar do invólucro da celebridade, ainda que não de sua atualidade, para o filme-vida", diz Gabler.
A fome de celebridade não ataca apenas os reles mortais. Entre os intelectuais, por exemplo, criou-se a casta dos "academostars", as estrelas das universidades. "Incapazes de resistir mais tempo aos afagos do entretenimento e da celebridade, como já ocorrera com os escritores e artistas, os intelectuais começaram a buscar formas de se transformar naquele tipo de figura gosta de celebrar", aponta o autor. A fórmula para o sucesso se resumiria na defesa de idéias polêmicas, desde que articuladas com simplicidade. Por isso, intelectuais de língua ferina, com uma posição perfeitamente previsível, os "revoltados a favor", seriam os preferidos pela indústria de entretenimento.
Obviamente, num livro que diz que "a política é a novela de gente feia" e compara o papa aos tele-evangélicos, espirrando para os esportes e criminosos célebres, não é de se espantar que sobre algumas pedras para jornalistas e assessores de imprensa. Gabler investe fundo no tema, retomando a história da imprensa marrom americana, que, mostra, está na raiz do jornalismo mais contemporâneo. Se, em seus primórdios, Hearst e Pullitzer exploraram ao extremo a desgraça alheia, quebrando as barreiras entre sensacionalismo e notícia, agora é a vez de Tina Brown, com sua Talk / Miramax, romper as linhas tênues que separam realidade e ficção e entre jornalista e celebridade. "A mídia não está de fato relatando o que as pessoas fazem, está relatando o que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia", alfineta Gabler.
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Comunicação e política, de Antonio Albino Canelas Rubim. Hacker Editores, 136 páginas, R$ 16. Telefone (11) 3735-7028
A coleção Comunicação, da Hacker Editores, é uma das raras iniciativas de discussão voltadas – mas não apenas – a estudantes ou professores da área. Os títulos da coleção apresentam autores, conrrentes, enfoques conceituais, indicações bibliográficas e dicas de programas de especialização nas universidades brasileiras. Mas também não faltam análises concretas de temas que vão da mídia impressa e televisão à recepção, discurso e educação. Professor da Universidade Federal da Bahia, Antonio Albino Canelas Rubim se propôs a discutir a relação sempre polêmica entre comunicação e política, realizando uma introdução teórica ao assunto. Na bibliografia, desde os que acreditam numa nova (e mais democrática) forma de viver a politica através dos meios de comunicação, como Néstor García Canclini; até os que apostam no sentido contrário, como Pierre Bourdieu. (C.C.)
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Ética e poder na sociedade de informação, de Gilberto Dupas. Unesp, 148 páginas, R$ 14
Um dos pensadores brasileiros mais críticos em sua área, o economista Gilberto Dupas aborda neste ensaio os desafios éticos da era tecnológica. Para ele, as novas tecnologias de informação podem e devem submeter-se a uma ética para que sejam capazes de contemplar o bem-estar de toda a sociedade – e não apenas, como acontece hoje, ficar a serviço de necessidades imediatas de uma minoria. Segundo Dupas, a conseqüências de uma autonomia total da técnica, como a pregada pelas correntes neoliberais, seria o aumento da concentração de renda e da exclusão social, além do esgotamento da própria dinâmica de acumulação capitalista a longo prazo. Dupas dá ainda uma visão econômica sobre a hegemonia norte-americana na tecnologia de informação, mostrando que ela é em grande parte responsável pelo fato de os Estados Unidos terem concentrado 40% da adição de riqueza mundial em 1998, contra 25% da Europa ocidental e 21% da Ásia. (C.C.)
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