ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro


ATUALIZAÇÃO
Ato falho

Victor Gentilli

Veja (29/11/2000) diz que Marco Maciel está lendo As ideologias e o poder em crise, de Norberto Bobbio, "para se atualizar". Marco Maciel, ou Veja, deveria estar se referindo ao novo livro de Bobbio, Teoria Geral da Política, lançamento recente com uma coletânea de textos importantes e inéditos do autor italiano. As ideologias e o poder em crise reproduz textos da década de 70 e início dos anos 80. Foi publicado em 1982 na Itália e em 1990, no Brasil. O livro é bom, Marco Maciel certamente aprenderá com sua leitura. Mas imaginar que ele estará "se atualizando" – aí já fica exagerado.




PATRICK TIERNEY
Corações na escuridão

Darkness in El Dorado, de Patrick Tierney, 417 páginas, Editora W. W. Norton & Company, US$27,95

Patrick Tierney, autor celebrado por escrever sobre antropologia para descobrir os segredos das tribos ianomâmi, destaca em seu novo livro como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia.

O chamado "efeito observador" nunca foi tão real quanto um helicóptero militar carregando o antropólogo Napoleon Chagnon e uma equipe de TV e agigantando-se sobre um vilarejo remoto na Amazônia, varrendo telhas de cabanas e oferecendo cestas e redes que vinham voando. Enquanto mulheres e crianças fugiam gritando para dentro da selva, homens da tribo atiravam pedras e paus contra a aeronave.

De acordo com John Horgan [The New York Times, 12/11/00], esse incidente, ocorrido em 1991, é um dos mais benignos efeitos revelados por Tierney em Darkness in El Dorado. O livro expõe a exploração horrenda, jornalística e científica, de ianomâmis, a tribo mais estudada e caluniada na história da antropologia.

Por mais de 30 anos, essa diminuta comunidade de habitantes da floresta tropical que se espalha do Brasil à Venezuela serviu de arquétipo do selvagem inferior. Os ianomâmis foram pouco pacíficos, mas Tierney descreve uma história na qual são bem menos inferiores e selvagens do que os cientistas que os estudaram.

O vilão-mor da história de Tierney é Chagnon, primeiro homem a aterrissar em território ianomâmi, em 1964. Em 1968, Chagnon escreveu o livro Yanomamo: The Fierce People (Ianomâmi: O Povo Cruel), que se tornou best-seller. A narrativa era típica de best-sellers: sexo, violência e até drogas.

Tierney reclama que a versão de Chagnon degusta explosões em vilarejos decorados com pinturas de guerra, brandindo um tiro de arma. Segundo Tierney, os ianomâmis competiam por sua atenção e seus presentes. Brigavam por acesso não a mulheres, como alardeou Chagnon, mas a ele. Seu método de obter dados genealógicos inflamou ainda mais a vontade doentia. Os ianomâmis têm tabus contra proferir nomes de ancestrais mortos. Para obter essas informações, Chagnon entrevistou rivais, exacerbando a tensão entre os povos. De acordo com seus métodos, afirma Tierney, não surpreende que Chagnon tenha reportado mais violência ianomâmi que qualquer outro antropólogo.

O incidente mais incômodo relembrado por Tierney envolve um programa de vacinação contra sarampo iniciado em 1968 por James Neel, geneticista e mentor de Chagnon. Neel, que morreu no começo de 2000, escolheu uma vacina que algumas autoridades médicas condenaram por ser insegura devido às reações violentas que causa. Tierney sugere que a intenção de Neel não era proteger os ianomâmis do sarampo, mas de testar suas respostas a uma vacina com vírus vivo – Neel acreditava que o estilo de vida "lei dos mais fortes" adotado pela tribo poderia lhes dar sistemas imunológicos mais robustos que os de pessoas que vivem na sociedade urbana moderna. A partir dessa premissa, a equipe de Neel, que inclui Chagnon, eventualmente matou centenas de índios, segundo Tierney.

Outra digressão centra-se no antropólogo francês Jacques Lizot, que viveu entre o povo ianomâmi entre 1970 e 1994. Ele não encontrou um "povo cruel", mas entendedores de sexualidade além do coito, incluindo masturbação, sexo com animais e homossexualidade. Tierney acusa Lizot de dar facões, jóias, roupas ocidentais e outros presentes a homens jovens que desempenharam atos sexuais com ele e com seus companheiros.

Tierney também coloca a mídia na berlinda. Com o elevar-se das críticas contra Chagnon no começo dos anos 90, ele arranjou viagens em helicópteros militares para repórteres da ABC News, da Newsweek, do New York Times e de outras organizações para vilarejos ianomâmis. Os helicópteros teriam sido adquiridos por Cecília Matos, poderosa aliada de Chagnon e amante de Carlos Andrés Pérez, então presidente da Venezuela.

Tierney é particularmente rigoroso com os procedimentos de um documentário de 1996 da Nova/BBC, Warriors of Amazon ("Guerreiros da Amazônia"). O programa foi filmado no vilarejo de Lizot e dirigido por ele. O foco do documentário foi a doença e morte de uma jovem mãe e de seu bebê. Durante a filmagem, a equipe providenciou o vôo de uma nova câmera que chegaria da Inglaterra, mas não cuidaram de transportar a mãe e seu filho para uma clínica, ou providenciar a chegada de algum médico ao local.

Darkness in El Dorado foi divulgado na revista New Yorker e indicado a um prêmio de literatura. Críticos desafiaram diversas asserções de Tierney, particularmente a de que Neel e Chagnon causaram a epidemia de sarampo de 1968. O fato é que ele poderia ter trabalhado mais para provar sua acusação. Seu livro tem falhas, mas Tierney revelou-se verdadeiro advogado dos direitos indígenas.



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