ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro


ASPAS

JORNALISMO CULTURAL
Nelson de Sá

"Ilusões perdidas", copyright Pensata (www.folha.com.br/pensata), 29/11/00

"Anos atrás, cobri como jornalista uma conferência de Zé Miguel Wisnik sobre ‘Ilusões Perdidas’, o romance de Balzac, e o jornalismo cultural contemporâneo.

Fui menos isento do que deveria. Wisnik vinha de ser atacado pelo crítico musical Luís Antônio Giron, colega de redação, e eu vi na conferência –e no paralelo com o jornalismo cultural balzaquiano– um contra-ataque ao nosso jornalismo crítico. Mal sabia eu.

Muita coisa passou, trabalhei com o mesmo Wisnik num espetáculo de Genet, eu como assistente de direção, ele como diretor musical, compositor e cantor. Relendo o livro, semanas atrás, com olhos já muito distanciados, encontrei mais verdade do que gostaria.

Luciano, o protagonista, vive uma trajetória não muito diferente da minha, de jovem da província a crítico de teatro etc. É evidente que, por mais que me sinta distanciado, ainda acho Luciano uma caricatura, não a realidade.

Mas está tudo lá, como que distorcido pela visão do artista, o que é o jornalismo –em especial o cultural, mas não só ele. Da descrição do jornalista como ‘a pessoa que explora uma mina de mercúrio sabendo que ali há de morrer’ até os ensinamentos de crítica do primeiro editor de Luciano:

– Meu caro, aprende teu ofício. Qualquer obra, mesmo uma verdadeira obra-prima, deve tornar-se sob a tua pena uma estólida bobagem. Transformarás as belezas em defeitos.

Daí segue para uma aula, por assim dizer, brilhante. Depois do estrago publicado, novos conselhos, de vários:

– Pensavas então aquilo que escreveste? Ah! Meu filho, eu te julgava mais forte. Todas as idéias têm direito e avesso. Tudo é bilateral no domínio do pensamento. As idéias são binárias. Jano é o mito da crítica. Triangular não há senão Deus! Escreve para o jornal três belas colunas em que te refutes a ti mesmo. Neste momento és, a seus olhos (do artista), um espião, um canalha, um tolo; depois de amanhã serás um grande homem, uma cabeça forte, um varão de Plutarco!

– Meus amigos, palavra de homem honesto, sou incapaz de escrever duas palavras de elogio...

– Terás mais de cem francos.

– Mas que hei de dizer?

– Escuta aqui, de que modo podes te arranjar, meu filho...

E segue outra aula brilhante, agora de como exaltar a mesma obra, no que hoje seria descrito como relativismo. É uma caricatura, obviamente, como o são outras passagens, ainda mais constrangedoras de citar. Foi o que Wisnik apontou, não sem certo rancor, na conferência.

O que se pode dizer em favor do jornalismo cultural –e dos demais– é que esse não é seu único papel, sua única dramaturgia. Ele tem outras, que é preciso trazer para a boca de cena, para não se deixar levar pela desilusão."




EUGÊNIO BUCCI
Luís Costa Pinto

"Livro analisa erros e omissões cometidos pela imprensa", copyright Época, 28/11/00

"A honestidade intelectual é marca do jornalista Eugênio Bucci, secretário editorial da Editora Abril. Dedicado a estudos sobre o impacto da mídia na sociedade, Bucci já alinhavou excelentes ensaios em linguagem fácil e dinâmica. Esse é apenas um dos méritos de Sobre Ética e Imprensa, livro que acaba de lançar. Fluente, o texto aborda os conflitos inerentes à atividade de apurar, editar e publicar notícias. Não é obra para ficar restrita às prateleiras de livros técnicos - pode ser lido por quem deseja entender como é o método de trabalho de jornalistas e de seus patrões.

O massacre imposto pela mídia a Alceni Guerra é analisado por Bucci num subcapítulo. Ele deduz que a imprensa errou ao não permitir que o ex-ministro se explicasse. ‘Quando os personagens se situam acima da linha da dignidade humana e desfrutam alguma reputação, aí, sim, a imprensa é capaz de destruí-los’, escreve.

Ao fim de Sobre Ética e Imprensa, o leitor é habilmente apresentado a argumentos suficientes para fazê-lo descrer nas teorias conspiratórias que pairam sobre as redações. Para Bucci, não há uma corporação de empresários tentando descobrir como influenciar ainda mais a vida dos cidadãos. Existe, na verdade, uma nova geração de patrões, executivos, editores e repórteres sinceramente preocupados em errar menos."




GLOBO EM LIVRO
Daniel Castro

"Acadêmicos teorizam a decadência da Globo", copyright Folha de S. Paulo, 27/11/00

"O livro só será lançado na próxima segunda-feira, mas já domina conversas nos bastidores das TVs. Trata-se de ‘A Deusa Ferida’ (editora Summus, 264 págs., R$ 33), que traz como subtítulo ‘Por Que a Rede Globo Não É Mais a Campeã Absoluta de Audiência’.

O livro é o resultado de um estudo de um ano de um grupo de acadêmicos de comunicação, coordenados pela antropóloga Silvia Simões Borelli e pelo jornalista Gabriel Priolli, ambos professores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Baseado em dados do Ibope, pesquisas de agências de publicidade e em reportagens publicadas pela Folha, o estudo tenta mostrar por que a audiência do ‘Jornal Nacional’ e da novela das oito da Globo despencou de 53,5% em 1987 para 37% em 1997.

Conclui que a Globo perdeu audiência nos anos 90 devido ao esgotamento do gênero telenovela, ao ‘abalo’ na imagem do ‘Jornal Nacional’ e à popularização do telejornal, que deixou de ser uma ‘referência’. Enumera ainda a qualificação das emissoras concorrentes, o aumento da base de audiência, a TV a cabo, a Internet e o videocassete como elementos que contribuíram para a queda da audiência da Globo, ainda líder."



Volta ao índice

Armazém Literário – texto anterior



Mande-nos seu comentário




Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você