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Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
ASPAS
SEBASTIÃO NUNES
Rodrigo Garcia Lopes
"Sebastião Nunes faz leitura corrosiva da mídia", copyright O Estado de S. Paulo, 8/07/01
"Depois de lançar, no ano passado, História do Brasil, um olhar demolidor sobre nossa história e nossos vultos, com Somos Todos Assasinos (91 págs., R$ 18) a editora Altana segue em seu projeto de republicar toda a obra de Sebastião Nunes, um dos autores mais instigantes da literatura hoje. Se em Sacanagem Pura (1995) o autor fazia uma leitura ideológica corrosiva dos efeitos e estratégicas de manipulação de massa na ‘idade mídia’, em Somos Todos Assassinos (1980) o escritor mineiro empenha-se, com muito bom humor, na tarefa de revelar os bastidores de uma grande agência publicitária carioca, a STA (sigla de Somos Todos Assassinos).
Num contexto cada vez mais dominado pelos discursos da publicidade e pela presença dos meios de comunicação de massa em nossos sistemas nervosos, o livro de Nunes não só permanece atualíssimo como retorna em boa hora, nos convidando a uma reflexão sobre nós, consumidores-alvo dessa maquinaria chamada propaganda. Como ele mesmo escreve em Sacanagem Pura, ‘é como técnica de comunicação a serviço das ideologias econômicas’, e, por extensão, políticas, ‘que a propaganda deve ser examinada’. Nunes fala com conhecimento de causa, depois de ter trabalhado dez anos em agências de publicidade. A certa altura do livro, seu alter ego desabafa: ‘O redator mineiro sofria de profunda aversão pela profissão que exercia, questionava-se moralmente a cada anúncio produzido, era despedido com mais freqüência do que recebia aumentos e abandonava a profissão de dois em dois anos. O redator mineiro era, afinal, débil animal moral, raça em extinção por depressão vital.’ Afinal, qual a fronteira, hoje, entre verdade e mentira, ética e estética?
Entre diretores de arte, marqueteiros, puxa-sacos, secretárias espertas, redatores e campanhas mirabolantes, em suas 91 páginas Nunes constrói quadros que atacam a hipocrisia do discurso publicitário e sua visão de mundo, que manipula as mentes de suas vítimas anônimas (o consumidor de classe média) com uma única missão: vender seu peixe e criar um novo dependente consumista. Como lemos na página 65: ‘A maior garota-propaganda/ da publicidade/ é a felicidade.’ Em Anatomia de um Anúncio, o texto oferece, em tom impessoal, uma espécie de cartilha para quem quer se dar bem na profissão: ‘Para fazer um bom anúncio você deve, em primeiro lugar, despir-se de preconceitos ou preocupações sociais. Esta é a condição sinequaquá. Se você exibe, porém, tais aberrações, poderá enganar a alguns durante algum tempo, mas não conseguirá enganar a todos o tempo todo. Estou falando de seus patrões, colegas e até de você mesmo.’ O paradigma ético adotado pelo publicitário, conforme o manual de embromação da STA, é: absolutamente nenhum envolvimento pessoal com o mundo que ele retrata. ‘Nosso compromisso é com a caixa registradora’, dispara a certa altura o redator em Prove o Sabor de Agora.
Como na escrita de uma Burroughs, os personagens do livro são tão reais que parecem ter saído da ficção (brasileira, no caso), como Xuxa, Tigrão, Luiz Estevão e Lalau. Um certo Tio Patinhas é nada menos que o diretor Financeiro da empresa. Num dos episódios, Ou Este Caso É um Milagre ou Este Texto É uma Mentira, Leopold Bloom sai das páginas do Ulisses e aparece no ‘Brazil’ para pedir emprego numa agência. Onanista, sua especialidade são trocadilhos e palavras-valise. E o irlandês não é bobo, não: pede logo 50 mil de salário mensal. ‘O DT protestou, mas o Presidente exultava: não é todo dia que uma agência de propaganda, ainda mais no Brazil, pode ter um personagem de Joyce trabalhando de contato: braço longo e boca grande, haja rim.’ Resultado: flagrado bebendo em serviço pelo Diretor Técnico, Bloom vai para o olho da rua.
Além de apresentar situações absurdas, maracutaias e cenas ‘politicamente incorretas’, cada página do livro de Nunes (que também é artista gráfico) ‘quer pelo layout, pela linguagem persuasiva ou pela presença forte de um slogan ancorado como título das peças’ remete ao universo persuasivo da publicidade. O mais interessante: em Somos Todos Assassinos, o discurso publicitário é usado para desvendar seus mecanismos de enganação, sua engenharia de conceitos, idéias e slogans. A estética de Nunes é paródica por excelência desse universo onde ‘nada se cria, tudo se copia’. Num trecho à Satyricom, vemos o nascimento da primeira campanha publicitária. Como em seus outros livros, aqui Nunes usa e abusa da colagem, das citações e da ‘linguagem encontrada’. Muitos títulos são slogans existentes ou parodiados, tais como ‘Veja que belo negrinho lá no fundo do anúncio’, ‘Liberdade É uma Caderneta de Poupança’, ‘O Importante É Ter Charme’, ou ‘Enfie seu Plano No e Vá Pra’. Mas o maior e mais bem-sucedido, espécie de síntese da intenção de Nunes nesse livro (que deveria ser leitura obrigatória em faculdades de comunicação), vem estampado no próprio outdoor da empresa fictícia STA: ‘Você já contou sua mentira hoje?’"
OS JORNALISTAS
Daniel Piza
"Jornalistas", copyright O Estado de S. Paulo,
8/07/01
"O jornalismo brasileiro está na berlinda, seguindo - com o habitual atraso - tendência mundial. Jornalistas, na verdade, não mudaram muito desde que Balzac escreveu o livro com esse título, Os Jornalistas (Ediouro), em 1843. É o mesmo enterro de talentos sob a cal do deslumbre oportunista com poderosos e famosos e sob a castração literária imposta pelo espaço e tempo exíguos. ‘Para o jornalista, tudo que é provável é verdadeiro’, escreve Balzac, tantos anos antes da moda das gravações clandestinas e do monitoramento 24 horas da vida particular das celebridades pelos paparazzi. H.L. Mencken dizia, nos anos 20, que qualquer jovem decente que trabalhe dois meses numa redação sentirá o impulso de sair correndo com o nariz tampado.
Balzac e Mencken não viveram para ver a desconfiança extrema que a imprensa - rebatizada de mídia, depois da implosão eletrônica - começaria a causar nos leitores menos ingênuos. Publicações e sites são obrigados a confessar a invenção de resenhistas favoráveis a seus produtos, o forjamento de fotos, personagens e frases, a barganha das notinhas ‘plantadas’ debaixo da atmosfera de amizade ou simpatia entre fonte e repórter, o plágio mal disfarçado de publicações estrangeiras e teses acadêmicas, etc. E bota et cetera nisso.
Ninguém ciente agüenta a busca sórdida por supostos ‘furos’, o microfone aberto para quem quiser acusar alguém famoso sem prova nenhuma, os textos rasos e burocráticos e a ignorância dos diversos aspectos novos da sociedade e do conhecimento. Este último ponto é o mais subestimado. Como o nível intelectual do reportariado só faz decair, os entrevistados só têm duas saídas: (1) tomar fôlego e ex-pli-car para o jornalista, enquanto este ‘bóia’ em metade dos conceitos e procura uma frase bombástica para poder voltar à redação; (2) parar de dar entrevista ou começar a escrever diretamente para o público interessado, afinal o que não faltam hoje são publicações, reais e virtuais.
O curioso é que isso tudo está ocorrendo depois do período em que os jornais se arrogaram à imparcialidade absoluta, à impessoalidade, à objetividade em seu sentido mais positivista e massificador. Como a história ensina, eles se tornaram exatamente aquilo que diziam querer eliminar: são infantilmente parciais, embora o marketing os diga ‘pluralistas’; são levados por interesses pessoais, do diretor que quer elogios à cidadezinha onde nasceu ao crítico que faz média com o ‘meio artístico’ para compensar sua enorme frustração criativa, passando pelo editor que quer que seu amigo poeta ou pintor seja chamado de genial para cima; e são subjetivistas, porque exageram na busca de fofoca, declaração politiqueira e moralismo barato.
A primeira atitude seria a imprensa não agir a seu respeito como age a respeito das pessoas que exalta ou condena: seria fugir dos extremismos. Realizar uma autocrítica que não caia nas desculpas sobre ‘o que o povo quer’ - ilusão que partilha com produtores de entretenimento - nem sobre a função ‘nobre’ da imprensa. Parar e pensar que a informação sem perspectiva e sem interpretação, senão a que divide o mundo em bem e mal, nada mais é do que um bem de consumo descartável. Sair do gabinete e ir olhar o mundo real, que está além da agenda e dos desastres. Afinal, o maior poder da imprensa é esse: só por meio dela própria é que se sabe de alguns dos seus podres.
A segunda atitude? Lembrar o primeiro mandamento do bom jornalista: não comprarás nenhuma versão.
O ludopédio
Até a Sandy sabia que o time brasileiro não daria certo com Roque Júnior e Emerson na armação e o hiato resultante entre eles e os dois individualistas Rivaldo e Juninho. E mesmo com tanto jogador de destruição a cobertura dos laterais foi falha, como o lance do pênalti demonstrou.
Agora, o tiroteio expiatório está ridículo: ‘É a desorganização da CBF’, dizem uns; é o Rivaldo, dizem outros; é o Romário; a ausência do Ronaldo (se estivesse jogando, seria a presença); a falta de amor à camisa; o dinheiro; o marketing; as mulheres; o FHC; o gol não marcado; a decadência do futebol - ufa! Mas jogo ainda se joga em campo, partida a partida. O Corinthians, por exemplo, sem André e sem Luizão já era um time comum; diante de um Grêmio marcando a saída de bola, então... Mas um ou dois motivos simples não bastam.
Sobre Rivaldo, acho que ele é um craque irregular, com estupendos recursos e graves limitações. O fato de ele não se dar bem com a camisa amarela - embora nem sempre, ao contrário do que dizem - se deve não só ao posicionamento, mas sobretudo ao status. É certo que ele se sai melhor no Barcelona porque ali joga nas imediações da meia-lua, como ponto focal do time, apenas com Kluivert à sua frente e diante de defesa fracas, abertas.
(No retrancado futebol italiano, por exemplo, não se daria tão bem.) Mas, numa seleção em que Romário ou Ronaldo - ou Romário e Ronaldo - estejam à frente, como devem estar, ele jamais será protagonista. Reveja os jogos da Copa de 98: só depois que ele começou a passar a bola para Ronaldo é que o time deslanchou.
Um dos segredos da seleção de 70 é que todos aqueles craques, muitos deles deslocados da posição, alguns temperamentais, todos eles - Clodoaldo, Gerson, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Carlos Alberto - sabiam quem era o protagonista. Mesmo porque esse protagonista não era egoísta.
Os sapos indigestos
A reforma política em pauta. Não adianta querer mudar tudo do dia para a noite, é verdade; mas não mudar nada é perpetuar a ascensão fácil dos Mestrinhos. Acabar com as coligações partidárias, aumentar o coeficiente que faz um deputado ser eleito e atenuar a sub-representatividade dos Estados mais populosos são medidas que já reduziriam consideravelmente o fisiologismo, o clientelismo e a injustiça do nosso sistema político, proporcional e presidencialista. Não limpará de vez o Congresso, mas dará mais chance a parlamentares mais comprometidos com programas modernos.
Por que não me ufano
O pacote tributário recém-anunciado confirma o que escrevi aqui tantas vezes: as reformas cotós convêm ao governo FHC, certamente um governo que teve um poder político, entre 1995 e 2000, que seu sucessor (da situação ou não) jamais, ah, jamais terá. O governo não conseguiu romper com o Estado getulista, como dizia querer, porque manteve o padrão de aumentar impostos e não retribuir benefícios à altura. Sempre desconfiei que o ‘P’ da CPMF era para torná-lo permanente, sem precisar alterar a sigla...
Outro dia, por exemplo, li um economista dizendo que a dívida pública brasileira não é assim tão grande. Então, quase en passant, ele acrescentou: ‘É verdade que a comparação inclui principalmente países desenvolvidos, com mais credibilidade e capacidade de endividamento.’ Bem, isso é simplesmente o cerne da questão. O Brasil não tem credibilidade - como se vê pela não-conversibilidade de sua moeda - e não tem capacidade de endividamento porque não há crescimento econômico que traga poupança interna e saldo comercial. A produção e a distribuição de renda são travadas pela máquina pública obesa e pelas escorchantes legislações tributária e trabalhista.
Aforismos sem juízo
Jornalismo é inventar bichos-papões. E depois ser engolido por eles."

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