ARMAZΙM LITERΑRIO

ENTREVISTA / LUIZ MAKLOUF
O veneno das cobras criadas

Luiz Egypto

Cobras Criadas - A história de David Nasser e O Cruzeiro, de Luiz Maklouf de Carvalho, 600 páginas, Editora Senac, São Paulo, R$ 45,00.

O jornalista Luiz Maklouf de Carvalho é antes de tudo um repórter fuçador, com muitos quilômetros rodados em reportagens de longo curso e dono de saudável obsessão pelo rigor na apuração – características suficientemente demonstradas em suas passagens pelos jornais O Estado de S.Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S.Paulo e Jornal
do Brasil.

Dois anos atrás, encasquetou com um personagem tão famoso quanto polêmico – o repórter David Nasser, estrela maior da revista O Cruzeiro. Mergulhou na vida de Nasser e da revista para produzir Cobras Criadas - A história de David Nasser e O Cruzeiro, agora publicado pela Editora Senac, de São Paulo. Mergulhou nos intestinos da revista, desvendou-os e descobriu, com fartura de dados, que o mito David Nasser não passava disso mesmo – um mito. Como repórter, era um picareta; como cidadão, um conservador baboso que apoiou o Esquadrão da Morte, no Rio.

Em entrevista ao Observatório da Imprensa, reproduzida a seguir, Maklouf comenta os principais eixos de seu novo livro-reportagem. Na seqüência [clique em PRÓXIMO TEXTO], a apresentação de A. P. Quartim de Moraes, editor do livro.



Como nasceu o interesse por David Nasser? Você era leitor de matérias dele no Cruzeiro?

Luiz Maklouf Carvalho – Lia, eventualmente, já na fase de articulista, e não mais de repórter. Achei que era um bom personagem lendo o Chatô, do Fernando Morais, onde ele aparece aqui e ali, assim como O Cruzeiro. Bati o martelo depois de ler Mergulho na aventura, com fotos do Jean Manzon, onde estão algumas reportagens da fase áurea dos dois, em O Cruzeiro. Fiquei impressionado com o jornalismo inventivo que tinha ali – e achei que o Nasser era um bom gancho para um mergulho na história da revista.

No início do trabalho de investigação você já considerava a hipótese de encontrar um exemplo tão pouco instrutivo da prática da reportagem aliado a um caráter tão desedificante?

L. M. C. – No aspecto reportagem, sim. A leitura dos livros dele – quase todos seleta do material de O Cruzeiro – mostra um absoluto desprezo pelos fatos, característica que não era só dele, e sim do jornalismo que predominava na época. No caso do caráter, fiz esforço para não incluir juízos de valor, deixando a conclusão para os leitores. Nasser é o personagem principal, mas procurei mostrar o que era O Cruzeiro, como um todo, perfilando boa parte das demais estrelas da revista.

Como explicar a enorme credibilidade de David Nasser? Ou, em vez de credibilidade, a palavra mais adequada é tão-somente fama?

L. M. C. – O livro revela um segredo que Nasser guardou a vida inteira: sua própria revista, quando ele estava no auge, colocou essa credibilidade em xeque e o afastou da reportagem. A fama cresceu, ajudada pela máquina dos Diários Associados, quando ele e o Manzon armaram aquela reportagem sobre o Barreto Pinto de cuecas. Vista de perto, não sobra nada.

Em que circunstâncias se deram a aproximação de Nasser com o Esquadrão da Morte, no Rio? No que isso resultou?

L. M. C. – David Nasser era presidente de honra da Scuderie Le Cocq, o nome fantasia do Esquadrão da Morte. Tinha orgulho disso, e defendia publicamente os integrantes do Esquadrão. Um dos que entrevistei, o hoje deputado estadual Sivuca, do Rio de Janeiro, conta detalhes dessa relação. No pré-golpe de 64, o Esquadrão inteiro estava na casa do Nasser, todo mundo armado, como mostram as fotos.

Entre jornalistas não é raro ouvir menções saudosas ao tempo das "grandes reportagens", durante o qual David Nasser foi estrela em permanente ascensão. No que o personagem central do livro, malgrado suas agora documentadas picaretagens, contribuiu na formação da geração de repórteres investigativos que a ele se seguiu?

L. M. C. – Em nada, creio. A não ser no que diz respeito à contestação dos métodos que eles usavam. Vistas de perto, as chamadas grandes reportagens do Nasser, com ou sem o Manzon, estão eivadas de procedimentos que o bom jornalismo condena.

O Cruzeiro vendia 700 mil exemplares num Brasil de 50 milhões de habitantes, o que significa, grosso modo, uma revista com circulação pelo menos três vezes maior que a atual Veja – num país, à época, de poucas revistas, forte presença do rádio e TV incipiente. Quais as informações apuradas sobre O Cruzeiro que mais lhe chamaram a atenção?

L. M. C. – Essa tiragem é mais um mito na história de O Cruzeiro. Os tais 720 mil exemplares – anunciados no expediente, pois ainda não havia o IVC – só existiram em uma única edição, a do suicídio do Getúlio. De lá até o fim, entrou na descendente. A documentação que encontrei nos arquivos do Nasser esclarece muitas coisas sobre a luta interna que levou a revista ao fechamento – entre elas o rompimento entre o Nasser e o João Calmon, uma briga de foice no escuro.

Do ponto de vista da responsabilidade social e da qualidade editorial, quais as diferenças e as semelhanças mais notáveis entre mídia brasileira atual e a do período investigado por você?

L. M. C. – Acho que melhorou, nos dois aspectos, à medida em que há mais cobrança da sociedade.



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