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ARMAZÉM LITERÁRIO
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
ASPAS
TRECHO / O CASTELO DE ÂMBAR
André Motta Lima
"Exclusivo: capítulo do livro de Mino Carta com a história do rompimento com Veja em 1976", copyright sítio ABI <www.abi.org.br>, 14/11/2000
Mino Carta é daqueles jornalistas que dispensam apresentação para os minimamente informados. Mas como sempre existem jornalistas iniciantes, estudantes e usuários deste sítio que não são do meio, vai lá um breve resumo do genovês/brasileiro, de 66 ou 67 anos (há dúvidas, de quase seis meses, sobre a correta data de nascimento): fundou e dirigiu, no Brasil, Quatro Rodas, a edição de esportes de O Estado de S.Paulo, o Jornal da Tarde, a Veja, a IstoÉ, o Jornal da República e continua na Carta Capital.
No recém lançado romance O Castelo de Âmbar (400 páginas, Editora Record), Mino usa nomes fictícios para contar histórias da realidade brasileira e do jornalismo. E adota o formato de conto para tratar da talvez mais cruel das realidades de sua vida: o rompimento com a editora Abril e a saída de Veja em intrincada manobra de poder, interesses econômicos e jogadas políticas.
Com a gentil autorização dele, em contato telefônico, publicamos a seguir o ‘conto’ do personagem Mercúcio Parla sobre um tal de Mino Carta. Um resgate histórico que permite conhecer o funcionamento das relações da imprensa com o poder. Relacionamento que a contracapa, em citação de trecho do livro, faz questão de destacar:
‘A presença de profissionais competentes, de grandes jornalistas respeitados pelas redações, atrapalha a sucessão no feudo e compromete os interesses de quem manda, na instância intermediária e na suprema. Reparem: a nossa imprensa serve ao poder porque o integra compactamente, mesmo quando, no dia-a-dia, toma posições contra o governo ou contra um ou outro poderoso. As conveniências de todos aqueles que têm direito a assento à mesa do poder entrelaçam-se indissoluvelmente.’
Um conto, apenas
Capítulo de O Castelo de Âmbar, de Mino Carta
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Na manhã de 22 de janeiro de 1974, despertando de sonhos inquietos, Mino Carta, diretor de redação da revista Veja, deu-se conta de que começava seu primeiro dia como integrante do board de direção da Editora Abril. Fora nomeado na noite anterior pelo Editor e Diretor Victor Civita, também designado como chairman, pois o pessoal por lá freqüentemente pensava e falava em língua do povo de um país chamado Inglaterra, inglês o povo e inglesa a língua, a qual se espalhou aos quatro ventos porque uma ex-colônia da Inglaterra, os Estados Unidos da América, se tornara centro de um império que abarcava todo o oeste do mundo.
Civita havia anunciado a promoção de Mino na presença dos demais do conselho, ou seja, os filhos Robert e Richard, o sócio minoritário Cordiano Rossi e o genro deste, Edgard de Silvio Faria, advogado e diretor responsável da Editora. Cerimônia rápida e simples. Convocados os citados em seu gabinete, no 6º andar do Edifício Abril, erguido às margens de um rio chamado Tietê, em uma cidade chamada São Paulo, de um país chamado Brasil, sujeito ao império dos EUA, disse: "Tenho uma boa notícia, para todos nós e para a Editora."
Mais diria, dias depois, na Carta aos Leitores que abria toda edição da revista semanal Veja, capitania da armada abriliana, de hábito assinada por Mino, mas desta vez pronta a escancarar seu espaço ao dono da casa em virtude da relevância da ocasião. Ali, o chairman ampliou considerações e detalhou recordações tecidas e evocadas no breve discurso (speech) pronunciado na oportunidade da nomeação. A noite caía e as imponentes vidraças da sala refletiam o brinde que se seguiu, misturando as figuras reunidas em torno da mesa presidencial com fantasmas de velhas fundições, aposentadas dormentes na planície fronteiriça. Brindaram com vinho branco.
Ao acordar naquela manhã, Mino teria ótimas razões para se sentir em estado de graça, no entanto experimentou uma forte sensação de desconforto, como o pressentimento de uma chuva preta.
Mino Carta conhecera Victor Civita na mocidade e trabalhara na Editora Abril entre 1960 e 1964 a chamado do próprio. Voltara em 1968, para conduzir a misteriosa "Operação Falcão" - havia neste nome uma premonição que, contudo, não poderia ser notada naquele momento - destinada a desaguar na semanal Veja, primeira revista de informação brasileira, inspirada nos newsmagazines dos EUA.
Seis anos antes, Mino depositara sobre a mesa de Civita, vasta mesa em formato de feijão, algumas condições, e não se referiam ao salário que ganharia em Veja, mas à autonomia de vôo. Ele dirigia então o vespertino Jornal da Tarde, da organização O Estado de S. Paulo, ganhava bem e era tratado com amizade pelos donos, saudosos de seu pai, jornalista falecido em 1964. Giannino Carta dedicara ao Estado 17 anos de sua vida profissional, cercado pelo respeito e pelo afeto de todos. Mino não esquecia sua primeira experiência na Abril e pretendia precaver-se contra a sanha invasiva de Robert Civita, o qual, vítima de sua própria avassaladora arrogância, pontificava a respeito de tudo, desde os meandros da natureza humana até as mais atualizadas técnicas jornalísticas.
Mino preferia não vir a se arrepender algum dia por ter deixado o Jornal da Tarde, até porque sabia que a família Mesquita, dona do jornal, mais cedo ou mais tarde não perdoaria sua opção pela família Civita, que desprezava solenemente. – Nada como o tempo – pensou Mino – para mudar as pessoas, agora os Mesquita vão fazer de tudo para que eu fique; no fim, diante da minha insistência e determinação, me deixarão sair pela porta principal, mas depois não acharei aberta sequer a de serviço.
As condições apresentadas ao chairman of the board se resumiam assim: a Abril definiria características e objetivos da publicação e Mino a dirigiria se não machucassem sua alma e negassem princípios e crenças que ele cultivava. No dia-a-dia, os Civita não teriam interferências e só poderiam discutir cada edição depois de publicada.
Os donos da casa aquiesceram, e Mino se perguntou se estavam conscientes do que faziam. Não os tornaria afoitos, precipitados, sôfregos, prontos a engolir qualquer condição, o propósito de arrancá-lo das mãos dos Mesquita? Mino recordava a ruidosa noitada de dois anos antes, no apartamento de Victor Civita, à qual comparecera Ruy Mesquita - e por instância sua. "Meu Deus, meu Deus, onde fui me meter?", murmurava Mino para si próprio. Victor Civita ligara para ele no Jornal da Tarde. "Silvana e eu vamos oferecer um jantar em casa, e gostaríamos que você viesse e também trouxesse Ruy Mesquita, por favor, sonde-o a respeito, veja se aceita." Respondeu Mino: "Sondo, sondo." E que haveria de responder?
Silvana Civita era uma senhora amável, simpática, cordial, de longe o melhor espécime da família. Mino gostaria dela para sempre. Por outro lado, enxergava e justificava as intenções de Victor Civita: pretendia, obviamente, lançar uma ponte sobre águas encrespadas, talvez corredeiras. E por que não? Sondou Ruy Mesquita, um dos três filhos do patriarca Júlio, o do meio. Ruy se orgulhava de ter aprendido jornalismo com o pai de Mino e no Jornal da Tarde era seu superior direto. Surpresa. Ruy disse "está bem, irei", sem pestanejar. Nem por isso Mino se enfiou no smoking, na noite azada, livre de alguma apreensão.
Na casa dos Civita seniors (diga siniors) brilhava a estrela de Maria della Costa, atriz, empresária de teatro, mulher deslumbrante. Talvez por causa desta derradeira particularidade Mino, de início, achou graça na noitada. O desenrolar do enredo o obrigaria, depois do jantar, a alterar abruptamente o foco das suas atenções, A conversa começou como opereta burguesa e acabou em tragicomédia tropical. Surgiu um tema candente e polêmico: a política de certa instituição chamada Igreja católica, a qual se apresentava como representante de Deus na Terra - com todas as implicações imagináveis de tal pretensão -, à época comandada por um supremo sacerdote, dito papa, apontado como progressista. Com o nome de guerra de João XXII, este papa, ao contrário de seus predecessores, se inclinava a crer e a propalar que o mundo não precisa ser, necessariamente, um vale de lágrimas, e que todos os homens têm direito à felicidade terrena, sem detrimento do prêmio, ou do castigo, a ser recebido depois da morte, um e outro eternos.
Depois dos aperitivos, fluviais, como de costume, na preliminar destes jantares invariavelmente tardios, escorreram branco e tinto, de rótulos respeitáveis. Enfim conhaques, armanhaques, licores. O barco de São Pedro - metáfora da Igreja católica - navegava na névoa etílica e os Civita, Victor e Robert, para espanto de Mino, diziam gostar da ação do timoneiro João XXIII, enquanto Ruy preferia vê-lo como impostor. A discussão virou rapidamente incêndio, Ruy proclamou que o papa estava a soldo do Império do Leste, comandado de um soturno palácio chamado Kremlin, cujos titulares, praticantes da fé comunista, se apresentavam como o próprio Deus na Terra. A assistência arregalou seu pavor, Victor tentou acionar as mangueiras, era tarde. Ruy vociferou diatribes, recheadas de palavras que seu jornal definiria como de baixo calão, em tom audível na periferia da cidade. Enfim, se retirou, altaneiro, invectivando ainda à caminho da porta, seguido pela mulher, perplexa, mas obediente ao mando marital.
- Que noite! - disse Mino a Ruy, no dia seguinte. - Acho que bebemos demais.
- Filhos da puta - clamou Ruy -, americanófilos (partidários dos EUA) até a medula, qualquer um sabe, e ficam aí louvando um papa comunista por puro modismo. - Mino se dava bem com Ruy, mas, naquele momento, pensou que se alguém saísse atirando ao acaso, não haveria bala perdida.
Os Civita, de inequívoca origem judia, converteram-se ao catolicismo durante a Segunda Guerra Mundial, em Nova Iorque, metrópole principal dos EUA, onde se refugiaram ao escapar de um continente chamado Europa, no alvorecer da perseguição empreendida contra toda uma raça por outro governante que pretendia ser Deus na Terra. Hitler era seu nome, e mandou por 12 anos no país chamado Alemanha. Quanto aos judeus, trata-se de povo antiqüíssimo, que exerceu grande influência na história da humanidade por muito mais que 12 anos.
Outro editor judeu estabelecido no Brasil, Adolpho Bloch, reprochava os Civita com vitupério, por se terem convertido. Em lugar de lhes pronunciar o sobrenome, dizia "os cagões" como se fosse sinônimo. O pai de Mino os via de outra maneira. "Este Robert", observava, "é um dos poucos judeus néscios que conheci na vida."
A revista Veja teve dias e anos difíceis desde o lançamento. Primeiro, porque representava um modelo de publicação desconhecido do chamado grande público. Segundo, porque, para complicar as coisas, Mino e a redação levaram muito tempo para acertar a mão. Terceiro, porque a situação política, que já era péssima, complicou-se ainda mais três meses depois da estréia. Sem contar que o nome, Veja, imposto pelo chairman, sugeria uma revista ilustrada, quando seu objetivo era ser lida.
Alguém observou não ser aquele o momento mais propício para o lançamento de uma revista de sensível, acentuado conteúdo político. De fato, a curto prazo a censura do regime militar armou sua tenda na redação. A ditadura implantada no país pelo golpe de Estado desferido em 1964, em dezembro de 1968 deu um giro no parafuso por meio de um Ato Institucional, de número 5, que lhe atribuía poderes praticamente ilimitados.
As tensões precipitadas pelo endurecimento dilataram as responsabilidades de Mino, até porque os patrões mal conheciam o país, sua história e os humores que serpenteavam nas entranhas da terra e do povo. Os Civita sabiam apenas que o tal Brasil era do tamanho de um continente e que teria de proporcionar um público potencialmente enorme para suas publicações. No mais, se declaravam seduzidos pela amplidão das paisagens, pelo ritmo do batuque, pelas curvas das mulatas etc., etc.
"Não conseguem ver, no entanto", pensava Mino, "o que lhes passa literalmente debaixo do nariz, o rio Tietê, lamaçal fétido em movimento preguiçoso, rio morto, prova de muitas coisas más. Se o lago de Tiberíades fosse igual ao Tietê, a caminhada de Cristo sobre a água não seria milagre."
Em todo caso, do ponto de vista das idéias políticas, os Civita não ultrapassavam a genérica adesão aos valores pregados pela retórica ocidental, sendo claro para eles que o Brasil estava fadado à condição de vassalo do império dos EUA. Tinham do mundo uma visão visceralmente maniqueísta, o Oeste era o Bem, o Leste, o Mal. Não percebiam que os governantes dos EUA, embora não declarassem ser Deus na Terra, portavam-se como se fossem, e não eram poucos aqueles que os reconheciam como tais.
Mino teve de construir um ideário um tanto mais complexo e adequado à circunstância, o que, diga-se, não o desagradou nem um pouco. Fora esta, aliás, uma das razões, talvez a mais forte, que o levaram a deixar o Jornal da Tarde, onde contava com total autonomia técnica e nenhuma política.
Mino não se permitia nutrir dúvidas em relação ao fato de que jornalismo "é trabalho de equipe" e não repetia esta frase por modéstia. Tinha dotes para a chefia e encontrou quem o ajudasse a conduzir a revista, sem esquecer jamais de valorizar os colaboradores mais próximos, ou seja, os componentes do pequeno grupo que, em todas as redações, mesmo as mais apinhadas, "carrega e toca o piano". E esta era mais uma de suas frases. Quanto aos Civita, achava que poderia controlá-los. Era leal por natureza, mas não os respeitava. Victor, nas conversas com os empregados e nas comunicações internas (ceis), se referia ao filho como RC (Arci) e Robert ao pai como VC (Vici), embora às vezes admitissem ser chamados de vecê e errecê.
Quando Mino ingressou no board, Veja vivia há cinco anos e cinco meses e se firmara como a revista mais importante do país, à revelia do regime que continuava a submetê-la à censura, juntamente com órgãos da imprensa dita alternativa, ou nanica. De O Estado de S.Paulo e do Jornal da Tarde a censura saíra no inicio daquele janeiro, no centenário do matutino, em sinal de respeito e confiança.
Era iminente a posse de um novo general-presidente, Ernesto Geisel, em lugar de Emílio Garrastazu Médici, e se ultimavam os retoques da composição ministerial. Ao governo Geisel se atribuía o propósito de encaminhar um processo de distensão, com ponto de chegada, em data ainda imprevisível, na devolução do poder aos civis, conforme promessas feitas por ocasião do golpe de 1964. Por trás do projeto enxergava-se, com total clareza, a figura do general Golbery do Couto e Silva, tido como ideólogo do golpe - mas adversário da facção mais dura do regime.
O general Golbery, chefe da Casa Civil do novo governo, detestado pelos companheiros de farda inclusive por ter atirado a própria às urtigas lá pelas tantas, era figura tão contraditória quanto o projeto de distensão, lenta, gradual, porém segura, conforme a advertência do general-presidente Geisel. Mino simpatizava com Golbery, via nele um cordial vasculhador da alma nativa.
O olhar de Mino, ao acordar na manhã de 22 de janeiro, se dirigiu para a janela. O sol se filtrava através das venezianas, mas ele enlanguesceu em melancolia e chegou a pensar em dormir mais um pouco. Resistiu à tentação e arrastou-se até o banheiro. Debaixo do chuveiro, lembrou-se de Gregório Samsa, esquálido caixeiro-viajante que conhecera na juventude, e murmurou para si próprio: "Não, não vai se dar comigo o que aconteceu com ele." Gregório, certo dia, despertou metamorfoseado em barata. Uma barata do tamanho de um homem.
Escolheu uma gravata alegre e acertou o nó na primeira tentativa: a banda menor não resultou mais comprida que a maior, ao contrário do que quase sempre acontecia. Mal chegou à redação, o telefone trilou. Era Armando Falcão, dono de um cartório ganho de presente por serviços prestados antes do golpe na qualidade de político situacionista, veterano parlamentar e agora nome certo no governo Geisel como ministro da Justiça. Disse Falcão:
- Mino, meus mais sinceros parabéns, o Civita não podia escolher melhor.
- Como é que você já sabe? - pergunta o recém-designado.
- Meu caro, tenho meus informantes...
Falcão sugere um encontro em uma cidade chamada Rio de Janeiro, outrora capital do país, lugar de beleza radiosa que os homens ainda não haviam conseguido estragar por completo.
- Precisamos conversar, as coisas caminham bem.
Almoço no restaurante do Hotel Ouro Verde, freqüentado por políticos, publicitários e executivos. O assunto está posto há dois meses: desde quando ficou certa sua nomeação, Falcão acena com o fim da censura em Veja. O futuro ministro agora anuncia diante de um linguado grelhado:
- Confirmo, sai logo.
Mino chega a achar Falcão simpático, a despeito da expressão de baixa astúcia que planta no rosto de abade.
Mino se tem como cético, mas o impulso que lhe sobe às vezes das entranhas é de confiança no homem. Por isso, há quem o considere ingênuo.
Falcão disserta sobre a consistência do projeto de distensão, cujos primeiros objetivos são, além do fim da censura - "vamos aposentar as tesouras", declama o futuro ministro -, também o da tortura.
- Para militares honrados - garante - a tortura é inadmissível.
Dia 15 de março, Geisel toma posse, três dias depois Falcão telefonou:
- Venha amanhã.
- Tesouras aposentadas?
- Aposentadas!
Mino desembarca na capital chamada Brasília e toca para o Ministério da Justiça.
- Sabe das últimas? - pergunta o motorista do táxi. Mino não sabe. Cassaram o mandato do deputado Chico Pinto, do MDB, o partido da oposição consentida, que acabou acreditando no seu papel e desempenhando-o com a dignidade indesejada pelo regime. A cassação de Pinto não é bom auspício. Logo Falcão pretenderia explicar a Mino, prontamente recebido no gabinete ministerial:
- O homem exagerou, saiu de cara agredindo um governo que chega prometendo dissensão...
De todo modo, comunica oficialmente:
- Para Veja a censura acabou.
- Ótimo - diz Mino -, e para os outros?
O ministro é todo sorrisos:
- Vai acabar também, só um pouquinho de paciência.
Mino ensaiou a fala seguinte:
- A censura acabou, mas isso não implica qualquer compromisso de nossa parte...
Interrompe o ministro:
- Claro, compromisso algum, não pedimos nada em troca.
Mino passa pelo gabinete do general Golbery:
- Sinto a mão do senhor por trás disso tudo...
Como de hábito, a confiança no homem.
De volta à redação, Mino manda tirar da gaveta uma reportagem pronta há algum tempo. Conta, em texto substantivo, olímpico, a vida de alguns exilados ilustres cassados em 1964, ocupa duas páginas na primeira edição sem censura, e é ilustrada pela foto do líder esquerdista Leonel Brizola, abraçado a um cordeirinho em meio ao campo de um país fronteiriço chamado Uruguai, onde se tornou estancieiro. Consta que a publicação causa alguma irritação em áreas mais duras do regime, conforme relato do diretor responsável Faria, de hábito bem informado a respeito da meteorologia fardada.
Na edição seguinte, que coincide com o décimo aniversário do golpe, a capa exibe um xis de aço, o dez dos romanos, lívido em clima sombrio. Veja faz a análise de uma década de ditadura, análise cautelosa, mas crítica. Faria volta a informar:
- Os homens não gostaram, menos ainda que da reportagem dos exilados.
Outra edição, nela não há nada que, aparentemente, tire o sono do diretor responsável. Veja vai às bancas nas madrugadas de segunda-feira. Mino chega à redação às 10h, a secretária avisa:
- Seu Victor está chamando.
Mino brinca:
- Seu Victor não, Vici.
Vici afunda na sua poltrona giratória de espaldar himalaico e seu palor ressalta sinistramente contra o couro preto do estofamento:
- A revista foi apreendida nas bancas, a censura retorna, e desta vez...
Por quê? Por causa de uma charge, de autoria de Millôr Fernandes, titular na revista de duas páginas de humorismo. Mino ri graças a Millôr desde a adolescência, quando o lia na revista O Cruzeiro, pioneira das semanais ilustradas no país. Foi recordando aqueles tempos que Mino trouxe Millôr para Veja, ele é humorista no sentido pirandelliano, pensador das coisas da terra e do tempo, além de finíssimo desenhista.
E a charge? Cena de masmorra: escombro de ser humano pendurado na parede como Cristo na cruz, de fresta na porta da cela sai um balão e nele se lê. "Nada consta."
Vici pergunta, rouquenho:
- Edgard viu isso? - Mino informa que Faria viu.
E deixou passar? Evidentemente.
- E o senhor? - Civita trata Mino cerimoniosamente, à moda européia. - E o senhor também não percebeu que...
Mino interrompe:
- Seu Victor, não sou censor.
Convocado, Faria informa: o governo exige a entrega de todo material da revista, originais de textos e fotos, às terças-feiras, em Brasília. Conclui Mino:
- Querem é fechá-la. - Os cadernos quentes de Veja vão para a gráfica no fim da tarde de sábado e Mino constata o óbvio.
Do próprio gabinete de Civita liga para o general Golbery. O chefe da Casa Civil diz secamente:
- Vocês saíram da linha, colheram o que semearam!
Mino não se distingue pelo pavio longo. Como acontece freqüentemente com indivíduos que confiam no homem, na hora da decepção a evidência do sentimento malposto os açula ao destempero.
- Quer dizer - revida Mino com veemência - que a carapuça serve!
A comunicação é opaca e intermitente, a voz de Golbery alcança os ouvidos de Mino como a cobertura radiofônica da seleção de futebol em visita à África. De repente, a ligação se interrompe.
- Seu Victor - diz Mino -, vou a Brasília e vejo o que dá para fazer.
Ele experimenta uma sensação insólita. Sente pena de Vici, para sua própria surpresa. Gostaria de animá-lo, e esta também é uma forma de confiança no homem. "Que besta que sou", constata Mino de quando em quando, em diálogos interiores. Então se arrependia por algo que creditava a uma fragilidade d'alma, a uma fraqueza. No começo da noite daquele dia telefonou para o general Golbery, que atendeu com a voz habitual.
- De manhã - disse o chefe da Casa Civil - a comunicação estava péssima, nem dava para ouvir. - Mino percebeu que o general preferia esquecer os tons ásperos de horas antes.
Ficou marcada uma audiência para o dia seguinte, às 11. Mino optou por uma surtida imponente, tomado pela súbita vontade de ironizar a própria situação. Em vez do costumeiro, banal táxi, trafegou pela capital de limusine negra, nova-iorquina, e decidiu levar os filhos, a menina de 12 anos, o menino de 10, para um giro turístico pela cidade que não conheciam. 24 horas depois, no avião que os levava de volta para São Paulo, a filha, Manuela, comentou: "Pai, obrigada, foi muito divertido." O filho, Gianni, na época bastante lacônico, limitou-se a assentir com alguma gravidade. (Mudaria bastante ao crescer, colocando a loquacidade a serviço de um espírito atilado e naturalmente alegre.)
Mino pensou que o turismo pode transcender com vantagem visitas a museus, catedrais e belas paisagens, para se concentrar na perlustração da natureza humana.
Ao chegar ao gabinete do general Golbery, no Palácio do Planalto, sede da presidência, às 10.45, Mino Carta teve uma surpresa, para dizer pouco, desagradável. Deu com a presença, de todo imprevista, de Robert Civita, sentado no sofá da ante-sala.
- Que é isso? - disse Mino, a ponto de engasgar.
- Peguei o avião das sete - explicou, solícito, o filho do chairman, conselheiro do board e vice-presidente da holding. Mino chamou-o com um gesto irritado para um canto da sala enquanto dona Lurdinha, secretária do general Golbery, bondosa senhora de olhos de santa espanhola, trazia laranjada para as crianças.
- O que você quer? - escandiu Mino, tenso, mas preciso. De Robert Civita não conhecia aquela expressão, de Madalena aos pés da cruz:
- Por favor, Mino, me deixa entrar com você...
Deu-lhe as costas. O filho do dono foi atrás, encurvado, choroso, roçou o braço de Mino com a ponta dos dedos, toque de pedinte (desde que não seja cigano):
- Por favor, por favor.
- Isto é ridículo! - disse Mino, e o tom vibrante chamou a atenção dos filhos e da santa espanhola. - A audiência é para mim, e, francamente, não sei por que você teria de ir comigo.
E a ladainha de Arci:
- Por favor, por favor, por favor..
- Chega! - gritou Mino. Baixou o volume: - Chega, chega, chega – O último "chega" foi sussurro sibilante, pior que grito. - Só admito que você entre com o compromisso de que vai ficar quieto, entendeu, quieto, quem fala sou eu e você... calado, está claro?
Ele assentia com os olhos luzidios, torcendo as mãos. Mino imaginou-as mádidas.
- Não abrirei a boca, palavra de honra - prometeu Arci.
Golbery não conhecia o jovem Civita e Mino cuidou da apresentação. E sem mais preâmbulos interpelou o chefe da Casa Civil:
- Pretendem é fechar a revista Veja?
Tranqüilizou o general:
- Óbvio que não.
- Bem - explicou Mino -, então não há como fazer às terças a censura de uma revista que encerra o trabalho no sábado para ir às bancas na segunda.
O general entendeu e garantiu que a decisão inicial seria reformulada. A censura teria de ser executada em conformidade com os horários de Veja, e em São Paulo.
- Até de noite estará tudo definido - garantiu Golbery. Mino fez menção de levantar-se para a despedida, e um arrepio lhe percorreu as costas, como arpejo sobre a coluna, ao ouvir Arci com seu sotaque americano inflado pela voz baritonal:
- Um momentou, um momentou...
- Gostaria de perguntar ao senhor ministro - disse Civita, pomposo - se tem alguma objeção em relação a Millôr Fernandes. - Mino não teve dúvidas quanto à resposta que o general daria, mas se deixou enlevar pela imagem de Arci voando pela janela do quarto andar.
- Senhor Civita - soletrou Golbery, pontiagudo - não estamos pedindo a cabeça de ninguém e muito menos eu a pediria.
Ergueu-se e o cumprimentou sem palavras, com leve aceno.
-Você é realmente de lascar - disse Mino a Robert, na saída. E embarcou com os filhos na limusine, negra suntuosa, largando Arci na calçada.
Visitaram praças e avenidas monumentais, a catedral, o teatro e a universidade. Almoçaram em um restaurante pseudofrancês. Mas as crianças recordaram para sempre os trejeitos de Robert Civita.
As reuniões periódicas do board revelaram a Mino uma operação da editora que até então ignorava. Para construir o avantajado edifício à beira do rio e montar uma gráfica de porte alentado, a Abril contraíra dívidas vultosas junto a instituições financeiras estrangeiras. Algo em torno de 50 milhões de dólares, moeda dos EUA, em curso no império. Uma fortuna. Agora os Civita pretendiam consolidar a dívida no país e para tanto solicitavam um empréstimo - equivalente a cinqüenta milhões de dólares em moeda nacional - da Caixa Econômica Federal, presidida por Karlos Rieschbieter, digno funcionário de carreira.
A pretensão era legítima e amparada em avais e garantias satisfatórios. De fato, Rieschbieter aprovou o empréstimo sem objeções. Havia, contudo, o lado político da questão, pesava muito e ficava acima das atribuições do presidente da Caixa. A solicitação partia de uma empresa de comunicação que publicava uma revista de informação submetida à censura do regime. Da mesa de Rieschbieter, o pedido de empréstimo zarpou para o périplo do poder, até cair debaixo dos olhos do ministro da Justiça, Armando Falcão, o qual disse:
- Epa, que história é essa? Como é possível ajudar a editora desta Veja, inimiga da gente?
A pasta da Justiça é de importância vital no país Brasil, onde se recomenda tecer o imbróglio jurídico sempre que a oligarquia quer justificar legalmente seu enésimo desmando. E nem se diga o quanto é decisiva em tempos de ditadura. Além disso, Falcão era desses que agarram à deusa da sorte pelos cabelos. Não tardou a perceber e aproveitar toda a extensão dos seus poderes, a ponto de sentir-se à vontade para assumir posições nem sempre coincidentes com aquelas do general Golbery.
O desencontro se acentuaria com o tempo, embora Falcão não perdesse ocasião de declamar fidelidade ao general-presidente Geisel e infatigável dedicação aos interesses da pátria. De todo modo, naquele momento, meados de 1974, o ministro da Justiça empacou diante do pedido da Abril. Mil quilômetros a leste, Mino considerou a possibilidade de que sua nomeação para o board tivesse a ver com tudo isso. Diga-se que a promoção implicava conspícuo aumento de salário e a aprazível dilatação daquilo que os Civita chamavam de fringe benefits, benesses de diversos calibres, tais como um carro de luxo, chofer e combustível incluídos; passagens aéreas para o Exterior; planos de saúde abrangendo três gerações de familiares.
Mino mirava em outro gênero de patrimônio que não o do dinheiro e do poder, e até, de vez em quando, se questionava a respeito. Que o movia? Complexo de superioridade ou o exato contrário? Meditou: "Serei presa de um tolo moralismo? Ou vítima deste sentimento de remorso que minha mãe cuidou de me inculcar na tenra infância com suas lamúrias e recriminações?"
Neto e filho de jornalistas, não atribui à profissão o valor pretendido por inúmeros colegas. Pelo contrário, sempre entendeu que ela se presta ao jogo do poder porque os próprios patrões da comunicação estão sentados à mesa e distribuem as cartas. Na quadra dura que o Brasil vivia, deu, porém, e subitamente, para achar gosto no trabalho, bem acima das miúdas satisfações do espírito colhidas até então. A irrupção da censura é a prova de que os oligarcas e os seus gendarmes estão, no mínimo, incomodados. De repente, sente prazer no que faz porque se dá conta de sua serventia.
- Todo homem tem seu preço - repetem os Civita, pai e filho, e Mino curte a impressão de um coro ensaiado com desvelo. Vici levanta-se da cabeceira da mesa de reuniões, vira as costas para os conselheiros, inclina-se para a frente, na direção da parede, e faz menção de abaixar as calças.
- Se os militares me pedirem para arriar, eu executo - proclama. Volta a sentar-se, e soletra, absurdamente solene: - Quero deixar bem claro aos senhores!
Mino não baixará as calças, não tem dúvidas quanto a isso, mas anota estar ali, entre os senhores do conselho, para ouvir e ver, e aprender a lição.
Richard Civita tem ojeriza a alho. Ojeriza? Algo mais, talvez. Ódio. Um dia na reunião do conselho pede, com irritação crescente, que o alho seja definitivamente banido do rol das compras da cozinha do roof, o restaurante instalado na cobertura do Edifício Abril. "Basta de alho", exclama, ao encerrar elaborada e trovejante peroração, e bate a mão sobre a mesa.
Mino aprova imediatamente. Não é que tenha aversão ao alho, ou alergia, mas encara a proposta de Richard Civita com simpatia por entender que, na mão de cozinheiros e cozinheiras nativos, o alho vira bala dun-dum. Dada a primazia à mulher de Victor, na escala hierárquica do apreço pela família, Mino coloca em seguida Richard, que, na sua opinião, herdou algo da mãe. A franqueza, não fosse outra característica.
Não é comum que os dois se encontrem fora da Editora, mas quando Richard o convida para um jogo de tênis, acompanhado pelo jantar, em sua casa no bairro do Morumbi, Mino aceita de bom grado. Depois da partida, conversam no alpendre, tomando aperitivos.
-Você não acha que daria para mudar a linha de Veja? – pergunta Richard, e malogra redondamente ao forçar um tom casual.
- Seja mais específico - responde Mino.
Não se faz de rogado:
- Você sabe que sofremos pressões militares para tirá-lo da direção da revista?
Mino não sabe, ainda que possa supor. Que tipo de pressões?
- Pressões de escalões muito altos.
- Generais?
- Generais - confirma Richard, e fornece um número - quatro.
- Quatro generais?
- Quatro generais.
- E vocês estão preocupados com a minha incolumidade? - pergunta o objeto das pressões, mordaz.
Richard ri.
- A gente gosta de você, mas em primeiro lugar estamos é preocupados com o futuro da empresa, eu estou muito preocupado.
E Mino, a sério:
- Agradeço a sua sinceridade, mas é bom saber que não me assusta com essa história dos generais.
- Você reconhece que temos o direito de mudar a linha da revista, se for necessário? - pergunta Richard.
- Reconheço, sim. Gostaria que você reconhecesse que eu não posso mudá-la. A editora tem o direito de recuar, mas eu não quero recuar, e digo mais, não posso: se bato em retirada, como me olharei no espelho, toda manhã, ao fazer a barba?
Diz Richard:
- Gosto de você, mas você sabe que vai chegar a hora, não é mesmo? Ou recua, ou...
Mino interrompe:
- Ou vocês vão ter de me pôr na rua.
Aquela foi, para Mino, uma conversa que acabaria orientando os seus passos. E saiu da casa de Richard Civita sem qualquer ressentimento em relação ao anfitrião, o qual também poderia ser chamado de Arci. Poderia, mas não era, Arci só o primogênito.
Edgard de Silvio Faria jamais baixava as pálpebras sobre a expressão polar, de um azul esbranquiçado. Mino duvidava que ele as baixasse até na hora de dormir e durante o sono. Imaginava-o perenemente com aquele olhar redondo, parado e antártico. Mino sempre tivera dificuldade em se relacionar com pessoas que não piscam. Felizmente para ele, conhecera e conhecia poucas. Isso pode explicar por que a convivência entre o diretor responsável da Editora Abril e o diretor de redação da revista Veja não fosse fácil.
Com dois complicadores. Primeiro. Na opinião de Mino, Edgard era reacionário demais. Segundo, exercia uma função que o habilitava a meter o bedelho em coisas da revista, ao menos indiretamente. Por exemplo, ele poderia dizer, tentando se antecipar à pauta: "É do interesse da Editora reportar o discurso presidencial sem maiores comentários." Queria dizer: "Não tomem uma postura crítica, se por acaso tiverem vontade de fazê-lo." Intervenções deste gênero irritavam bastante Mino e tornavam mais tensa a convivência entre os dois.
Havia também o zunzum de que Edgard tinha ligações com figuras da repressão. Mino, no entanto, não dispunha de provas a respeito e não se contentava com suspeitas. De todo modo, depois da ascensão do diretor de Veja ao board, Edgard empreendeu uma guinada de comportamento que surpreendeu Mino: no decorrer das reuniões do conselho, o diretor responsável freqüentemente sorria com tiradas do diretor da redação, o qual não conseguia se furtar a uma ironia, ou a uma frase de efeito, quando a situação as permitia, e mesmo quando não. Era da natureza dele, é de se crer, enquanto o sorriso de Edgard, típico de quem saboreia e aprova, não parecia próprio da natureza deste. Excepcionalmente, Edgard podia até liberar uma gargalhada, de incrível efeito porque de todo inesperada ao se erguer do seu peito de intérprete do Otelo, a ópera, que o empurrava com veemência contra o espaldar da cadeira a ponto de lhe ameaçar o equilíbrio.
Depois de algum tempo marcado por tais manifestações, Mino perguntou a outro Edgard, este Catoira, fidelíssimo amigo que ele encaminhara para o jornalismo e que agora dirigia um departamento chamado Abril Press:
- Vem cá, que está acontecendo com seu xará?
A pergunta era pertinente porque a Abril Press, incumbida de oferecer, no país e no exterior, o material da Editora, estava subordinada ao diretor responsável.
Catoira não se incomodava com interlocutores que não piscam, e não entendeu a pergunta. Mino deu explicações. E Catoira:
- Olha, nunca ouvi dele qualquer palavra contra você, talvez saiba que eu reagiria, mas me parece sincero.
Mino cogitou da possibilidade de que Faria, ao conhecê-lo mais de perto, dera para apreciá-lo, de alguma maneira. Nas reuniões do board Mino ganhara a impressão de que o diretor responsável não nutria grande simpatia pelos patrões. Será que os considera arrogantes, prepotentes, quem sabe um tanto naïves, como eles próprios diriam? Certo é que, meses após, Catoira surgiu na frente de Mino, esbaforido, esticava na direção dele um papelucho.
- Leia, leia.
"Estive com o Falcão esta tarde", dizia o bilhete recém-chegado da sucursal de Brasília, via telex, "e ele se queixou asperamente da editora. Estava nervoso e chegou a elevar bastante o tom. Dizia que a Veja escala em desafios, e afirmou textualmente: 'Este empréstimo não vai sair nunca.' Disse também: 'Que esperam para se livrar do Mino?' Refere-se a ele como se fosse um revolucionário, um terrorista, tanto que chegou a sustentar: 'Mino é codinome, ele se chama mesmo é Demetrio.'"
O bilhete era assinado por Pompeu de Souza, diretor da Abril em Brasília, jornalista celebrado como autor da reforma de um jornal chamado Diário Carioca, a qual, segundo versões até então em voga, teria sido comentada com deslumbramento em Nova Iorque e demais capitais da cultura do Ocidente.
- O Edgard me pediu para lhe mostrar - esclareceu o outro Edgard.
- Por quê?
- Não sei - disse Catoira -, mas acho que foi por solidariedade; ao me entregar o telex, ele disse - o Mino tem de saber.
Dá-se ao certo que o diretor responsável nunca fez menção ao bilhete em reuniões do conselho e que os Civita não falaram com Mino a respeito, mesmo em particular. Quanto a Mino, ele se perguntou como é possível que um profissional como Pompeu de Souza dê a preferência aos patrões, e ao ministro da ditadura, em relação a um colega? Não teria, no mínimo, de informá-lo imediatamente, de pô-lo em guarda?
Demetrio se chamava o avô paterno e o nome fora imposto a Mino por uma dessas tradições que às vezes infelicitam os descendentes. No caso, o neto. Ao tomar consciência da imponência rombuda do nome, o apelido Mitino soou-lhe como mal menor - até contraí-lo para Mino ao assinar o seu primeiro texto jornalístico, aos 15 anos.
Vinte e cinco anos depois, Mino foi a Brasília para conversar com Golbery e cavalgou a oportunidade para pedir uma audiência com Falcão. Ao entrar no gabinete do ministro da Justiça, extraiu do bolso a cédula de identidade, e com gesto teatral, como se brandisse o trunfo do jogo, atirou-a sobre a mesa de Falcão.
- Olhaí - disse - a cédula do Demetrio, o subversivo de codinome Mino.
Victor Civita era dotado de muita energia. Um empreendedor, um fazedor. Um tycoon, dizia Arci. Era cultor de Maquiavel, na acepção comum, e óbvia. Do cotidiano da política, entendia pouco ou nada. Não lera os livros necessários a formar uma cultura substanciosa, mas isso poucos notam nestas latitudes. Tinha-se em alta conta, como realizador, esteta e casanova.
Mino tendia a lhe registrar talento e méritos no primeiro desempenho. Quanto ao terceiro, faltavam-lhe elementos para avaliações satisfatórias. Observava apenas que Civita fazia sinais de apreço gastronômico tão logo virava as costas uma das secretárias de Veja, como se estivesse na iminência de atacar uma iguaria, sem poupar os vizinhos dos olhares coniventes de quem condescende em compartilhá-la conosco. A iguaria.
No campo da estética, cabia observar que Civita usava com o smoking camisas de piquê de botões negros, salpicadas por pintinhas igualmente ferais - enquanto o filho Robert as preferia verde-pistache. Questões de gosto, o que se aplica também às rãs de pedra azulada - elas espreitavam os convidados aos jantares na casa de Vici do fundo das lavandas de prata no momento do dessert, palavra esta que pai e filho pronunciavam disert.
Era momento não isento de suspense. Não faltavam convidados que se assustassem ao tropeçar com os olhos nas rãzinhas, obras de alucinante realismo, agachadas debaixo d'água, como se engatilhassem um salto na direção do Saint-Honoré ou do sorvete de chocolate. Parece que em diversas ocasiões ouviram-se gritos de pavor à mesa dos Civita seniores e que três damas da melhor sociedade desmaiaram em oportunidades diversas.
Algo encantava Mino, na casa do patrão: a coleção de desenhos e guaches de um grande artista, Saul Steinberg, de quem Victor ficara amigo durante a guerra, em Nova Iorque, onde produzia papel de embrulho e caixas de papelão. Muitas obras, mais de trinta, supunha Mino, não sabia se ganhas de presente ou compradas. A amizade, em todo caso, era de boa qualidade, tanto que Steinberg, ao visitar São Paulo, nos anos 50, procurou os Civita.
Ao seu cicerone, Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte, Steinberg pediu que o levasse. Bardi só tinha a vaga informação de que moravam em um sobrado de certa avenida.
- É o bastante - sentenciou Steinberg.
É uma avenida muito comprida - atalhou Bardi. Não tem importância - disse Steinberg, seráfico - andaremos ao longo dela e não tenha dúvidas, a certa altura saberei onde parar. Percorrem a avenida de um lado. Nada. Mudaram de mão. De repente, Steinberg ordena:
- Pára, pára.
A porta de uma casa se abre para projetar Vici de braços abertos, a família vem atrás, cacarejando alegria. Foi uma festa. Mais tarde, quando ficaram a sós, Bardi perguntou a Steinberg:
- Como descobriu a residência dos seus amigos? E o artista, impassível:
- E você não reparou na revoada de pombos de cerâmica na fachada e nos anões do jardim?
Tratava-se de um sobradinho modesto. Anos depois mudaram-se para um apartamento senhorial e é lá que Vici convida Mino para um jantar a dois no começo de 1975.
- Só o senhor e eu - avisa o patrão.
Mino não temia as rãs, mas imaginou que o prato de resistência seria a peroração de Vici pela mudança da linha da revista. Pois os batráquios compareceram, mas a conversa foi outra. Civita falou da cidade natal, da juventude, da fuga para Nova Iorque. Sem pieguismo. Comovido, numa ou noutra passagem; no entanto, pareceu a Mino, sem a intenção de comovê-lo. O empréstimo da Caixa que não saía, a censura que recrudescia a cada edição de Veja - nada disso foi aventado.
Mino se recolheu achando que Vici era capaz de sentimentos.
Em fins de junho de 1975, Mino tomou a iniciativa e se chegou ao patrão com uma proposta bem articulada.
- Seu Victor - disse -, se me permite tenho uma saída: o senhor tira meu nome do expediente, põe os dois redatores-chefes no meu lugar, como co-diretores, eu fico por trás do pano, orientando a transição pelo tempo que for preciso, depois veremos.
Mino armou um sorriso aliciador e completou:
- Que tal me entregar o posto de chefe dos correspondentes europeus, com sede em Roma? - Roma, capital de um país chamado Itália.
Civita, perplexo, repetia:
- Francamente... francamente... francamente...
Mino insistiu:
- Seu Victor, reflita, é uma boa idéia: o senhor faz na revista os retoques devidos, e os sugeriria comedidos, ao menos no começo, para não ser servil demais e não desagradar o público que nos lê porque somos peitudos. E eu vou flanar na minha cidade preferida.
- Não sei, não sei... - disse o patrão.
Havia, porém, alguma coisa no jeito dele indicando que a proposta o tentava. Mandou chamar Arci, fez um relato da conversa. O filho ergueu o sobrolho com gravidade grandiosa.
- Precisamos refletir, esta não é uma decisão que possa ser tomada na hora... - todos concordaram, ficou acertado que voltariam a reunir-se a curto prazo, em dois ou três dias.
Dois dias depois, Victor convocou Mino, e ele, como sempre, desceu do sétimo andar, onde ficava a redação, para o sexto, pela escada de mármore perigosamente escorregadia. Recomendava passos medidos, propícios a ensaios daquilo que haveria de ser dito e ao cálculo das possíveis reações dos interlocutores. Mino apostaria quantias elevadas na aprovação da sua proposta, e a perspectiva de se mudar para Roma acariciou-lhe o plexo solar.
Aposta perdida.
- Mino, não nos sentimos à vontade para aceitar a sua idéia - disse Vici.
Mino dividiu-se entre decepção e agrado - sentimento de dúvida, em relação a si próprio e tudo o mais.
- É uma idéia interessante - disse Arci, no seu melhor timbre de estadista.
- Generosa - ecoou Vici -, muito generosa, mas inaceitável.
- Por quê? - perguntou Mino.
- Não nos convém, neste momento - respondeu o filho.
- Como assim...
- Acho que não estamos maduros para ficar sem você - esclareceu o pai.
Mino considerou a possibilidade de que ainda esperassem convencê-lo a mudar a linha sem correr o risco de serem acusados de se curvar às pressões e de dispensar um profissional honrado em nome das conveniências do negócio.
- Vocês sabem que nada vai mudar enquanto eu for diretor da revista - sublinhou Mino. Não pretendia ser agressivo, apenas firme. Assentiram pressurosos. Pressurosos demais, pensou.
Meados de novembro de 1975, Mino renova a proposta. Nos últimos três meses a situação degringolou em conseqüência de um desastrado discurso do general-presidente Geisel. Afirmou que a dissensão não foi tão lenta e gradual quanto seria desejável, houve precipitação, e, portanto, deixou de ser segura. Daí a conveniência de se reestudar o projeto. Em letargo há tempo, o terror de Estado emerge da toca.
Quando Mino retorna à presença de Vici com seu plano, acaba de morrer sob tortura nas masmorras da repressão o jornalista Vlado Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura. Duas semanas antes do assassínio, Mino dera emprego a um dos melhores amigos de Herzog, e seu imediato na televisão, saído da Cultura por medida de precaução.
Não foi o único desafio ao regime cometido por Veja no período, apesar das ameaças e da tensão montantes. A revista aprimorou as tentativas para ludibriar a censura e, às vezes, conseguiu. Além disso, em julho, Mino entregou a Plínio Marcos, teatrólogo e ator, perseguido pelo regime, uma rubrica semanal de esportes que de tudo falaria menos dos próprios. Plínio é autor da peça Abajur Lilás, cuja estréia foi proibida por determinação direta de Armando Falcão, a quem compete, entre outras atribuições, elaborar o índex da ditadura fardada.
Mino encara a situação de dois ângulos, e ambas as análises o conduzem à mesma conclusão. De um lado está a Editora Abril, com seu pedido de empréstimo subordinado à renúncia à linha crítica. De outro, a convicção de que seu tempo na Veja se esgotou. A morte de Vlado é o ponto de ruptura. Mino sabe que a sua concepção do jornalismo já não se justifica à sombra da arvorezinha, símbolo da Abril, e o impele na direção de outras experiências. Vici tergiversa, mas Arci sugere:
- Por que você não tira um período de férias, de seis meses, por exemplo?
Mino esclarece- - Tenho três meses de férias vencidas, três e não mais. E Robert, complacente:
- Tudo bem, então tire três. Observa Mino:
- E daí, o que muda? Mesmo de férias, sou o diretor, enquanto estou oficialmente no leme não há como alterar a rota.
A rapidez com que pai e filho apresentam uma solução para o problema é suspeita, e nem por isso Mino se abala. Os dois estão preparados há tempo para esta conversa, é óbvio. No entanto, os botões do diretor de Veja permanecem em estado de absoluta indiferença quando Vici esclarece:
- Faremos um protocolo para garantir o sossego de suas férias.
Protocolo? Que nome ridículo, pensou Mino. Mas lhe faltou ânimo para uma daquelas tiradas que despertavam o inesperado sorriso do diretor responsável. E se fez o protocolo, colaborou o próprio Edgard Faria para lhe dar a forma de documento juridicamente válido. Pontos principais: Mino seria substituído em tudo e por tudo pelos dois redatores-chefes, José Roberto Guzzo e Sérgio Pompeu; a linha da revista não sofreria a mais pálida modificação; ninguém, empregado ou colaborador, poderia ser demitido por razões político-ideo1ógicas Não estaria a salvo, está claro (mas como seria bom o contrário), quem, por exemplo, desferisse um louvável pontapé nos fundilhos de Robert Civita.
Mino partiu para Roma - naturalmente - nos últimos dias de 1975, com data marcada para o retorno à redação no dia 1º de abril do ano seguinte, quando caducaria o protocolo. Partiu em paz, em companhia da mulher que amava, deixando-se embalar pelo momento presente. Não teria razões para se arrepender por ter posto a emoção a cantar.
Nem se passaram quinze dias sua partida, e ao encontrar Edgard Catoira aparentemente por acaso, Victor Civita desvendou os propósitos da operação. Destinava-se a avaliar o grau de fidelidade da redação de Veja ao diretor, a capacidade dos redatores-chefes de assumir o comando e sua disposição para alterar a rota. Não é que Mino não tivesse cogitado desta possibilidade, e até a aquilatasse como a mais provável. Dá-se que, àquela altura, pouco se importava com o desfecho do enredo. Em compensação Catoira, que nutria por Mino admiração infinda, padeceu de insônia noites a fio.
O encontro com o patrão aconteceu na praia onde ambos veraneavam, Catoira de austero calção azul-marinho, Vici de sunga exígua, inadequada ao físico e à idade, vestida com a implacável certeza de estar sempre agradando. Catoira, esticado na espreguiçadeira, sentiu a mão imperiosa pousada sobre o ombro, ergueu os olhos e bateu no rosto rapace do chairman. Levantou-se num salto. Alguém poderia supor a demonstração do respeito. No entanto, foi susto.
-Vamos dar um passeio - convidou Vici, como que induzido ao gesto pela modorra embaçada da hora. Caminharam com os pés na água espumosa. O patrão dissertou sobre eventos recentes, relatou outros, deteve-se de súbito:
- Edgard, que faz o empresário cujo executivo toma decisões que prejudicam a empresa?
Mais tarde, Catoira perguntou à sua mulher (eles eram muito unidos):
- Por que o cara fala estas coisas comigo? Ele sabe que adoro o Mino.
- Por isso mesmo - responde a mulher.
Mino voltou de viagem dia 23 de janeiro de 1976, vinha no mesmo avião que trazia o vice-governador do Estado de São Paulo, Manuel Gonçalves Ferreira Filho. E senhora. O mesmo Maneco - assim o chamavam os amigos - que tempos depois se referiria a Mino, em conversa com o comandante do II Exército (abrangendo vasta região a partir de São Paulo), general Dilermando Gomes Monteiro, como perigoso subversivo. Comunista até a medula.
O general Dilermando era, a seu modo, bastante peculiar. Discordou
- Subversivo? Não acho, leio o que ele escreve, enxergo um opositor que sabe honrar sua profissão.
Dias depois, convidou Mino em sua casa para um chá no meio da tarde, e ambos acharam muita graça no Maneco. E voltaram a se encontrar muitas vezes.
Mino e o vice-governador não combinavam e a bordo do avião evitaram trocar olhares. Na hora de sair, a mulher de Mino, encanto de pessoa distraída, adiantou-se, embora Mino tentasse segurá-la, e desceu ao lado do vice-governador, esperado na pista pela claque dos correligionários. Só faltava a banda de música. Aos pés da escada, a mulher de Mino deu-se conta do ocorrido. A autêntica senhora Ferreira, atrasada três degraus e de início ignorada, a despeito de um penteado em perfeita levitação graças ao laquê prodigioso, foi presa de um ataque de irritação sem freios, para deleite de Mino que, do alto da escada, gozava de visão panorâmica do conjunto.
Ao chegar em casa, o casal ainda ria do evento, quando o telefone trilou. Era a secretária de Civita pai. O patrão convocava Mino para uma conversa urgente. Ele foi, para ouvir Vici decretar:
- Você precisa demitir Plínio Marcos, já!
Mino não tinha tido tempo de sentar-se, sentou-se.
- Como?
- Demitir Plinio Marcos - repetiu o patrão.
Por quê?
A censura está para sair de Veja, garante Vici, a demissão de Plínio Marcos é o que falta para encerrar o assunto.
Mino, empenhado há algum tempo em controlar a sua impulsividade, receitara para si próprio adequados exercícios de respiração a serem executados nos momentos ríspidos, bem como o tradicional recurso de contar mentalmente até 10 antes de tomar qualquer atitude. Foi o que fez, e mais tarde louvaria a si próprio por isso.
- Seu Victor, assinamos o protocolo - lembrou. O chairman parecia ter esquecido o documento.
- Que está dizendo? - inquiriu, áspero.
Paciente, Mino recordou que o protocolo vigorava até 1º de abril.
- Até lá - disse -, as coisas ficam como estão, depois faça o que bem entender, mas despeça a mim antes de Plinio Marcos.
- Não - exclamou Vici -, você demite. - E sublinhou "você", com ênfase. Mino repetiu os exercícios relaxantes. Ao cabo, perguntou:
- O que o leva a crer que a censura está saindo da Veja?
E ele, prontamente:
- Errecê esteve ontem em Brasília, com o Falcão, está tudo acertado.
- Sinto, seu Victor, mas o protocolo tem de ser respeitado até 1º de abril. Não abro mão do protocolo.
- Mas como? Até o Tratado de Versalhes foi rasgado...
- Fico surpreso com esta lembrança - disse Mino, e imaginou que, estivesse ali, o diretor responsável não evitaria um sorriso -, mas que o senhor, judeu, se refira, ao Tratado de Versalhes é de pasmar...
Vici não entendeu, ou fingiu.
O Tratado de Versalhes, assinado quase sessenta anos antes, vexara severamente a Alemanha, batida em cruentíssima guerra mundial, e a humilhação fora o caldo de cultura do qual, lá pelas tantas, emergiu a figura sinistra chamada Hitler.
- Demita Plinio Marcos! - mandou Victor Civita.
- Demita o senhor, até logo e passar bem.
Mino deu-lhe as costas e saiu da sala. No andar de cima o esperavam redatores-chefes e editores, Mino se viu na condição de repórter e a cumpriu com concisão. Seu nome saiu do expediente na edição seguinte e foi proibido seu acesso ao Edifício Abril.
Um dia antes do retorno de Mino, mais um havia morrido sob tortura, o operário Manuel Fiel Filho. De todos os episódios do trabalho incompetente da repressão, este foi o mais patético e trágico, ao mesmo tempo. Manuel, inócuo cidadão, não era aquele que supunham ser. Todos trafegaram às escuras, torturadores e torturado.
Dorrit Harazim era uma pessoa bem mais bondosa do que aparentava e, talvez, do que ela própria supunha. Como profissional, na opinião de Mino, era mais preparada e boa de texto do que quem se imaginava superior a ela. Como acontece mais facilmente com mulheres do que com homens, sabia combinar razão e emoção em doses adequadas a cada circunstância. Figurava na equipe de Veja desde o lançamento a convite de Mino, e do posto inicial, subeditora de Internacional, evoluíra para a chefia da seção com todos os méritos.
Foi ela quem entendeu que a saída de Mino, precipitada daquela maneira, pela covardia e pela prepotência dos patrões, acabaria pesando na consciência da redação e comprometendo seu futuro.
Empenhou-se para mudar o rumo do episódio.
Dorrit, que Mino chamava de Little Dorrit, lembrando a personagem de Dickens, não imaginava ser possível trazer de volta o diretor defenestrado. Estavam em jogo posições inconciliáveis e os interesses da Abril - a razão da empresa - não deixariam de prevalecer. Entendia, no entanto, que as coisas poderiam correr de forma menos traumática, até porque, achava ela, Mino era bem menos impulsivo do que aparentava e, talvez, do que ele próprio supunha.
Dorrit estava a par das tentativas do diretor da redação para encontrar uma solução negociada e supôs haver alguma chance de reeditar a proposta recusada pelos Civita em junho e em novembro de 1975. Enquanto a redação vivia dias turvos, desorientada e insegura - e, com isso, aprofundava o medo e a incerteza dos patrões -, Dorrit sugeriu ao próprio Victor Civita um encontro do filho Robert com Mino. O que Vici e Arci conversaram a respeito ninguém sabe, certo é que Robert topou.
- Encontro com o idiota? Por quê? - perguntou Mino a Dorrit.
- Estou defendendo os interesses da redação, pelo menos é o meu propósito.
- E eu, little Dorrit?
- Talvez as coisas se acertem entre você e os Civita.
- Não vai me dizer que acredita na minha volta...
Ele enxerga uma sombra melancólica no rosto de Dorrit. Concorda:
- Tudo bem, recebo o homem amanhã, em minha casa, às sete em ponto da noite.
Arci foi pontual e logo botaram a bola no chão. Civita lamentou o rumo tomado pelos eventos e não escondeu sua apreensão, e a do pai, com a inquietação que serpeava na redação. Mino evocou a velha proposta, que os livraria da sua presença sem choques e percalços - e levaria a ele para Roma, em estado de extremo deleite. Civita murmurou algo em torno da impossibilidade de se recuperar o leite derramado.
- Seu pai me disse que você foi a Brasília, um dia antes da minha volta, e acertou com Falcão o fim da censura.
Sim, estivera com Falcão.
- E como foi a conversa?
- Falcão comentou que você é crítico demais em relação ao governo e, em geral, muito mal-humorado.
- E você, que respondeu?
Arci controlou com dificuldade uma expressão quase risonha, a meio caminho entre a tolerância e a ironia:
- Bem, que haveria de dizer? Negar que você não é critico...
Mino interrompeu:
-... e mal-humorado.
- Pois é, mal-humorado... não poderia deixar de concordar
- E que mais?
- Falcão sustenta que você não quer o bem de Veja e da Abril, de certa forma conspira contra a gente. Sugeriu que se ponha outro em seu lugar, alguém que mereça a nossa confiança, Pompeu de Souza, por exemplo.
- Lembro-me de minha mãe - sussurrou Mino, e soou como fala de outro entrecho, de fato não leria espanto maior na expressão de Arci se tivesse três cabeças. Prosseguiu, degustando a situação. - Dizia minha mãe: vou contar até três e se você não fizer o que estou mandando, vai levar uma surra.
Neste ponto, Mino ergueu-se da poltrona e, levando a sério a possibilidade de possuir, efetivamente, uma penca de cabeças, disse a todo volume:
- Saia, já! - E começou a contar, com as pausas devidas: - Um... dois...
Ao pronunciar três, ouviu a porta do elevador que se fechava.
- Foi até a churrascaria Rodeio, lá o aguardavam redatores-chefes e editores, conforme o combinado.
- Meus caros, fiz o que pude, mas não deu, o moço confessou.
Observou os rostos que o rodeavam. Decepcionados, indignados, magoados, entristecidos? Ou simplesmente indecisos quanto ao comportamento a tomar? Realmente, lhes doía sua saída, ou estavam empenhados apenas em definir uma atitude que não os diminuísse aos olhos do mundo? Mino prosseguiu:
- No fundo, e nem tão fundo, preferiria que o moço me dissesse - erramos, se você concorda, voltamos à sua proposta do ano passado e vamos em frente naquele sentido. Ou seja, tira-se meu nome do expediente, os redatores-chefes assumem, eu fico ajudando até quando for necessário, aí vou comandar de Roma os correspondentes europeus.
Mino esperou que, ao menos, entendessem o quanto gostaria de estar em Roma naquele momento. Depois do jantar, Dorrit chamou-o de lado e anunciou, impávida:
- Não pense que entreguei os pontos.
Para mais um encontro com Mino, prontificou-se o próprio chairman. Uma sensação de vergonha e humilhação agitava a redação, alguns estavam confusos, outros encolerizados, e tais sentimentos não favoreceram as duas edições feitas depois da demissão de Mino. Em compensação, facilitaram a operação Dorrit. Avisou a Mino:
- Seu Victor gostaria de conversar com você, aqui mesmo, na editora.
- Mas como - disse ele -, se minha entrada foi proibida?
- Você vai entrar. Amanhã às 4 está bem?
O editor e diretor saiu de trás da mesa de trabalho e foi ao encontro de Mino de braços abertos, apertou-o contra o peito - Mino juraria que Vici estava de olhos marejados - e o comboiou para o sofá, conforme ritual reservado a visitantes de respeito.
- Mino, Mino, por favor me ajude - invocou.
- É simples - disse Mino -, é só colocar novamente em vigor o protocolo, oficialmente até 1º de abril, de verdade, antes disso o senhor receberá minha carta de demissão, porque está claro nesta editora não trabalho mais, nem mesmo como correspondente em Roma, é impossível conviver com seu filho, um cretino...
- Não diga isso - implorou Vici -, diga ingênuo.
- Está bem, ingênuo. Por enquanto, o senhor devolve meu nome ao topo do expediente e chama de volta Plínio Marcos. Acho que assim a redação se acalma.
- Mas, que vai dizer o Falcão? - perguntou o diretor-presidente, com a ingenuidade que atribuía ao filho, pensou Mino na hora. Tempos depois pensaria melhor: ingenuidade? Que nada, desfaçatez. Na ocasião, Mino esclareceu prontamente, - Eu mesmo contarei ao Falcão estas decisões, já marquei uma audiência com ele.
O chairman arregalou os olhos.
- É mesmo?
Mino respirou fundo:
- O senhor acha que estou brincando?
O nome de Mino reapareceu na edição seguinte no lugar habitual, mas Plínio Marcos recusou-se a voltar a colaborar, o demitiriam novamente ao caducar o protocolo. Mino deixou uma lacônica carta de demissão nas mãos dos redatores-chefes, avisando:
- Um dia desses peço para entregar ao seu Victor.
Dias depois, Falcão disse ao recebê-lo:
- Mino, você vive dias muito tensos, acho que lhe faria bem passar uma temporada na minha fazenda de Quixeramobim, uma beleza, você vai lá pelo tempo que quiser, deita na rede debaixo das árvores, toma água de coco...
Mino foi polido.
- Obrigado, mas fica para outra vez. Por enquanto, seja gentil de outra maneira, me conta como foi, do seu ângulo, essa história toda que nos envolveu...
- Elementar, elementar. eu recebia aqui quatro diretores da Abril, Victor Civita, Robert Civita, Edgard de Silvio Faria e Pompeu de Souza. Os quatro repetiram, dois anos a fio, que a Veja estava contra a gente por sua causa. Então, pergunto: que teria de fazer? Meu caro, não tinha alternativa.
Mino anuiu.
- Certo, certíssimo.
Despediu-se.
- Olha, não vai esquecer do meu convite para a fazenda de Quixeramobim - recomendou Falcão.
Dois meses após, a censura acabou em Veja e a Abril recebeu o empréstimo.
A saída de Veja não foi um fato negativo na vida de Mino. Pelo contrário, levou-o a praticar um tipo de jornalismo que correspondia às suas idéias políticas, pendores estéticos e humores em circulação entre o fígado e a alma. Versos escritos em perfeito italiano duzentos anos antes de Dante pelo rei Enzo da Sicília, neto de normandos, ele os tinha como lema:
Giorno non ho di posa,
come nel mare l'onda.
Achava que os versos o retratavam. Mediu, naquele começo de 1976 - e isto também foi positivo -, os alcances da velhacaria patronal e de boa parte dos seus colegas, patifaria de largo espectro, e espaço idem para a estupidez, a ignorância, a prepotência, a inveja, a hipocrisia, o oportunismo e o que mais quiserem na linha inesgotável das características do lado negro do homem. Com exceção de notas esparsas, mas prudentes, a história só foi contada, com correção e todos os detalhes, pelo jornal do sindicato dos jornalistas de São Paulo, então presidido por Audálio Dantas, veterano do jornalismo a despeito de apenas quarentão, e dono daquela rara coragem que não se permite alardes.
Vinte e três anos depois surgiu nas páginas de jornais e revistas uma comparação entre Victor Civita e Mino Carta, feita em 1987 pelo último general-presidente, João Baptista Figueiredo, em meio a longo depoimento a ser divulgado somente depois de sua morte. "Victor Civita", gravou Figueiredo, "me disse no palácio que o papel da imprensa não é agradar o governo. Mas será que tinha moral para dizer isso? Vá ver se a Abril não foi selecionada para fornecer livros fornecidos pelo Ministério da Educação... Prefiro o Mino Carta, de quem o general Geisel não gostava. O Mino é um chato, um criador de casos, com aquele vício de questionar tudo. Algum dia, ele vai querer fazer a revisão do Evangelho. Mas não ficou com o rabo preso."
Mino achou que este foi o maior elogio que recebeu em toda a vida e talvez valesse como epitáfio.
[Nota do organizador: Haverá quem perceba neste conto ecos de situações vividas por Mercúcio Parla. Referências autobiográficas não são incomuns, contudo, entre ficcionistas]
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