ARMAZÉM LITERÁRIO
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FLORES DO APRENDIZADO
O nome desse lírio
Luís Edgar de Andrade
Flores são metáforas. Quando Mike Tyson mordeu a orelha de Evander Holyfield e cuspiu o pedaço arrancado, três anos atrás, numa luta de boxe, o jornalista Luiz Garcia escreveu no Globo: "O mundo, esse lírio sensível, está indignado porque a mordida reduziu a pancadaria a pouco mais de três minutos. Se é isso, que fique a lição para a TV: no futuro, quando a luta acabar cedo demais, compense-se o telespectador com uma seleta de momentos emocionantes de Bósnia e Burundi. Se há exagero nessa proposta, acabemos então com todo exagero — e vamos parar de reclamar de selvageria num espetáculo selvagem por definição, natureza e intenção".
Olhemos os lírios do campo. Gilberto Amado conta, em suas memórias, que deu, certa vez, nos anos 50, uma entrevista coletiva aos jornais da Califórnia, no jardim do hotel, em Santa Mônica. Esgotadas as perguntas sobre a ONU, onde exercia função importante, um dos repórteres saiu-se com esta: "Como man of the world, pessoa viajada, que mais o senhor poderia nos dizer?" O embaixador respondeu na bucha: "Eu diria que, neste hotel, como em toda parte, ninguém sabe o nome das flores. Estou aqui há meia hora – e estendeu o braço sobre os canteiros – e a toda pessoa que passou perguntei em vão o nome daquela plantinha".
No dia seguinte, por coincidência, o Los Angeles Times publicou na primeira página, ao lado de sua entrevista, uma notícia de Londres dizendo que o dramaturgo inglês J. B. Priestley e a mulher tinham iniciado um movimento para que as escolas inglesas ensinassem às crianças o nome das plantas. E Gilberto Amado completa: "Por toda parte, nas minhas viagens, verifico o mesmo desconhecimento e até desinteresse. Fora o especialista, todo o mundo em geral ignora o nome de flores e de plantas. Em Paris, na Bagatelle, em Saint Cloud ou em Versalhes, exceto o jardineiro – sujeito que nunca se encontra no jardim – não há meio de deparar com uma pessoa que nos responda à pergunta: que flor é esta?" O embaixador, ele próprio, só conhecia rosa, cravo, dália, hortênsia e orquídeas.
Lembrei-me dessas flores ao ler, outro dia, o elogio que o escritor Eduardo Prado fez ao barão do Rio Branco: "O que Rio Branco sabe do Brasil é uma coisa vertiginosa. É capaz de escrever sem esquecer uma minúcia: como eram feitas as naus de Pedro Álvares Cabral; de que tecido vinham vestidos os seus marinheiros e o nome das plantas mais vulgares da praia de Porto Seguro, onde ancoraram aquelas naus".
Quem mais, além do barão? Só Burle Marx. Quando a Argélia se tornou independente, no início dos anos 60, estive uma semana lá, a convite do embaixador Roberto Assumpção, que instalou a embaixada do Brasil. O paisagista do Aterro do Flamengo, no Rio, chegou no mesmo avião. Lembro-me de que, no carro, do aeroporto a Argel, Burle Marx deixou-me de boca aberta ao identificar, uma a uma, todas as árvores do caminho. Ele dizia que, no jardim, como na vida, o segredo está nos detalhes – uma lição de estilo.
Ao lançar O mundo, esse lírio, Luiz Garcia lamentou em entrevista a este Observatório [veja remissão abaixo] que os novos jornalistas não conheçam o nosso passado recente: "O problema é grave por não se limitar à ignorância dos fatos históricos. Sabe-se muito pouco também sobre o funcionamento do Estado, a organização política do país etc". Pois é. Nos quatro anos de faculdade, eles enchem os ouvidos de Introdução à Comunicação, Teoria da Comunicação, Sociologia da Comunicação, Psicologia da Comunicação e até Estética da Comunicação. Tudo muito chique, muito moderno. Pena que não aprendam também a regência dos verbos, as constelações celestes e – por que não? – o nome das plantas e das flores.
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Entrevista de Luiz Garcia a propósito de O mundo, esse lírio
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