ARMAZÉM LITERÁRIO

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ANOS DE CHUMBO
A guerra da informação

Leneide Duarte

As manobras da informação, de João Batista de Abreu, Editora Mauad/EdUFF, 270 páginas, R$ 29

A luta armada dos guerrilheiros de esquerda no Brasil foi combatida não apenas em seu foco, pelas Forças Armadas, mas também numa guerra da informação, por intermédio da imprensa censurada. Havia também uma verdadeira guerra de guerrilha realizada por jornalistas na cobertura diária de fatos ocorridos num país controlado pelos militares e sua ideologia da "segurança nacional". Esse é o objeto de um estudo rigoroso, que resultou no livro As manobras da informação: análise da cobertura jornalística da luta armada no Brasil (1965-1979), do jornalista João Batista de Abreu.

Como se sabe, a imprensa sempre serviu aos interesses de grupos ideológicos, hegemônicos ou não. Isso foi mais patente que nunca no Brasil dominado por uma ditadura militar que derrubou o governo civil com um golpe de Estado. No período conhecido como "anos de chumbo", a imprensa, sob rígida censura, servia aos interesses dos militares e sua liberdade ficou totalmente limitada. Jornais, revistas, emissoras de rádio e TV eram controlados por meio da presença física dos censores ou pelas recomendações por escrito que chegavam às redações.

Dividido em dez capítulos, o livro de Abreu começa por discernir o sentido das palavras na cobertura das ações contra o regime. O que significavam e qual o objetivo do uso de palavras e expressões como "subversivo", "terrorista", "revolução", "guerrilha", "luta armada", "milagre econômico", "Brasil grande" etc, que dominavam o noticiário da época? Abreu observa que palavras como revolução, golpe, guerrilheiros e terroristas expressam juízo de valor sobre o fato narrado e, por isso, procurou ser muito criterioso para obter um distanciamento em relação ao uso que delas fazia o regime militar. Logo no início do livro, ele lembra ao leitor que a partir de meados dos anos 70 os grandes jornais transferiram para as páginas policiais as matérias referentes à luta armada. E isso tinha o claro objetivo de mostrar os guerrilheiros, urbanos ou rurais, como bandidos e desordeiros, "terroristas" que se opunham à ordem e ao poder constituído tido como legítimo representante da nação.

A palavra subversivo, por exemplo, que inicialmente servia para designar os políticos cassados e os recém-indiciados nos Inquéritos Policiais Militares (IPMs), instaurados nos primeiros anos do regime militar, passou a ser usada como sinônimo de opositor do novo governo que se auto-denominava "revolucionário". A guerra das palavras era particularmente importante para os militares, chamados de "gorilas" ou de "milicos" pelos esquerdistas. O jornalista Alberto Dines (editor-chefe do Jornal do Brasil até 1973) afirma, em seu depoimento ao livro, que a partir do AI-5, editado em 13 de dezembro de 1968, o governo recomendou aos principais jornais que classificassem de "terrorismo" todas as ações armadas praticadas por guerrilheiros. Antecipando-se à recomendação oficial, no entanto, o jornal O Globo já em 1966 recorria ao termo "terrorismo" para se referir a atentados políticos. Em editorial intitulado "Terrorismo, não" reproduzido no livro, o jornal, um adesista de primeira hora, defendia o ponto de vista
dos militares classificando a resistência armada ao regime como "terrorismo".

Ainda em seu depoimento, Dines diz que, já em 1964, veio uma recomendação de pessoas ligadas a Golbery do Couto e Silva para que os jornais não usassem a palavra camponês. A palavra "golpe" foi imediatamente substituída na imprensa brasileira por "revolução" ou "movimento militar de 1964" para se referir à conspiração militar que derrubou o governo de João Goulart.

Editor responsável por duas edições primorosas do Jornal do Brasil – a de 14 de dezembro de 1968, que noticiava o AI-5, e a de 12 de setembro de 1973, sobre a queda de Allende – Alberto Dines ocupa um espaço importante no livro com depoimento sobre a estratégia usada pelos jornalistas sob sua chefia para fechar essas edições, até hoje estudadas em cursos de jornalismo
e inseridas definitivamente como momentos marcantes na história do jornalismo brasileiro.

No último capítulo, "Os dois lados da moeda", Abreu mostra a verdadeira guerra de comunicados estabelecida entre os grupos revolucionários que seqüestraram embaixadores e o governo militar. O grande trunfo dos guerrilheiros era – além de obter a libertação de alguns de seus membros presos e submetidos a tortura – conseguir espaço na imprensa para seus comunicados, exigência da qual não abriam mão e que os militares tiveram de cumprir. Esses comunicados eram verdadeiros manifestos políticos contra a ditadura e alertavam o povo brasileiro para o sentido da luta armada. O governo militar contra-atacava com editoriais lidos no programa A voz do Brasil.

Ilustrado com matérias e páginas inteiras das edições de jornais e revistas citados, o livro de João Batista de Abreu é leitura obrigatória para quem quer saber mais sobre como funcionou o mecanismo da censura à imprensa no período da ditatura militar inaugurada em 1964.

(*) Jornalista, subeditora do suplemento Idéias, do Jornal do Brasil



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