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ARMAZÉM LITERÁRIO
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
TV 50 ANOS
Celebração contra a corrente
A TV aos 50 criticando a televisão brasileira no seu cinqüentenário, Eugênio Bucci (org.), Esther Hamburger, Fábio Konder Comparato, Gabriel Priolli, Inimá Simões, Laurindo Lalo Leal Filho, Maria Aparecida Baccega, Maria Rita Kehl, Roberto Moreira, Vera de Oliviera Nusdeo Lopes. Editora Fundação Perseu Abramo, 208 págs, R$ 24,00
Lançado em 7 de dezembro, em São Paulo, em sessão de autógrafos seguida de debate, o volume A TV aos 50, organizado pelo jornalista Eugênio Bucci, insere-se ao revés na bateria de livros produzidos a propósito dos 50 anos da TV no Brasil. Muitos dos títulos recém-chegados às livrarias [veja remissões abaixo] tratam a TV com foco nos seus grandes feitos. Já este livro busca tratar dos problemas da TV brasileira. E dos piores.
"Não se trata de fechar os olhos para os avanços estéticos e tecnológicos alcançados pela televisão no Brasil, nem de pretender descartar o seu êxito em lograr a integração da nacionalidade, mas se trata, isto sim, de se relacionar criticamente com a história da presença desse veículo entre nós, que agora chega ao seu cinqüentenário", escreve Eugênio Bucci, organizador do volume. Segundo ele, o trabalho dos vários autores do livro define-se "como um esforço de contracorrente".
O Brasil tem 40 milhões de lares com aparelho(s) de televisão.
Por que criticar a TV? (*)
Eugênio Bucci
(*) Introdução ao livro A TV aos 50, Editora Fundação Perseu Abramo
Este livro vem a público para ser uma anticomemoração. Uma antiefeméride. Enquanto outros buscam motivos para festejar os êxitos, os sucessos, os astros da televisão brasileira uma das maiores do mundo , os artigos aqui reunidos pensam problemas. A propósito, não será exatamente esta a função da crítica, enxergar problemas onde aparentemente se apresentam soluções? Não é o intelectual, por definição, aquele que atrapalha as ações unificadas, que desestabiliza as unanimidades, que faz as perguntas incômodas no meio das acomodações? Assim, então, este livro se define: como um esforço de contracorrente. Não é uma minienciclopédia, não tem dados estatísticos nem biografias de atrizes, e dificilmente servirá de obra de referência aos que buscam informações objetivas sobre a TV, a cinqüentona mais adorada do ano 2000 neste país de 500 anos. Não nos faltam novelas, atrações de auditório, telejornais integrando platéias de todas as regiões brasileiras. Não nos faltam estrelas e símbolos sexuais. A utilidade dos artigos aqui reunidos é a reflexão que eles propõem e é isso o que mais nos falta.
No correr do ano 2000, praças de várias cidades brasileiras serviram de base para que imensos relógios da Rede Globo fossem ali instalados. Encarnavam o repertório televisivo desaguado sobre o mundo físico em que circulam os cidadãos de carne e osso: eram o virtual adquirindo materialidade no cotidiano urbano. As fronteiras entre a dimensão etérea das imagens eletrônicas e a dureza corpórea das vias de asfalto e das torres de concreto se dissolvem na construção de um imaginário integrado. Antes, entre os anos 60 e 70, tratava-se de um imaginário nacional e nacionalista , que descia dos projetos culturais gerados no interior do Estado, sob a inspiração da doutrina de segurança nacional, para dentro dos lares da nação. Hoje, vivemos num imaginário globalizante e globalizado. O telespectador que se formou como um brasileiro hipnotizado pelas imagens do projeto nacional essas imagens o constituíram brasileiro flana hoje como um consumidor da cultura mundial. A face brasileira é uma face televisiva, por certo. Mas a face televisiva, agora, não é mais apenas brasileira. Ultrapassou a lógica do Estado nacional e tornou-se um reflexo ao mesmo tempo que um agente de uma cultura industrializada em escala planetária. E aí, sobretudo, o limite entre o imaterial e o concreto se dissolvem. A realidade é o que as imagens dizem que ela é. As imagens revestem o mundo, com sua nova linguagem global.
Pode-se pensar o Brasil a partir da televisão? Sim, sem dúvida. E talvez não haja mais a possibilidade de pensar o Brasil sem pensar a TV. Gabriel Priolli enfrenta esse desafio ao se indagar sobre a identidade nacional nos novos tempos em seu artigo "Antenas da brasilidade", propondo caminhos ainda não explorados e arrojadamente originais. Nesse mesmo registro, mas sem a preocupação com a identidade, escreve Esther Hamburguer. Em seu artigo, a indistinção entre imagem e matéria se desdobra na indistinção entre o mundo ficcional das telenovelas e a vida política brasileira, demonstrando as infinitas interpenetrações que os dois campos promovem entre si.
Dois artigos trazem ao leitor revelações históricas. Roberto Moreira apresenta algumas descobertas de uma série de entrevistas que realizou sobre a grande epopéia que foi a construção da TV no Brasil e propõe campos de estudo para que essa história não se perca de uma vez por todas risco nada desprezível num país em que a universidade despreza a televisão como objeto. Inimá Simões descortina facetas ao mesmo tempo folclóricas e trágicas da cultura brasileira. Numa retrospectiva que ilumina a promiscuidade ainda não revelada entre o autoritarismo de Estado e os programas de televisão, isto é, entre o furor censório dos governos militares e a docilidade dos dirigentes das emissoras brasileiras, mostra como o que o público viu na TV foi resultado da criatividade de artistas renomados em parceria com censores quase anônimos e tresloucados.
Mas olhar a TV é olhar o Brasil e algo muito maior que o Brasil. É olhar, por exemplo, o modo como o indivíduo se torna sujeito no mundo, para usar aqui uma terminologia cara a Maria Aparecida Baccega. Ela comparece a este livro para sintetizar sua proposta de constituição de um campo comum entre a comunicação e a educação como caminho para formar cidadãos críticos. Num país como o Brasil, em que a TV redefiniu o espaço público e reconfigurou a própria face da nacionalidade, a presença dos meios de comunicação é um fator incontornável para os educadores. Em números aproximados, há cerca de 40 milhões de lares com televisão no Brasil, o que corresponde a quase 90% do total. Isso, para uma população que lê pouco, dá à TV uma condição de monopólio da informação, ou seja, a TV monologa sem que outros meios lhe façam contraponto. Publicam-se, por ano, no Brasil, menos de três exemplares de revistas por habitante (na França, só para comparar, esse número é da ordem de 40, segundo as estatísticas da Federacion Internacional de la Press Périodique). Todos os jornais diários somados, que cresceram em circulação na última década, tiveram uma vendagem em 1999, de acordo com a Associação Nacional de Jornais, de 7,2 milhões de exemplares por dia (somados aí bancas e assinaturas). O que é pouco quando se leva em conta o tamanho da população, que supera os 160 milhões de habitantes. De acordo com Grupo de Mídia de São Paulo, com base em pesquisa do Instituto Marplan Brasil, 98% da população entre 10 e 65 anos vêem TV pelo menos uma vez por semana e, sozinha, a TV atrai duas vezes mais público do que todos os meios impressos, aí computados também os livros, além de jornais e revistas. A importância da TV no Brasil é desproporcional em relação aos outros meios e dá às comunicações no Brasil um perfil bastante desequilibrado em relação a outras democracias. Numa sociedade com esses números, em que milhões de crianças passam mais horas diante da TV do que dentro da sala de aula, é possível imaginar um processo educacional sem que os meios de comunicação sejam levados em conta? Pois a essa questão Maria Aparecida Baccega se dedica para propor novos desafios aos educadores.
Mais ainda, olhando para a televisão, olha-se para processos estéticos de fabricação de um imaginário nacional ou nem tanto que podem representar emancipação ou opressão. Depende do ponto de vista de quem olha. Alguns enxergam no papel contemporâneo da TV brasileira um procedimento salutar, que faria lembrar as teses modernistas de Oswald de Andrade. Ao devorar influências estrangeiras e reciclá-las numa perspectiva nacional, a TV reconstruiria o Brasil e, mais ainda, faria aflorar nossas identidades reprimidas. No meu artigo, "Antropofagia patriarcal", procuro explorar essa possibilidade, terminando por negá-la. A aparente antropofagia televisiva nada mais é que a lógica do capital: não liberta, mas reprime. O sujeito constitui-se como prisioneiro do imaginário que a TV põe em circulação. A propósito, a constituição do sujeito-telespectador, que se verifica em qualquer sociedade mediada pela TV, encontra no Brasil um laboratório privilegiado. O artigo de Maria Rita Kehl, "Violência do imaginário", pode ser lido como um aprofundamento do mesmo tema. Com base na teoria psicanalítica, a autora desvenda os mecanismos da fabricação do imaginário, e dedicando-se especialmente à questão da violência desafia o senso comum: propõe que as relações entre a criminalidade da vida real e as cenas truculentas dos programas televisivos não são lineares como se acredita. Não haveria, aí, relações diretas de causalidade. Maria Rita investiga o modo como a televisão suprime o pensamento em favor de uma identificação imaginária que precipita a fantasia em ato. Ou seja, mesmo sem apresentar tiroteios e sopapos na programação, a TV, ao fomentar o consumo e o prazer a qualquer preço, convida ao gesto violento.
Por fim, três artigos tematizam o papel da TV e dos meios de comunicação na esfera pública. Laurindo "Lalo" Leal Filho ressalta a falta que nos faz a TV pública. Somos um país em que a TV comercial cuja única finalidade é vender e cujo único indicador de qualidade é seu sucesso em fomentar o consumo prepondera sem o mínimo limite. Vera Maria de Oliveira Nusdeo Lopes, em "A lei da selva", disseca, com dados inéditos nos debates contemporâneos, a legislação omissa que vige no Brasil e mostra, com argumentos irrefutáveis, o atraso dessa legislação diante do que existe nos países mais democráticos. Fábio Konder Comparato fecha o volume com um artigo sobre o papel dos meios de comunicação para viabilizar a democracia ou para obstruí-la, como acontece no Brasil. Seu alerta não pode ser ignorado por aqueles que desejam uma ordem verdadeiramente democrática para o nosso país.
Por tudo isso, criticar a televisão tem sido fundamental, um exercício de utilidade pública. Um exercício urgente e inadiável. Não se trata de fechar os olhos para os avanços estéticos e tecnológicos alcançados pela televisão no Brasil, nem de pretender descartar o seu êxito em lograr a integração da nacionalidade, mas se trata, isto sim, de se relacionar criticamente com a história da presença desse veículo entre nós, que agora chega ao seu cinqüentenário. O pensamento crítico não deveria ser rechaçado como é, como se fosse uma argumentação inimiga e de má vontade. Ele é, ao contrário, parte indispensável de qualquer projeto cultural e democrático. E para isso esse livro foi organizado.
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