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ENTREVISTA / GAY TALESE
Luciana Moherdaui

"Gay Talese fala de seu livro e critica a cobertura das eleições americanas", copyright Último Segundo <www.ig.com.br>, 7/12/00

"Em entrevista concedida ao Último Segundo por fax, o jornalista e escritor americano Gay Talese conta por que o ‘The New York Times’ cometeu enganos na cobertura das eleições dos EUA e critica os perfis publicados nas revistas estrangeiras: ‘atualmente, as revistas são superficiais, interessadas principalmente em personalidades de Hollywood’.

‘Nós poderíamos somar à lista dos enganos do Times, a cobertura das eleições norte-americanas. O Times se apressou, como fez outros jornais e redes de televisão, ao declarar o candidato republicano George W. Bush o novo presidente dos EUA, guiado pelos sinais da televisão. O ‘velho’ Times em que trabalhei e venerei jamais seria guiado por uma televisão ou teria feito o anúncio antes que as eleições terminassem, de fato’, diz.

A disputa acirrada à Presidência dos Estados Unidos e a imprecisão das notícias divulgadas pela televisão levou centenas de jornais em todo o mundo a apostar na vitória do candidato republicano George W. Bush sobre o democrata Al Gore, no último dia 7 de novembro, quando os americanos foram às urnas escolher o homem que vai comandar os EUA.

Jornais no mundo inteiro estamparam em suas primeiras páginas a vitória de George Bush. Outros diários tiveram de fazer duas edições por conta dos números da Voter News Service apresentados em todas as televisões dos EUA. A divulgação dos resultados das eleições americanas foi considerada o maior engodo da imprensa mundial.

Mas esse não é o primeiro caso de gafes publicadas por grandes jornais em todo o mundo. Recentemente, o Times publicou dois erros que também vão passar para a história do jornalismo: a notícia do roubo de segredos nucleares por um cientista chinês, que, por isso, passou nove meses preso até que a notícia se comprovou falsa. Depois, uma foto de um suposto palestino sendo agredido por um militar israelense se revelou uma foto de um israelense apedrejado por palestino.

O jornalista criticou ainda os perfis publicados atualmente pelas revistas estrangeiras e contou como era o jornalismo na época em que escreveu os perfis do grande ídolo americano do beisebol, Joe DiMaggio, e outro sobre Frank Sinatra.

‘O negócio da revista não é o mesmo que era quando escrevi sobre Sinatra e DiMaggio, entre outros. Atualmente, as revistas são superficiais, preocupadas principalmente com personalidades de Hollywood, e os editores não se permitem gastar o tempo que eu levava quando escrevia em revistas, 30 anos atrás’, diz.

Talese teve recentemente lançado no Brasil o livro O Reino e o Poder (Cia das Letras, R$ 39, 558 pgs), que conta a história de uma das mais poderosas empresas dos Estados Unidos deste século: The New York Times Company, que edita o Times. Apesar de o livro ter sido escrito em 1971 e revisado dez anos depois, ainda causa polêmicas entre os jornalistas.

Com prefácio especialmente escrito por Talese para o lançamento no Brasil, o autor mostra os tensos confrontos entre os executivos do jornal e as intrigas entre editores e repórteres na batalha para conseguir o topo da primeira página do jornal. ‘O jornal era produzido por homens que viam as coisas como podiam vê-las, ou como, às vezes, queriam vê-las’, escreve.

Ele é considerado um dos criadores do new journalism (uso de recursos de ficção em textos de não-ficção) junto com Tom Wolfe e Lílian Ross, da New Yorker. Trabalhou por 12 anos no Times. Já desvendou o submundo da máfia e os diálogos entre um chefão e seu filho em Honor thy father (Honra teu pai), contou o drama vivido por um marido suburbano em A mulher do próximo (The Neighbor´s Wife) e outras histórias em Fame and obscurity (Fama e obscuridade).

Leia os principais trechos da entrevista:

Neste ano o The New York Times cometeu dois erros que vão passar para a história: a notícia do roubo de segredos nucleares por um cientista chinês, que por isso passou nove meses preso até que a notícia se comprovou falsa; depois, uma foto de um suposto palestino sendo agredido por um militar israelense se revelou uma foto de um israelense apedrejado por palestino. O senhor acha que isso é um sinal de que o Times está perdendo sua excelência? Como o senhor avalia o tratamento que o jornal deu aos dois erros? E seu desgaste na opinião pública internacional?

Gay Talese – Erros que o Times cometeu? Sim, comete erros - e em meu livro, certamente, fiz críticas à instituição - e você menciona a notícia que, depois de nove meses, se comprovou falsa, do cientista chinês acusado de ter roubado segredos nucleares. Isso foi muito injusto, mas o jornal reconheceu o engano. Nós poderíamos somar à lista dos enganos do Times, a cobertura das eleições norte-americanas. O Times se apressou, como fez outros jornais e redes de televisão, ao declarar o candidato republicano George W. Bush o novo presidente dos EUA, guiado pelas pesquisas. O ‘velho’ Times em que trabalhei e venerei jamais seria guiado por uma televisão ou teria feito o anúncio antes que as eleições terminassem, de fato.

O senhor escreveu dois perfis que foram considerados os melhores na história da imprensa americana: o grande ídolo americano do beisebol, Joe DiMaggio, e outro sobre Frank Sinatra. O perfil foi o glamour da revista ‘New Yorker’, nos anos 60. O senhor acha o perfil ainda tem espaço na imprensa mundial?

G.T. – O negócio da revista não é o mesmo que era quando escrevi sobre Sinatra e DiMaggio, entre outros. Atualmente, as revistas são superficiais, preocupadas principalmente com personalidades de Hollywood e os editores não se permitem gastar o tempo que eu levava quando escrevia em revistas, 30 anos atrás. O gravador significou que os repórteres (escritores?) poderiam entrevistar ‘estrelas’ em meia hora e conseguir uma transcrição de 1000 toques e fazer uma discussão tipo ‘Pergunta’ e ‘Resposta’, que se disfarça como um artigo. O gravador acabou com o 'ouvido' e o 'olho' dos freelancers de hoje.

Por que o senhor tem um website, já que não acredita na Internet?

G.T. – Eu tenho um website, mas não uso a Internet. Eu jamais obtenho informações que me interessam na rede.

O senhor conhece o Brasil? Apesar de ser um país de terceiro mundo, possui a ‘Veja’, a quarta maior revista semanal do mundo e as Organizações Globo, um dos grandes impérios de comunicação do país.

G.T. – Conheço. Sou um admirador do Brasil. Estive aí dois anos atrás.

O senhor lê em português?

G.T. – Não, eu não falo português."



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