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24/06/2003 |
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HENRI CARTIER-BRESSON
Fotografia, o árduo prazer
Marinilda Carvalho
Henri Cartier-Bresson: The Man, the Image and the World, com textos de Philippe Arbaïzar, Jean Clair, Claude Cookman, Robert Delpire, Peter Galassi, Jean-Noël Jeanneney, Jean Leymarie e Serge Toubiana, Thames and Hudson, 431 pp., US$ 75.00 / £ 48.00
O romancista irlandês John Banville, 57 anos, que mora em Dublin mas é assíduo crítico literário da New York Review of Books, aproveitou o lançamento de mais um importante volume sobre a obra do fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson para cumprir algumas tarefas agradáveis: uma viagem a Paris, uma conversa instigante com o velho mestre num restaurante chinês numa esquina da Rue de Rivoli, um exame detalhado – que intitulou "Geometria secreta" – não apenas do livro, mas da vida e da visão de mundo do maior ícone da fotografia ocidental. Cartier-Bresson completará 95 anos em 22 de agosto, e esta nova obra, The Man, the Image and the World (o homem, a imagem e o mundo), reúne mais de 600 fotos suas, algumas raras, em lançamento da editora britânica Thames and Hudson, especialista em livros de arte que tem no catálogo nada menos que 10 títulos sobre o aclamado fotógrafo.
Pois Banville abre sua resenha, publicada na edição de julho New York Review of Books (vol. 50, nº 11, 3/7/03) <http://www.nybooks.com/>, pelo ângulo mais desagradável, que admiradores lamentam há mais de 30 anos: o desdém de Henri Cartier-Bresson pela própria obra, aparentemente tão grande que o afastou de sua famosa Leica. "A maioria dos artistas mantém atitude de desrespeito saudável com seu próprio trabalho", diz o escritor. Cartier-Bresson, porém, "parece quase desprezar, quase odiar não apenas suas realizações, mas a fotografia mesma". Nas últimas décadas, desde que desistiu de fotografar, ele afirma repetidamente que perdeu o interesse pela fotografia e, pior, nunca se importou muito com ela, mesmo no auge da carreira e da fama.
Nenhum argumento, diz Banville, o desvia desta postura de rejeição. "Uma alegre teimosia o leva até mesmo a negar que tenha sido fotojornalista algum dia, embora seja considerado o inventor do fotojornalismo, ou, pelo menos, quem transformou este ofício diário em arte." Na carreira de 40 anos capturou algumas das mais emblemáticas imagens do século 20, imagens tão familiares, tão profundamente gravadas em nossa memória e imaginação que parecem mais um fenômeno natural do que produto de cérebro e olho e mão humanos, exalta a sensibilidade de Banville.
"Quando o encontrei recentemente em Paris ele estava mais desdenhoso do que nunca de sua reputação e sua arte", conta o romancista. Na véspera da abertura de uma ampla mostra de seu trabalho <http://expositions.bnf.fr/hcb/> na Bibliothèque Nationale de France [que vai até 27/7], da inauguração da Fundação Henri Cartier-Bresson <http://www.henricartierbresson.org/>, em Montparnasse, e do lançamento do livro que os editores descrevem como "o olhar definitivo sobre a obra de uma vida", ele disse: "Não tenho interesse por fotografia. Por desenho, sim. Gosto de desenhar. Mas fotografia..." Um gesto desdenhoso corta o ar.
Banville conta que almoçou comida chinesa com Cartier-Bresson na esquina do prédio onde tem uma cobertura com vista para os jardins das Tuilleries e o Louvre. Ele descreve o clima: "Era um dia quente de abril – as manchetes dos jornais proclamavam: ‘É verão!’. Na sombra fresca dos fundos do restaurante, Cartier-Bresson demora-se com um copo de cerveja, em companhia da mulher, a fotógrafa Martine Franck. Sua expressão de tédio genial é animada a intervalos por um maravilhoso sorriso. Quando dá de ombros é o francês típico, os ombros subindo, os cantos da boca descendo. Ele tem 95 anos, mas não aparenta a idade".
Terrível! Terrível!
Sobre a Irlanda, comenta: "Sempre penso em seu país ao lado da Grécia, e não da Inglaterra". Impressões a partir das fotos que fez nos anos 50 em Dublin e, especialmente, nos campos irlandeses, deduz Banville. Cartier-Bresson lembra de um padre Flynn, irlandês, que conheceu na juventude em Paris – na verdade, havia dois padres Flynn. Louis Aragon fazia blague: seriam filhos ilegítimos de Oscar Wilde. Cartier-Bresson levanta seu copo. "A Oscar! E aos dois padres Flynn!" E conta que não era devoto: "Nunca acreditei". Banville recorda Um dia no campo, filme de Jean Renoir de 1936, e o convincente seminarista que o jovem Cartier-Bresson representou ao lado de um improvável Georges Bataille, o filósofo do erótico e do brutal. [Pequenos papéis que nem crédito mereceram]. "Começa a litania de nomes famosos", diz Banville: estar ao lado de Cartier-Bresson é ver-se entre os fantasmas dos grandes do século 20.
Ele nasceu em Chanteloup, Seine-et-Marne, em 22 de agosto de 1908, filho mais velho de família rica. Jovem de esquerda, não seguiu o pai na indústria têxtil, para se tornar repórter fotográfico: após um ano estudando pintura, viajou à Costa do Marfim, e lá começou a tirar fotos – uma pequena coleção delas está em The Man, the Image and the World. Seu primeiro trabalho apareceu em 1933 na revista francesa Vu, e no mesmo ano fez mostras em Nova York e Madri. Viajou aos Estados Unidos e ao México, voltou a Paris em 1936 e trabalhou para o jornal comunista Ce Soir. Fez documentários e foi assistente de Renoir em vários filmes, entre os quais La Vie est à nous (encomenda do Partido Comunista Francês) e o clássico A regra do jogo. Alistou-se no Exército, foi feito prisioneiro após a queda da França, mas fugiu – na terceira tentativa – em 1943 e entrou para a Resistência. No ano seguinte tirou as mais famosas fotos da libertação de Paris.
Banville conta que depois da guerra Cartier-Bresson passou um ano nos EUA preparando o que seria sua "mostra póstuma": os curadores do Museum of Modern Art in New York (o Moma) achavam que ele morrera na guerra. Em 1947 fundou a agência Magnum Photos, cooperativa de fotógrafos, com Robert Capa, David "Chim" Seymour, William Vandivert e George Rodger. Passou três anos na Índia e no Extremo Oriente. Na China registrou o colapso do Kuomintang e a ascensão de Mao ao poder. The Man, the Image and the World contém imagens extraordinárias desta viagem, diz Banville, "particularmente a foto de um incongruente oficial do Kuomintang, dândi em luvas de couro e polainas. "Nesta altura ele já era mundialmente famoso, suas fotorreportagens aparecendo nos grandes magazines", conta Banville. Seu primeiro livro saiu em 1952, Images à la sauvette – The Decisive Moment, em inglês –, capa desenhada especialmente por ninguém menos que Matisse, que Cartier-Bresson retratara numa série inesquecível em 1944.
"Como jornalista, Cartier-Bresson tinha o talento, ou o gênio, de estar no lugar certo na hora certa", destaca Banville, para contar que em 1948, na Índia, ele fotografou Gandhi horas antes de ser assassinado, e nos funerais captou algumas das mais dramáticas e comoventes imagens de sua obra. Em 1954, foi o primeiro fotógrafo do Ocidente a ser convidado à Rússia pós-Stálin. Em 1968, a rebelião dos estudantes em Paris...
"Como se sente, tendo produzido tantas fotos, ao longo de tantos anos, conhecidas por tanta gente?", pergunta Banville. Os ombros sobem, os cantos da boca descem, a cabeça se inclina para o lado: "Não tenho interesse em fotografia..." A indiferença em alguns momentos se transforma em hostilidade, sobressalta-se Banville. "Cometo o erro de mencionar a conhecida foto de um menino na Rue Mouffetard carregando duas garrafas de vinho. ‘Terrível! Terrível! Eu deveria ter destruído o negativo!’" Por que então ela está em The Man, the Image and the World? De repente, ele fica muito interessado no prato de frango frito. "Desenhar é tudo", diz, "e fotografia é desenho rápido".
A proporção e a seção áurea
Alguns desenhos de Cartier-Bresson estão no novo livro. Retratos, estudos de animais e paisagens, esboços de amigos e conhecidos, trabalho de um amador extremamente talentoso, e nada mais, avalia friamente Banville. Mas o fato é que em 1966 ele saiu da Magnum e em 1970 abandonou – ou diz que abandonou, ressalva Banville – a fotografia em favor do desenho. A decisão espantou a todos. É claro que ele continuou a fazer fotos – mais do que admite, segundo Martine Franck –, mas a carreira de fotógrafo profissional terminou há quase 35 anos. Não sente falta, não lamenta?, pergunta Banville. "Por que deveria? Desenhar é tudo o que me interessa". Banville faz ironia: "O mistério continua. O profundo mistério. Tenta-se a pergunta precisa que afinal provocará uma resposta reveladora..." Cartier-Bresson sempre foi fascinado pelo Oriente – a primeira mulher, Ratna Mohini, era javanesa. Diante das perguntas sobre esse mistério ele mantém atitude zen. O que ele de fato é, conclui Banville. O "instante decisivo" é tudo, o momento em que o artista pega o mundo em flagrante, sem saber o quanto está revelando de si mesmo. Banville considera extraordinário o fato de que as fotografias de Cartier-Bresson nos chegam como foram tomadas: sem mágicas de laboratório. Ele nem sequer corta suas fotos, e se recusa a permitir que outros o façam. É um olho verdadeiramente miraculoso.
Mas há regras. Uma fotografia "é simultaneamente o reconhecimento numa fração de segundo do significado de um fato e uma organização precisa de formas", escreveu o mestre. A geometria é o mecanismo secreto que impele seu trabalho, na fotografia e no desenho, esclarece Banville; para ele, a forma é uma força ativa, condutora. Em The Man, the Image and the World uma das seções é aberta com uma epígrafe de Apollinaire: "Pode-se dizer que a geometria é para as artes plásticas o que a gramática é para a arte de escrever". Segue-se uma das fotos mais perfeitas de Cartier-Bresson, tomada em 1933, bem no início de sua carreira, em Salerno, Itália. Os elementos são simples – um menino, uma carroça inclinada, grandes planos contrastantes de sombra e luz –, mas a composição é incomum, a um só tempo austera e misteriosa, entende Banville.
Cartier-Bresson sempre foi apaixonado pela gente e pela paisagem do Sul, particularmente Espanha e Itália. Suas fotos de 1951 dos homens de Abruzzo são o retrato da região, pouco conhecida. A obra é volumosa – estima-se que tenha usado na vida 15 mil rolos de filme preto e branco –, rigorosa e humana ao mesmo tempo, ora cheia de forma e elegância, ora de violento movimento. Das fotos do livro Les Danses à Bali, de 1954 – com texto de Antonin Artaud – aos instantâneos dos tumultos de Punjab em 1947 e das massas pulsantes chinesas nos últimos dias do Kuomintang em Xangai, em 1949, vê-se, pode-se dizer, uma geometria humanizada, diz Banville.
"Não acredito em Deus, mas acredito em pi". Ele dita números. Banville leva um momento para reconhecer a seção áurea [1/0,618, também chamada "seção divina"], razão matemática da harmonia estética que tem sido usada pelos artistas desde a antiguidade. Ele ri seu sorriso zen. Ele está certo, claro, pensa Banville, em todas as suas imagens o campo de visão é distribuído segundo esta razão; seu olho divide tudo pelas regras da seção áurea.
A bênção da sorte
Ele ama a literatura. Joyce é um de seus grandes entusiasmos: Ulysses estava na mochila de soldado nos tempos da guerra. Depois, o preferido é Dublinenses. "Qual é o período favorito de seu trabalho?", engata Banville. Sem comentários. O assunto vira para os pintores. "Concordamos quanto à grandeza de seu amigo Balthus, cujos quadros, de meninas languidamente despenteadas, sofrem pela atual obsessão com a pedofilia". Para Bonnard, respeito: "Seu desenho era tão firme, tão completo!", exclama o mestre. Com qual dos modernos sente mais afinidade?", ataca de novo Banville. Ele interroga a mulher com o olhar e murmura: "Matisse...?" Seus retratos do velho pintor denunciam profunda admiração, quase amor. Há maravilhosos estudos de outros artistas, como Bonnard e Giacometti, em The Man, the Image and the World, informa Banville.
O mestre considera a humildade essencial ao artista, na visão de mundo e no trabalho. A arte não é mais valorizada, pensa. "Hoje", observa, "todo mundo é artista", e o culto à personalidade, desenfreado. Como seu admirado Joyce, Cartier-Bresson acha que o verdadeiro artista coloca-se à parte e acima de seu trabalho. Ele escreveu:
Com economia de meios e sobretudo com o esquecimento de si mesmo você alcança a simplicidade da expressão.
Fotografar é prender a respiração enquanto todas as suas faculdades se concentram em capturar a realidade fugaz; então fazer uma foto transforma-se em momento de grande prazer físico e intelectual. Fotografar é identificar um acontecimento e no mesmo instante, e na fração de um segundo, organizar rigorosamente as formas que você vê para expressar e dar sentido ao acontecimento.
É uma questão de pôr seu cérebro, seu olho e seu coração na mesma linha de mira. É um modo de vida.
Este manifesto, dos dias da renúncia à carreira, está no ensaio "Kairos: The Idea of the Decisive Moment in the Work of Cartier-Bresson" (Kairos, a idéia do instante decisivo na obra de Cartier-Bresson), do editor Jean Clair, do Museu Picasso em Paris, um dos colaboradores de The Man, the Image and the World. A palavra "kairos", que acabou significando "tempo" no grego moderno, era para os antigos, escreve Clair, "um meio de descrever o instante perfeito, a oportunidade adequada, a ocasião certa" – em suma, um estado de graça:
Kairos existe no piscar do olho do fotógrafo, o fenômeno de acertar o alvo no espaço, e acertar precisamente no tempo certo. Pisca no exato momento, ofuscante, em que a tela do mundo parece se abrir, rasgar-se, bocejar diante de você, para fechar-se de novo imediatamente. É, para introduzir um conceito semi-religioso, o instante propício, o momento em que os deuses lhe sorriem.
O de Clair é um dos sete ensaios do livro, alguns mais esclarecedores do que outros, julga Banville. O primeiro, "Seeing Is Everything" (ver é tudo), de Jean-Noël Jeanneney, da Bibliothèque National de France <http://www.bnf.fr/>, está repleto de "bom senso e percepção", testemunhando, entre outras coisas, o humor de Cartier-Bresson e sua tendência travessa à autozombaria. Jeanneney oferece também um antídoto aos vôos transcendentais do estilo de Clair, alfineta o resenhista, declarando que fosse qual fosse o kairos "o gênio de Henri Cartier-Bresson era freqüentemente abençoado pela sorte, permitindo-lhe em muitas ocasiões capturar o momento exato em que o pêndulo da história parava".
Passado reformatado
Na edição francesa, "o deselegante título" – critica Banville – The Man, the Image and the World é simplesmente De qui s'agit-il? (de quem se trata?), alusão, segundo informa na introdução ao volume Robert Delpire, diretor da Fundação Henri Cartier-Bresson, à pergunta que está sempre na boca dos fotógrafos: "De quoi s'agit-il?" (do que se trata?, o que está havendo?). Delpire responde à pergunta "quem?" com segurança. Cartier-Bresson, escreve, é um homem que atingiu status mítico apesar dele mesmo, cujo trabalho foi sempre perfeitamente consistente, que impôs sua marca num gênero fotográfico inteiro com tal rigor analítico e tal combinação de forma e conteúdo que supõe-se não haver outro jeito de registrar um fato histórico ou cotidiano.
Banville entra no trecho final de seu longo artigo com o mais desagradável – ainda que necessário, para quem admira a obra de Cartier-Bresson – dos ângulos. Segundo ele, nada haveria de casual em que o ensaio de Claude Cookman, da Universidade de Indiana em Bloomington, tenha sido colocado "no fim deste esplêndido, suntuoso livro", junto com a bibliografia, a lista de ilustrações e a cronologia. "Henri Cartier-Bresson: Master of Photographic Reportage" é escrito por um homem determinado a corrigir o excessivo revisionismo de Cartier-Bresson. Usando o exemplo de Rashomon, a obra-prima de Kurosawa que trata da natureza escorregadia da verdade e da ambígua natureza humana, Cookman afirma não ter dúvida de que desde o início Cartier-Bresson "pretendia ganhar a vida vendendo suas fotos para publicação"; e prossegue com a severidade e o rigor de quem passou longas horas debruçado sobre arquivos para definir Cartier-Bresson como repórter fotográfico:
Contrariamente à impressão de que Cartier-Bresson vagava pelas ruas do mundo descobrindo suas fotos numa casualíssima conjunção de intuição [como quer Clair, lembra Banville] e sorte [segundo Jeanneney, observa o resenhista], os indícios na Magnum Photos mostram que ele pesquisava, planejava e se posicionava para tirar vantagem de grandes acontecimentos, e depois trabalhava arduamente para fotografá-los com grande eficácia. Enquanto Cartier-Bresson mostra inclinação a descontextualizar suas fotos, os contextos históricos por trás de seu trabalho enriquecem a interpretação pessoal e a apreciação formal [grifo de Banville].
Cookman certamente captou a essência da tentativa de Cartier-Bresson de adequar o passado a sua própria moldura, diz Banville. Não contente em negar qualquer conexão entre suas fotos e suas configurações históricas, ele quer descontextualizar sua carreira inteira. "Quando lhe perguntei, naquele dia em Paris, o que teria feito em 1970, quando desistiu da fotografia, se não fosse financeiramente independente para sustentar tal renúncia, ele se recusou a responder – na verdade, por sua expressão, até a considerar a pergunta".
"Ele amava fotografar"
"Bem, por que considerá-la? Por que deveria ele, neste calmo estágio final da vida, ouvir perguntas como o que pretendia de suas fotos, ou de que forma queria que as víssemos?", compreende Banville. Seu trabalho é hoje, mesmo descontextualizado, livre de intenções ou desejos. The Man, the Image and the World é o registro marcante de grandes e terríveis acontecimentos do século 20; é também "prova de profunda sensibilidade artística, a um tempo poética e rigorosa, fundada num inabalável respeito pelo momento humano". Henri Cartier-Bresson, pode-se dizer, não tirou fotos, deu-as – ameniza Banville.
O restaurante esvaziava, as sombras da tarde desciam lá fora. No dia seguinte Banville visitaria o prédio que abrigará a Fundação Henri Cartier-Bresson, um encantador ateliê de cinco andares perto da Gare Montparnasse, "todo janelas e luz e paredes brancas". Dois andares serão dedicados a mostras do trabalho de Cartier-Bresson e de outros fotógrafos, desenhistas, escultores, enquanto o restante do prédio estará aberto a pesquisadores, conferencistas, debates, cursos. Haverá um arquivo Cartier-Bresson, e a mostra de inauguração, organizada por Robert Delpire, será "Les Choix d'Henri Cartier-Bresson", suas fotos favoritas de oito colegas seus.
"Há somente o presente, o presente e a eternidade", diz Cartier-Bresson ao fim do almoço. "Na despedida, apertamos as mãos – seu toque é forte e caloroso", nota Banville. O mestre parte, caminhando vagarosamente entre as mesas. Na porta, a luminosidade o transforma de repente numa silhueta branca, o negativo dele mesmo. Martine Franck pára na calçada. "É verdade", ela diz calmamente, "ele vive inteiramente no presente, por isso é difícil falar do passado". Ela ri. "Ele amava fotografar, sabe, apesar de tudo o que diz. Para ele, não era trabalho. Era, ele sempre dizia, un dur plaisir." O árduo prazer de fazer direito, pensa Banville: formulação que qualquer artista reconhece.
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