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ENTREVISTA / ANÍBAL GONZÁLES
Cristiane Costa

"‘Ficção e jornalismo se imitam’", copyright Jornal do Brasil, 27/04/02

"Doutor em Literatura por Yale, professor da universidade de Penn State, nos Estados Unidos, o portorriquenho Aníbal González é uma estrela em ascensão no meio acadêmico internacional. Especialista em literatura hispano-americana, González já abordou as relações íntimas dos escritores com a imprensa em Journalism and the development of Spanish American narrative, editado por Cambridge; com a violência, em Killer Books: writing, violence and ethics in modern Spanish American Narrative, editado pela Universidade do Texas, e atualmente prepara, com apoio da Fundação Guggenheim, um estudo sobre a volta dos temas romântico-sentimentais nos romances latino-americanos. Com a mulher, Priscilla Meléndez, que também dá aulas na Penn State, Aníbal passa esta semana pelo Brasil para ministrar um curso no Instituto Cervantes, no Rio de Janeiro, sobre a literatura latino-americana contemporânea, em que comparará, entre outros livros, Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, que define como um típico escritor da pós-modernidade, com Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, exemplo máximo do boom dos autores do continente, nos anos 60. Quem perder os dois dias de curso, que começa hoje, conta ainda com uma mesa-redonda, na terça.

- O tema de seu curso no Brasil é ‘modernidade e pós-modernidade no romance hispano-americano’. No que os autores das duas fases se diferenciam?

- Nos anos 60, quando a literatura hispanoamericana viveu um boom, surge ou se torna mais amplamente conhecido um grupo de escritores que alcançaria em pouco tempo renome mundial: a argentino Julio Cortázar, o chileno José Donoso, o colomiano Gabriel García Márquez, o cubano Guilhermo Cabrera Infante, o mexicano Carlos Fuentes e o peruano Mario Vargas Lhosa, entre muitos outros. Também nessa década passam a ter maior reconhecimento figuras precursoras como o argentino Jorge Luis Borges e o cubano Alejo Carpentier. O boom inclui ainda certos autores brasileiros, como Jorge Amado e João Guimarães Rosa.

- O que autores de origens e estilos tão diferentes teriam em comum?

- Os romances do boom, em geral, se caracterizam pela experimentação formal, uma vez que tentam produzir uma visão totalizadora da história e da cultura hispano-americanas. Romances como A morte de Artemio Cruz, O jogo da amarelinha, Cem anos de solidão e Três tristes tigres, entre tantos outros, se inscrevem numa perspectiva irônica de estirpe borgesiana, com uma amplitude de visão que aspira a abarcar, pelo menos simbolicamente, como em O Aleph de Borges, a totalidade vida hispano-americana.

- O que muda no período seguinte?

Desde o final dos anos 60, começa a surgir uma nova geração, cujas obras, escritas à sombra do boom, exibem notáveis diferenças de estilo. Os cubanos Reinaldo Arenas, Miguel Barnet e Severo Sarduy, a mexicana Elena Poniatowska, o portorriquenho Luis Rafael Sánchez, o argentino Manuel Puig, os chilenos Isabel Allende e Antonio Skarmeta, o peruano Alfredo Bryce Echenique, entre outros, integram o conjunto de novos narradores a quem os críticos batizaram (sem grande originalidade) de pós-boom. A grosso modo, seus romances se diferem dos anteriores por sua rejeição à visão totalizante da América Hispânica e por seu enfoque mais local e particular. Enquanto Cem anos de solidão e outros romances típicos do boom tendiam a organizar sua narrativa em torno de grandes teorias acerca da identidade cultural e política da região, as obras mais recentes deixam de lado a tendência a filosofar e a nostalgia da identidade, buscando em troca encarar as experiências concretas e cotidianas. Em meu curso, vamos explorar se existe ou não um paralelismo entre os conceitos mais gerais de ‘modernidade’ e ‘pós-modernidade’ e o boom e o pós-boom.

- Existe?

- Minha hipótese é que, efetivamente, pode-se traçar um paralelo entre ambas duplas de conceitos. Os romances do boom exibem, de forma literária, muitas das características da modernidade, segundo as teorias de críticos como Marshall Berman e Matei Calinescu, enquanto que os do pós-boom coincidem, em muitos aspectos, com os da cultura pós-moderna, identificados por críticos como Jean-François Lyotard, John Barth e Frederic Jameson.

- Também seria possível traçar um paralelo entre o desenvolvimento do jornalismo e o da literatura? Entre a modernização de um e o modernismo do outro?

- Minha resposta é totalmente afirmativa. Em meu livro Journalism and the development of spanish american narrative, tento demonstrar precisamente isso: o desenvolvimento da literatura hispano-americana se deu em meio a um enriquecedor e estratégico processo de mímesis mútua, de imitação de um pelo outro, entre a narrativa ficcional e o jornalismo. Impulsionado pela censura e repressão político-ideológica em nosso continente, o processo de intercâmbio retórico entre os dois discursos levou a que ambas formas de manejar a linguagem, que têm origens e fins distintos, se assemelhem cada vez mais. Freqüentemente, as circunstâncias históricas fazem com que a ficção cumpra funções jornalísticas quando o jornalismo não pode fazê-lo. Por outro lado, o jornalismo adota e adapta muitos dos procedimentos estruturais e retóricos da ficção para dar maior interesse às informações ou, em certos casos, para escudar-se na ambigüidade da linguagem literária. Neste contínuo intercâmbio, a literatura absorveu do jornalismo seu afã de modernidade. Se entendemos modernidade não apenas como um período histórico-cultural, como também em termos etimológicos (do latim modo, presente), modernidade é um desejo de estar vinculado ao presente. Desde a época da independência, no princípio do século 19, o jornalismo e a literatura na América Latina tiveram como causa comum a tarefa de promover a modernização geral de nossos países.

- Esse seria um fenômeno típico da literatura latino-americana ou da literatura em geral?

- Sem dúvida, o intercâmbio discursivo entre a literatura e o jornalismo é um fenômeno que se produz em todas as literaturas ocidentais. Talvez o que haja de peculiar em termos de América Latina seja a intensidade e a insistência com a qual ele tenha se verificado ao largo de quase todos os séculos.

- Trabalhar em jornal atrapalha ou não um aspirante a escritor?

- Em meu livro, estudo precisamente o caso dos modernistas hispano-americanos, que, embora devessem ao trabalho jornalístico sua autonomia como escritores, vivendo de sua pena, também se ressentiam ferozmente das imposições de estilo, espaço e tempo que lhes impunha o jornalismo. Essa tensão segue vigente hoje em dia. Embora o jornalismo seja, normalmente, o ofício no qual se afiam as primeiras armas dos escritores e escritoras novos, quase todos chegam à conclusão de que devem afastar-se por um tempo dele se querem seguir uma carreira literária. Por outro lado, um fato muito lamentado pelos escritores é a desaparição parcial ou total das páginas literárias em nossos jornais. Fora as crônicas, a que apenas os autores consagrados são convidados a escrever, e as resenhas de livros, que têm uma finalidade primordialmente comercial, o jornal já não oferece espaço para a criação literária em suas páginas. Para muitos que começam na ficção e na poesia, publicar na internet se tornou quase que a única alternativa.

- O que o jornalismo tem a oferecer a escritores além de um emprego com salário fixo no fim do mês? É possível que, trabalhando com o mesmo material, a palavra, o muro que separa imprensa e literatura eventualmente se torne uma linha tênue?

- O jornalismo tem muito a oferecer aos escritores em termos de contato com a experiência cotidiana e exercício de textualizar a realidade. Mas não há dúvida de que suas exigências, como as de qualquer emprego regular, não raro dificultam o sossego e ócio necessário para todo escritor. Talvez as empresas jornalísticas pudessem adaptar algumas práticas do mundo universitário, por exemplo, como os períodos sabáticos.

- Seu livro Killer books: writing, violence and ethics in modern spanish american narrative, recém-publicado, aborda uma tendência que também se verifica na literatura brasileira contemporânea. Por que a violência vem se tornando um tema cada vez mais literário?

- Killer books surgiu a partir de meu interesse em investigar a relação entre a ética e a criação literária. Neste estudo, assinalo que a violência tem sido um tema de nossas literaturas latino-americanas desde a época da Conquista. A denúncia moral da violência dos poderosos contra os fracos aparece pela primeira vez nas obras do frei Bartolomeu de las Casas, no século 16. Não digo que seja uma característica exclusiva das literaturas latino-americanas, mas acredito, por nossas circunstâncias históricas, que os latino-americanos sentimos a violência de forma talvez mais imediata. O mais interessante é que, no século 20, a reflexão ética sobre a violência, que sempre esteve presente em nossa literatura, se torna mais auto-reflexiva, quer dizer, se volta à escritura mesma, e autores como Borges, Carpentier, Cortázar e García Márquez, entre muitos outros, começam a se perguntar-se se não haveria algo violento na própria escritura, na ação de escrever, que implica fazer uma espécie de marca ou corte numa superfície indiferenciada. Num contexto filosófico, Jacques Derrida postula a mesma pergunta num capítulo intitulado ‘A violência da letra’, em seu célebre livro Da gramatologia. Mas os escritores hispano-americanos dramatizam a pergunta ética sobre a violência intrínseca da escritura de modos muito mais urgentes. É possível uma escritura sem violência? É possível escrever sem fazer-se cúmplice dos mecanismos de poder que têm estado entrelaçados com a escritura desde a antiga Mesopotâmia?

- Já o novo livro que você está preparando discute a volta das histórias sentimentais na literatura contemporânea. O que explicaria esse fenômeno? O fim das ditaduras latino-americanas ou a despolitização do leitor?

- Postulo que, a partir dos anos 80, ocorreu uma volta aos temas amorosos na obra de grande número de escritores hispano-americanos, tanto entre os velhos mestres do boom, como entre os jovens do pós-boom. Para mim, este retorno obedece a uma variedade de causas, entre elas a redemocratização de muitos países de nosso continente e os fenômenos da globalização econômica. Com o fim da Guerra Fria e a perda de interesse pela opção revolucionária, surgiu no continente uma preocupação em sanar não apenas os danos causados a sistemas político-econômicos, como também feridas infligidas a comunidades inteiras e também às almas dos indivíduos. Mas não acredito que as novelas sentimentais sejam textos apolíticos. Vejo-as como uma investigação, por parte dos autores hispanoamericanos, acerca da capacidade da escritura literária de seduzir seus leitores e criar um sentido de comunhão e de comunidade entre escritores, leitores e textos. Evocando a dicotomia entre o amor passional e o amor ao próximo, eu diria que a maioria de nossos romances tenta provocar em seus leitores esse último tipo de amor, o amor a nossos semelhantes, o respeito pelo outro."

 

ENTREVISTA / ZILDA IOKOI
Camilo Vannuchi

"Escreveu, não leu...", copyright IstoÉ, 29/04/02

"Um cartaz chama a atenção de quem visita o prédio do departamento de história da Universidade de São Paulo. Escrito em letras coloridas, um velho ditado popular: ‘Escreveu, não leu, o pau comeu.’ A frase se dirige à chefe do departamento, Zilda Grícoli Iokoi, 55 anos, alvo de críticas na imprensa desde o dia 31 de março. Naquela edição da Folha de S. Paulo, a coluna do jornalista Elio Gaspari listou pela primeira vez 14 erros encontrados em um dos livros de Zilda, O Brasil atual e a mundialização (Edições Loyola, 1997), quinto volume da coleção paradidática História temática retrospectiva. No livro, os nomes do senador americano McCarthy e do ex-presidente Eisenhower foram grafados McArthur e Eisenhauer e a anistia política aparece como se tivesse sido assinada em 1988 (o correto é 1979). Estes erros não impediram que a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo indicasse a obra para um concurso de admissão de professores.

Assim que leu a coluna, Zilda colocou o cargo de chefe à disposição do departamento - o que foi recusado pelos colegas - e acertou com a editora o recolhimento da publicação. O episódio mostrou o perigo que livros mal revisados trazem para a formação do aluno e os critérios duvidosos que movem as instituições responsáveis por zelar por sua qualidade. De volta à rotina, Zilda ainda não se refez do ‘linchamento público’ de que foi vítima, como gosta de dizer. ‘É moda bater nos professores. Não precisava chamá-los de idiotas’, repreende.

ISTOÉ - Como surgiu a coleção História temática retrospectiva?

Zilda Iokoi - Percebemos que um dos maiores obstáculos para o ensino de história era o racismo. Na rede pública, os negros são considerados baderneiros, enquanto os descendentes de imigrantes são vistos como detentores de cultura. Estudamos os negros, os índios, os movimentos sociais e a conquista dos direitos e fizemos quatro livros. O quinto, O Brasil atual e a mundialização, seria a síntese e eu me encarreguei de escrevê-lo. Em vez de apresentar a história cronológica do Brasil, traz uma análise da influência no País dos acontecimentos internacionais.

ISTOÉ - Traçar a história a partir dos movimentos sociais é positivo?

Zilda - Este é o modelo da nova historiografia, desenvolvida sob uma concepção marxista. Não devemos estudar o passado pelo passado nem simplesmente apresentar informações. A base da história está nos movimentos sociais. Não foram os parlamentares que incentivaram a assinatura da Lei Áurea. A abolição da escravatura nasceu de uma luta popular que obrigou o governo a criar a curadoria dos negros e deu a eles muitos ganhos de causa. Esta forma de trabalhar a história tem uma proposta política: dar à população da periferia uma expectativa de futuro. Não dá para estudar o governo Fernando Henrique sem estudar o MST. Ele só assenta gente porque existe um movimento social pressionando.

ISTOÉ - A maioria dos livros didáticos de hoje faz isso?

Zilda - A maioria ainda segue a história do ponto de vista das elites. Inovar é muito difícil. A indústria de livros didáticos é poderosíssima. Para muitos autores, é mais cômodo agradar ao Ministério. Alguns vendem um milhão de livros quando indicados. Mas os parâmetros curriculares estão cada vez mais positivos. Promover conexões com diferentes áreas do conhecimento é uma de suas propostas. Elio Gaspari cismou com um trecho do livro em que afirmo que Gláuber Rocha era mais tolerante com os militares do que com a esquerda. Ele fez uma revolução no cinema, mas demonstrava simpatia pelo projeto militar, principalmente por Geisel. E achava que a esquerda fazia patrulha ideológica.

ISTOÉ - Como aconteceram os erros?

Zilda - Ainda estávamos escrevendo quando as Edições Loyola toparam publicar os livros e estipularam um prazo curto para entrega. Tive de me debruçar sobre os outros quatro e o meu ficou sem revisão. Na hora de editar, muita coisa foi cortada e os erros apareceram. Foi uma maldita infelicidade. Tenho 30 anos de atividade e já escrevi 500 coisas. Notei que havia problemas assim que o livro saiu. Íamos corrigir para a segunda edição, mas a Secretaria da Educação indicou o livro como bibliografia para um concurso de ingresso de professores e mais de dois mil livros foram comprados.

ISTOÉ - Por que a editora preferiu vender os livros assim mesmo?

Zilda - Não sei. Denota, talvez, uma certa inexperiência do grupo. A Loyola foi muito positiva, mas, em determinado momento, permitiu falhas.

ISTOÉ - Como Gaspari soube?

Zilda - Alguém deve ter sugerido a pauta. Vamos supor que ele tenha espontaneamente resolvido ler um paradidático. Normalmente, quando os leitores percebem erros, escrevem para a editora. Ele preferiu produzir um artigo, fazendo dos erros uma campanha, que seria muito positiva se realmente contribuísse para melhorar a avaliação dos materiais de ensino, o que é necessário. Eu estava em um congresso nos Estados Unidos e soube da coluna lá. Fiquei incomodada por ele promover um linchamento público sem avaliar o conjunto da obra.

ISTOÉ - A sra. não acha justo que ele questione a escolha de um livro com erros para um concurso?

Zilda - Deveria perguntar para a comissão o motivo da escolha. Cada livro tem um problema. Um é muito factual, outro é abstrato. Mas não precisava chamar os professores de idiotas. É moda bater neles. O artigo de Gaspari desqualificou toda a rede pública.

ISTOÉ - Qual foi sua atitude após ler o texto?

Zilda - Ainda dos Estados Unidos, liguei para o diretor da faculdade e coloquei meu cargo à disposição. Ele não aceitou. Discutimos o assunto em plenária e novamente abri mão da chefia. Os professores recusaram e redigiram um documento manifestando confiança na minha integridade. Até os alunos, com quem travo constantes conflitos por conta de temas como a proibição de bebida alcoólica no departamento, demonstraram repúdio ao tratamento dado ao caso.

ISTOÉ - Na faculdade há uma faixa com a frase ‘Escreveu, não leu, o pau comeu’.

Zilda - Esta foi uma minoria na plenária realizada pelos estudantes. Em nenhum momento eles foram tolerantes comigo dizendo que podia haver erros. Mas, na assembléia, houve 80 votos de apoio e 20 contrários.

ISTOÉ - A sra. nunca notou um erro em um livro e teve o impulso de chamar o autor de estúpido?

Zilda - Estúpido é o autor que não consegue formular uma proposta. No curso de história, a gente aprende a ler todos os autores para descobrir os pontos com os quais concordamos ou discordamos. Os adversários nos ensinam a argumentar. No meu tempo, tínhamos o vício de não ler os adversários. Eu leio Gaspari."


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