01/07/2003 6/20

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TRANSGÊNICOS EM XEQUE
Luciano Mendes de Almeida

"O risco dos transgênicos", copyright Folha de S. Paulo, 29/06/03

"O assunto não é apenas científico. É uma questão ética que requer discernimento para evitar danos talvez irreparáveis. A ciência e a tecnologia devem estar orientadas para o desenvolvimento da pessoa humana e para o bem comum e requerem harmonizar-se com os princípios morais.

O problema dos transgênicos está em pauta não só na pesquisa dos cientistas, mas pelas vantagens econômicas que podem precipitar, por causa de lucros comerciais, uma série de efeitos negativos.

Recente declaração assinada em 6/5 por 14 bispos católicos que acompanham mais de perto as questões de justiça social no Brasil e, em particular, as que se referem à terra, externa preocupações e alerta-nos sobre vários aspectos ligados aos transgênicos. Começa o texto conceituando os transgênicos como resultado de manipulação genética que permite produzir, alterar e transformar genes entre os seres vivos, rompendo a barreira do cruzamento entre as espécies. São enumerados, a seguir, os principais riscos:

a) os transgênicos, se não forem bem controlados, podem causar sério detrimento à saúde humana, pois a alimentação com grão geneticamente modificado é capaz de provocar alergias, resistência aos antibióticos e aumento do índice de substâncias tóxicas. É preciso garantir com severas normas a segurança alimentar;

b) podem ainda acarretar risco ecológico imprevisível, com o desaparecimento progressivo da biodiversidade, já que o aumento da monocultura levará à perda de variedade e qualidade das sementes;

c) o patenteamento em curso tornará os transgênicos propriedade exclusiva de grupos econômicos, lesando a soberania alimentar do Brasil e dos demais países, que vão depender dos proprietários das patentes;

d) prevê-se a rápida diminuição da pequena e média agricultura que serão dominadas pelo monopólio da produção das empresas transnacionais. Compreende-se, portanto, a justa apreensão diante do problema dos transgênicos e a expectativa de que as sementes sejam declaradas patrimônio da humanidade e conservadas na sua integridade genética a serviço das gerações atuais e futuras. A mesma apreensão se reflete na ‘Carta da Terra’, documento lançado no Senado no dia 11 de junho e assinada por 43 entidades que atuam no campo.

Nasce daí a esperança de que as autoridades de nosso país, científicas e políticas, continuem aprofundando o estudo do problema e evitem qualquer decisão prematura que possa vir a causar danos imprevisíveis.

Ao mesmo tempo em que permanecem as preocupações com os transgênicos, precisamos acolher com satisfação a boa notícia do lançamento do Plano Safra, anunciado pelo presidente Lula em 24/6. A iniciativa é promissora, pois abre perspectivas novas para 750 mil famílias de assentados, que se beneficiarão com a garantia da compra de cinco produtos básicos e outras vantagens. Além disso, o plano assegura financiamento pelo Pronaf a mais de um milhão de pequenos agricultores. O Plano Safra é o primeiro passo em demanda progressiva e desejada reforma agrária em nosso país fortalecendo a agricultura familiar.

Pedimos a Deus que nos ajude a unir esforços para evitar o risco dos transgênicos e a apoiar as iniciativas governamentais que promovam condições dignas de vida para nossa população. (Dom Luciano Mendes de Almeida escreve aos sábados nesta coluna.)"

 

João Pedro Stédile

"Transgêncos", copyright RETS - Revista do Terceiro Setor (www.rits.org.br/), 28/06/03

"A sociedade brasileira vem sendo bombardeada todos os dias por notícias falaciosas produzidas pelos lobbys das grandes empresas multinacionais que querem nos impor as sementes transgênicas como se fossem uma necessidade, uma questão de progresso. Colocam apenas as pretensas vantagens e escondem os perigos para o povo e para nossa soberania nacional e alimentar. Mas, afinal, o que está em jogo?

De um lado temos os interesses de lucro e o controle do monopólio das sementes pelas empresas multinacionais como a Monsanto, a Cargill, a Bung, a Du Pont, a Sygenta e a Bayer. De outro os interesses dos agricultores honestos e do povo brasileiro. Esse é o verdadeiro confronto que se trava na questão dos transgênicos.

As empresas e seus lobistas, na ambição de controlar a agricultura brasileira e ter o monopólio das sementes, em especial da soja, milho, trigo, girassol e algodão, ficam pregando que os transgênicos são mais produtivos e lucrativos do que a semente de seus concorrentes. Se o critério para praticar agricultura é dedicar-se sempre a produtos mais lucrativos, então deveriam estimular apenas o plantio de fumo e de maconha! Os agricultores têm a responsabilidade de produzir alimentos. E alimentos sadios, com segurança para toda a população.

Uma variedade de milho transgênico já foi recolhida nos Estados Unidos por seus malefícios para a saúde humana e animal. Da soja, não há até agora nenhum estudo que dê segurança e, portanto, no futuro poderemos ter também conseqüências para a saúde das pessoas. E está comprovado que, ao ser necessário casar seu plantio com o uso intensivo do agrotóxico Roundup, com o passar dos anos isso afetará a vida do solo e do meio ambiente. É por essa razão que há mais de quatro anos corre uma ação judicial contra a Monsanto, que não conseguiu apresentar nenhum laudo atestando que sua soja não causa mal ao meio ambiente brasileiro, como determina a Constituição.

Da área cultivada no mundo, menos de 10% utilizam sementes transgênicas e 95% dos transgênicos são produzidos por apenas três países: Estados Unidos, Canadá e Argentina, onde as multinacionais estadunidenses controlam o mercado. Por que será que todos os demais países preferem a precaução?

Em todo o mundo, e em especial na Europa e Ásia, os consumidores são contrários ao consumo de produtos transgênicos, cujos efeitos na saúde não estão garantidos. Somos a favor do uso da biotecnologia, assim como os agricultores vêm aplicando empiricamente ao longo da história da humanidade. Mas uma biotecnologia responsável com o nosso povo e o futuro do meio ambiente.

Se podemos alimentar nosso povo, com produtos de outras sementes mais seguras e sadias, por que arriscar com transgênicos? Apenas para garantir o lucro da Monsanto?

A Monsanto está tentando induzir, de qualquer maneira, o cultivo de transgênicos no Brasil, porque é sua última chance. Nos Estados Unidos teve um prejuízo de mais de um bilhão de dólares e suas ações caíram 27% no último ano. Recebeu a pior cotação na bolsa de Nova Iorque e ainda tem o desplante de querer cobrar royalties dos exportadores e agricultores brasileiros, que foram induzidos a cometer dois crimes plantando ilegalmente sua semente de soja Roundup contrabandeada da Argentina. Deveriam cobrar da FARSUL, entidade dos latifundiários gaúchos, que difundiram a semente transgênica!

O Brasil precisa de uma legislação que garanta o direito à precaução na saúde pública e impeça que as multinacionais tenham o monopólio de nossas sementes, colocando em risco a soberania nacional. Por hora, está em vigor a Medida Provisória 113, que já foi aprovada pela Câmara e que libera o comércio temporário da soja gaúcha desta safra, mas que mantém proibição rigorosa do cultivo de qualquer semente transgênica para fins comerciais. O Governo está preparando uma nova lei definitiva para substituir a MP e enviá-la ao Congresso no próximo mês.

É necessário que haja um amplo debate de toda a sociedade brasileira, dos consumidores da cidade e que todos se manifestem e pressionem o governo e os parlamentares.

A empresa estadunidense Monsanto vem gastando milhões em lobby, financiando campanhas, pagando viagens de delegações aos Estados Unidos, fazendo propaganda na mídia, alimentando jornalistas e comentaristas apenas para garantir seu lucro. Esperamos que o governo e os parlamentares brasileiros atuem do lado do povo e não do lado do capital estadunidense. Esse é um assunto de saúde pública e de soberania alimentar nacional. Se o governo e o Congresso errarem de lado, vão ser cobrados pela História e pelo povo! (João Pedro Stedile é dirigente do MST e da Via Campesina)"

 

José Maria da Silveira

"Debater os transgênicos faz bem ao país", copyright O Globo, 27/06/03

"Raros foram os assuntos tão debatidos nos últimos meses no Brasil quanto a questão das variedades melhoradas pelo uso de técnicas de recombinação gênica, conhecidas como transgênicas. Isto trouxe enormes avanços tanto no sentido de reduzir o peso ideológico da discussão quanto para melhor informar a opinião pública.

Um primeiro ponto positivo do debate foi ter deixado claro que existe um nexo fundamental entre o agronegócio e os destinos do país. Superou-se a visão fácil de que o setor agrário era atrasado, produtor de bens de subsistência e distante do conhecimento científico e tecnológico organizado. Existem trabalhos mostrando que a realidade educacional do setor está mudando, e há consciência da necessidade de aumentar a escolaridade para segurar o jovem no campo. Estudos mostram que safras de mais de 100 milhões de toneladas/ano foram obtidas, principalmente pelo aumento da produtividade, gerando mais alimentos com menos ocupação de áreas agrícolas e com uma contribuição ao saldo da balança comercial superior a US$ 15 bilhões/ano (40% das exportações brasileiras).

Tecnologia é um elemento central, que deve ser acompanhado de um conjunto cada vez mais sofisticado de medidas regulatórias, na busca de menor impacto ambiental, melhoria do produto final e da remuneração adequada do esforço de pesquisa pública e privada, na forma de pagamentos pelo uso da tecnologia.

Tecnologia, entretanto, não é obtida com cientistas pesquisando isoladamente. A realidade brasileira foi construída a partir de redes de pesquisa, que relacionam Embrapa, IPT, Apta, centros de pesquisa de cooperativas e fundações ligadas a universidades e empresas privadas, multinacionais e nacionais. Essas redes são as grandes responsáveis pelos impactos favoráveis que os consumidores claramente reconhecem: maior diversidade na cesta de consumo e queda de preço de produtos agrícolas básicos. Já se foi o tempo em que se dizia que ‘as frutas brasileiras não têm gosto’, ou que nossa segurança alimentar dependia das importações de trigo.

O debate também foi útil para apontar nossas deficiências: temos que aperfeiçoar a rede de fiscalização de todos os produtos, estimulando a criação de selos de qualidade e instalando sistemas de preservação de identidade de produtos, em cadeias produtivas, nas quais esta realidade seja realmente fundamental, como no ‘complexo carnes’. Aprendemos que precisamos de informações sobre a identidade de alimentos transgênicos, para nos certificarmos de que uma nova qualidade alimentar foi adicionada aos produtos, alimentos funcionais, cujas características serão demandadas por grupos específicos de consumidores.

O debate sobre transgênicos nos lembrou de um ensinamento fundamental para qualquer agricultor: nada se aprende sem a prática. A idéia de que após seis anos de moratória branca dos transgênicos no Brasil, quebrada pela curiosidade e pelo interesse dos agricultores do sul do país, possamos decretar outra moratória, é desconhecer a lição que a realidade atual nos deu. Se é certo que ainda não fizemos todos os testes de impacto para as condições de solo e clima do Brasil, isto se deve principalmente ao fato de que, com base em uma hipotética estratégia de obter vantagens comerciais com a venda de soja e derivados não-transgênicos, mantivemo-nos oficialmente isolados na condição de país livre desta tecnologia.

Argentina, China, Índia, Canadá e EUA produzem e utilizam sementes transgênicas e criam, portanto, capacitação para realizar um tipo de monitoramento ambiental responsável. Países europeus reconhecem variedades transgênicas, e a própria União Européia declara-se preocupada com o desincentivo ao esforço científico representado pelas restrições impostas aos transgênicos.

A proibição de transgênicos no Brasil significa interromper o fluxo de tecnologias que estão ‘no forno’, e com isso a possibilidade de difundir inovações que reduzam a quantidade de agroquímicos utilizados, a perda de alimentos no processo de comercialização e que implementem suas qualidades nutricionais.

E o que ganhamos em troca? A suposta vantagem em aderir sem discussão às exigências de certos países ricos, de seus negociadores e, talvez, de certos grupos de consumidores, cuja percepção é mutável. Infelizmente para alguns, na agricultura não se canta mais o hino: ‘a dádiva de ser simples’, ou, diríamos, simplistas."

 

LÍNGUA PORTUGUESA
Deonísio da Silva

"O português de Lula", copyright Jornal do Brasil, 29/06/03

"Do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: ‘Não tem chuva, não tem geada, não tem cara feia, não tem terremoto, não tem o Congresso Nacional, não tem o Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de destaque’.

O verbo ‘ter’ foi um dos primeiros a entrar para a língua portuguesa, vindo do latim tenere, com o significado de possuir, ser dono, segurar, agarrar. Seu primeiro registro escrito ocorreu em 1047, de acordo com o dicionarista José Pedro Machado. Naqueles começos, os vocábulos não tinham ainda padronização e eram escritos de diversas formas. E assim ‘ter’ era grafado teer e teenr.

Mas o presidente não usou o verbo com o sentido de ‘ter’, que a norma culta consagrou. Utilizou-o com o sentido de haver, existir, que todos empregamos na linguagem coloquial, seja na fala, seja na escrita. Com o sentido de existir, o verbo ‘ter’ está documentado na língua portuguesa desde o século 14.

Um século antes, ‘ter’ tinha também o significado de se dar bem. O ato sexual, por exemplo, guardou tal indício no sinônimo ‘possuir’. O que se vê é a busca de eufemismos. O ministro Ciro Gomes, quando candidato à Presidência da República, respondendo a um jornalista, disse que a função de sua esposa, Patrícia Pillar, era dormir com ele. E todos entenderam - como direi? - o sentido e o contexto do verbo ‘dormir’ na acepção empregada por ele.

O presidente Lula costuma detonar a norma culta em seus improvisos. E é bem brasileiro nas alusões à sexualidade. O povo o compreende. Tanto que ainda na campanha, em programa de televisão, brincando com um vereador de Pelotas que arrumava a gravata do futuro presidente, disse que ‘Pelotas era exportadora de veados’. Poderia ter dito o mesmo de Campinas. Outrora as duas cidades destacavam-se por abrigar uma juventude culta e bem vestida, de hábitos europeus, na fala, nos gestos, nos modos civilizados de tratamento.

Recentemente, Lula voltou a aludir à sexualidade em outro de seus já célebres improvisos. ‘A coisa que eu mais queria na vida, quando casei com minha galega, era um filho. Ela engravidou logo no primeiro dia do casamento, porque pernambucano não deixa por menos.’ Houve manifestações de repúdio à fala machista, proferidas em defesa da humilhação imposta à primeira dama. Mas dona Marisa, que tem muito mais compostura do que muitos dos críticos de seu marido, sorriu sem nenhum constrangimento diante das câmeras, pois entendeu perfeitamente que a fala do marido não se destinava a humilhá-la.

O presidente do STF, ministro Maurício Corrêa, apoiado em nota oficial irônica, porém serena, criticou o presidente da República. Mas os leitores sabem que todo aquele cuidado é inerente à língua escrita. Na fala, prevalece o espontâneo. Mas, semana passada, Augusto Nunes refrescou a memória dos leitores, lembrando que a um mês de entrar para o Supremo, no domingo de carnaval de 1994, Maurício Corrêa estava entre as figuras graúdas de nossa política que partiram do Hotel Glória para o Sambódromo com o seguinte projeto: ‘vamos pegar mulher’. ‘Pegar mulher’, ‘dormir’, ‘não deixar por menos’, ‘ter’ e ‘a gente’ devem ser entendidos em seus respectivos contextos. É sabido também que o álcool influencia muito as expressões.

Como se vê, as proclamadas reformas precisam chegar também à língua do Brasil. Não apenas o verbo ‘ter’ deve ser abonado como ‘existir’. Parlamentares e homens de notável saber jurídico haverão de entender o contexto em que o presidente se referiu ao Judiciário e ao Congresso. Os dois poderes não podem ser a geada, o terremoto e a cara feia, metáforas que o presidente usou para ilustrar os impedimentos. Como se vê, a língua, instrumento de cidadania, já é questão decisiva nas Reformas.

Bom domingo a todos e até de repente!"

 

Sérgio Rodrigues

"Liquidificator Tabajara", copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 1/07/03

"Vou confessar um truque que aprendi em minha carreira de ‘cronista lingüístico’, isto é, de jornalista que fala da língua como jornalista e não como professor de português: estrangeirismo é batata. Toda vez que tratei do tema das palavras importadas, uma multidão de leitores se agitou, a maioria movida por brios patrióticos feridos. Ninguém precisaria ser um monstro de perspicácia para descobrir logo um padrão em tal comportamento, e confesso que lancei mão disso. Ao menor sinal de carência (jornalista também é gente, embora muitas vezes não pareça), depois de uma semana em que me assaltava a impressão de pregar no deserto, eu só tinha que lembrar a absurda taxa de anglicismos a que estamos submetidos, muitos pontos superior à Selic. E os e-mails jorravam.

Golpe baixo? Não sejamos rigorosos demais. Abordar temas de interesse público é um dos primeiros mandamentos da profissão, e eu sempre tive o cuidado de não transformar os home delivery, coffee breaks e 20% off em plataforma populista ? como faz, por exemplo, um projeto de lei que tramita no Congresso, aguardando apenas uma cochilada de nossos parlamentares para sair multando todo mundo que empregar qualquer expressão vagamente estrangeirada. Não, abusar assim dos sentimentos do leitor seria, bem, ridiculous.

Acontece que, mesmo abordado de forma ponderada, o tema dos estrangeirismos é polêmico. Quando se lembra que todo ideal de pureza é uma idiotice e que as mais vigorosas línguas modernas passaram os últimos séculos num ambiente de promiscuidade, fecundando-se mutuamente, pode-se argumentar que tudo bem, beleza - mas precisávamos chegar ao exagero da Barra da Tijuca? E se um erudito, tentando relativizar o perigo da ‘invasão’, cita as crônicas em que Machado zombava dos alarmistas do século 19, todos convencidos de que a moda das palavras francesas decretaria a morte do português em poucos anos, sempre há alguém para exclamar: ‘É, mas na época não tinha internet!’.

O assunto é bom, não há como negar. Em meu placar pessoal, só encontra rival na crase, outro tema arrasa-quarteirão. Mas convenhamos que a crase, embora mobilizadora, tem um grau elevado de chatice ‘gramatical’. O estrangeirismo não. As cordas que ele vibra são mais profundas, esticadas na tensão entre orgulho nacional e globalização, o Eu e o Outro, tradição e ruptura, passado e futuro. Algumas dessas cordas são fios de navalha. Bobeou de um lado, reacionarismo e ranço. Bobeou do outro, panaquice e subserviência.

A sabedoria está em não sermos nem puristas, nem bobocas, sempre foi esse o meu discurso. Mas agora sinto falta de avançar outro passo. Cada vez mais me convenço de que o exagero anglicista - uma praga real, principalmente na classe média - é menos um problema de língua do que de alma: tem por raiz uma deficiência grave de auto-estima. Desconte-se o eficiente (já foi mais) imperialismo cultural americano. Abata-se o caráter anglófono de todas as novidades tecnológicas. Subtraia-se a alfabetização porca que aqui passa por educação. Ainda assim restará uma doença renitente, chatinha e indesculpável, cujo sintoma mais gritante é a certeza de que Miami representa o ápice da civilização ocidental.

O remédio? O melhor que já vi no mercado é um dos mais subestimados: a sátira dos Personal Disfarçator Bags e outros produtos das Organizações Tabajara. Doses semanais de senso de ridículo sem um pingo de pedantismo. A cura, se vier, virá por aí."

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