02/09/2003 5/17

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ECOS DE KELLY
Katherine Baldwin

"Kelly se sentiu traído, relata viúva", copyright Folha de S. Paulo / Reuters , 2/09/03

"A viúva de David Kelly, pivô da atual crise na administração do premiê Tony Blair, culpou ontem o governo pelo desespero e o sentimento de ter sido traído que marcaram os últimos dias da vida do cientista.

Em depoimento no inquérito que investiga as circunstâncias do suicídio de Kelly, ocorrido em 17 de julho, Janice Kelly comentou a angústia sentida pelo marido ao ter seu nome revelado pelo governo como a fonte de uma reportagem explosiva da rádio BBC sobre o Iraque.

Segundo a reportagem, o governo teria ‘apimentado’ um dossiê sobre as armas iraquianas que foi usado para justificar a guerra.

Ontem, Janice disse que Kelly se sentia ‘como uma mosca’ devido ao que ele classificara como uma tentativa do governo de minar sua credibilidade.

‘Ele se sentiu totalmente traído, abandonado’, disse Janice, que se manteve calma até os últimos segundos de seu depoimento, dado por meio de link de vídeo para evitar o assédio da imprensa. Indagada sobre quem ele sentia que o teria traído, ela respondeu: ‘Acho que ele queria dizer o Ministério da Defesa’.

O depoimento da viúva, que foi seguido por palavras comoventes ditas pela irmã de Kelly e uma de suas filhas, representou a primeira visão pessoal do estado de espírito em que o cientista se encontrava antes de sua morte.

Kelly defendera a decisão do governo de travar guerra contra o Iraque e de derrubar Saddam Hussein, segundo disse Janice. Mas o tratamento dado a ele após a guerra levantou questões sobre até onde a equipe de Blair se dispõe a ir para proteger sua imagem.

Logo depois que a reportagem da BBC foi ao ar, o governo exigiu que a emissora revelasse sua fonte. A rádio pública se recusou a fazê-lo, mas Kelly disse a seus chefes no Ministério da Defesa que era possível que ele próprio tivesse fornecido as informações constantes na matéria.

Em consequência disso, ele foi arrastado diante da atenção pública e interrogado por um comitê de políticos. A audiência, transmitida pela TV, teria levado o cientista ao desespero, disse Janice, 58, acrescentando: ‘Nunca o vi tão infeliz quanto naquele momento’.

Dois dias após a audiência, Kelly, que tinha 59 anos, cortou o pulso num bosque situado perto de sua residência.

Janice contou que seu marido tinha recebido de altos representantes do Ministério da Defesa a garantia de que seu nome não seria divulgado publicamente. Alguns dias mais tarde, porém, o departamento de imprensa do ministério telefonou para sua casa e aconselhou a ele e a sua mulher, com apenas cinco minutos de antecedência, que saíssem de casa para fugir da mídia, já que seu nome estava prestes a ser divulgado.

Janice contou que seu marido, um ex-inspetor de armas da ONU que tinha viajado ao Iraque dezenas de vezes, também ficou chocado pelo fato de ter sido descrito por representantes do governo como funcionário de médio ou baixo escalão.

Comentando o dia antes de Kelly ser encontrado morto, sua viúva disse: ‘Fiquei fisicamente enjoada várias vezes nessa fase porque ele estava tão desesperado, tão infeliz. Acho que ele estava com o coração partido’."

 

Warren Hoge

"Disputa com Blair põe em dúvida credibilidade da BBC", copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 2/09/03

"A BBC é a maior e mais conhecida emissora pública do mundo. Ela transmite milhões de palavras por dia, mas sua reputação de precisão, imparcialidade e objetividade está sendo contestada devido a um punhado de palavras.

Num programa em 29 de maio, o repórter Andrew Gilligan disse que o governo britânico inseriu em um dossiê sobre as armas iraquianas a alegação de que Saddam Hussein possuía armas químicas e biológicas que poderiam ser acionadas em apenas 45 minutos. Gilligan disse que ‘na realidade, o governo provavelmente sabia que o número de 45 minutos estava errado antes mesmo de se decidir a incluí-la no dossiê’. A frase levou alguns segundos para ser proferida, o que aconteceu às 6h07, mas seu efeito iria perdurar por bem mais tempo.

A afirmação acabou gerando uma disputa entre a BBC e o governo do premiê Tony Blair, que está sendo encenada através do inquérito sobre a morte da fonte do relatório: o cientista do Ministério da Defesa David Kelly.

Tanto Blair quanto o presidente da BBC, Gavyn Davies, já depuseram no inquérito. Nenhum dos dois cedeu um centímetro sequer.

Blair disse que considera a acusação sofrida pelo governo tão prejudicial a sua integridade que, se ela fosse fundamentada, ele teria se sentido obrigado a renunciar. Ele reclamou do fracasso das tentativas de fazer com que a BBC se retratasse. Usando termos semelhantes, Davies disse que considera a campanha do governo ‘um ataque à imparcialidade e à integridade da BBC’.

Os 11 dias de depoimentos no inquérito trouxeram à tona provas de que o governo esteve envolvido até o pescoço na formulação do dossiê de inteligência, mas não produziram nada que corroborasse a alegação de Gilligan de que o governo publicou afirmações dúbias de forma proposital.

O escrutínio ao qual a BBC está sendo submetida acontece num momento em que a empresa, fundada há 81 anos, se lançou numa campanha de modernização, visando atrair um público mais jovem, e isso levou a críticas de que ela seria grande demais, comercial demais e demasiado ansiosa para agradar às massas.

Davies disse a lorde Hutton, o juiz que preside o inquérito, que convocou o conselho de diretores da BBC para uma reunião de emergência no mês passado e obteve dele a garantia de que os procedimentos jornalísticos corretos foram adotados na criação da matéria de Gilligan. Foi mostrado ao inquérito um e-mail que Davies enviou aos diretores depois disso, cumprimentando-os por ‘não terem se curvado diante do gabinete do primeiro-ministro’.

Documentos divulgados no fim de semana e outras correspondências que vieram à tona durante o inquérito mostram que, na realidade, o artigo de Gilligan tinha sido questionado seriamente, sim, e que vários membros do conselho de direção da BBC tinham expressado desconfianças.

O diretor-geral da BBC, Greg Dyke, e o diretor de notícias, Richard Sambrook, defenderam o estilo de Gilligan, dizendo que ele fazia suas reportagens ‘em cores primárias ou ousadas’.

Interrogado no inquérito, Davies citou diversos caminhos que podem ser seguidos por pessoas que possam achar que foram injustamente retratadas ou tratadas em matérias da BBC. O advogado James Dingeman, a serviço de Hutton, respondeu que não vê como uma pessoa seriamente prejudicada por uma matéria que considerasse incorreta poderia fazer com a que a BBC se corrigisse.

Os diretores da BBC, como grupo, criticaram os editores de Gilligan por não terem buscado saber a posição do gabinete de Blair antes de colocar a acusação no ar.

Quando Davies afirmou em seu depoimento que a BBC tinha apenas colocado no ar a acusação formulada por uma fonte digna de crédito, e não formulado a acusação ela própria, lorde Hutton perguntou se ele realmente acreditava que os ouvintes seriam capazes de fazer essa distinção. Tradução de Clara Allain"

 

Maria Luiza Abbott

"Principal assessor de Blair renuncia", copyright Folha de S. Paulo, 30/08/03

"O diretor de comunicações e de estratégia do governo britânico, Alastair Campbell, principal assessor do premiê Tony Blair, pediu demissão do cargo ontem.

Ele exercia tamanho poder que era chamado de ‘vice-premiê’ e, com sua saída, pode estar terminando a era dominada pela percepção de que a manipulação das informações e da mídia se tornou parte essencial do governo.

Ele deixa o cargo em meio à maior crise política do governo, quando a popularidade de Blair está no seu ponto mais baixo desde que ele chegou ao cargo, em 1997. Segundo pesquisa divulgada ontem pelo jornal ‘Daily Telegraph’, 69% dos britânicos acham que o governo não tem sido honesto.

A demissão já era esperada, e desde julho havia rumores de que Campbell sairia, mas o momento do anúncio surpreendeu, pois havia a expectativa de que seria no fim do ano. Campbell está no centro da disputa entre o governo e a BBC em torno de uma reportagem que acusou a assessoria de Blair de ter exagerado um dossiê contra o Iraque usado para justificar a guerra.

Ele disse que a saída não está ligada ao inquérito que apura a morte de David Kelly, o cientista do Ministério da Defesa que foi a fonte da BBC e se suicidou depois da revelação de seu nome. Blair depôs nesse inquérito anteontem.

Além de Campbell, saiu também sua mulher, Fiona Millar, que é assessora de Cherie Blair, a mulher do premiê. O diretor de comunicações disse que queria ter saído do governo em setembro do ano passado, mas foi convencido por Blair a ficar, por causa do problema no Iraque.

‘Concordamos [Campbell e Blair] no dia 7 de abril deste ano que eu sairia definitivamente no verão [europeu, que está no fim], e eu agora comuniquei formalmente ao primeiro-ministro a minha decisão de sair’, disse Campbell ontem. Ainda não foi marcada a data para que ele deixe o cargo, que deve acontecer nas próximas semanas.

Campbell disse que sai porque quer de volta ‘sua vida e sua família’, depois de nove anos trabalhando para Blair ‘sem ter um fim de semana de folga’. ‘Foi um enorme privilégio trabalhar tão próximo na oposição e no governo para alguém que, acredito, a história vai fazer justiça como um grande primeiro-ministro’, disse.

O assessor é amigo muito próximo de Blair, um dos poucos com quem o premiê tinha total abertura e, segundo analistas, alguém que dizia ao premiê o que fazer e dizer. Blair emitiu uma nota dizendo que Campbell tinha sido ‘um servidor imensamente capaz, destemido e leal da causa em que acreditava’. E acrescentou que ‘ele era, é e permanecerá um bom amigo’.

O inquérito que investiga a morte de Kelly tem deixado claro o tamanho do poder de Campbell, apesar de não ter sido eleito, fato estranho em um governo parlamentarista, em que todos os ministros necessariamente são parlamentares. De acordo com depoimentos e e-mails que surgiram no inquérito, ele discutiu os termos do dossiê do Iraque e presidiu reuniões para discutir o tema com graduados servidores, quando nem mesmo o ministro da Defesa, Geoff Hoon, participava delas.

Tony Benn, um dos mais antigos parlamentares trabalhistas e da esquerda tradicional do partido de Blair criticou a importância que Campbell tinha no governo: ‘É de esperar que, com a saída dele, fique claro ao premiê que o povo perdeu a confiança no governo e na sua corte medieval, formada pelo rei e seus favoritos.’

Para a parlamentar conservadora Ann Widdecombe, Campbell era o arquiteto de uma forma de manipulação ‘de extensão e natureza nunca vistas na política britânica’.

Campbell será substituído por David Hill, ex-chefe de comunicações do Partido Trabalhista, e o governo já anunciou que haverá mudanças na política de comunicações."

***

"Blair diz que sairia se dossiê fosse falso", copyright Folha de S. Paulo, 29/08/03

"O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, disse ontem que teria renunciado se fossem verdadeiras as acusações, feitas em reportagem da BBC, de que seu governo alterou um dossiê sobre o Iraque para ‘apimentá-lo’ e assim justificar a posterior invasão do país.

A declaração foi feita em depoimento no inquérito que apura o caso do suicídio de David Kelly -o cientista, funcionário do Ministério da Defesa, foi encontrado morto em 17 de julho, depois que seu nome surgiu como a fonte da reportagem.

O premiê também assumiu a responsabilidade pela estratégia do governo que levou à revelação do nome do cientista.

Blair, cujo testemunho durou 2 horas e 20 minutos, foi o segundo premiê na história britânica levado a depor em um inquérito. O primeiro foi John Major, que, em 1994, prestou depoimento a respeito da venda de armas para o Iraque nos anos que antecederam a Guerra do Golfo, em 1991.

Advogado experiente e político de habilidade respeitada, Blair depôs em público, embora sem transmissão pela TV, como foi o caso dos demais depoimentos, e manteve sempre uma aparência de confiança.

Ele descreveu a reportagem de Andrew Gilligan, da BBC, que alegava que o governo tinha exagerado o dossiê, como uma acusação fundamental. ‘Essa foi uma alegação de que tínhamos nos comportado de tal maneira que, se fosse verdade, teria merecido minha renúncia’, disse Blair.

‘Fonte objetiva’

O dossiê afirmava que Saddam Hussein poderia acionar suas armas de destruição em massa em apenas 45 minutos. Na terça-feira, o chefe do Comitê de Inteligência do governo, John Scarlett, tinha dito em seu depoimento que a informação, baseada em uma única fonte, era que Saddam poderia usar seu arsenal em uma espaço de tempo que variava entre 20 minutos e 45 minutos, reforçando a versão de que não houve exageros na versão final.

Ontem, o premiê afirmou que a forma pela qual as informações de inteligência tinham sido descritas no dossiê era ‘perfeitamente justificada’. ‘Não poderíamos ter usado isso como evidência caso não tivesse vindo de uma fonte objetiva’, afirmou ele.

Sobre a revelação do nome do cientista que tinha sido a fonte da BBC, Blair disse que todas as regras tinham sido seguidas. Ele afirmou que, em telefonema ao presidente da BBC, Gavyn Davies, informara que um funcionário do governo tinha se apresentado a seu chefe dizendo que seria a fonte. Foi a primeira vez que o fato foi mencionado fora do governo, embora sem o nome de Kelly.

Dias depois, a assessoria de imprensa do Ministério da Defesa confirmou o nome do cientista a jornalistas, mas Blair disse ontem que não sabia dessa estratégia do ministério.

Pelas regras, Kelly tinha a garantia de que seu nome seria mantido em sigilo. Ele se matou dias após de ter prestado depoimento público, transmitido pela TV, ao Comitê de Assuntos Estrangeiros.

Segundo Blair, a questão era não revelar o nome, mas também não seria possível enganar o público. O premiê disse estar certo de que, em um caso de tamanho interesse, a identidade de Kelly acabaria vazando e que o cientista também tinha consciência disso. Ele também afirmou que existia o temor de que o governo seria acusado de encobrir os fatos.

Ataque da oposição

A oposição não perdeu a oportunidade para criticar o premiê. O líder do Partido Conservador, Ian Duncan Smith, acusou Blair de ter dado um tratamento ‘vergonhoso’ a Kelly. Para o líder do Partido Liberal-Democrata, Charles Kennedy, a confiança em Blair foi abalada.

As investigações deveriam se limitar às circunstâncias da morte de Kelly, mas o juiz que preside o inquérito, lorde Brian Hutton, tem ampliado o caso. A preparação do dossiê e as informações de inteligência que justificaram a guerra acabam sendo também debatidas.

Para complicar a posição de Blair, a situação no Iraque está difícil -ontem, mais um soldado britânico morreu em um ataque, perto da cidade Basra. O resultado final do inquérito é esperado para novembro."

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