ALLENDE, 30 ANOS DEPOIS
Luiz Otávio
"A imprensa e os 30 anos do golpe no Chile", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 29/08/03
"Completam-se, no próximo dia 11/09, os 30 anos do golpe de Estado que depôs o presidente do Chile, Salvador Allende, em uma cruenta operação militar coordenada pelo general Augusto Pinochet e que deixou milhares de mortos e desaparecidos - entre eles, o próprio chefe de Estado, o primeiro esquerdista eleito através do voto direto e que pretendia implantar o socialismo no país, através do sistema da democracia representativa tradicional.
À época, viviam em Santiago centenas de exilados brasileiros, vários deles jornalistas, entre os quais dois mineiros, Edmur Fonseca e José Maria Rabelo, que foram testemunhas pessoais não só daquela tragédia política, mas também de outra, relacionada diretamente com sua profissão: o comportamento da mídia impressa e eletrônica que, de um modo geral, deu sustentação aos golpistas que interromperam, a tiros, bombas, assassinatos e torturas, aquele inédito processo de transformação institucional pacífica, democrática e legal, na América Latina.
‘O Chile estava dividido, entre os adversários e os partidários de Allende. Mas os primeiros se encontravam bem mais organizados, sobretudo o campo da Comunicação’, lembra o jornalista, cientista político e escritor Edmur Fonseca que, em 1973, era professor titular do Centro de Estudos Humanitários da Faculdade de Ciências Físicas e Matemáticas das Universidade do Chile. Ele acentua que o presidente da República encontrava-se cerceado. ‘Por um lado, havia uma direita a cada dia mais agressiva e, por outro, um radicalismo pueril de determinados grupos esquerdistas, que insistiam em acelerar o processo revolucionário, sem as menores condições objetivas’.
Fonseca revela que, na área da imprensa, as provocações e investidas contra o governo socialista eram comandadas pelo jornal El Mercurio - ‘uma espécie de O Estado de São Paulo de lá ‘- extremamente conservador e que não aceitava as transformações sociais que vinham ocorrendo de forma democrática, especialmente a reforma agrária e as nacionalizações de empresas estrangeiras. ‘Era um jornal sólido, com profissionais competentes e de qualidade bem superior às publicações que apoiavam o sistema, ligadas aos partidos Comunista e Socialista, que repercutiam apenas em sua massa de eleitores específica, não no conjunto da sociedade’.
Fonseca disse ainda que os meios de Comunicação realizaram um ‘autêntico e sistemático complô’ contra toda iniciativa do governo de Salvador Allende, ajudados em parte pelas universidades. ‘A reação percebeu a importância desta instituição na vida pública chilena e, aos poucos, dominou os seus postos principais, aproveitando-se nas ilusões da esquerda sobre uma suposta estabilidade constitucional. E foram incontáveis as campanhas sensacionalistas a respeito de um caos iminente, tanto no abastecimento como na economia. As manchetes do El Mercurio e de outros veículos, de importância secundária, anunciavam crises fantasmagóricas. Veio o desabastecimento, intencional e programado, e não foram poucas as passeatas e panelaços contra a falta de gêneros básicos que reuniam tanto patroas da alta classe média como suas empregadas pobres, estas cujos maridos ou irmãos certamente estavam com o governo’.
‘A imprensa reacionária chilena preparou ostensivamente a população para o golpe que se avizinhava’, prosseguiu Fonseca, ‘apavorando principalmente a classe média, com o fantasma de um iminente comunismo. Nos programas de TV e rádio, onde havia debates, levava profissionais experimentados e de nível bem superior a seus adversários allendistas, mais acostumados ao discurso panfletário que à argumentação convincente’, destacou. Para o jornalista, não existem termos de comparação entre Salvador Allende e o presidente Lula. ‘Allende era sustentado essencialmente pelos pobres, o povão, que muitas vezes levava cerca de um milhão de pessoas às ruas em apoio ao governo. Lula, ao contrário, foi eleito por uma conjunção de forças sociais, com o apoio e beneplácito das classes empresariais’.
Observou também que as esquerdas chilenas careciam totalmente de um esquema jornalístico. ‘Não havia nem veículos competentes e muito menos profissionais eficientes. E também faltavam recursos financeiros. Era evidente também a ausência de preparo intelectual, em relação aos adversários’.
José Maria Rabelo, por sua vez, revelou que a fraqueza das esquerdas na área da imprensa era sem dúvida evidente. ‘O El Mercurio dava as cartas e tinha como concorrentes apenas um jornal do Partido Socialista e algumas TVs universitárias, a ‘Universitária’ e a da Universidade Técnica. No mais, toda a mídia estava contra Salvador Allende’, disse. O único veículo mais agressivo, na defesa do governo, era a rádio ‘Magallanes’, do Partido Comunista. A Rádio Portales também manifestava ‘simpatia pelo presidente’.
‘Na época do golpe, a mídia passou a se transformar em um verdadeiro panfleto político. Neste campo, era óbvia a vantagem do conservador El Mercurio, que contava com o apoio dos grupos econômicos e com a ajuda ostensiva do governo dos Estados Unidos, através da CIA. Isto ficou provado com a divulgação de relatórios do próprio Senado norte-americano. Documentos do Pentágono reconhecem a doação de U$ 1,5 milhão, uma vez, e outro aporte de U$ 500 mil a este jornal’, assinalou.
Rabelo lembra outras quantias entregues à publicação. ‘Em abril de 1971, logo após a posse de Allende, o El Mercurio foi agraciado com U$ 960 mil. Em novembro, vieram outros U$ 750 mil. E, de sobra, mais U$ 850 mil para a Democracia Cristã. Tudo para fortalecer a conspiração contra o governo socialista’. Contra este potencial financeiro e editorial, o maior jornal governista era o El Siglo, do PC. ‘Mas este tinha pouca circulação e reduzido alcance popular, que se limitava sobretudo a seus militantes’.
‘O controle da mídia foi uma alavanca fundamental para organizar e garantir o sucesso do golpe’, continuou. ‘A linguagem era quase apocalíptica, apesar do El Mercurio às vezes tentar disfarçá-la, assumindo um tom supostamente imparcial. Mas a mídia chilena estava neste processo há anos, desde 1958, quando Salvador Allende perdeu a eleição presidencial por menos de 1% dos votos. A imprensa criou um clima de verdadeiro terror psicológico na classe média, convencendo-a de que, com a vitória da esquerda, estaria iminente até uma invasão da União Soviética contra o Chile’, disse.
Ele recorda que, por trágica ironia, na manhã do dia 11/09 de 1973, foi o próprio presidente Salvador Allende, através do rádio, o primeiro a noticiar o golpe de Estado. As emissoras transmitiam em cadeia, direto do Palácio La Moñeda, enquanto cerca de quatro ou cinco outras serviam às forças golpistas, com militares até fazendo o papel de locutores. ‘Ao final do drama, ao pronunciar seu último discurso, em tom patético e emocionado, apenas a rádio ‘Magallanes’, do PC, estava no ar, funcionando em um estúdio clandestino. As outras emissoras ou aderiram aos militares ou foram por eles silenciadas. Foi o fim de um dos mais belos sonhos de toda a história da América Latina’, concluiu."
NYT ELOGIA BUSH
O Estado de S. Paulo
"‘New York Times’ elogia recuo de Bush", copyright O Estado de S. Paulo, 30/08/03
"Editorial diz que acordo, articulado com ajuda do Brasil, livra EUA de posição unilateral infeliz
O prognóstico de milhões de pessoas doentes nos países pobres, e para a saúde da atual rodada de negociações sobre o comércio global, pode melhorar como resultado do recuo do governo Bush de uma de suas mais infelizes posições diplomáticas unilaterais.
O Organização Mundial do Comércio (OMC) parece prestes a aprovar um plano articulado pelos Estados Unidos e quatro países em desenvolvimento - Brasil, Índia, Quênia e África do Sul - que eliminariam a proibição de países pobres comprarem genéricos para combater doenças como aids, malária e tuberculose.
Os EUA foram o único país a bloquear esse acordo no ano passado, em virtude das preocupações da poderosa indústria farmacêutica.
Mérito seja dado à urgência de uma data-limite - um encontro de cúpula decisivo em Cancún no dia 10 - e o trabalho do incansável diplomata Robert Zoellick, o principal negociador dos EUA.
As normas comerciais já permitem a um país quebrar a patente e produzir drogas de baixo custo em caso de emergência. A maioria dos membros da OMC quer que países pobres que não têm meio de produzir remédios possam importá-los. O tema é parte importante da atual rodada de negociações, cujo objetivo é fazer o sistema de comércio internacional funcionar melhor para os países mais pobres.
Os EUA abriram mão de sua insistência de que a quebra de patentes ficasse restrita a algumas doenças e, em troca, conseguiram mais garantias de que esses genéricos não serão revendidos em países desenvolvidos.
Se aprovado, o acordo permitirá que o encontro de Cancún se concentre na agricultura, outra área em que os pobres sofrem com a intransigência dos ricos, que relutam em baixar barreiras comerciais e em cortar subsídios."
ECOS DA GUERRA
O Estado de S. Paulo
"TV iraquiana bancada pelos EUA é rejeitada", copyright O Estado de S. Paulo, 29/08/03
"Uma nova TV iraquiana, a Iraque Media Network (IMN), pretende aumentar o seu tempo de programação nas próximas semanas, a fim de conquistar audiência. O canal planeja ter 24 horas de exibição diária, criando novos títulos nas áreas de esporte e variedades.
A nova programação é uma tentativa de conquistar o público iraquiano, que considera a IMN ‘a voz da coalizão anglo-americana no país’.
O principal desafio do canal, que foi patrocinado pelos Estados Unidos, é acabar com a falta de credibilidade entre o seu público. Há poucas semanas um dos dirigentes do canal, Ahmad al Rikabi, pediu demissão alegando falta de recursos. As autoridades americanas negam o fato.
A situação, no entanto, ficou pior depois que as forças da coalizão nomearam Simom Haselcok como comissário dos meios de comunicação no Iraque. O problema é que o público acredita que Haselcok é um censor capaz de barrar todos os conteúdos que alimentem os sentimentos antiamericanos. Ele já fechou vários jornais e interfere constantemente na programação dos canais de TV. O povo local reclama que isso não é atitude compatível com a liberdade de expressão prometida pelos Estados Unidos, caso eles vencessem a guerra.
Outro item que incomoda os iraquianos é o fato de o canal exibir muitos filmes, seriados e videoclipes de músicas ocidentais, renegando a cultura local.
Para o público iraquiano, não há canal mais tendencioso que a IMN e as mudanças de nada vão adiantar. Eles acreditam que se é para ver TV tendenciosa, é melhor continuar assistindo aos canais árabes, como Al Arabiya. (AFP)"