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ELEIÇÕES 2002
Belisa Ribeiro
"Jovens têm menos participação na eleição", copyright Jornal do Brasil, 30/09/02
"O primeiro voto ninguém esquece. A frase, inspirada em publicidade que vendia o primeiro sutiã e utilizada na campanha que incentivava os adolescentes a comparecer às urnas em 1989, primeira eleição que permitiu o voto aos 16 anos, tem de ser substituída. Ao primeiro voto, cada vez menos gente dá atenção.
Na eleição da novidade, a que levou Fernando Collor de Mello à Presidência da República, os eleitores de 16 anos foram mais de 1 milhão e meio. Hoje, eles não chegam a 650 mil. Uma participação de menos da metade, tanto em números absolutos quanto relativamente.
Há 13 anos, os sufragistas de primeira urna eram 1,82% do eleitorado total. Nestas eleições, minguaram para 0,55%.
A comparação do total de eleitores com a evolução demográfica revela dados ainda piores no que se refere ao interesse pelo cumprimento do dever cívico por parte dos jovens. Os brasileiros e brasileiras de 16 anos eram 3.002.474 em 1989 e são 3.431.694 agora em 2002, segundo projeção oficial do IBGE sobre dados do Censo 2000. Enquanto a população da idade do primeiro voto crescia, portanto, 14,29%, os que decidiram tornar-se eleitores diminuíram em 56,41%.
O desinteresse da juventude fica ainda mais flagrante se comparado com os dados gerais da população. De 1989 até agora o aumento no número de habitantes foi de 20,26%. O eleitorado como um todo, somando-se todas as faixas etárias, cresceu mais que o dobro: 40, 44%, tendo a participação do número de eleitores na população aumentado de 55,66% em 1989 para 66% nestas eleições de agora.
Uma das explicações para o desinteresse dos jovens pela eleição pode ser o baixo nível de conhecimento de nossa história recente. Em 1999, com a reabertura do caso Riocentro, reeditei o livro ‘Bomba no Riocentro’, sobre a participação da imprensa no episódio que acabou se tornando um marco na redemocratização do país. Percebi que, entre os de menor idade, poucos recordavam a existência quanto mais a importância da explosão das bombas que acabaram ferindo um capitão e matando um sargento do exército no estacionamento do centro de convenções da Zona Oeste, numa noite em que um show organizado pela oposição ao regime militar comemorava o primeiro de maio.
Decidi investigar o nível de conhecimento dos jovens sobre a história recente do país e, para isso, foi feita uma pesquisa, na Universidade Gama Filho (UGF) e através do portal Terra, com mais de mil menores de 21 anos. O teste continha questões relativas à evolução tecnológica e perguntas sobre a vida econômica, política e social do país, tendo como base o ano de explosão das bombas, 1981.
Nenhum dos rapazes e moças esqueceu qual joguinho eletrônico já existia. Mas exatos 20% não sabiam quem era o Presidente da República.
Mais de 40% se enganaram redondamente sobre o direito ao voto direto naquela época e, talvez por isso mesmo, uma triste percentagem de 18,1% respondeu que o fato de se viver em uma ditadura ou em uma democracia ‘não interfere em nada na vida pessoal de cada um - é possível ser feliz individualmente, independentemente do regime político’."
Boris Fausto
"Marketing político", copyright Folha de S. Paulo, 30/09/02
"Quando o marketing político começou a aparecer, muita gente -inclusive quem escreve estas linhas- imaginou que estávamos diante de mais uma ‘cascata’.
A desconfiança, em poucas palavras, era fruto do racionalismo: os partidos e os candidatos tinham ou deveriam ter ideologia; os cidadãos seguiam ou deveriam seguir pelo mesmo caminho. Como pensar que seria possível vender candidatos como se vendem sabonetes?
Com o correr do tempo, embora haja diferenças entre os dois tipos de consumo, elas se encurtaram e hoje poucos duvidam da influência do marketing político no resultado de uma eleição. Quem duvida paga o preço. Exemplifico com dois casos da corrida presidencial: o de Ciro Gomes, de um lado, e o de Lula, de outro. O primeiro desdenhou dos grandes nomes e atribuiu a responsabilidade de seu programa de televisão a um parente, se não estou enganado. Ao que parece, o candidato julgava-se o marqueteiro de si mesmo, dados seus inegáveis dons de comunicação.
O resultado foi o que se viu. Seu programa não convence. Pior do que isso, solto no espaço, Ciro foi um desastre, surpreendendo amigos e adversários com um comportamento descontrolado. Quase não seria preciso lembrar as atitudes que revelaram preconceito racial, arrogância, machismo, descrédito das instituições.
Lula e o PT, pelo contrário, renderam-se às virtualidades do marketing político, com resultados positivos. Seria injusto dizer que a versão ‘paz e amor’ de Lula seja apenas uma grande montagem de Duda Mendonça. O candidato, nas palavras e nos gestos, mostrou uma evolução, quando lembramos um passado recente.
É bem verdade que, apesar dessa evolução e do cuidado de seus assessores, o candidato petista, aqui e ali, ainda escorrega feio. Exemplo: a afirmação de que o Brasil não virá a ser uma Argentina, levantando uma onda de indignação no país vizinho que obrigou Lula a assinar um artigo explicativo.
De qualquer forma, o candidato marcou pontos pessoais e se revelou competente para ganhar a eleição, embora ainda não a tenha ganho. O problema, porém, não é o Lula candidato, e sim o Lula presidente, caso chegue à Presidência. A essa altura - missão cumprida - Duda Mendonça terá ido para casa e as duras tarefas de governo, em meio a uma situação delicada, seriam incontornáveis.
Que caminho Lula seguiria? Por exemplo, na área econômica: o caminho da cautela, não perdendo de vista os princípios do respeito aos contratos, da responsabilidade fiscal, do combate à inflação, mesmo tratando de acelerar o crescimento? Ou, pelo contrário, cederia à tentação do crescimento a qualquer preço, conformando-se com o retorno da inflação alta e da desordem financeira, para a alegria de uma parcela da classe dominante? São algumas dentre muitas perguntas para as quais o marketing político não tem respostas, se é que alguém as tem. Boris Fausto escreve às segundas-feiras nesta coluna."
Nelson de Sá
"No Ar", copyright Folha de S. Paulo
"1/10/02 - Do arrastão aos boatos
"De um lado, petistas que não se cansaram de insinuar, coordenadamente, como fez a própria Benedita da Silva, na Globo:
- Isso é coisa orquestrada e de conotação política.
E como seu candidato a vice:
- É um novo arrastão contra Benedita, como em 92.
Foram além os petistas, agora que falta menos de uma semana para a eleição -e o Rio voltou a ser aterrorizado.
José Dirceu, o presidente do partido, e a mesma Benedita disseram, de maneira sempre concertada:
- Nós continuamos aqui, sem acordo com o crime organizado, combatendo.
Ouviu-se, no mesmo sentido, que a grande diferença petista é não fazer acordo com o tráfico. Foi uma de muitas insinuações levantadas.
Outra foi a estranheza quanto às escolas municipais fechadas, enquanto as estaduais seguiam abertas. Foi uma sugestão para o lado de Cesar Maia, que apóia José Serra e, no Rio, Solange Amaral.
A resposta do prefeito veio com violência verbal, tratando Benedita por ‘desequilibrada’. Serra não ficou muito atrás. Atacou o ‘jogo de empurra’ dos adversários.
FHC tentou posar de estadista no Jornal Nacional, até dizendo que crime e eleição não devem se misturar. Mas também tratou de marcar seu distanciamento dos petistas.
Disse que ‘cobrou’ do governo do Rio informações e que ouviu estar havendo um ‘exagero’. E comentou:
- O que me foi transmitido foi isso, não estou endossando.
O JN qualificou de ‘boatos’, nada mais, as supostas ameaças do tráfico que levaram lojas e bancos a fechar -e destacou as insinuações do PT.
Fez o oposto de 92.
FHC impôs distância ainda maior dos petistas em suas ações e declarações em Minas Gerais. Em primeiro lugar, distribuiu -ou prometeu- dinheiro a Itamar Franco. Ao comentar, Boris Casoy sorria:
- Em fim de governo, crédito faz milagre.
O milagre foi Itamar, que apóia Lula, posar ao lado de FHC, que apóia Serra e vem concentrando seu esforço final em Minas.
Já sem Itamar, em comício ao lado do próprio Serra e de Aécio Neves, o presidente atacou Lula mais abertamente:
- Estamos cheios de pessoas que não entendem o que mudou no Brasil e propõem o passado como futuro. Passado ao qual nem fazem crítica, mas se dão ao luxo simplesmente de dizer ‘eu mudei’... Mudar não é se vestir melhor ou pior. Não é ser mais sorridente.
Nada do magistrado.
27/09/02 - Em transição
É cedo ainda, mas não tão cedo. Como avisava ontem Franklin Martins, resta apenas uma semana de campanha na televisão.
Na próxima quinta já tem o debate na Globo, aquele que vai copiar a estrutura de ‘town hall meeting’ dos americanos, e aí acabou.
Resta apenas uma semana -e Lula está próximo de levar no primeiro turno. Para alguns, parece que o petista já levou. Até para o FMI.
O diretor-gerente do Fundo, nos telejornais, a começar das manchetes do Jornal Nacional, previu ontem uma ‘transição tranquila’.
Fez mais. Com seu sotaque carregado, já se dirigiu a ‘Lula’ como presidente. Deu conselhos, até elogiou a meta de estimular o desenvolvimento, ‘a melhor fórmula para manter a dívida sustentável’.
FMI ou Baixada Fluminense, todos querem falar em dinheiro com Lula. O prefeito tucano de Duque de Caxias, que começou apoiando José Serra e depois passou para Ciro Gomes, hoje encontra o petista e já avisou que vai pedir.
Ele e a governadora Benedita da Silva, que quer de seu colega petista que ‘abra a torneirinha para o Rio’.
É só o começo. A demanda é proporcional ao sonho.
A Globo não desistiu.
José Serra passou batido, mas Lula ouviu diversas perguntas atravessadas na entrevista final do Jornal Nacional.
Ouviu William Bonner, por exemplo, questionar sobre sua ‘relação’ com a guerrilha da Colômbia.
Lula disse de pronto que era ‘nenhuma’ e, para um Bonner insistente, afirmou que não quer uma intervenção na Colômbia porque o Brasil tem interesses na Amazônia.
Foi uma resposta forte, mas arriscada, com a segurança de quem se vê quase lá -e começa a não ser ‘Lulinha paz e amor’. É cedo ainda.
No que depender do fôlego de Garotinho, Lula não leva tão já. Ele criticou sem parar o petista. Disse fazer ‘oposição genuína’, enquanto Lula:
- Está consultando Lázaro Brandão, Olavo Setúbal, para ver quem pôr no Banco Central. Não é mais aquele.
Fez piada, chamou o petista de ‘denorex’, mas também foi mais violento, dizendo que viu ‘gente na Bahia jogando pipoca no Lula num terreiro’.
A uma semana do fim da campanha, vale qualquer coisa. Até guerra santa.
Quanto a Serra, ele conseguiu desgostar até seu grande eleitor, FHC, que passou o dia de ontem em elogios sem fim ao Mercosul -que havia sido descartado por seu candidato."
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