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ORIENTE MÉDIO
Luís Nassif
"Os correspondentes de guerra", copyright Folha de S.Paulo, 2/4/02
"O correspondente internacional da televisão brasileira cobre a invasão israelense de seu escritório em Nova York. Apresenta uma sequência de imagens de tanques invadindo zonas civis, que serve de fundo para sua narração. Praticamente não há imagens das vítimas palestinas. No máximo palestinos em posição agressiva, ou atirando pedras ou em manifestações de rua contra a invasão israelense.
Depois, a imagem mais forte é a do líder palestino Arafat dando uma entrevista à luz de velas. A narração burocrática do correspondente informa ao distinto público que Arafat ‘vocifera’. Cercado em seu quartel, sem luz, água ou alimentos, com tropas inimigas do lado de fora afrontando as regras diplomáticas mais comezinhas do mundo civilizado, Arafat não se ‘indigna’, não se ‘revolta’, mas ‘vocifera’.
Na sequência, são apresentadas as cenas terríveis de vítimas israelenses do terrorista suicida que invadiu o restaurante e explodiu a bomba. Depois, rapidamente, imagens de alguns líderes mundiais condenando a invasão israelense. O texto desdramatiza as declarações, tira a ênfase, condenando-as a meras manifestações diplomáticas protocolares.
Depois, mostra o chefe militar israelense Ariel Sharon quase na posição de estadista, calmo, firme. Visto do ângulo da TV, até parece uma pessoa equilibrada.
Não se condene o correspondente por má-fé. O que ele faz é padrão para a maioria dos correspondentes estrangeiros, certamente não os dos jornais e televisões mundiais mais influentes e preparados. Ele recebe as informações da televisão norte-americana e cozinha não apenas imagens como visões dos fatos.
Jovens mal saídos da adolescência tornam-se terroristas suicidas. Fossem meros terroristas matando terceiros, não haveria muito a discutir. Mas são jovens que, na impossibilidade de enfrentar o poderoso Exército de Israel e seus soldados e seu general protegidos por armas sofisticadas, saem das suas casas dispostos a explodir a si, matando civis inocentes à custa de sua própria vida, uma dupla insanidade.
Que nível de desespero, humilhação e revolta leva esses rapazes a gestos tresloucados? Pouco importa. A douta mídia de massa norte-americana e seus papagaios periféricos explicam ao distinto público que na cultura oriental é normal as pessoas gostarem de se suicidar porque dezenas de virgens lúbricas as estarão esperando no portal do paraíso. Legal! Não se entende por que ainda existem árabes e palestinos vivos na face da terra, e não saboreando as virgens de Alá.
Condenação universal
A invasão israelense da zona palestina foi condenada por parcela esmagadora do mundo civilizado, aquele elenco de pessoas com conhecimento de direitos individuais, de leis diplomáticas, com informações mais precisas e compreensão mais avançada sobre o que ocorre por lá. Foi condenada pela Organização das Nações Unidas, pelos líderes de países aliados, como a própria Inglaterra, por praticamente toda a opinião pública européia e pela maioria da própria opinião pública israelense. Para o jornalismo fast food internacional, o que vale é a impressão do âncora norte-americano explodindo indignações vazias ou da repórter da CNN, confortavelmente instalada no seu estúdio e aparentando aquele espanto dos civilizados com a explosão de indignação do ‘vociferante’ Arafat.
Na condição de único negociador palestino, Arafat só sobrevive em ambiente de paz. O ambiente no qual Sharon se fortalece é a guerra. Por isso provoca, cria ações que estimulam os atentados terroristas, que, por sua vez, fortalecem sua posição. No entanto se propaga agora que Arafat é o chefe dos terroristas.
Liquidando-o, estará fechada a última porta para a negociação da paz na Palestina. E Israel dos humanistas, de Ben Gurion, dos meus amigos brasileiros que foram para lá nos anos 60 sonhando com a pátria da igualdade, se transformará irreversivelmente em um Estado militar, como aconteceu com a Alemanha de Hitler. Em lugar da música, da arte, das humanidades, seus jovens continuarão sendo educados para os fuzis e seus cidadãos, para a visita do próximo homem-bomba.
Daqui para o futuro, toda uma geração politizada de jovens árabes e não-árabes, de indignados de todas as partes do mundo, não saberá separar mais o judeu, e toda sua tradição humanista, de um modelo de Estado e de política terrorista, que permitiu o florescimento de um louco assassino como Sharon. E aí o desespero terrorista se voltará também contra outros judeus desprotegidos do mundo.
Espero apenas que os nossos judeus sejam poupados dessa insanidade."
Nelson de Sá
"Silêncio", copyright "No ar", Folha de S.Paulo, 2/4/02
"Iasser Arafat, segundo relatos não de todo confiáveis, já que a bateria do celular acabou e poucos chegam até seu refúgio, dizia ontem que ‘existe uma conspiração de silêncio’ contra ele.
Chega a soar estranho, vindo de quem bateu o telefone na cara de Cristiane Amanpour, da CNN, na sexta. Ele não gostou de duas perguntas, exigiu equilíbrio da CNN – que não favorecesse Ariel Sharon – e desligou ao vivo.
Agora Arafat questiona a ‘conspiração de silêncio’ – e não está errado.
Antes de Amanpour, semana passada, ele já havia falado à emissora Al Jazeera. Não mais. Desde a ocupação de Ramallah, os correspondentes do canal do Qatar estão sem sair do prédio, cercado por tanques e ocupado por soldados:
– Não nos deixam sair.
Não deixam chegar a Arafat. Nem Al Jazeera nem qualquer outro canal árabe.
A CNN conseguiu no fim de semana, mas para tanto seguiu os militantes pacifistas que avançaram em meio aos soldados atônitos.
Com direito à bandeira do MST, fartamente mostrada na CNN, parecia cena de ‘Terra de Ninguém’, sátira de guerra que venceu o Oscar.
Mostrando ter aprendido a lição americana do Afeganistão, os soldados de Sharon não demoraram a acabar com a cobertura de TV.
Outras redes já sofreram com a censura a Arafat e seja lá o que mais não se quer mostrar -a começar das imagens de Ramallah destruída.
Uma equipe da CBS foi cercada por sete veículos militares e retirada da cidade. A agência Reuters, que fornece imagens de TV, informou ela mesma que foi expulsa de sua sucursal.
De um jornalista brasileiro, de seu hotel em Ramallah, para o Jornal da Band:– Ninguém pode sair.
O resultado é que George W. Bush, Sharon, seu ministro do Exterior, da Defesa etc. falam sozinhos -sem um Arafat para dizer que não e sem cenas de horror para atrapalhar.
– Preferia que estivesse com a bandeira brasileira.
A crítica do ministro Celso Lafer à bandeira do MST estendida por Arafat não poderia soar mais canhestra.
FHC havia reagido de imediato em favor de Arafat e contra a ocupação. Prometeu tropas para uma força de paz. Mas não, quem foi parar nos telejornais do mundo foi o MST -que um ministro seu, dias antes, chamou de ‘terrorista’.
Não se troca de lado assim, tão rápido."
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