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MEMÓRIA / CARLITO MAIA
Eugênio Bucci

"Carlito Maia e traduções", copyright Jornal do Brasil, 27/6/02

"A História do Brasil não passa de uma seqüência de erros de tradução. Muitas vezes, erros crassos. Um exemplo? Muito fácil. Há pouco mais de 30 anos, os americanos tinham lá um (bom) slogan patrioteiro: ‘America: love it or leave it’. Pois bem, a ditadura militar no Brasil resolveu transpô-lo para os trópicos: ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’. Pode haver prosódia mais abominável? O erro de tradução é acintoso. Não, o erro não está no sentido literal da estultice, mas na sonoridade bovina da frase abrasileirada. O que soa bem em inglês, range feito um mugido em português. ‘Ame-o ou deixe-o.’ Ninguém fala desse jeito, só dubladores (que em filmes de cowboy gritam barbaridades como ‘Peguem-no! Não o deixem escapar!’). ‘Ame-o ou deixe-o’... Parece um desses exercícios que a gente faz quando vai a uma fonoaudióloga, fazendo com o maxilar o mesmo movimento circular das vacas quando ruminam.

E olhe que poderia ter sido pior. Se os militares tivessem convocado um publicitário, a coisa talvez saísse na linha criativa. Já imaginou o desastre? Como estamos aqui às voltas com imagens pecuárias, uma possível tradução ‘criativa’ me assalta a imaginação: ‘Brasil, ou você ama ou desmama’. Blergh... Ou: ‘Brasil, ou você adora ou você cai fora’. Sim, eu sei, piorou. Vai ver que foi por isso que deixaram aquele ‘amiuoudeixiu’ literal mesmo. Parece incrível, mas o vexame foi menor. Foi apenas mais um caso de erro de tradução. Erro de contexto. Idéias fora de lugar, diria Roberto Schwarz. Slogans fora de lugar, isto sim.

A nossa bandeira nacional também tem lá, bem no centro, o seu slogan fora de lugar. ‘Ordem e progresso’, como se sabe, é um lema importado, traduzido e censurado. Veio da Igreja Positiva, inventada por Auguste Comte, cujo mote era: ‘Amor, ordem e progresso’. Eu não sabia disso até que, um dia, Carlito Maia me contou. Ele queria que a palavra ‘amor’ entrasse na bandeira do Brasil. Ele tinha toda razão. Seria mais justo, mais íntegro e mais amoroso se assim fosse.

Dizendo o nome de Carlito Maia eu, finalmente, chego a quem me leva a escrever este artigo. Esse quem é Carlito Maia, que sempre defendeu o amor antes da ordem e muito antes da promessa de progresso. Carlito, que me ensinou a transformar o amargor numa risada. Que, rindo da autoridade, libertava a inteligência. Carlito morreu no sábado, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Tinha 78 anos. Seu corpo sucumbiu a uma ‘doença degenerativa crônica’, no dizer dos médicos. Sua atitude não sucumbiu. No caixão, com bolinhas de algodão no nariz e a boca entreaberta, velhinho e magrinho que só, estava rindo. Rindo para mim e rindo de mim, um pobre jornalista que critica os publicitários. E rindo com razão: Carlito, um publicitário, me deu muita lição de jornalismo.

Foi um gênio, mas isso não importa. Suas frases curtíssimas, seus achados brilhantes, ainda que publicitários, desenharam em parte a fisionomia da cultura brasileira recente. Foi ele quem batizou a Jovem Guarda de Jovem Guarda. Melhor que isso: ele me contou, já faz tempo, que tirou essa expressão de uma tradução portuguesa de uma obra de Lênin. Era uma frase mais ou menos assim: ‘O futuro da humanidade repousa nos ombros da jovem guarda’. É uma apropriação antropofágica e magistral. De novo, um deslocamento de tradução nomeia a cultura brasileira.

Carlito foi também o gênio por trás da imagem do PT, uma espécie de Duda Mendonça do bem. Criou os slogans ‘oPTei’, ou o ‘vaPT-vuPT’, ou o ‘Lula-Lá’, e mais uma longa lista. Orientou os primeiros programas de televisão do Partido dos Trabalhadores, ao lado de Chico Malfitani e de Erazê Martinho. Sem ele, o PT não teria a imagem que tem ou, melhor dizendo, a boa imagem que tem. Sobre a má imagem, ele jamais teve a menor responsabilidade. Dizia apenas que o PT era dividido entre xiitas e chaatos. E, outra vez, tinha razão.

Publicitário de esquerda, petista (não roxo, mas rubro), foi gerente de comunicação da Rede Globo em São Paulo. Era uma divertida contradição em termos. A Globo pagava os buquês de flores que ele mandava diariamente, desde os tempos da ditadura, para os amigos que aniversariavam, que tinham filhos, que lançavam livros, que estreavam peças, que faziam discursos de oposição no Congresso. Depois que sua doença começou a se agravar assustadoramente, e isso de dez anos para cá, a Rede Globo pagou muito mais que flores. Pagou muito mais do que mandavam suas obrigações trabalhistas. A Globo dedicou a seu funcionário ilustre uma atenção que não será esquecida. Carlito jamais foi unanimidade, mas chegou muito perto. Foi velado com homenagens do PT, do MST e da Globo. Nada mais justo.

O seu apelido, Carlito, era uma nítida alusão ao personagem de Chaplin, o Carlitos pobre, frágil, engraçado e de coração puro. Era assim, aliás, como um Carlitos à brasileira, que os cartunistas gostavam de desenhar Carlito Maia. Tudo a ver. O Carlitos do cinema desbancava todas as tiranias, desde a exploração do trabalho (em Tempos modernos) até o totalitarismo político (O grande ditador). O nosso Carlito fez igual. Foi, portanto, uma tradução viva do personagem solidário de Chaplin. Mas, exceção a todas as regras, não foi um erro de tradução: foi um acerto magnífico, isto sim. Melhor que o original. Por meio de Carlito Maia, o Brasil sonhou seus melhores sonhos. E sonhos não morrem."

 

MEMÓRIA / ROBERTO DRUMMOND
Deonísio da Silva

"Roberto Drummond feito sob a própria medida", copyright O Estado de S. Paulo, 30/6/02

"Na versão que fazia de si mesmo, Roberto Drummond era mais novo do que seu irmão caçula. Escondia a idade com uma inocência escandalosa.

Semelhava uma das mais antigas e invictas solteironas de um tempo em que a solteirice não era opção, mas ameaça de encalhe no caminho do matrimônio compulsório. Qual Michelangelo literário, esculpiu no mármore perene das letras a própria estátua e, uma vez concluído o trabalho, ordenou: ‘Fala, sô!’

E ele falou e escreveu em abundância. O escritor não queria que o tempo passasse. Esforçou-se para interromper os complexos caminhos que faz sobre nossos corpos e nossas almas, espalhando geada sobre os cabelos, arrancando boa parte deles, sulcando nossa pele como se os dias fossem arados e o semeador não tivesse outra lavoura que não fôssemos nós mesmos. E pontilhando nossos corações com pequenas manchas pretas -- os pecados veniais, como advertiam antigas catequistas - que nos serviam de advertência para não os borrarmos com as enormes manchas dos pecados mortais, aqueles que demandam detergentes mais complexos do que meia dúzia de ave-marias e a ordem, sempre desobedecida, como sabiam previamente confessor e confitente:

‘Vai e não tornes a pecar.’

Ele levou a literatura a sério. Tão a sério que fazia de si mesmo lenha para aumentar as labaredas da fogueira em que ardia todos os dias. Muitas vezes, compulsando dicionários de literatura, sorri de sua vitória sobre o tempo, enganando doutores em letras, pesquisadores que tudo devassam e até um delegado de polícia que depois se tornou fonte confiável da literatura brasileira para todos os autores. Menos para Roberto Drummond. Falo de Raimundo de Menezes, a quem os Ph.Ds da República das Letras reverenciam como bibliografia segura. O bacharel em Direito nem sequer identificou com precisão o indexado no -- como direi: prontuário ou dicionário? Da consulta saimos sem saber o nome, nem a idade e nem o lugar em que nasceu.

Drummond ironizou o próprio sobrenome em O Cheiro de Deus, seu último romance, incrustando famílias designadas por nomes de uísque no clã Drummond no Brasil. Indaguemos com mais precisão: quem era o autor de A Morte de D.J. em Paris, que atendia pelo nome de Roberto Drummond?

Era alguém capaz de ajoelhar-se diante de certa donzela alemã em Berlim para dizer-lhe que era a mulher mais linda do mundo, muito mais bonita do que Nossa Senhora das Dores. E a moça era protestante de carteirinha e nada entendia de português! Embevecido, olhando a paisagem fria de Frankfurt, entendeu mal o motorneiro que com uma manivela na mão advertia o escritor que ele estava muito perto do meio-fio e o espelho do bonde poderia arrancar-lhe uma das orelhas. Ignorando palavras e gestos, Roberto saiu em disparada buscando abrigo entre os colegas e dizendo que um motorneiro queria matá-lo. E o alemão irritadíssimo, pensando que ele estava fazendo teatro para menosprezar o aviso. Ignácio de Loyola Brandão e o signatário são testemunhas dessas passagens.

Roberto Drummond tornou-se imortal com seus livros. Imprimamos agora as lendas. Porque também sua biografia é encantadora. Deonísio da Silva é escritor e professor da UFSCar. Seu romance mais recente é ‘Os Guerreiros do Campo’"

 

TIM LOPES, ASSASSINADO
FSP

"Site do ‘New York Times’ cita o assassinato do repórter Tim Lopes", copyright Folha de S. Paulo, 29/6/02

"O ‘New York Times’ noticiou anteontem em seu site o assassinato do jornalista Tim Lopes e outros casos de violência no Rio.

A reportagem do jornalista Larry Rohter afirma que, para os 5,8 milhões de residentes no Rio, a morte de um dos repórteres mais conhecidos da cidade é mais uma demonstração de que morros se tornaram feudos de gangues.

Para a Sociedade Interamericana de Imprensa, os criminosos estão ‘definindo os limites da liberdade de expressão’.

‘Esses gangues se tornaram uma ameaça ao Estado, governos paralelos que ameaçam a democracia brasileira e a lei’, disse no texto Wálter Maierovitch, ‘ex-czar antidrogas’ do Brasil.

A reportagem ainda lembra a carreira de Tim Lopes como repórter investigativo e menciona o prêmio que recebeu no ano passado, ‘equivalente brasileiro do Pulitzer’, sobre uma feira de drogas em favelas.

O jornal informa que, em alguns bairros, os traficantes decidem quando lojas e escolas abrem e fecham, quem pode entrar ou sair e onde e como as casas podem ser construídas.

‘Mais bem armados do que a polícia, as gangues até começaram a atacar prédios públicos. As janelas da Prefeitura do Rio foram baleadas nesta semana’, diz a reportagem do ‘NYT’."


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