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OS SERTÕES , 100 ANOS
Moacyr Scliar
"Metamorfose das raças", copyright Folha de S. Paulo, 1/12/02
"Quando, em 5 de outubro de 1897, as tropas federais entraram em Canudos para o ataque final, Antonio Conselheiro já não estava à frente de seus fiéis. Havia morrido em 22 de setembro. A causa da morte não foi bem esclarecida, mas bem pode ter sido aquilo que na região era conhecido como ‘caminheira’, diarréia. Uma prosaica e deprimente condição que vitimava, e ainda vitima, milhões de brasileiros (crianças, sobretudo) e que está ligada à má higiene dos alimentos e à deficiente qualidade da água. Morte inglória, portanto. Mas, de qualquer modo, o cadáver foi desenterrado e decapitado. A cabeça não foi, como a de Tiradentes, exibida em público para escarmento da população sertaneja. Não, esses tempos já haviam passado. Em vez disso, a cabeça foi enviada a um cientista, para ser estudada: era preciso descobrir o que havia ali, que poder misterioso capaz de mobilizar multidões residira naquele cérebro.
O cientista era Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906). Médico, professor da Faculdade de Medicina da Bahia, Nina Rodrigues era também, como outros doutores de sua geração, etnólogo, autor de obras como ‘O Animismo Fetichista dos Negros na Bahia’ e ‘O Alienado no Direito Civil Brasileiro’. O trabalho desses cientistas havia sido fortemente influenciado pelas idéias de Joseph Arthur, conde de Gobineau, que veio para o Rio de Janeiro como chefe da missão francesa entre abril de 1869 e maio de 1870. Gobineau interessou-se pela mestiçagem no Brasil.
Considerado hoje um dos precursores do racismo nazista, previu que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira. Suas idéias coincidiam com o pensamento político brasileiro da época, voltado para o branqueamento e europeização do país, e foram seguidas, em maior ou menor grau, por instituições voltadas ao estudo antropológico: a Faculdade de Medicina da Bahia, o Museu Nacional e a Escola Militar, no Rio de Janeiro.
As teorias raciais surgidas no Brasil nas últimas décadas do século 19 não eram necessariamente hostis aos grupos que formavam a nacionalidade. Nina Rodrigues não desprezava as manifestações culturais dos negros, que estudou detalhadamente. Mas, para ele, a miscigenação resultaria inevitavelmente em desequilíbrio mental e -conceito importante- degenerescência. Médicos importantes como Arthur Ramos e Afrânio Peixoto foram seus seguidores, membros da chamada Escola Baiana, que conjugava medicina e antropologia.
‘Criminoso nato’ Também eram influentes à época as idéias do médico e criminologista italiano Cesare Lombroso. Lombroso acreditava no ‘criminoso nato’, cujas caraterísticas manifestar-se-iam inclusive no tipo da face e na conformação do crânio. Medir e estudar crânios era uma obsessão da época, o que explica a solicitação a Nina Rodrigues.
Abolicionista, republicano, o jovem Euclides, que era filho de um pequeno proprietário rural, cursou engenharia primeiro na Escola Politécnica do Rio e depois na Escola Militar da Praia Vermelha. Ali foi influenciado pelo espírito científico da época, que unia ao positivismo de Comte o evolucionismo de Darwin e de Spencer. Essa ciência desafiava os princípios estabelecidos pela religião e, ao mesmo tempo, induzia a uma visão pessimista e até cruel da espécie humana, influenciada pela idéia da sobrevivência do mais apto.
Em ‘Os Sertões’, Euclides endossa muitas das idéias de Nina Rodrigues: a guerra sertaneja seria resultado da alucinada pregação de Antônio Conselheiro, este o portador de uma doença mental que emergiu em toda a sua intensidade quando a mulher o abandonou por outro homem: ‘A mulher foi a sobrecarga adicionada à tremenda tara hereditária’, diz Euclides. Tal pregação caiu em terreno fértil, representado pelas ‘sub-raças sertanejas (...) destinadas a próximo desaparecimento ante às exigências crescentes da civilização e à concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra’.
Para Euclides, os seguidores de Conselheiro eram ‘gente ínfima e suspeita, avessa ao trabalho... vencidos da vida’. Não estava sozinho nessas considerações. Ruy Barbosa falava dos habitantes de Canudos como ‘idiotas e escravos de galés’. Que o arraial preenchesse uma necessidade na vida dos sertanejos pobres, desamparados, parecia-lhe secundário. Mas o fato é que em Canudos havia trabalho, inclusive para os negros e para os índios; havia uma escola; e havia um código de conduta: álcool e prostituição eram proibidos.
As expressões usadas em relação aos sertanejos pretendiam ter fundamento científico. Partiam, como foi dito, de um conceito fundamental, o de degenerescência: à medida que se sucedessem as gerações, nervosos gerariam neuróticos, que gerariam psicóticos, que gerariam idiotas ou imbecis, até a extinção da linhagem. Tal teoria foi sistematizada por Benedict Morel (1809-1873), no seu ‘Tratado das Degenerescências’, de 1857.
Já Henry Maudsley (1835-1918), psiquiatra inglês citado por Euclides na derradeira frase de ‘Os Sertões’ (‘É que não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades...’), falava nas monomanias raciocinantes e nas monomanias instintivas, as primeiras sendo conhecidas como loucura moral -outra expressão muito usada então.
Eugenia A teoria da degenerescência entrou na psiquiatria brasileira por meio de Nina Rodrigues e Juliano Moreira. Nina Rodrigues dedicou-se a formular regras para a avaliação de indivíduos considerados mentalmente doentes, decidir quanto a sua imputabilidade penal e, principalmente, a sugerir meios preventivos para evitar a loucura e o crime.
Logo depois da tomada de Canudos, o presidente Prudente de Morais (1894-98) sofreu um atentado, no qual morreu o ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt. O autor, o soldado Marcelino Bispo de Melo, foi preso e, dois meses depois, se suicidou na cadeia. Nina Rodrigues analisou o crime, procurando demonstrar que o caso se enquadrava na teoria da degenerescência: Marcelino Bispo era um degenerado violento, subcategoria regicida ou magnicida.
Nessa ‘prevenção’ da degenerescência desempenhou papel destacado a eugenia, a idéia do ‘aperfeiçoamento racial’. Baseado nessa idéia, o Terceiro Reich esterilizou ou matou milhares de infelizes considerados ‘inferiores’. No Brasil, a eugenia foi introduzida por meio da Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), fundada em 1923 pelo psiquiatra Gustavo Riedel; em 1931 o psiquiatra Renato Kehl criou a Comissão Central Brasileira de Eugenia, destinada a promover a ‘regeneração do homem’. Os psiquiatras da LBHM não escondiam sua admiração pela Alemanha nazista; os Arquivos da Liga deram grande ênfase à lei alemã de 1934, determinando a esterilização compulsória dos portadores de ‘taras’, um termo tão usado quanto degenerescência.
Influenciado por essas idéias, Euclides seguramente poderia ter evoluído para um racismo vulgar. Mas não foi o que aconteceu. Ao longo de ‘Os Sertões’, vamos acompanhando a própria metamorfose do autor. Atacados, os sertanejos lutaram até o fim -e Euclides não deixa de manifestar sua admiração por essa resistência, bem como o seu horror pela violenta repressão. No livro, escrito depois da campanha, a famosa frase ‘O sertanejo é antes de tudo um forte’ traduz o seu respeito pelos humildes habitantes do sertão. Louco, o sertanejo? Inferior? Não. O sertanejo é, antes de tudo, um forte.
Ah, sim. Analisando o crânio de Antônio Conselheiro, Nina Rodrigues observou que, em se tratando de um ‘mestiço’, o morto era ‘muito suspeito de ser degenerado’. Também notou que o morto quase não tinha dentes. O que, provavelmente, foi, em seu laudo, a única observação apoiada na realidade.
(Moacyr Scliar é escritor e médico, autor de ‘A Paixão Transformada -História da Medicina na Literatura’ (Companhia das Letras).)"
Xico Sá
"USP mostra Euclydes na beira do rio Pardo", copyright Folha de S. Paulo, 2/12/02
"Toda a feira estendida para celebrar ‘Os Sertões’, 100, ainda é miúda. O país do massacre continuado tem vergonha de recontar os mortos de Canudos, do Caldeirão do beato Zé Lourenço, da Pedra do Reino, do Contestado, da Candelária, do Carandiru, de Carajás e das chacinas que nem valem mais a tinta de uma nota de rodapé.
Farto em publicações, o centenário do livro de Euclydes da Cunha, que completa, hoje mesmo, um século, foi um raquitismo na televisão. A TV USP (parte do Canal Universitário) não ignorou a ocorrência. E traz os ‘Os Sertões: Ano 100’.
O vídeo-documentário, de 28 minutos, pode não ter o primor técnico das grandes emissoras, mas arranca depoimentos passionais que compensam o aparente desconforto para os viciados em outro padrão televisivo.
As imagens caseiras da ‘90ª Semana Euclidiana’, em São José do Rio Pardo (SP), onde o escriba e engenheiro foi construir uma ponte e alinhavou a maior parte do seu livro, revelam o envolvimento de uma cidade tão longe do arraial de Antônio Conselheiro com o tema. Durante as gravações, em agosto, o ensaísta Roberto Ventura, professor da USP e encantado estudioso de Euclydes, morreu, num acidente de automóvel, aos 45 anos, quando retornava de Rio Pardo para São Paulo. Ele preparava biografia do escritor. Seu último depoimento sobre está no vídeo.
A reportagem na cidade do interior paulista, de Carol Baggio Tâmis Parron, dá conta direitinho das marcas que o engenheiro assentou por lá. A cabana de sarrafo e zinco, às margens do rio, onde escrevia, exibe intimidade. Esse proustianismo é reforçado com manuseio de cadernetas de anotações, imagens de objetos, leituras de telegramas etc.
O esclarecimento permanente de Nicolau Sevcenko, professor da USP, também esteve a serviço do programa. Lembra da virada de Euclydes, enviado especial dos republicanos a Canudos, que sai do arraial decepcionado: ‘Em vez de mandar o Exército, deveriam mandar mestres de escola’.
Nas missões dos repórteres de hoje, guardadas as devidas distâncias, quem ousaria mudar tanto de opinião?
OS SERTÕES: ANO 100. Onde: Canal Comunitário (15 da NET e TVA). Quando: hoje, às 22h30."
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