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CRÍTICA DIÁRIA
Nelson de Sá

"No ar", copyright Folha de S. Paulo

"3/12/02 - De Canudos ao Capão

O Racionais não foi visto em parte nenhuma, ontem na Globo.

Mas os telejornais da emissora -e de outras- estavam carregados de imagens que pareciam saídas dos versos dos rappers paulistanos.

O problema é que ‘há dez anos São Paulo aparecia em quarto’ e hoje ‘ocupa o triste primeiro lugar: é onde mais morrem jovens entre 15 e 24 anos’.

Venceu o Rio, da Cidade de Deus, de MV Bill.

E venceu na zona sul de Mano Brown e Ice Blue, do Racionais. Na descrição da Globo, ecoando, talvez inconscientemente, uma letra deles:

- Um labirinto de ruas e becos que cobre três bairros no extremo sul de São Paulo. A região é conhecida pela polícia como triângulo do medo. De cima não se vê o perigo, mas ele está em cada esquina.

Apresentam-se as pesquisas do IBGE, da secretaria de Segurança, mas:

- Quem mora num lugar como este não precisa de estatística para saber que o alvo da violência são os jovens que se envolvem com o crime.

O alvo são os personagens do Racionais. Uma criança aparece e descreve:

- O meu pai morreu com um tiro.

Uma menina de 12 anos também perdeu o pai assim:

- Meu irmão presenciou a morte dele. Muito triste. Depois eu fiquei dois anos revoltada na escola.

Outra garota foi no mesmo caminho. A emissora, pelo jeito, teve dificuldade para achar homens no ‘triângulo’. Conseguiu, a certa altura, um adolescente de 15 anos.

É o resultado da ‘guerra urbana’, na expressão da Globo. Resultado também de uma década com presidente e governador tucanos e desemprego recorde. Mais estatística:

- Em São Paulo, no ano de 2000, 85,6% das mortes de homens com idades entre 15 e 24 anos foram violentas.

Assim, no país todo, segundo a Jovem Pan, ‘as mulheres já estão vivendo oito anos a mais que os homens’.

Da ‘guerra urbana’ à rural, da favela ao morro da Favela, onde tudo começou.

Por coincidência, os números do Capão Redondo em que se tornou todo o Brasil urbano saíram no dia do centenário de ‘Os Sertões’, que retratou o Capão de então, Canudos.

E a Rede Globo, em tempos de Lula:

- Euclydes da Cunha voltou da guerra revoltado. Denunciou a fome, a miséria... Cem anos já se passaram -e o que mudou de lá para cá? Qual é a diferença entre o sertão euclydiano e o sertão de hoje?

Todos ao novo Conselheiro. Que, aliás, nasceu ali perto.

29/11/02 Morte no final

Terça-feira, vem Míriam Leitão e proclama:

- O dragão não morreu.

Quarta, mais Míriam Leitão:

- Os números são assustadores. A volta à inflação de dois dígitos pode produzir pressão por reindexação, com efeitos imprevisíveis. Ou melhor, previsíveis. Já vimos esse filme e sempre morremos no final.

Ela não pára. Quinta, ontem, mais Míriam Leitão:

- A inflação do ano que vem já está sendo contaminada pelas decisões atuais. Portanto, a herança que o PT receberá já ficou mais pesada.

Se fosse só ela, vá lá. Mas Joelmir Beting também:

- Será o Natal mais caro dos últimos sete ou oito anos, com a primeira disparada da inflação na carreira do real.

E a reportagem da Globo:

- A cesta de Natal emagreceu por causa dos preços.

E mais, e mais:

- Está difícil chegar ao fim do mês com as dívidas quitadas.

Alguém parece estar com muita vontade de queimar o filme da era FHC, em seus estertores. Ou de preparar os espíritos para a entrada na era Lula.

Já o presidente eleito soa calmo, ao menos na voz compassada de André Singer.

Segundo o porta-voz, Lula está confiante que a inflação não vai assustar os brasileiros no ano que vem. Por mais que os comentaristas todos proclamem o fim dos tempos.

A inflação cede em breve, no entender de Lula, e os economistas podem falar o que bem entenderem quanto a uma eventual revisão da meta inflacionária. Para Singer:

- Os economistas têm liberdade de opinião.

Os comentaristas de televisão, claro, também têm.

FHC reage com o que sabe mais: falar. Está em campanha por seu lugar na história -ou na eleição de 2006.

Cobra do PT que mantenha os seus programas sociais, como fazia no Jornal da Record e em outros. Agora dá entrevista até para a Rede Mulher.

Mas a insistência em falar a Lula, recomendar a Lula, exigir de Lula, dia após dia, começa a soar mal, para um presidente ainda no cargo.

É o que vêm expondo, aliás, as charges diárias do JN.

Zezé Di Camargo, ao lado de Luciano, na Cultura:

- O Duda Mendonça ouviu e falou: ‘Esta é a música que nós precisamos’. A vontade do Lula era falar do social. Não existe um problema mais sério, no social, do que a fome.

Assim pode parecer até que Duda criou seu Fome Zero sob inspiração sertaneja.

28/11/02 - Os dois lados do muro

O PSDB, como seu irmão PMDB, rachou. Na piada de Franklin Martins:

- Foi-se o tempo em que os tucanos ficavam em cima do muro. Agora, uma parte fica de um lado do muro. A outra, do outro.

Um dos lados do muro fechou com o PT, como sublinhou o Jornal Nacional, anteontem:

- Sem consultar o comando do PSDB, os governadores tucanos conversaram com Lula e prometeram apoiar a prorrogação da alíquota de 27,5% do Imposto de Renda.

Pois bem, esperava-se ontem a aprovação da prorrogação, na Câmara dos Deputados. Mas não. Da Globo News:

- A pedido de FHC e de Pedro Malan, a votação foi adiada.

O líder do lado FHC do muro tucano, Jutahy Jr., saiu dizendo que o problema foram duas entrevistas dos petistas ao Bom Dia Brasil, anunciando o fim da lua-de-mel da transição.

Foi nada. O conflito não é de FHC com Lula, mas de FHC, Jutahy, José Aníbal, Arnaldo Madeira, de um lado do muro, com Aécio Neves, Tasso Jereissati, até o paulista Geraldo Alckmin, do outro.

Aécio, com Alckmin e os outros cinco tucanos eleitos governadores, venceu a primeira batalha ao bradar ‘a cúpula somos nós’, dias atrás.

O lado FHC do muro venceu a segunda batalha, com o adiamento da votação de ontem. Adiamento que, para Aécio, não foi resultado do pedido de FHC coisa nenhuma. Foi pedido do PT.

Ainda presidente da Câmara, ele garantiu que a votação será na terça-feira, com ou sem interferência do ainda presidente da República.

De José Aníbal, presidente do PSDB, vetado no encontro dos governadores tucanos com Lula, no JN:

- A cúpula somos todos nós. O próprio Aécio disse. Não existe racha no PSDB. A força do PSDB é a nossa unidade.

Unidade, durante anos, foi a palavra-chave do PMDB que se esfacelava.

Do petista João Paulo Cunha, no Bom Dia Brasil de ontem:

- Nós precisamos mostrar que a casa que vamos herdar não é uma casa tão bem pintada como muita gente quer mostrar.

Do petista Walter Pinheiro, no mesmo programa:

- Vamos apresentar à sociedade qual é o verdadeiro quadro que foi entregue ao PT, a partir de 1º de janeiro.

Foram as desculpas dos tucanos do lado FHC, para adiar a votação de ontem. Bem pouco, como se vê.

Mas o adiamento de ontem bastou para, segundo o petista José Genoino, jogar para futuro longínquo a revelação do tal ‘verdadeiro quadro’."

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