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EUCLIDES & CANUDOS
Wilson Martins

"Livro vingador", copyright O Globo, 1/2/03

"Canudos é um fato que o livro de Euclides da Cunha transformou em fato histórico (Olímpio de Souza Andrade. ‘História e interpretação de Os Sertões’. Org. e Int. Walnice Nogueira Galvão. Ap. Alberto Venâncio Filho, 4 ed., rev. e aum. Rio: Academia Brasileira de Letras, 2002). Fatos são episódios isolados e ocasionais exauridos neles mesmos; o fato histórico integra-se no tecido profundo da nacionalidade como elemento permanente, determinando-lhe o futuro. Sem ‘Os Sertões’, Canudos teria ficado apenas como mais uma das numerosas eclosões de fanatismo que entre nós ocorreram - e que não tiveram o seu Euclides da Cunha: na memória coletiva, Canudos é uma realidade mental, não factual, é o triunfo do estilo literário que lhe conferiu realidade.

A contraprova é fácil de fazer: Euclides da Cunha chegou a Canudos ‘quando lá já se encontravam os correspondentes do ‘Jornal do Comércio’, Manoel Benício; de ‘A Noite’, Cisneiros Cavalcanti, morto em 9 de agosto; de ‘O País’, Lélis Piedade; da ‘Gazeta de Notícias’, Fávila Nunes; além de Gustavo Guabiru, ao qual se refere numa reportagem’. Além disso, cabe lembrar ‘Os jagunços’, romance de Afonso Arinos publicado em 1898 sob o pseudônimo de Olívio de Barros, sem contar, claro está, os milhares de artigos, folhetos e livros que desde então se seguiram, com a característica rotineira de factualidade, sem o gabarito analítico, estilístico e intelectual de ‘Os Sertões’.

Em outras palavras, viram apenas os fatos, isto é, as peripécias, enquanto Euclides da Cunha percebeu tratar-se de fatos históricos, ou seja, fatos que marcaram um trânsito de civilização, para além de sua circunstancialidade. O contraste é mais do que perceptível no paralelo com o romance de Afonso Arinos: ‘Euclides teve conhecimento dessa tentativa do grande escritor mineiro de levar deliberadamente aquele assunto para o terreno da ficção? Não teve? Nada se conhece que autorize afirmação. O que se sabe sobre esse livro, edição única, raríssima de apenas cem exemplares, é que não confirmou o êxito de ‘Pelo sertão’, sendo, ao contrário, como no-lo apresenta Tristão de Athayde, um ‘romance longo demais, sem unidade de fatura ou de narrativa e freqüentemente dessaborido, revelando quase sempre a composição apressada para folhetim’.

Note-se que Tristão de Athayde, como é óbvio, escrevia depois de ter lido ‘Os Sertões’ e no quadro crítico que se consolidara desde 1902, cabendo reconhecer, ao mesmo tempo, serem excessivos os escrúpulos do sempre escrupuloso Olímpio de Souza Andrade: seria impossível que Euclides da Cunha não tivesse conhecimento de ‘Os jagunços’ (e com que sofreguidão!) no momento em que escrevia e publicava vários excertos no ‘O Estado de S. Paulo’. Há mais: percorrido com isenção, deve-se reconhecer que Afonso Arinos destacou no romance os mesmos episódios, as mesmas personalidades e os mesmos enfoques privilegiados por Euclides da Cunha. Mas, com uma diferença: faltava-lhe o gênio literário, o vigor estilístico, a amplidão mental, a visão trágica e a indignação cívica, em uma palavra, o temperamento.

A singularidade de ‘Os Sertões’ decorre da excepcionalidade da matéria em coincidência com o espírito capaz de compreendê-la. É evidente erro de julgamento querer que os seus livros posteriores possam comparar-se com o primeiro em termos absolutos: são coisas diferentes. Em formulação de paradoxal ironia, pode-se pensar que ele, a exemplo de numerosos outros, cometeu o erro de estrear com a sua obra-prima... De fato, pergunta Olímpio de Souza Andrade, ‘e Euclides depois de ‘Os Sertões’? Que pensava do seu livro, da posição em que este o colocou?’. Condenado a ser ‘competidor de si mesmo’, não escondia alguma impaciente irritação, como revelava em carta a Agustín de Védia, aqui citada: era um ‘livro bárbaro de minha mocidade’, quase um erro de juventude (tinha 31 anos quando o escreveu).

E escreveu-o nos três anos em que residiu na cidade de São José do Rio Pardo reconstruindo a ponte depois disso tão famosa quanto o autor e a obra, sendo sabido que já embarcara para Canudos com o projeto de escrever ‘um trabalho de fôlego’, como anunciava ‘O Estado de S. Paulo’ a 30 de julho de 97, ao registrar a partida do seu correspondente. Esse trabalho, acrescentava o jornal, ‘será por nós publicado em volume’. Por incrível que pareça, observa Olímpio de Souza Andrade, ‘o livro não teve uma fase de lançamento despida de novos sacrifícios para o seu autor. Apesar da apresentação entusiástica de Lúcio de Mendonça ao provável editor, Euclides acabou por financiar, ele próprio, com um conto e quinhentos, mais ou menos duas vezes o seu ordenado, o lançamento da primeira edição. Tais dificuldades têm levado os seus biógrafos a perguntarem pelas razões invocadas pela direção de ‘O Estado de S. Paulo’ para se desinteressar da publicação (...)’.

Seja como for, os originais foram entregues à editora Laemmert que começou por recusá-los, acreditando que não teria público: ‘O seu erro, entretanto, se patenteava logo mais, pois que, já em fevereiro de 1903, pagava a Euclides o saldo de dois contos e duzentos daquela edição, interessando-se vivamente pela segunda, de setembro do mesmo ano, depois pela terceira, de abril de 1904, pondo no mercado, no espaço reduzido de um ano e meio, 6 mil exemplares, que traduziam o grande e legítimo sucesso editorial daquele tempo’.

Agora, depois de numerosas reimpressões, o livro deve ser lido na edição Leopoldo M. Bernucci (São Paulo: Ateliê/ Imprensa Oficial/ Arquivo do Estado, 2001), com modelar aparato didático (hoje mais necessário do que nunca) e excelente introdução crítica. É um dos dois livros essenciais sobre ‘Os Sertões’, o outro sendo o de Manif Zacarias (Lexicologia de ‘Os sertões’: o vocabulário de Euclides da Cunha. Florianópolis: Garapuvu, 2001), ambos completados no plano crítico e historiográfico pelo indispensável Olímpio de Souza Andrade, tornando perempta, em conjunto, a maior parte da imensa bibliografia euclidiana.

Canudos só permaneceu na memória coletiva por causa de ‘Os Sertões’, em contraste com as demais erupções de milenarismo de nossa história, incidentes de restrita amplitude. Nessas perspectivas, Canudos deve sua importância à circunstância todo acidental de haver inspirado uma obra-prima de literatura, um grande livro vingador que abriu na consciência da nacionalidade a ferida incurável e o remorso que ficaram ligados ao seu nome."

 

ENTREVISTA / EUGÊNIO BUCCI
Laura Mattos

"Radiobrás não será chapa-branca, diz Bucci", copyright Folha de S.Paulo, 29/1/03

"Há três semanas no cargo de presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci, 43, tem em suas mãos não só o destino da ‘Voz do Brasil’, produto mais famoso da empresa de comunicação do governo.

O jornalista -que já foi crítico de TV da Folha e outros veículos- comandará quatro estações de rádio, duas de televisão, um site de notícias, além da produção de publicidade de órgãos estatais. Em entrevista, ele falou dos planos para a poderosa estatal, que conta com repasse de cerca de R$ 70 milhões/ano da União. E garantiu que não será chapa-branca, apesar de dizer que não pretende fazer um jornalismo independente do Estado.

Folha - Há muito o que mudar no caminho que a Radiobrás seguia?

Eugênio Bucci - Sim. Mais muita coisa tem uma orientação com a qual concordo. Uma é a Agência Brasil, um site que veicula informações do governo com credibilidade, constantemente citado como fonte em vários veículos.

Folha - E o que tem que mudar?

Bucci - A primeira coisa é dar ao cidadão as informações a que ele tem direito. Uma empresa como a Radiobrás, que tem quatro emissoras de rádio, duas de TV e o site, pode contribuir muito para isso. Também vamos estabelecer uma comunicação de mão dupla, ouvir público e colocá-lo ativamente nas programações das emissoras.

Folha - Como seria isso?

Bucci - É necessária a presença da reclamação ou sugestão do telespectador. Como a página do leitor e o ombudsman nos jornais. Mas não há ombudsman de TV.

Folha - No ano passado, por sugestão do ministério da Justiça, não foi criado o cargo de ombudsman na Radiobrás?

Bucci - Temos uma ouvidoria, mas aprofundaremos a função.

Folha - O sr. acha possível que a Radiobrás e seus veículos não caiam na tentação do governo de uma comunicação chapa-branca?

Bucci - Costuma-se pensar em comunicação de governo para arregimentar consciências e não para dotar o cidadão do que precisa para seu próprio julgamento. Pela primeira vez, direito à informação não se contradiz à comunicação do governo. Um governo como o de Lula sabe que só na cidadania tem sustentação e não combina com a idéia de chapa-branca.

Folha - Polêmicas do governo Lula, como elevação da taxa de juros e Imposto de Renda, seriam tratadas como em outros veículos?

Bucci - São temas que cabem numa comunicação que a Radiobrás pode fazer. Mas é preciso estabelecer diferenças. A Folha, por exemplo, e a Radiobrás ocupam lugares diferentes no espaço público. A Folha busca um jornalismo sobretudo independente do Estado, o que é essencial para a democracia. A Radiobrás é financiada pelo Estado e não tem pretensão de ser independente na mesma perspectiva da Folha. Mas pode ser independente de forças que atuam de forma coercitiva na sociedade, como a do capital.

Folha - Em 2002, o Tribunal de Contas da União verificou que a Radiobrás cobrou valores superiores em até 345% aos do mercado na confecção de publicidade dos órgãos estatais. Isso mudará?

Bucci - Desconheço esses casos. Mas é evidente que os preços têm que ser os praticados no mercado.

Folha - O sr. é favorável à obrigatoriedade da transmissão da ‘Voz do Brasil’ pelas rádios?

Bucci - Sou um servidor público e minha obrigação é fazer cumprir a lei. O que posso fazer não é discutir obrigatoriedade, mas tornar a ‘Voz do Brasil’ um noticiário mais interessante e relevante.

Folha - O sr. participará da elaboração de políticas da TV comercial?

Bucci - Pretendo opinar se tiver oportunidade. Mas essa não é uma área que dependa da minha ação e que esteja dentro das minhas atribuições. Portanto, eu só posso participar se for convidado. E, se for, participarei sempre na condição de cidadão."

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