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RIO, 42 GRAUS
Nelson Hoineff
"A aparência da lei", copyright Jornal do Brasil, 25/02/03
‘A aparência da lei deve ser preservada. Especialmente quando ela está sendo destruida.’ A frase está em Gangues de Nova York, de Martin Scorsese, e seu autor é Bill the Butcher, o sanguinário bandido que faz parte de um dos muitos grupos criminosos que dominam Nova York por volta de 1850.
Mais de 150 anos depois, é o Rio que vive sob a aparência da lei, tomado por muitas gangues rivais. Quando elas se unem, o que pode acontecer está descrito em outro filme, Os selvagens da noite, de Walter Hill: a cidade, simplesmente, é tomada.
Essa possibilidade, digna do mais improvável exercício de terror, parece no entanto cada vez mais próxima ao cidadão comum. O peculiar é que o que se viu ontem não surge do acaso, não acontece da noite para o dia. É resultado de um cuidadoso processo de maturação do poderio das gangues que tomaram o poder no Rio. Quem o promove são várias gerações de políticos que viam na disseminação da miséria e no encorajamento de núcleos de bandidagem eficientes meio de fabricar votos. Eficientes, não se pode negar que tenham sido. A estratégia deu certo. O cultivo do crime ajudou a produzir vários mandatos. Muitos de seus herdeiros permanecem no poder. Contemplam agora a outra face da herança.
Perderam o controle sobre o monstro que criaram. Deixam em todas as bocas a mesma dúvida: ainda há tempo para se fazer alguma coisa?
A resposta passa por uma atitude: indignação. A possibilidade de se reverter a selva em que se transformou o Rio é diretamente proporcional ao nível de indignação que sua população for capaz de demonstrar. A má notícia é que a submissão do povo ao poder paralelo - e, em muitos casos, sua dependência a ele - não ajuda muito essa postura. O carioca tornou-se não apenas vulnerável à violência. Ele passou a vê-la com naturalidade. Reconhece como regra o que no mundo civilizado seria a exceção das exceções.
Não é fácil indignar-se com o que parece ser normal. É aí que a midia ganha em importância. Ela é a mais eficiente arma para se tentar mudar o curso de uma guerra desigual contra toda a população do Rio. Mais do que reportar os fatos, são os meios de comunicação que têm a obrigação de lembrar ao cidadão que o que está acontecendo ao seu redor não é natural. É errado que o poder da bandidagem seja maior que a força das instituições; é errado que os traficantes ditem à sociedade suas próprias regras e vivam na impunidade; é errado que trabalhadores honestos sejam mais molestados pela polícia do que os bandidos; é errado que a corrupção seja vista simplesmente como propriedade do serviço público; é errado que tantos políticos se elejam com o voto do povo, usem o dinheiro do povo para proveito próprio, e ainda zombem descaradamente dos que lhe deram os mandatos.
Para que a chama da indignação permaneça acesa, deve-se entender que o que menos importa em situações assim são as palavras oficiais. Crédito, elas já não fazem por merecer. Cada vez que uma atitude populista seja flavorizada com o sorriso hipócrita dos políticos populistas, que fique bem claro que o que se está fazendo é dar passe livre ao crime para que mostre que tipo de gente está mandando neste país.
Esse é o principal recado que os meios de comunicação poderiam dar aos cidadãos de bem que se tornaram prisioneiros dentro de suas próprias cidades. Preocupar-se com a ousadia dos bandidos, sim, mas também, e sobretudo, com quem teve a ousadia muito maior de lhes entregar o Rio de Janeiro por um punhado de votos. Preservar a aparência da lei no momento em que ela é destruída só é proveitoso para Bill the Butcher.
Alberto Dines
"Risco-país e país em risco", copyright Jornal do Brasil, 1/03/03
"O problema não é o Luís Fernando da Costa, vulgo Beira-Mar. Enganam-se as autoridades que satisfazem-se apenas com o isolamento máximo do mais perigoso bandido da nossa história. O sítio a que está sendo submetida a segunda maior cidade brasileira não é obra de um nem de cem facínoras. O problema não é só policial, não é só penitenciário, não é só judicial e não se circunscreve a um Estado da Federação. Estamos diante de uma ameaça ao Estado brasileiro - nação politicamente organizada, soberana, representada por um governo legitimamente eleito e reconhecida internacionalmente.
Beira-Mar e sua vasta rede de cumplicidades constituem um problema político. Institucional. O crime converteu-se num partido político que não disputa as eleições mas disputa o poder. Ao contrário das FARC na Colômbia, nossos narcoterroristas não pretendem conquistar uma autonomia territorial. Querem todo o território nacional e escolheram sua cidade-megafone, o Rio de Janeiro, para alardear seu poderio no exato momento em que converte-se no centro das atenções mundiais. E se os nossos experientes diplomatas com os seus abalizados conselheiros recusam-se a admitir que a tragédia colombiana é fruto do terror politizado breve poderão ser convocados a servir de mediadores entre o PCC e o Comando Vermelho.
Se os jornais enfiam esta calamidade que se abateu sobre o país nas páginas de noticiário local ou nos cadernos de ‘cidades’ é porque nossos veículos de mediação perderam a capacidade de avaliar a realidade e enxergar a escala das ‘pautas’ que estão cobrindo. Dois meses depois das festas da posse do Executivo e duas semanas depois de instalado o Legislativo, a República está sendo desafiada e intimidada na sua essência, sua porção nuclear: a integridade.
Não são os desfiles do Sambódromo que correm perigo, não é o carnaval que pode ser indelevelmente prejudicado. De nada adiantará colocar uma metralhadora ao lado de cada passista ou atiradores de elite ao lado de cada Luma de Oliveira. A presença federal não deve confinar-se ao tríduo momesco nem limitar-se à participação persuasória das Forças Armadas.
A governabilidade foi abalada e não porque a oposição barrou as reformas ou o judiciário trava as tentativas de mudança. Isto ocorre justamente quando a atuação responsável e firme do governo central na área financeira aumenta a confiança dos investidores. Nosso C-Bond teve uma alta de quase 7% no mês e o risco-país está caindo para os níveis de junho de 2002 quando mercados e mercadores começaram a especular com os rumos da campanha eleitoral.
Não mudaram os fundamentos da nossa economia, o superávit recorde era esperado, não houve saltos espetaculares nas exportações, nem quedas vertiginosas nos índices de desemprego ou inflação. O investidor mudou porque sentiu firmeza, sua percepção é de que vale a pena investir num sistema decisório coeso, organizado e capaz de resistir às tentações demagógicas.
O mesmo rigor e a mesma confiança devem irradiar-se às esferas contíguas de forma a compor um grande painel de competência, rigor, agilidade e espírito público. Se o governo compactuasse com as manhas e mumunhas do presidente do Senado, José Sarney, o caso de seu amigo ACM seria esvaziado pelo recesso de carnaval. O PT foi rápido e eficaz: acionou o Conselho de Ética da Câmara Alta e pôs em movimento uma máquina de apuração que dificilmente será emasculada por conchavos e compadrios.
A ‘Bahia de Todos os Grampos’ nada tem a ver com o ‘Rio de Todas as Drogas’. ACM, ao longo de seu reinado, tornou-se culpado de muitos ilícitos, infrações, prevaricações, contravenções e truculências mas é improvável seu relacionamento com o crime organizado. O escândalo que envolve o atual governo do Estado do Rio e aquele que em parte o antecedeu não pode ser vistos como fenômeno isolado. Fiscal corrupto e policial corrupto são exatamente a mesma coisa. A cor ou a ausência de colarinhos não pode distingui-los.
A impunidade obedece rigorosamente ao princípio dos vasos comunicantes. Uma pequena complacência aqui, outra condescendência acolá e, pronto, está implantada a dinâmica corrupta e corruptora que legitima todas as transgressões, consagra a improbidade e entroniza a bagunça. Há uma interatividade real entre as escutas telefônicas na Bahia e os sucessivos depósitos de celulares no presídio de segurança máxima em Bangu. Ambos são fruto de uma fragmentação elementar que põe sob suspeita aqueles que deveriam estar acima das suspeitas.
Investidores são atraídos pelos resultados das contas públicas. O equilíbrio entre o ‘deve’ e o ‘haver’ deve imperar em todas as escriturações. Principalmente nas contas morais. Uma sociedade impõe respeito não apenas pelos valores mensuráveis mas sobretudo pelos imensuráveis. O rigor da Justiça e a confiabilidade do aparelho de segurança não se medem pela econometria.
O risco-país despenca quando o país dispõe-se a enfrentar todos os riscos. Inclusive o da leniência com o gangsterismo."
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