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LIXO E LUXO NA TV
Caryn James

"TV nos EUA consagra luxo e lixo", copyright Jornal do Brasil / The New York Times, 2/8/02

"Sofisticada ou popular. A programação das emissoras de TV americanas pode levar os espectadores a despencar do mais sofisticado bom gosto ao mau gosto mais extremo sem que eles sequer precisem mudar de canal.

Na rede NBC, o politicamente sofisticado West Wing coexiste com jogos de baixo nível como o grotesco Fear Factor e o sucesso do verão Dog eat dog, que recentemente apresentou um jogo de futebol com strip-tease. (O competidor perdedor acabou pelado, com suas partes íntimas digitalmente obscurecidas.)

A antes desprezada rede Fox agora é alvo de elogios da crítica por seu drama sobre a CIA, 24, cuja audiência está entre uma das mais sofisticadas de toda a televisão; mas os novos seriados da emissora incluem 30 Seconds to fame, um concurso de talentos que apresenta contorcionistas, engolidores de fogo e um músico que equilibra bolas em um teclado.

Não importa a forma como você analise a audiência dos programas - pelo salário ou educação dos espectadores, como fazem os obcecados pelas estatísticas, ou pelo padrão de senso comum de bom gosto: cada vez mais as grandes redes estão misturando comédias e dramas sofisticados com rudes jogos e reality shows que são chamados de programas ‘alternativos’, um eufemismo que significa um programa sem roteiro e barato de se produzir.

Os altos executivos das emissoras concordam que essa mistura agora representa uma mudança permanente na paisagem televisiva."

JB

"Baixo nível veio para ficar", copyright Jornal do Brasil, 2/8/02

"Em recentes conversas, os altos executivos até concordaram sobre as razões que estão por trás dessa mudança. As emissoras estão se programando com base em uma geração educada por seriados como Na real, da MTV, o reality show, e Double dare, da Nickelodeon, um jogo para crianças no qual os jogadores são enlameados com uma gosma verde.

E, pressionadas pela TV a cabo, as redes estão agora oferecendo programas originais durante o ano todo; financeira-mente, isso significa que elas estão contra-balançando os milhões de dólares necessários para produzir seriados como West Wing ou Friends ao criarem programas mais baratos. (Cada uma das estrelas de Friends recebe US$ 1 milhão por episódio; as pessoas que comem insetos por dinheiro recebem bem menos). O que isso significa para os espectadores é que esses programas de mau gosto vieram para ficar, e não apenas para uma temporada de verão. Mas a NBC e a Fox oferecem os melhores modelos dessa mistura.

Gail Berman, presidente da divisão de entreteni-mento da Fox, disse sobre os reality shows: ‘Os jovens esperam isso. Eles foram criados assistindo a The Real World, e até mesmo o programa Bug juice do Disney Channel, um reality show sobre adolescentes em um acampamento.

Então não há um grande salto do Bug juice para os comedores de insetos. Para essa audiência jovem, os reality shows não são um conceito alienígena; são apenas a velha e boa televisão."

Ivan Angelo

"A televisão é um negócio diferente dos outros", copyright Jornal da Tarde, 3/8/02

"Disse que uma emissora de audiência elevada - e citei a Globo - tem de se preocupar com a qualidade. E que as emissoras que ficam abaixo de um índice ‘x’ de audiência não têm como pressuposto a qualidade. Acrescento: agem como um pequeno negócio, que tende a ser sempre pequeno, como uma fabriqueta que dá para o gasto. Ressalvei que a TV Cultura, por não ser um negócio, pode manter qualidade mesmo tendo pequena audiência.

Quer dizer que o negócio, em televisão, condena o produto? Ou que é ruim para a tevê como um todo? Não é, não era, mas ficou sendo, em parte.

Digo em parte porque alguns setores da programação são mais sensíveis à apelação aos sentimentos chamados baixos. E outros menos, como o jornalismo. Os produtos dessa área, jornalismo, são geralmente mais ‘clean’, usam menos subterfúgios, menos disfarces (até as roupas são sóbrias), são mais voltados para o interesse público, mais críticos, procuram lidar com a parte mais ‘objetiva’ da consciência das pessoas, requerem um repertório mínimo de conhecimento e informação do espectador. E os jornalistas, por vezo profissional, quando encontram um bom concorrente, ficam motivados a fazer melhor que o outro. E melhor, para as equipes dos telejornais, não significa apelar.

É uma área tão diferenciada que até o governo a olha com mais atenção: as emissoras têm de informar ao Ministério das Comunicações o nome do seu diretor de jornalismo. Só o de jornalismo; não interessa o de telenovelas, o de shows ou o de programas infantis. Isso não prova nada, mas indica que o nível de responsabilidade atribuída é maior.

Voltemos ao aspecto negócio. A concorrência. Nos negócios em geral, que é que a concorrência provoca? Queda de preços, variedade de ofertas, busca de mais qualidade. Suponhamos uma rua de pizzas. Cada comerciante vai oferecer os melhores ingredientes, pizzas mais variadas e mais ricas, novidades, preço. Se o preço prejudicar a qualidade, a casa perde o freguês. A tevê tornou-se um negócio diferente, em que a concorrência provoca queda de qualidade. Apelações, barracos, sangue, baixarias. Parece concorrência de mulheres de esquina: quem mostra mais carne consegue mais fregueses.

A quem se dirige o discurso grosseiro da baixaria? A pessoas carentes que se tornaram dependentes ou aficionadas. Por que ele continua? Porque há pessoas carentes e dependentes que precisam ser atendidas e supridas. É democrático que ele esteja disponível. O que se pode questionar, e se questiona, é se a tevê aberta é o veículo adequado para esse discurso ou se os horários em que ele é apresentado são adequados.

A maneira democrática de posicioná-lo melhor seria a pressão popular. Aqui surge outra dificuldade: se é o público malformado de todas as classes sociais e principalmente os que não puderam estudar que assistem a esses programas, de onde poderia surgir a pressão? Quem os organizaria, quem os mobilizaria, quem se interessa? É mais fácil deixar o barco correr, ou pedir que o governo faça alguma coisa, já que é ele quem distribui as concessões para o negócio. Ora, o governo. Ou esperar que os anunciantes parem de manter coisas desagradáveis no ar. Ora, os anunciantes. Ou esperar que os consumidores boicotem os produtos que dão sustentação a programas que atentem contra a dignidade humana. Ora, os consumidores. Ou esperar que as emissoras se manquem e cumpram o compromisso que assumiram quando receberam a concessão. Ora, as emissoras.

Melhor explicando

Quando disse, na terça, que o negócio televisão ‘abaixo de um nível ‘x’ de audiência não tem como pressuposto a qualidade’, complementei com a seguinte frase: ‘Quer dizer: para aquela arraia miúda que come cachorro quente indigesto nas esquinas e assiste ao programa do João Kleber, qualquer caca serve, desde que os anunciantes mantenham o programa no ar’. Uma leitora entendeu que eu estava tripudiando sobre a gente pobre e sofrida. Longe de mim. Para evitar malentendido, ponho às claras o que deixei subentendido, acrescentando, no início da frase: ‘o negócio televisão acredita que para aquela arraia miúda’ etc etc.

Debate na Band

Amanhã, vamos ter a primeira confrontação dos candidatos a presidente da República, no debate da Band, às 21h30. O ‘fantástico’ show da política. Para o eleitor, o grande serviço do debate vai ser colocar na mesma pasta os discursos que estão dispersos pela mídia. Ele poderá organizar os confrontos, identificar quais são verdadeiros, quais são simples manobras, comparar os programas, conferir quem está mais bem preparado, quem é mais sincero. Sem maquiagem."


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