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CRÍTICA DIÁRIA
Nelson de Sá
"No ar", copyright Folha de S. Paulo
2/8/02
A Globo repetiu ontem o dia todo, até o Jornal Nacional, uma declaração de Ciro Gomes:
- O fato de um cidadão privado ter negócios com outro cidadão privado, o que eu tenho a ver com isso?
A declaração vinha em meio à notícia de que o ex-coordenador de sua campanha, José Carlos Martinez, ‘vai responder na Justiça por sonegação de mais de R$ 20 milhões, evasão de divisas, falso testemunho e falsidade ideológica’.
Isso porque ‘o esquema PC financiou’ o ex-coordenador na montagem de uma rede de TV. É o mesmo PC Farias que foi, prosseguiu o JN, ‘tesoureiro da campanha do ex-presidente Fernando Collor’.
Em contraste com tal relato, chamar PC de ‘cidadão privado’ que tem ‘negócios privados’, como fez Ciro, tem para o telespectador o efeito de uma explosão de imagem.
É certo que a saída do coordenador aconteceu a tempo do primeiro debate dos presidenciáveis, marcado para domingo, na Bandeirantes.
Mas Ciro ofereceu mais resistência do que seria prudente, como se evidenciou pela declaração destacada na Globo, e aumentou o estrago.
Pior, talvez: se se livrou da companhia de um collorido, ele segue com outros, caso do também petebista Roberto Jefferson, que estava lá, falante, destacado no mesmo JN.
Feliz pelos danos que sua recém-descoberta agressividade fez na campanha adversária, José Serra chegou a ironizar, na rádio Bandeirantes, a saída de José Carlos Martinez.
Se ele é ‘tão puro’ quando garante Ciro, segundo o tucano, não deveria ter saído.
O coordenador saiu, mas o vice de Ciro, Paulo Pereira da Silva, vem sendo defendido a todo custo na campanha.
A começar dos próprios Ciro e Paulinho. Este recuperou a voz e afirmou na Jovem Pan que a hipótese de desistir seria absolutamente inexistente.
No amplo esforço de conter o estrago das denúncias, até Roberto Freire apareceu para defender o vice.
Mas Paulinho falou mais do que devia, às vésperas do primeiro debate dos candidato. Ele teria declarado:
- Pegamos informações para metralhar o Serra.
O debate promete, tanto para Serra como para Ciro.
Franklin Martins, que chefia a Globo em Brasília, saiu-se com esta avaliação, na CBN:
- Lula assiste de camarote à briga de Ciro e Serra.
1/8/02
Antes cearense, hoje cada vez mais paulista, Ciro Gomes disse à CBN em Bauru que, se ficar provada irregularidade de seu coordenador de campanha José Carlos Martinez, ele será afastado.
Disse o mesmo do vice, Paulo Pereira da Silva.
- Mas, se vierem desenterrar coisas do passado da vida privada, não me interessa.
Cada vez mais acuado, Ciro ainda se esforça por agarrar seus companheiros de primeira ou segunda hora.
Não Roberto Freire, do PPS, mas o PTB do empresário da CNT, rede de televisão erguida ao menos em parte com dinheiro de PC Farias.
Se o coordenador e o vice caírem, não vai faltar mais PTB para ele agarrar -e para a cobertura fazer a farra.
Ontem, por exemplo, em Adamantina, lá estava ao seu lado o mui paulista Luiz Fleury, o governador dos 111 do Carandiru e do Banespa.
Um registro curioso: Adamantina era descrita, no site da Globo, como a cidade ‘em que seus pais moravam quando a mãe engravidou de Ciro’.
No caminho da carreata, cartazes diziam que ‘Adamantina saúda o filho ilustre’.
Paulo Pereira da Silva sumiu. No relato de Franklin Martins, ‘depois das denúncias’, ele não apareceu mais com Ciro e até perdeu a voz:
- Em Belo Horizonte, Paulinho alegou que estava rouco e não respondeu aos jornalistas, o que não o impediu de falar em seguida num ato político. Fica a pergunta: ele acha que dá para passar as próximas dez semanas driblando a imprensa?
A CNT, a rede de José Carlos Martinez, pode ter perdido a retransmissão de TV aberta em São Paulo, mas ainda pode ser vista na TV paga.
Ontem, cobria os ataques de José Serra a Ciro, pelas declarações que assustam investidores. Com aberta ironia, o CNT Jornal dizia que, ‘para reverter a queda, vale tudo’.
Em outro registro, sobre o almoço de campanha do tucano em Brasília, notou:
- O almoço custa só R$ 1. E Serra não pagou a conta...
A pesquisa semanal do JN, com a pausa no crescimento de Ciro, acordou os tucanos, a começar de Serra.
No almoço populista com Joaquim Roriz, o tucano sorriu à solta, fez o sinal da vitória sem parar e concorreu com Ciro nas ofensas verbais.
Chamou-o de irresponsável, sem preparo etc. Estava tomado pelo lado escuro da Força.
31/7/02
Segundo a Globo, ‘o governo e a opinião pública no Brasil ficaram perplexos e indignados’ com o secretário Paul O’Neill.
De um dia para o outro, amontoaram-se candidatos a clamar contra os EUA na TV. Mas foi a ‘opinião pública’ que mais se indignou.
Começando por Franklin Martins, depois de dizer que ‘a reação foi comandada pelo próprio presidente’:
- O que se pergunta é por que O’Neill fez esta lambança toda. A explicação mais fácil é que o homem é um arrogante.
Depois Míriam Leitão:
- O’Neill está desinformado, como sempre. Já fez outras declarações desastrosas e tem sido criticado por ser uma nulidade na crise dos EUA.
E Arnaldo Jabor:
- O Brasil virou um sanduíche. De um lado, brasileiros torcendo pelo próprio fracasso. Do outro, declarações estúpidas dos direitistas do Bush. Quem está desviando dinheiro são as empresas que O’Neill e Bush protegeram.
Teve mais, na mesma Globo, que parecia tomada pela paixão do jornalismo crítico.
Na capital do império, o porta-voz de Bush tratou de dizer que ‘o Brasil é importante amigo e aliado’:
- E esta é a posição do presidente. E esta é a posição da administração, incluindo o secretário, é claro.
Soou até como um cala-boca em O’Neill, mas passou longe disso. Perguntaram se Bush ainda tinha confiança no secretário. E o porta-voz:
- Claro que tem.
O ‘arrogante’, o ‘estúpido’, o ‘desinformado’, a ‘nulidade’ chega semana que vem.
O JN deu nova pesquisa Ibope. Segundo William Bonner, ‘José Serra saiu do empate técnico com Garotinho e está sozinho em terceiro’.
Nos números, Serra tem 14, Garotinho tem 11 e ‘a margem de erro é de 2,2 pontos, para mais ou para menos’.
Uma conta singular, como singular foi a cobertura que mostrou um Serra afirmativo, dizendo que, na crise, não se pode ter ‘comportamento eleitoral do tipo quanto pior melhor, que muita gente tem’.
Ciro surgiu outra vez ao lado de ACM, ACM que falou depois, com ironia:
- Há mais de dois anos que eu, Tasso e Ciro estamos juntos. Mas em política nem tudo vocês podem saber. Só tem que saber na hora certa.
‘Vocês’ soou como ‘vocês, brasileiros’. De Ciro mesmo, restou no ar a frase irritada, em meio a críticas:
- Elejam outro presidente.
30/7/02
- Soltaram o dragão da maldade.
Era Ciro Gomes, no Jornal da Record, abrindo a sua temporada de defesa.
Ele teve que defender o vice e o coordenador de sua campanha, ambos do PTB. Foi o que concentrou a cobertura, ainda marcada por sorrisos, mas agora tensos.
Ciro sustentou seus petebistas, disse que ‘a gente tem que pedir ao povo que não se deixe levar por calúnias’, mas manteve o estilo e a distância:
- Quem for podre que se arrebente.
Também na defesa se expuseram o coordenador e o vice, com notas.
Começou a campanha para Ciro -que será levado ao limite para não se deixar levar pelo lado escuro da Força, como diz seu marqueteiro.
Ciro Gomes e ACM, que agora não saem mais de São Paulo, voltaram à cidade para um encontro -que seria reservado, mas alguém abriu.
ACM, no Jornal Nacional, no Jornal da Record, ressurgiu como protagonista, no ataque, em contraste com a atitude defensiva de Ciro.
O pefelista já foi dizendo na Jovem Pan que o candidato é quem deveria assumir o comando da campanha, tirando de cena os petebistas.
Na CBN, provocou FHC, dizendo que é leniente com a corrupção, e o tucano José Serra, dizendo que nem chega ao segundo turno.
É mais um para se somar ao lado claro da Força.
A capacidade de FHC e de sua equipe econômica de influenciar positivamente o sobe-e-desce dos mercados parece ter se tornado nula.
No domingo, no Fantástico, o presidente da República posou ao lado de José Serra e afirmou que ‘o apoio do FMI não nos faltará’.
Ontem, seu ministro da Fazenda falou no Bom Dia Brasil e -além de anunciar o voto em Serra, dando nome ao eleito- garantiu que ‘chegaremos a um entendimento em breve’ com o mesmo FMI.
Mas bastou o secretário do Tesouro americano soltar mais uma de suas frases, com restrições à ajuda do Fundo, para cair o mundo.
A campanha deve atravessar uma semana de esforço de desgaste contra Ciro, mas pouco mais. Novos sobressaltos devem ser guardados para o domingo -quando a Band entra em cena para disputar com a Globo o mercado do voto.
Com Márcia Peltier em campo contra Fátima Bernardes.
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