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CENSURA / TV
Eugênio Bucci
"Ano novo, censura velha", copyright Folha de S. Paulo, 5/01/03
"Escrevo críticas de televisão há um bom tempo. Além de escrever, ando por aí, por cidades diferentes, falando e ouvindo sobre o assunto. Estudantes de diferentes níveis, professores, grupos pequenos de profissionais os mais diversos, pesquisadores, penso agora e vejo o quanto andei por aí falando mal da TV (acho que em fim de ano a gente fica mesmo fazendo balanço da vida, o que não leva a nada, mas é assim mesmo). É curioso que, em quase todos os lugares, aparece sempre alguém querendo censura. Imagina-se que ela poderia ajudar a garantir um padrão um pouco melhor para o que se vê na televisão. Quem diz isso, normalmente, mal sabe que ainda existe censura na TV brasileira: censura privatizada. E mal imagina os danos que a censura estatal nos deixou.
Agora que estamos começando um ano novo (e no ano novo a gente sempre faz planos, o que não leva a nada, mas é assim mesmo), acho que, para o bem do futuro da TV e da democracia, não custa tentar espantar uma vez mais o velho fantasma. No imaginário brasileiro, a censura não é, nem de longe, um cachorro morto. (Temo que este artigo me saia muito professoral, mas eu não saberia escrevê-lo de outro modo.) Vamos lá.
Antes de tudo, é preciso definir claramente o que é censura. Comecemos pelo que não é. A edição de um programa jornalístico, assim como a edição de um diário impresso ou de uma revista semanal, não é censura. Apurar e publicar reportagens passa por selecionar, por escolher, por separar o que será do que não será levado ao conhecimento do público. Isso não constitui censura porque isso se destina a atender o direito à informação, de que todo cidadão é titular. Censurar é impedir o cidadão de ter acesso a um conteúdo ao qual ele tem direito de ter acesso, seja porque a sua liberdade individual lhe garante isso, seja porque esse conteúdo é de interesse público. A censura começa a acontecer quando um interesse estranho (do poder econômico ou do poder estatal) se põe, como um filtro indevido, no caminho que vai da liberdade de expressão ao direito à informação.
Pensando nesse filtro indevido, é correto dizer que ainda hoje existe censura na TV brasileira. Existe a censura privatizada, exercida pelos donos das grandes redes. Quando uma notícia relevante não vai ao ar porque incomoda o dono da emissora ou os seus amigos, o que acontece aí não é uma atividade normal da edição jornalística, mas é censura. Privatizada. Exemplo? Simples: pense-se nos comícios e passeatas que, em 1992, pediam o impeachment do então presidente Fernando Collor? Eles mal tinham lugar nos telejornais. Por quê? Porque eram censurados por forças privadas. Tínhamos ali a censura não-governamental. O que, claro, é intolerável e incompatível com o Estado de Direito.
De outro lado, alguns ainda acalentam a ilusão de que, se houvesse um ‘bom’ sistema de censura estatal no Brasil, atrocidades como esses programas de João Kléber e assemelhados não iriam ao ar. Talvez não fossem, mas os malefícios seriam muito piores. O principal dos malefícios é a humilhação sistêmica do cidadão, que passa a ser visto como alguém que precisa de que uma autoridade lhe diga o que é que ele pode ou não pode ver. A TV é a cara do país, com o que ele tem de ruim e de bom. A propósito, se hoje há tanta excrescência na programação, em grande parte ela pode ser atribuída a um efeito retardado da censura que tínhamos nos anos de ditadura. Ao tentar amordaçar a TV do presente, a censura faz isso: distorce a TV do futuro. Isso porque, também no vídeo, o reprimido volta, e volta muito pior.
Nada é mais nocivo para a qualidade da TV do que a censura. Seja a censura privada, que nós ainda temos e que precisa ser banida, seja a censura estatal, cujos estragos podemos sentir até hoje mas que, pelo menos, não existe mais."
ENTREVISTA / MARIA CRISTINA POLI
Renata Gallo
"‘Sou repórter 24 horas por dia’", copyright Folha de S. Paulo, 5/01/03
"Estar na bancada não significa estar acomodada. Maria Cristina Poli é prova de que um âncora pode continuar sendo repórter. Atenta a tudo, garante que é repórter 24 horas por dia. Há um ano no comando do Jornal da Noite, da Band, Poli tem liberdade e idéias de sobra para sugerir matérias para os jornais da casa e até para seus ex-companheiros do Vitrine, da TV Cultura, programa em que amadureceu e desenvolveu sua criatividade.
A menina, que começou levantando dálias (textos em cartolinas para serem lidos pelo apresentador) para Hebe Camargo, em 1979, e deu base à sua formação jornalística na Globo, por dois anos apresentou o Circular, no Canal 21, programa que, segundo ela, mostrava a alma de São Paulo.
Aos 43 anos e grávida de seis meses de seu primeiro filho, Poli conta como está se sentindo em suas duas novas funções: mãe e âncora. Critica o mercado por não apostar em bons programas e diz que, para ser âncora, não é preciso ser sisuda.
Estado - Como começou sua carreira?
Poli - Fiquei 11 anos na Globo. Era repórter especial e fazia coberturas fora do Brasil. Em 92, decidi sair e fui para a Cultura fazer documentários e matérias especiais. Daí surgiu o convite do Vitrine, onde fiquei por seis anos. Minha formação é de reportagem, amo ser repórter até hoje.
Estado - Mas na época era um outro ‘Vitrine’?
Poli - Era. Eu viajava duas vezes por ano para fazer matérias em outros países, como Portugal, Japão e Argentina. Sempre buscando saber como era a mídia nesses países.
Estado - Tem saudade?
Poli - Você sabe que esses dias tinha um superlocutor na frente de casa e lembrei do Vitrine. Ele estava naqueles caminhões vendendo melancia, mas falava de um jeito sensacional. Era uma pauta para o Vitrine.
Estado - E sente falta desse tipo de matéria?
Poli - Algumas pautas eu consigo trazer para o jornal. Outras ficam só na idéia. Tenho amigos que estão no Vitrine ainda e, às vezes, ligo para eles. Na verdade, sou repórter 24 horas por dia. Estou sempre ligada. Palpito no telejornal, ofereço pautas.
Estado - Como foi trabalhar no ‘Vitrine’?
Poli - A TV Cultura foi muito marcante na minha vida. Era uma época que foi um marco na história da TV. Tudo estava acontecendo lá, o Castelo Rá-Tim-Bum, o Vitrine. Foi muito legal. Tinha uma liberdade que não conhecia. Não era linha de montagem, como na Globo, que era muito maior. Na Cultura, participava de todo o processo.
Estado - Você teve uma produtora?
Poli - Foi na mesma época. Fizemos 14 documentários sobre São Paulo. Foram 10 sobre a história da imigração e dos bairros e 4 sobre o centro da cidade, que foram feitos com a Neide Duarte, que é uma superamiga. O Circular surgiu dessa idéia. Naquele momento, o Canal 21 estava voltado para a cidade e quis fazer um programa comigo.
Estado - E como foi o ‘Circular’?
Poli - Era maravilhoso. Ter São Paulo como cenário e poder explorar a cidade daquela forma e a cada dia estar em um lugar diferente. A gente fazia um programa que deixava a cidade falar. Apresentava a cidade para os próprios moradores. A gente saía à procura das novas ‘aldeias’. Muitos paulistanos se surpreendiam com os lugares que mostrávamos.
Estado - E por que acabou?
Poli - Era um programa caro para o 21 e o canal não conseguia mais bancar.
Estado - Por que você acha que não há quem banque um projeto tão legal como este?
Poli - O problema é o mercado. Criticam as emissoras, mas o mercado também é culpado. Aposta no que é ruim. A TV tem obrigação de educar, mas o mercado também tem responsabilidade sobre isso. Até hoje me param para perguntar do Circular. Era um programa maravilhoso. Às vezes, a gente parava em um ponto de ônibus e gritava: ‘Quem quer carona?’ Entrava camelô, até trombadinha deu entrevista. Era muito maleável. Queríamos entrevistar o João Gordo e, se ele não tinha tempo, marcávamos de pegá-lo e levá-lo para o dentista, por exemplo. Pegávamos o Gil e o levavámos para o aeroporto. Passávamos cerca de 9 horas no trânsito.
Estado - E como é agora voltar para as notícias do dia a dia, no papel de âncora?
Poli - Fazer telejornal é divertido. Não acho que tem de ser sisudo. Não acho que tem de dar opinião, mas ser espontânea. Às vezes dou risada, não conseguiria fazer diferente.
Estado - Como tem sido ficar atrás da bancada com este barrigão?
Poli - A cada dia tenho de me afastar mais (risos). Mas é uma tarefa nova e eu sempre acho que estou partindo do zero. Meu coração acelerou, deu tremedeira, fiquei nervosa no começo, como qualquer outra novidade. Acho que tenho obrigação de ficar nervosa. Depois de um ano de programa me sinto mais tranqüila e segura, dá para eu pensar em ousar, pensar em coisa diferente."
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