08/07/2003 6/20

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MEMÓRIA / ARY CARVALHO
O Dia /iG

"Morre o jornalista e empresário Ary Carvalho", copyright O Dia / iG, 4/07/03

"O empresário e jornalista Antônio Ary Carvalho, 69 anos, presidente do Grupo de Comunicação O DIA, morreu às 3h20 desta sexta-feira no Hospital Samaritano, em Botafogo, na Zona Sul da cidade, vítima de falência múltipla dos órgãos.

O velório acontecerá das 10 às 15h30 no Parque Gráfico do Jornal O DIA, na Avenida Dom Hélder Câmara, 164, em Benfica, na Zona Norte. Às 17h, o corpo será cremado no Memorial do Carmo, no Caju.

Uma vida dedicada ao jornal

Ary Carvalho nasceu em Birigüi, interior de São Paulo. Aos 14 anos, mudou-se para a capital, para continuar os estudos. Em 1955, trabalhava no jornal do bairro onde morava, a Folha de Pinheiros. No bar Ponto Chic, reduto da boemia paulista, conheceu um fotógrafo da Última Hora - de Samuel Wainer - que havia documentado um casamento celebrado pelo rito maçom e precisava de texto para complementar a reportagem.

Ary comprou dois livros sobre o assunto, observou as fotos e foi para a máquina de escrever. A reportagem, com a assinatura do autor, foi publicada na capa do segundo caderno do jornal, onde ele conseguiu emprego. Em pouco tempo, passou da reportagem Geral para a Economia e, a seguir, foi ser chefe de reportagem.

Depois de promovido a secretário de redação do jornal e, em seguida, a diretor - o mais jovem diretor de redação da Última Hora -, Ary Carvalho aceitou, em 1961, o desafio de dirigir a Última Hora do Paraná, que, sob seu comando, passou de seis mil exemplares diários para 23 mil. Em 1962, nova mudança. A convite de Samuel Wainer, transferiu-se para Porto Alegre, onde foi dirigir a Última Hora gaúcha, que, assim como a de São Paulo e de outras capitais, foi impedida de circular pelos militares que tomaram o poder no golpe de 1964.

Foragido durante algumas semanas, o jornalista veio ao Rio de Janeiro visitar Samuel Wainer, que estava exilado na Embaixada do México, e lhe propôs a compra do diário. Wainer aceitou vender as máquinas de escrever, oito máquinas fotográficas, quatro lambretas, um arquivo fotográfico e dois carros, mas não o título.

De volta a Porto Alegre, Ary Carvalho lançou, no dia 4 de maio de 1964, o Zero Hora, um tablóide que revolucionou a imprensa no Rio Grande do Sul. Em 1970, vendeu o Zero Hora aos atuais donos da Rede Brasil Sul de Comunicações. Transferiu-se para o Rio, onde dirigiu O Jornal e de onde saiu para ser diretor-editor da Última Hora carioca. Acabou comprando o título com o dinheiro que recebera da venda do Zero Hora e instalou o jornal num prédio na zona do Cais do Porto. Mais profissionais foram contratados, e o jornal aumentou sua circulação.

Em 14 de outubro de 1983, Ary Carvalho adquiriu O DIA, que vendia 180 mil exemplares nos dias úteis e 300 mil aos domingos. Iniciou, então, uma transformação editorial e gráfica, fiel ao lema estabelecido nos primeiros dias de sua administração - ‘fazer um jornal melhor todo dia’ - e sem perder o foco em seu principal parceiro: o leitor, como fez questão de destacar na capa da edição comemorativa dos 50 anos do DIA, em 5 de junho de 2001.

As inovações adotadas pelo jornalista e empresário não apenas mudaram o aspecto e o conteúdo do DIA, mas também transformaram o jornal numa empresa moderna, alcançando altos níveis de eficiência que lhe valeram vários prêmios nas áreas de jornalismo, administrativa e de marketing. Casado com Marlene, Ary Carvalho tinha três filhas - Eliane, Lígia e Ariane - e quatro netos, Arthur, Fernanda, Júlia e Maria Helena. Deixa uma irmã, Adail Padoan."

 

O Globo

"Ary Carvalho, o homem que modernizou ‘O Dia’", copyright O Globo, 5/07/03

Ao som de ‘Um dia de domingo’ e de ‘Talismã’, na voz do compositor Michael Sullivan, dezenas de pessoas prestaram ontem a última homenagem ao jornalista Ary Carvalho, presidente do Grupo de Comunicação O Dia. No fim da tarde o corpo foi cremado no Memorial do Carmo, no Caju. Estas eram as músicas preferidas de Ary, que morreu aos 69 anos, às 03h30m de ontem, de falência múltipla dos órgãos. O empresário estava internado desde 21 de maio no Hospital Samaritano, depois que sofreu um acidente vascular cerebral.

- As duas paixões que meu pai tinha na vida eram a música e o jornal. E quando tudo isto passar a família vai continuar tocando a obra dele - disse, emocionada, a filha Eliane ao chegar ao velório, no parque gráfico do jornal, em Benfica.

- Meu pai era um brasileiro típico. Menino pobre, de Birigüi, que venceu na vida. Isto mostra que tudo é possível - acrescentou Eliane.

De Birigüi, interior paulista, Ary saiu aos 14 anos, rumo à capital. Logo passou a trabalhar num pequeno jornal, a ‘Folha de Pinheiros’, em 1955. Depois conheceu um fotógrafo de ‘Última Hora’, jornal de Samuel Wainer, que pediu sua ajuda para completar o texto de uma reportagem. Ary se esforçou e conseguiu publicar um texto assinado. Passou a trabalhar na ‘Última Hora’ e da reportagem geral foi para a Economia. Depois virou chefe de reportagem. Outros cargos vieram em seqüência: secretário de redação, diretor e, em 1961, editor do ‘Última Hora’ do Paraná. Em 1962, foi dirigir o jornal em Porto Alegre.

Em 1964, com o golpe militar, todos os jornais de Wainer deixaram de circular por ordem das autoridades. Ary veio ao Rio ver Wainer, exilado na Embaixada do México, e lhe propôs comprar o diário, mas a oferta foi recusada.

De volta a Porto Alegre, Ary lançou, em 4 de maio de 1964, o ‘Zero Hora’, em formato tablóide. Veio definitivamente para o Rio de Janeiro em 1970. Dirigiu ‘O Jornal’ e depois foi ser diretor-editor, e por fim, dono, da ‘Última Hora’ carioca.

Comprou ‘O Dia’ em 14 de outubro de 1983. O jornal vendia 180 mil exemplares nos dias úteis e 300 mil aos domingos. Ary iniciou uma transformação editorial e gráfica que tornou o jornal uma empresa moderna.

Ontem, desde 10h, cerca de 300 pessoas, entre parentes, amigos, funcionários, jornalistas, empresários e políticos, passaram pelo parque gráfico para se solidarizar com a família. O presidente Luís Inácio Lula da Silva enviou fax, tendo como portador o ministro das Comunicações, Miro Teixeira.

Na mensagem, depois de classificar ‘O Dia’ como um dos principais jornais do país, o presidente pede ao ministro que o represente na cerimônia de adeus a Ary, ‘não deixando de levar minha saudação, meu abraço de solidariedade aos familiares deste empresário, cuja perda todos nós lamentamos’.

Miro, que é jornalista, trabalhou em ‘O Dia’ até 1968, pouco antes de se eleger deputado pela primeira vez.

- Ary era um repórter que virou empresário, mas nunca deixou de ser repórter - declarou o ministro.

A governadora Rosinha Matheus não compareceu, mas boa parte de seu secretariado esteve lá. Além do vice-governador, Luiz Paulo Conde, e do chefe do Gabinete Civil, Francesco Conte, compareceram secretários como Wagner Victer (Energia) e Helena Severo (Cultura). O secretário de Segurança, Anthony Garotinho, chegou de helicóptero.

- Ary foi um exemplo de vida, dedicação. Chegou ao fim da vida como um vencedor. Trabalhamos juntos. Ele era uma pessoa muito amiga - disse Garotinho, que foi chamado pelo jornalista em 1996 para reformular a antiga rádio Opus 90, transformando-a na FM/O Dia.

Outro político com quem Ary Carvalho trabalhou, o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, também marcou presença:

- Ele participou conosco da subida do ‘Diário Popular’. Ele se projetou com muita competência na imprensa e fez de ‘O Dia’ uma empresa jornalística extraordinária.

João Roberto Marinho, vice-presidente do GLOBO, disse ter perdido um amigo:

- Ary era um companheiro de empresa sempre alegre, cheio de vida. Foi uma pena a perda dele.

Para Luis Eduardo Vasconcellos, diretor-geral da MIRA (Mídia Impressa e Rádio), das Organizações Globo, ‘foi uma saída prematura de alguém muito importante na imprensa brasileira’.

- É uma perda grande para o jornalismo e para o Rio de Janeiro. Ele era um benemérito - declarou o senador Sérgio Cabral Filho.

O presidente do Conselho Editorial do ‘Jornal do Brasil’, José Antônio Nascimento Brito, lamentou a morte do companheiro empresário:

- É uma geração que está indo embora. O Ary era um homem de várias facetas e o que vou sempre recordar dele era o talento espetacular para fazer mudanças.

Entre os presentes, o prefeito Cesar Maia, o juiz de menores Siro Darlan e empresários como Arthur Sendas e Walter Mattos Júnior, do ‘Lance’; a secretária municipal de Educação, Sônia Mograbi, e antigos repórteres como José Cortes dos Santos, o Zé Grande, de 74 anos, 50 deles vividos no jornal de Ary.

O corpo foi encomendado pelo padre Lincoln de Almeida Gonçalves, que representou o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Scheid. A viúva, d. Marlene, passou mal e teve que ser atendida por médicos em uma ambulância. Ary Carvalho tinha três filhas: Ariane, de 43 anos; Eliane, tratada carinhosamente como Dadá, 40 anos, e Lígia, ou Gigi, 38 anos. Tinha também quatro netos: Arthur, Fernanda, Júlia e Maria Helena. Deixa uma irmã, Adail Padoan."

 

Jornal do Brasil

"Obituário: O jornalista que virou empresário", copyright Jornal do Brasil, 5/07/03

"De múltipla falência dos órgãos, morreu ontem, de madrugada, aos 69 anos, no Hospital Samaritano, em Botafogo, o jornalista e empresário Ary Carvalho, presidente do Grupo de Comunicação O Dia. Estava internado ali desde o dia 21 de maio, quando sofreu um acidente vascular cerebral.

O velório - que teve por cenário o saguão do próprio parque gráfico do jornal O Dia por ele inaugurado há 11 anos, no bairro de Benfica - foi mais do que uma demonstração de pesar e consternação de simples empregados da empresa, autoridades e amigos que não pararam de chegar para a última homenagem àquele que deu nova feição ao jornal que chegou a ser o de maior venda em banca em todo o país. Foi uma consagração.

- Chegou ao fim como um vencedor - proclamou o ex-governador e atual secretário de Segurança Pública do Estado, Anthony Garotinho.

- Foi um jornalista que conseguiu dar qualidade à imprensa popular e mostrou que é possível ter um jornal popular que interessa a todas as classes sociais. Outros jornais tentaram isso, mas foi de cima para baixo. Ele fez de baixo para cima - disse o prefeito Cesar Maia.

Ary Carvalho era um paulista de Birigüi, onde nasceu em 25 de abril de 1934. Aos 14 anos, mudou-se para a capital para continuar os estudos. Formou-se em direito, pela Faculdade do Largo São Francisco e, oito anos depois, já trabalhava na Folha de Pinheiros, jornal do bairro onde morava. Ali também, conheceu no Bar Ponto Chic, um fotógrafo da Última Hora, de Samuel Wainer, que havia documentado um casamento celebrado conforme o rito maçom e estava precisado de um texto para completar o trabalho. Ary comprou dois livros sobre o assunto, observou as fotos e sentou-se à máquina de escrever. E a reportagem saiu com a assinatura de Ary Carvalho, na capa do segundo caderno do jornal onde logo conseguiu emprego. Em pouco tempo passou da Reportagem Geral para a Economia e logo se tornou chefe de Reportagem, secretário de Redação, diretor. Tornou-se o mais novo diretor de Redação da Última Hora. Com 27 anos aceitou um desafio: dirigir o jornal no Paraná. E o jornal, que saía com 6 mil exemplares, logo passou para 23 mil. No ano seguinte, novo desafio: Samuel Wainer convida Ary para dirigir o jornal em Porto Alegre. Entretanto, os militares que deram o golpe de março de 1964 impedem a circulação da Última Hora nas capitais gaúcha e paranaense. E Ary, que durante algumas semanas teve de se esconder, acaba procurando Samuel, que estava exilado na embaixada do México, no Rio. Propõe-lhe a compra do diário. Samuel vendeu máquinas de escrever e fotográficas, quatro lambretas, um arquivo fotográfico e dois carros, mas não o título.

Ary volta para Porto Alegre, onde, no dia 4 de maio de 1964, lança Zero Hora, um tablóide que revolucionou a imprensa do Rio Grande do Sul e é hoje um dos mais importantes jornais do país. Em 1970 vende o jornal aos atuais donos da Rede Brasil Sul de Comunicações e muda-se para o Rio, onde dirigiu O Jornal, dos Diários Associados, e de onde saiu para ser diretor-editor da Última Hora carioca. Com o dinheiro que recebera pela venda do Zero Hora, Ary compra de Samuel Wainer o título do seu jornal no Rio. Aumentou o número de repórteres e a Última Hora passou a circular com uma tiragem superior a qualquer outra do passado.

No dia 14 de outubro de 1983, Ary Carvalho compra do ex-governador Chagas Freitas o jornal O Dia, que vendia 180 mil exemplares nos dias úteis e 300 mil nos domingos. Contratou profissionais formados no Jornal do Brasil e imprimiu ao jornal - conhecido antes por seu sensacionalismo na área policial - uma nova linha editorial e gráfica. Fazer um jornal melhor todo dia - era seu lema. E isso sem prejuízo do leitor, como fez questão de destacar na capa da edição comemorativa dos 50 anos de O Dia, em 5 de junho de 2001. Os herdeiros de Chagas Freitas contestaram na Justiça a legitimidade das negociações levadas a cabo por Ary Carvalho, alegando a incapacidade mental em que se encontrava seu proprietário e o baixo valor da operação feita. Mas a mesma Justiça acabou dando ganho de causa a Ary.

As inovações introduzidas pelo jornalista e empresário de Birigüi não apenas mudaram a feição e o conteúdo de O Dia como fizeram dele uma empresa moderna e modelar. Sob sua administração, a empresa alcançou níveis de eficiência nunca antes alcançados, o que pode ser medido pelos prêmios que ganhou no jornalismo, no setor administrativo e no marketing.

Ary Carvalho tinha verdadeiro xodó pelo violão, que ele tocava razoavelmente bem. Isso mesmo foi lembrado ontem no fim da missa de corpo presente, quando o compositor Michael Sullivan, amigo e companheiro de serestas de Ary, puxou do violão e cantou Um dia de domingo, de Gal Costa e Tim Maia. Emocionados, muitos dos presentes acompanharam a estrofe: ‘Faz de conta que ainda é cedo./ Tudo vai ficar por conta da emoção./ Faz de conta e deixa falar o coração’. Depois, e com as bênçãos do padre Maria Ramires (amigo da família) que celebrou a missa, cantou também Talismã. Mais palmas e mais lágrimas.

- Ele (Ary) adorava uma noitada, era bom de ouvido e ótimo de coração - arrematou Sullivan.

Ary era casado com Marlene Carvalho e tinha três filhas - Eliane, Lígia e Ariane - e quatro netos. Cremado no São Francisco Xavier.

Depoimentos

‘Meu pai tinha duas paixões: o jornal e a música. Quando passar essa dor, a gente tem que tocar a obra dele. Foi um menino pobre de Birigüi que venceu na vida’.

Eliane Carvalho, filha do empresário

‘Ary Carvalho era o paulista mais carioca que conheci, com espírito do Rio. Conseguiu transformar O Dia em um jornal com a cara do Rio, com informação precisa’.

Luiz Paulo Conde, vice-governador

‘Ary de Carvalho era um homem que soube não só criar um jornal como também rejuvenecer publicações tradicionais e até ressucitar diários, como no caso da Zero Hora, concebida para substituir a Última Hora gaúcha, fechada em 1964’.

Nelson Tanure, do Jornal do Brasil

‘Era um grande jornalista e empreendedor. O Rio perde um benemérito. Foi o primeiro a abrir espaço para a terceira idade. Conseguiu transformar O Dia num jornal moderno sem perder o elo popular’.

Sérgio Cabral, senador

‘O Ary era um homem de várias facetas. A que vou recordar sempre é a de um talento espetacular para apontar mudanças. Vai fazer falta’.

José Antonio do Nascimento Brito, presidente do Conselho Editorial do Jornal do Brasil

‘Foi um jornalista que conseguiu dar qualidade à imprensa popular. Mostrou que é possível ter um jornal que interessa a todas as classes’.

Cesar Maia, prefeito do Rio"

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