08/07/2003 18/20

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MULHERES APAIXONADAS
Martha Mendonça

"A arte ajuda a vida", copyright Época, 7/07/03

"Há cinco anos parado no Congresso Nacional, o projeto de lei que cria um Estatuto do Idoso se tornou uma das pautas mais importantes das sessões extraordinárias da Câmara e do Senado das próximas semanas. Só que, ao contrário de outras pautas, o projeto do Estatuto ressuscitou por uma reação popular a fatos que nunca aconteceram. A nova lei que dará mais direitos aos idosos só voltou a andar depois que a novela Mulheres Apaixonadas exibiu os maus-tratos sofridos pelo casal de velhinhos interpretado por Oswaldo Louzada e Carmen Silva. Nos dias que se seguiram ao capítulo da novela em que foi citada a existência de um projeto de lei do Estatuto, o setor de atendimento do Senado recebeu 25 mil ligações.

É uma história que se repete. Por causa de O Clone, do ano passado, o tema das drogas ganhou o país. Na Secretaria Nacional Antidrogas, as chamadas recebidas aumentaram quase seis vezes. O grupo dos Narcóticos Anônimos do Rio, que dá apoio aos familiares, teve movimento dez vezes maior durante o período da novela. Por causa de Laços de Família (2000), de Manoel Carlos, mesmo autor de Mulheres Apaixonadas, o registro nacional de doadores de medula óssea passou de 20 para 900 inscrições ao mês. Foi o ‘Efeito Camila’ - personagem de Carolina Dieckmann que sofria de leucemia.

A inserção de questões importantes no cenário nacional dentro das novelas leva o nome de merchandising social e, na Rede Globo, tem hoje uma área voltada só para essas ações. ‘Mas há sempre a preocupação de não ficar artificial’, diz Luiz Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação. Em 2001, a emissora recebeu o Business in the Community Awards of Excellence, principal prêmio de responsabilidade social do mundo, pelo projeto. ‘Não utilizar as novelas como instrumento seria um grande desperdício’, diz o senador Paulo Paim (PT-RS), autor do projeto do Estatuto do Idoso.

Publicidade é uma questão de identificação. E, no caso do merchandising, seja comercial, seja social, a eficácia é ainda maior. ‘Ver o galã ou a mocinha de uma novela ou filme usando um produto ou agindo de determinada forma tem enorme influência nos desejos de consumo ou no comportamento das pessoas’, diz o publicitário Lula Vieira. As novelas, produtos que têm os maiores índices de audiência da televisão brasileira, são um canal infalível para colocar os problemas do país na pauta do dia. ‘Difícil é escolher entre tantos temas relevantes’, diz Manoel Carlos. Em Mulheres Apaixonadas, além dos idosos, há outros temas importantes, como mulheres que sofrem violência em casa. E, através da personagem Heloísa, vivida por Giulia Gam, a novela também trouxe à tona um drama muito comum, as mulheres que amam de forma descontrolada, e a informação de que há tratamento.

EFEITO CAMILA

Laços de Família aumentou as doações de medula

Os jovens são alvo de boa parte das campanhas. Tanto que a série Malhação é o programa recordista de inserções. Só em 2002 foram 330. Em destaque, uso da camisinha, drogas, saúde da mulher, gravidez não planejada, alcoolismo, homossexualidade. Em 1999, a personagem Érica, vivida por Samara Filipo, descobre que é portadora do vírus HIV. Um impacto e tanto para o horário das 17h30.

A autora Gloria Perez, de O Clone, é pioneira do merchandising social nas novelas. Em 1986, na TV Manchete, inseriu em Carmen a discussão sobre a Aids. Em Explode Coração (1995), já na Globo, levantou o debate sobre crianças desaparecidas. ‘Quando penso na novela, já me vêm automaticamente os assuntos que podem entrar na história’, diz. Tão importante quanto levantar o tema é manter o resultado alcançado quando a novela sai do ar. Em Explode Coração, com a grande mobilização em torno das crianças desaparecidas, foi criada uma delegacia especial para tratar do assunto. Mas a instituição saiu do ar praticamente com a novela."

 

Ricardo Valladares

"Mulheres apaixonadas e apaixonantes", copyright Veja, 8/07/03

"Há quem diga que as novelas influenciam o comportamento das pessoas, e há quem diga que isso é balela. É uma velha discussão, que não tem data para acabar. O que se sabe com certeza, e até já foi comprovado por pesquisas universitárias, é que o produto cultural mais popular do país tem um poder impressionante para pautar debates sobre questões políticas e da intimidade do brasileiro. Nem todas buscam esse efeito, é claro. Há novelas de enorme sucesso que se contentam em divertir o espectador e brincar com suas fantasias, sem tocar em preocupações que fazem parte do cotidiano. Mas nesses casos a novela jamais será do autor Manoel Carlos. Realista obstinado, ele não abre mão de construir seus enredos com base em assuntos polêmicos, que fornecem material infindável para bate-papos no cafezinho do escritório ou à mesa de jantar. Seu trabalho atual, Mulheres Apaixonadas, sucesso no horário das 8 da Rede Globo, é uma prova reiterada disso. Há cinco meses no ar, a novela já pôs na ordem do dia discussões sobre agressão contra mulheres, comportamento obsessivo no amor, preconceito contra os velhos, alcoolismo e lesbianismo, entre outras. É uma receita interessante e eficaz. Quanto mais os temas desafiadores se multiplicam, mais a audiência aumenta. Na semana passada, Mulheres Apaixonadas atingiu a excelente média de 50 pontos de ibope na Grande São Paulo. Como já houve picos de audiência de 58 pontos (veja quadro), alguns especialistas consideram que, nesse ritmo, a novela pode chegar ao final, em setembro, com média próxima dos 60. O ibope de Mulheres Apaixonadas já é maior do que aquele que O Clone, último sucesso estrondoso da Globo no horário das 8, havia atingido com o mesmo número de capítulos exibidos. Nacionalmente, estima-se que 35 milhões de pessoas venham sintonizando a novela todos os dias.

Mulheres Apaixonadas também é um êxito extraordinário do ponto de vista comercial. Já estabeleceu um recorde na emissora, com duas inserções de merchandising por capítulo - aquelas situações em que um personagem utiliza ou elogia um certo produto quase sempre sem nenhuma sutileza. O preço do merchandising é mais alto que o da exibição de um comercial de trinta segundos no horário nobre, mas há compensações para o anunciante: não é preciso gastar outra fortuna na produção de uma propaganda e a probabilidade de o espectador estar atento ao que acontece na televisão durante o merchandising é muito maior do que no intervalo, momento da tradicional corridinha até o banheiro. Cada inserção de merchandising em Mulheres Apaixonadas custa atualmente 453 000 reais (412 000 ficam com a emissora e o restante é dividido pelos profissionais que trabalharam na cena). Um comercial de trinta segundos na faixa de horário da novela custa 193 380 reais.

O realismo de Manoel Carlos tem balizas definidas. Sua mira não está voltada para grandes questões sociais, como miséria, violência urbana ou corrupção. Elas podem até aparecer nas conversas entre os personagens, calcadas às vezes em manchetes de jornal, mas não costumam servir de motor para a trama - uma das raras exceções a essa regra ocorrerá brevemente, num capítulo em que Fernanda (Vanessa Gerbelli) vai morrer na rua, vítima de uma bala perdida. A inclinação de Manoel Carlos é muito mais pelo que se poderia chamar de realismo familiar ou doméstico - e aí ele percorre todos os cômodos da casa, do quarto de dormir à área de serviço. As famílias enfocadas são de classe média ou de classe média alta e circulam por um ambiente que o autor conhece bem, porque é lá mesmo que vive: a Zona Sul do Rio de Janeiro. Não se pode dizer que personagens saídos dessa classe social e, mais ainda, desse microcosmo carioca representem o grosso da população brasileira, mas há óbvias vantagens novelísticas em lidar com eles. Situações que perturbariam muitos espectadores se ocorressem na casa de seu vizinho são encaradas com a maior naturalidade porque acontecem naquele ambiente liberal retratado por Manoel Carlos. Mulheres Apaixonadas, por exemplo, conseguiu uma proeza: pela primeira vez, um caso de relacionamento lésbico é retratado numa novela sem causar rejeição do público. Na última ocasião em que algo do gênero foi tentado, em Torre de Babel (1998), as lésbicas tiveram de ser arrancadas da trama às pressas na explosão de um shopping center. Uma das chaves para a aceitação do romance entre Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) é que, além de dar-se entre adolescentes - há uma certa tolerância social para com os dilemas enfrentados por pessoas nessa faixa etária -, ele acontece numa escola ultraprogressista, onde ninguém as rejeita nem recrimina. A única exceção é Paulinha (Ana Roberta Gualda), uma personagem cuja marca é o ressentimento dirigido contra tudo e todos. Além de abordar com naturalidade certos temas espinhosos, os personagens de Manoel Carlos discutem uns com os outros cada drama vivido ou cada tabu enfrentado. Os amigos professores da alcoólatra Santana (Vera Holtz) a estimulam a buscar tratamento com especialistas, e quem sabe do drama de Raquel (Helena Ranaldi), espancada pelo marido, a aconselha sem pestanejar a denunciá-lo numa delegacia de mulheres. ‘Manoel Carlos consegue abordar no horário nobre coisas que só costumam ser discutidas em consultórios de especialistas, na Justiça ou em programas policiais’, diz Teresa de Góes Negreiros, professora do departamento de psicologia da PUC-Rio.

Os personagens de Manoel Carlos - 105 nesta novela - nunca são daquele gênero absurdo e estereotipado tão comum em folhetins. Até os malucos agem segundo uma lógica. Quando um deles tem um problema esquisito, como Heloísa (Giulia Gam), atormentada por uma síndrome amorosa que já a fez esfaquear o marido e arrebentar-se num acidente de carro, o autor se esmera para não errar nos detalhes. Para escrever Mulheres Apaixonadas, Manoel Carlos conta com a assessoria de duas pesquisadoras, Leandra Pires e Juliana Peres, que além de assistirem a aulas de colégio, para registrar o comportamento juvenil, têm visitado vários tipos de centro de apoio psicológico para conferir se aquilo que vai ao ar bate com a realidade. Os atores também são estimulados a fazer esse tipo de pesquisa de campo. Os casos tratados no grupo Mada (sigla para Mulheres que Amam Demais Anônimas) ajudam a dar substância às histórias de Heloísa. Para compor Raquel, Helena Ranaldi já foi visitar o Ciam (Centro Integrado de Atendimento à Mulher) e participou de uma sessão incorporando sua personagem. Até para o ator Dan Stulbach, que interpreta Marcos, o marido brutamontes de Raquel, foi encontrada uma boa fonte de informações: o Instituto Noos, onde se reúnem maridos que surram as mulheres e depois se arrependem (pois é, isso existe). Contudo, segundo a psicóloga Cecília Teixeira Soares, diretora do Ciam, Marcos é um personagem forte, mas um pouco caricato. ‘A Raquel está perfeita com aquelas hesitações todas. Muitas mulheres que apanham não querem deixar o marido porque vêem que ele tem um lado bom. Mas o Marcos não tem esse lado. Ele é sádico demais’, diz ela.

Para pôr de pé todas as cenas da novela, Manoel Carlos tem trabalhado doze horas por dia num bagunçado escritório doméstico. Mas ele trabalha de portas abertas, aceitando de bom grado as interrupções da família. O autor está em seu terceiro casamento - sua mulher chama-se Elisabety e é vinte anos mais nova do que ele. Também moram com Manoel Carlos o filho Pedro, de 11 anos, e a filha Julia Almeida, atriz de 20 anos que interpreta Vidinha em Mulheres Apaixonadas. O endereço é uma cobertura de 300 metros quadrados no Leblon, luxuosa, mas sem ostentação. Não há obras de arte valiosas nem tapetes raros na casa. O autor coleciona bengalas antigas e livros. Em todos os cômodos, as paredes são recobertas de obras de ficção, de poesia, de fotografia e história. Quase todos os ambientes são também perfumados por velas aromáticas. No segundo andar, há uma sala com um telão, onde Manoel Carlos assiste à novela todos os dias, acompanhando as variações do ibope num aparelhinho.

No começo de Mulheres Apaixonadas, parecia que ganharia destaque a velha técnica de manter o suspense na base do ‘quem vai ficar com quem?’. Esse elemento ainda existe, mas tornou-se bastante secundário na trama. Manoel Carlos optou por uma outra maneira de contar a história. Ou talvez fosse melhor falar em histórias. Desde Felicidade, que foi ao ar em 1991, Manoel Carlos prefere dar o mesmo peso a várias tramas paralelas em vez de privilegiar um único enredo. ‘É um jeito de evitar aqueles períodos cheios de flashbacks dos protagonistas, em que a história começa a chover no molhado e nada de novo acontece’, diz ele. Em Mulheres Apaixonadas, a técnica das muitas histórias paralelas chegou às últimas conseqüências. A cada uma ou duas semanas uma das histórias chega ao seu clímax. Cada vez que isso acontece, há um pico de audiência. O maior deles ocorreu em 9 de junho, quando Heloísa atacou Sérgio (Marcello Antony) com uma faca. O Ibope registrou 58 pontos quando a cena foi ao ar. Depois de um desses clímax, o personagem pode ser deixado de lado por algum tempo, enquanto outras peripécias acontecem. Manoel Carlos ainda tem algumas cartas para tirar da manga. O romance entre a esfuziante socialite Estela (Lavínia Vlasak) e o padre Pedro (Nicola Siri) andou em banho-maria. O autor pretende retomá-lo e tudo indica que o sacerdote vai largar a batina e sair atrás da saia. Outro tema que deve ser abordado é o câncer de mama. Manoel Carlos ainda não sabe quem vai ser a personagem atingida, mas quer tocar no problema para dar uma mãozinha às campanhas de prevenção da doença. Se depender do autor, não faltará assunto aos brasileiros nos próximos meses.

Lágrimas de veterana

A história da garotinha Salete (Bruna Marquezine) está começando a entrar em primeiro plano em Mulheres Apaixonadas. Na segunda-feira passada, a personagem teve uma visão perturbadora, em que um anjo lhe dizia que sua mãe ia morrer. Assustada, Salete trava um diálogo comovente com Fernanda (Vanessa Gerbelli), sua mãe na novela, e, em seguida, com Téo (Tony Ramos). Quando foram ao ar, as cenas eletrizaram o público. Antes disso, já haviam impressionado todos os que participaram das gravações, do câmera ao diretor. O desempenho de Bruna, considerada uma das grandes revelações de Mulheres Apaixonadas, foi mesmo arrebatador. Aos 7 anos, ela é espertíssima, graciosa e chora em cena com uma facilidade de dar inveja a atores veteranos. No episódio da visão do anjo, a menina verteu lágrimas tão copiosas que muitos espectadores pensaram que talvez Bruna estivesse realmente traumatizada. ‘Eu não faço nada para chorar. Só entro na história e aí, quando precisa, a vontade vem’, explica a atriz. Bruna, de fato, está bastante envolvida com sua personagem. Tanto que se apegou muito a Vanessa Gerbelli. Quando soube que a morte de Fernanda estava prevista no enredo, ficou tão aflita que pediu um encontro com Manoel Carlos. O autor a recebeu em sua casa para uma conversa sobre as diferenças entre ficção e realidade.

Bruna é filha de um marceneiro e de uma dona-de-casa. A família mora em Duque de Caxias, uma cidade-dormitório nos arredores do Rio de Janeiro. Há dois anos, ela pediu que a matriculassem num curso de modelo, que serviu como porta de entrada na Globo. Bruna foi um anjo num episódio de O Sítio do Pica-Pau Amarelo e apareceu no vídeo Xuxa Só para Baixinhos 3. Atualmente, ganha 1.500 reais por mês para interpretar Salete. O convite para participar de Mulheres Apaixonadas veio quando uma cópia de um comercial protagonizado por Bruna caiu nas mãos dos produtores da novela. Trata-se de um vídeo institucional da Polícia Militar de São Paulo sobre o suicídio de PMs."

 

POLÍTICOS NA TV
Laura Mattos

"Político vira atração de programa popular", copyright Folha de S. Paulo, 6/07/03

"A senadora Heloísa Helena (PT-AL) fazia respiração boca-a-boca em um boneco de plástico, enquanto o pagodeiro Rodriguinho, do grupo os Travessos, comprimia o peito do ‘cidadão’. ‘Querido, tenta acordar’, dizia a parlamentar, no papel de enfermeira.

A cena foi ao ar no último dia 23, no ‘Boa Noite, Brasil’, da Bandeirantes, e entrou para o rol cada vez maior das aparições de políticos em programas populares.

Expostos a brincadeiras e longe de protocolos, representantes do Legislativo e do Executivo dão ibope e, em contrapartida, ganham espaço para falar à vontade com os telespectadores/eleitores.

O ‘mico’ que a senadora petista pagou por mais de 15 minutos foi bem recompensado. Depois do inusitado, ela participou do quadro ‘A Foto e a Notícia’, no qual o convidado comenta reportagens que envolvem seu nome. Teve mais de 40 minutos para falar sobre sua carreira política, o governo Lula e seus desafetos.

Heloísa Helena, que recusou convite para o ‘Domingão do Faustão’ (Globo) no ano passado, passou a frequentar os palcos da TV quando sua relação com o governo entrou em crise. Já esteve no ‘É Show com Adriane Galisteu’ (Record) e, menos de uma semana após o ‘Boa Noite, Brasil’, foi ao ‘Superpop’, da Rede TV!.

O programa, de Luciana Gimenez, recebera, um mês antes, Marta Suplicy (PT), que teve 52 minutos para discorrer sobre sua administração e receber elogios da apresentadora e da platéia.

A prefeita de São Paulo também foi ao ‘Boa Noite, Brasil’. No ar por cerca de 40 minutos, listou seus planos para a cidade e admitiu ser candidata à reeleição. Conseguiu, no entanto, livrar-se da brincadeira armada pelo apresentador, Gilberto Barros, recusando seu pedido para comentar os efeitos da lua na relação sexual.

O programa da Band, que estreou em 12 de maio, recebeu, além da senadora e da prefeita petista, o deputado Enéas Carneiro (Prona-SP), o senador Magno Malta (PL-ES) e Paulo Maluf (PP).

O ex-governador não foi vítima de uma saia justa por pouco. ‘Tentei trazer um piano no palco para o Maluf tocar, porque ele é pianista. Mas não deu tempo’, afirmou Barros à Folha.

O apresentador diz que o político dá mais ibope quando não fala de política. ‘Quando ‘tira a roupa de político’, mostra a alma, dá audiência.’

Segundo ele, a brincadeira com Heloísa Helena foi criada para ‘desmistificar essa história de que o político está num pedestal’. Atingiu picos de 13 no Ibope, mais do que o dobro dos cinco de média que o programa costuma dar (cada ponto equivale a 48,5 mil domicílios na Grande São Paulo).

Uma audiência de cerca de 20 pontos permitiu, no último dia 29, que o ministro Ricardo Berzoini (Previdência) explicasse os planos de reforma do governo a quase 1 milhão de residências só na região metropolitana de SP. Ele ficou no ar por dez minutos no ‘Domingo Legal’ (SBT), um dos palanques prediletos do ex-ministro José Serra (PSDB) na pré-campanha presidencial.

Além dos programas de auditório, outro ‘filão’ recente da política são os programas policiais vespertinos. O presidente do PT, José Genoino, foi ao ‘Repórter Cidadão’, da Rede TV!, há cerca de duas semanas. Marta já sobrevoou a cidade de São Paulo ao lado de José Luiz Datena, para o ‘Brasil Urgente’ (Bandeirantes), que também costuma entrevistar o governador Geraldo Alckmin.

O publicitário André Torreta, 38, acredita numa ‘redescoberta’ dos programas populares no marketing político. ‘Isso era muito comum na época de Getúlio Vargas. Depois, com o uso que o Collor fez da mídia, houve um trauma. Agora, os políticos voltaram a aparecer mais na TV.’

Para ele, programas de auditório são a grande oportunidade de atingir as classes C, D e E, a massa do eleitorado. ‘Para isso, eles têm de se sujeitar às regras, às brincadeiras. Heloísa Helena, que é séria, tem de ir e participar, porque sua única arma agora [que enfrenta processo de expulsão no PT] é obter apoio popular.’

Torreta avalia também que os políticos considerados de esquerda usam melhor a propaganda do que a chamada direita. ‘[A presença constante de políticos na televisão] Pode ser reflexo de Lula no poder. Ele fez da posse um espetáculo para a TV’, afirma.

O sociólogo e marqueteiro Chico Malfitani, 52, diz que ‘política hoje dá audiência’. ‘O político virou atração para programa popular. É um fenômeno saudável para a democracia, contanto que a participação não faça parte de esquemas de favorecimento’, diz.

Especialista em marketing político, Paulo de Tarso, 49, afirma que ‘há uma dificuldade dos telejornais tradicionais e da imprensa escrita em se plugar com a população mais carente’. ‘Com esses programas mais populares, os políticos conseguem atingir essa faixa de eleitores’, afirma.

Tarso trabalha para o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), um dos personagens de um momento histórico da política na TV. Em 2001, foi um dos 12 participantes do ‘Show do Milhão com Políticos’ (SBT), apresentado por Silvio Santos. ‘O programa teve um impacto enorme em Goiás.’ Um ano depois, Perillo se reelegeu no primeiro turno."

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