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ELEIÇÕES 2002
Marcelo Beraba

"Religião e mídia são a base de neopopulismo", copyright Folha de S. Paulo, 07/04/02

"A trajetória política de Anthony Garotinho, empatado tecnicamente em segundo lugar na campanha presidencial, não tem precedentes históricos no Brasil. Seu êxito se associa a práticas populistas clássicas combinadas à inserção no movimento social que mais cresce no país, o evangélico.

Ele conquistou, em três anos, projeção nacional difícil de ser prevista para um político saído do interior pobre do Norte fluminense. Para isso, atuou em quatro frentes complementares: mundo religioso; meios de comunicação (rádios, TVs, campanhas publicitárias e marketing político); programas sociais de curto prazo, fácil compreensão e muito impacto popular; e uma hábil costura político-partidária que lhe permitiu escapar da tutela de Leonel Brizola, do PT fluminense e garantir uma retaguarda tranquila no Estado para o vôo nacional.

A combinação de religião com populismo para defini-lo já gerou vários neologismos, como teopopulismo, populismo pentecostal, populismo fundamentalista. O cientista político Jairo Nicolau e a socióloga Regina Novaes, que observam de perto a carreira do ex-governador, preferem o termo neopopulismo, que dá conta de um fenômeno que vai além da religião e do populismo tradicional.

Evangélicos

É impossível entender o crescimento nacional de Garotinho sem os evangélicos. Comunista na juventude, convertido ao protestantismo em 1994 depois de sofrer um acidente de automóvel, ele vem cativando uma audiência ávida de pregação política.

Evangélicos formam um segmento social que corresponde a cerca de 20% do eleitorado e que continua em expansão. Desde que se instalaram no Brasil, no início do século 20, os pentecostais consideram-se, com razão, tratados com preconceito por uma sociedade predominantemente católica e que torce o nariz às manifestações emocionais de fé. Garotinho despertou nessa camada a esperança de ser enfim legitimada.

Para alcançar esse público, Garotinho fez centenas de viagens, que começaram no primeiro mês de governo, em janeiro de 98. Ele participou de almoços ou jantares organizados pela Adhonep (Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno), de grandes shows musicais organizados por igrejas e gravadoras evangélicas, como o que reuniu cerca de 50 mil pessoas em janeiro em Vitória da Conquista (BA), e de cultos religiosos, como o da Semana Santa em Belo Horizonte, organizado pela Igreja Quadrangular, que juntou mais de cem mil fiéis.

Nos eventos estritamente religiosos, Garotinho prega o Evangelho, faz o testemunho da sua conversão e não fala de política. Nos shows, ele acaba sempre discursando sobre as suas realizações no governo do Rio.

Esses eventos, principalmente os realizados no interior, além de fazê-lo mais conhecido no mundo evangélico, acabam tendo uma repercussão maior por causa da cobertura da mídia.

Outro instrumento importante é o programa A Paz do Senhor, transmitido pela rádio Melodia FM, do Rio, duas vezes por dia, e reproduzido por uma rede de emissoras evangélicas captada em São Paulo, Brasília, Teresina, Fortaleza, Recife e Curitiba. A Melodia está em primeiro lugar no ranking de audiência do Rio, medida pelo Ibope, com uma média em dezembro de 151 mil ouvintes por minuto, 85% nas classes C, D e E.

Em abril de 2001, o ex-governador lançou o livro ‘Virou o Carro, Virou a Minha Vida’, em que narra o episódio da sua conversão ao protestantismo. Segundo a Editora Soma, foram editados 60 mil exemplares. Além disso, o ex-governador participa regularmente de programas de TV e rádio de emissoras evangélicas.

Obras sociais

Regina Novaes, do ISER (Instituto Superior de Estudos da Religião), chama a atenção para outro aspecto no relacionamento de Garotinho com os evangélicos: o uso das igrejas como mediadoras das ações sociais do Estado.

Um exemplo dessa mediação é o programa Cheque Cidadão, que distribui R$ 100 por mês para 48.500 famílias de baixa renda. O principal canal de cadastramento e distribuição são as igrejas pentecostais (cerca de 85%), por três razões: elas formam uma rede de confiança do ex-governador, estão enraizadas nas regiões mais miseráveis da cidade (há favelas no Rio com mais de 30 igrejas pentecostais e apenas 1 católica) e se dispõem a trabalhar de graça.

Embora tenha usado principalmente a rede evangélica, Garotinho teve a habilidade de buscar o apoio do cardeal d. Eugenio Sales, então arcebispo do Rio. De 271 entidades cadastradas em dezembro, 38 eram católicas.

O Cheque Cidadão remete para os outros projetos sociais do ex-governador, a segunda coluna na sustentação do seu crescimento político. Garotinho lançou programas muito populares, de utilidade municipal, como se fosse prefeito, mas de repercussão nacional: restaurante com almoço a R$ 1, hotel que cobra o mesmo preço por uma pernoite, piscinão em Ramos badalado diariamente pela novela ‘O Clone’, da TV Globo, asfaltamento de ruas, distribuição de casas populares.

O cientista político Jairo Nicolau, do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), atribui a esses projetos, que nem são originais e que podem ser caracterizados como populistas, uma boa parte do êxito de Garotinho. ‘Ele cria políticas e faz obras fáceis de serem compreendidas e propagandeadas, que contrastam com as políticas do PT, mais sofisticadas e de difícil compreensão, como orçamento participativo ou renda mínima.’

Para Nicolau, o estilo de fazer política de Garotinho vai deixar o PT, seu principal adversário, em situação difícil em certos momentos, porque o ex-governador tem tradição partidária de esquerda (PCB, PT, PDT e agora PSB), mas com uma prática sem vergonha de ser tachada de populista. ‘O PT tem medo de ser populista. O partido nasceu antivarguista.’

Tanto Nicolau como Novaes estão de acordo que a combinação religião e política para as massas ajudou Garotinho a crescer, mas que a partir de agora ele terá o desafio de se fazer confiável para além desses segmentos. Se não ganhar, como aconteceu com o presidente Fernando Collor em 1989, a classe média urbana, dificilmente terá êxito eleitoral."

 

Laura Mattos

"Em ano eleitoral, Cultura diz não a palanque de deputados", copyright Folha de S. Paulo, 03/04/02

"Os ouvintes certamente irão agradecer. A Cultura AM (1.200 kHz), especializada em notícias e MPB, se recusou a fechar contrato com a Assembléia Legislativa de São Paulo para ceder diariamente parte de sua programação aos deputados.

Em janeiro, Florestan Fernandes Jr., diretor da TV Assembléia (a cabo), disse à Folha que a Casa faria acordo de parceria com a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura e das rádios Cultura AM e FM.

A fundação, mantida majoritariamente com recursos do Estado, cederia três horas diárias da programação da Cultura AM para programas produzidos pela Assembléia. A previsão era de que a chamada Rádio Assembléia entrasse no ar em março ou abril.

Quando a informação foi publicada por esta coluna, vários ouvintes ligaram para a rádio Cultura reclamando da possível mudança. ‘Ninguém gostou da idéia. Certamente iríamos desagradar nossos ouvintes. Para nós, não seria interessante’, afirma João Batista Rocha, gerente de administração, produção e programação das emissoras da Cultura.

O contrato seria fechado porque, em junho de 2001, o (ex-)ministro Pimenta da Veiga (Comunicações) prometera a Walter Feldman (PSDB-SP), presidente da Assembléia, a concessão de uma AM, que acabou não saindo.

Mesmo ainda sem uma emissora definida, a Casa gastou, segundo Florestan, cerca de R$ 50 mil para criar um estúdio. Para a Fundação Padre Anchieta, o Estado pagaria cerca de R$ 30 mil por mês, além dos R$ 300 mil pagos pela prestação de serviço que a TV Cultura faz à TV Assembléia.

‘Nós até poderíamos prestar serviço, mas eles precisariam ter um concessão’, afirma Rocha.

A idéia de Florestan era fazer uma programação de ‘jornalismo público’, que mostrasse os trabalhos realizados na Assembléia.

Milton Neves, da TV Record, seria a grife da AM dos deputados.

Os planos ficam para depois. Antes, é preciso saber o que vem pela frente com o novo ministro das Comunicações, o novo presidente da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações)... Nada deve ser acertado ainda neste ano eleitoral. Sorte dos ouvintes/eleitores, azar dos políticos.

Cultura AM e FM vão receber um patrocínio de R$ 600 mil da Petrobras. O dinheiro será usado para digitalizar toda a discoteca das emissoras. Muita coisa rara pode estar disponível para os ouvintes pela internet em breve.

Só boa notícia hoje. Às vezes é bom, não é?"

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