14/24

Envie para um amigo  Procure no arquivo

LITERATURA & MERCADO
Matthew Shirts

"Literatura e dinheiro", copyright O Estado de S. Paulo, 01/04/02

"Vira e mexe ouço ou leio alguém dizer que a cultura brasileira está falida.

Ninguém lê mais nada. Ou só se lê Paulo Coelho.

A prova cabal da deteriorização da capacidade de raciocínio e expressão do brasileiro são os números de venda de Paulo Coelho. Sempre sobra (aqui no Brasil, bem entendido) para esse simpático senhor que, anos atrás, fazia letras de música e cantava com Raul Seixas.

Enquanto era uma figura udigrúdi (adoro essa palavra), ninguém implicava com ele. Mas bastou ganhar dinheiro com literatura, que passou a ser o vilão-mor da cultura nacional. Tem-se a impressão, por vezes, que os críticos, acadêmicos ou não, acreditam de verdade que, não fosse o autor do Alquimista, o povo brasileiro passaria seu tempo lendo e discutindo Dom Casmurro, do Machado, ou Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. O que, cá entre nós, poderia ser um pouco preocupante.

Já imaginou a turma da Mancha Verde, torcida organizada do Palmeiras, por exemplo, em volta de uma mesa a ponderar se Capitu traiu ou não Bentinho?

Acho que não. E talvez seja melhor assim.

Faz tempo já que venho ponderando a alergia que a crítica brasileira tem de dinheiro, tentando achar uma explicação plausível para isso. Não sei se você lembra, mas até poucos anos atrás, pelo menos, o grande Jorge Amado era visto com terríveis reservas na Universidade de São Paulo. Alguns amam Mário de Andrade. Outros amam Oswald. Mas quase ninguém levantava a bola do Jorge Amado.

Hoje estou convencido de que o problema da crítica é mesmo grana. Escritor que atende, de alguma foram, aos caprichos do mercado capitalista não pode ser bom. E OK, não é tudo de Jorge Amado que é esplendoroso, mas ele é o autor de quatro ou cinco clássicos da literatura brasileira, nada menos. O negócio, com perdão da palavra, é escrever difícil. Dia desse li um crítico da revista Veja desancar a geração de escritores composta por Fernanda Young, Fernando Bonassi, Tony Bellotto e outros. Disse ele que todos querem ser ‘best sellers’, mas que nenhum deles tem ‘estilo’!

A raiva que a crítica brasileira - acadêmica ou não - tem do mercado do livros é mesmo um tanto quanto exótica, convenhamos. Bem entendida, essa característica cultural, sempre desconfiei, poderia jogar luz em alguns dos porões da psique nacional.

Mas não é só por isso, confesso. É que, nos Estados Unidos, de onde venho, a situação é praticamente inversa. Lá qualquer autor que vende é digno de algum respeito. E muitos são verdadeiros superstars --sem escrever para jornais ou revistas quase nunca, diga-se de passagem. Só nos livros.

A diferença diz muito sobre os dois países, creio. Nos Estados Unidos, alfabetizados primeiro, ler faz parte da tradição de entretenimento popular há pelo menos um século. Veja o caso da minha mãe, por exemplo. Ela não deve saber muito se Proust vem antes de Flaubert ou não, e talvez nem quem é Rimbaud. Mas lê uns 50 romances - alguns bem grossos, tipo tijolaço - todos os anos desde que fez uns 15 aninhos de idade. O que dá uns 2.500 livros até agora ao longo da sua vida.

Ou seja, a literatura americana passa pelo popular, não tem jeito, e na grande maioria das vezes, é popular. Tanto é que um autor de best sellers como Stephen King (Carrie, A Estranha) pode se dar ao luxo de escrever um manual para quem se interessa pelo ofício. É comovente e instrutivo e se chama On Writing: a Memoir of the Craft. Tá aí uma ótima dica para uma editora brasileira. No livro, King se diz um escritor proletário - e diferente de autores sofisticados como Don DeLillo ou John Updike. ‘Mas muito de nós, proletas, também nos preocupamos com a linguagem, de maneira humilde e de forma apaixonada, com a arte de contar histórias no papel.’

King se considera um artista popular e, no livro, revela o que pode dos seus macetes.

Enquanto o povo americano lia gibis, pulp fiction, policiais e romances de todos os tipos, os brasileiros, menos escolarizados, jogavam futebol, montavam escolas de samba e tocavam música. Os escritores nacionais eram todos doutores, que poderiam escrever sobre o chamado povo, mas não eram lidos por ele. Daí, creio, um certo elitismo literário que, curiosamente, marca o jogo de futebol nos Estados Unidos - só a classe média por cima joga soccer por lá.

Mas quem sabe as duas tradições se encontram um dia. Faria bem ao futebol jogado nos Estados Unidos, ao menos. E quem sabe, à crítica brasileira também.

Quatro em cinco vezes o mercado fortalece a literatura."

 

ÉPOCA
Cidade Biz

"Diretor de publicidade de Época pede demissão", copyright Cidade Biz, 05/04/02

"Ainda sem planos imediatos, mas com ‘algumas prpostas’, Antonio Carlos de Campos, conhecido no mercado como Tó, pediu demissão do cargo de diretor de publicidade da revista Época, nesta sexta-feira. No meio da tarde, a diretoria da Editora ainda estava em reunião na tentativa de achar um substituto.

Yara Grotera, que comanda a unidade, deverá anunciar novo diretor no início da semana que vem. A amigos, Tó disse que pediu para sair por não concordar com as mudanças que estavam ocorrendo sob a batuta de Juan Ocerin, novo todo-poderoso da Editora que assumiu há quase um mês."

 

MEU DINHEIRO
CB

"Editora Abril prossegue ajuste e fecha revista Meu Dinheiro", copyright Cidade Biz, 05/04/02

"Com menos de um ano de vida, a revista Meu Dinheiro, da Editora Abril, vai à banca pela última vez na próxima quinta-feira. O fechamento da revista já vinha sendo discutido há algum tempo pela diretoria da empresa. No início da noite desta sexta, um comunicado interno dizia que a revista deixava de circular regularmente.

Recentemente o título passou da Unidade Operacional Masculinas, que foi extinta, para a Unidade Operacional Negócios, que abriga Exame, Exame SP e Você S.A. A nova unidade responsável pela revista fez as contas e viu que não poderia absorver a falta de receita da jovem revista.

Como é de praxe em comunicados desta natureza, a Abril informa que a revista será incorporada a Você S.A. e que o site Meu Dinheiro se integra ao portal Exame como seu canal de finanças pessoais.

Parte do pessoal do site pode ser reaproveitado no portal Exame, mas ainda não há decisão sobre o resto da equipe. Na nota está escrito ainda que ‘o título continua pertencendo à Abril e será objeto de edições especiais do grupo’."


Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe