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M. F. NASCIMENTO BRITO (1922-2003)
Lucia Martins

"Para ele, jornalismo era arte moral", copyright O Estado de S. Paulo, 9/02/03

"Manoel Francisco do Nascimento Brito, ex-diretor-executivo do Jornal do Brasil, nasceu no dia 2 de agosto de 1922 no Rio. Filho do engenheiro e empresário José do Nascimento Brito e da inglesa Amy Avoegno do Nascimento Brito, Manoel estudou no Colégio São Bento. Concluiu a Faculdade de Direito do Rio, em 1946. No mesmo ano, casou-se com Leda Marina Marchesini, enteada do conde Ernesto Pereira Carneiro (que ganhou do Vaticano o título de conde ajudando o Rio a enfrentar a gripe espanhola em 1918), diretor-presidente do Jornal do Brasil.

Em 1949, tornou-se consultor jurídico do jornal. Com a morte de Pereira Carneiro, em 1954, a direção do JB passou à viúva Maurina Abranches Pereira Carneiro, que deu início a várias reformas. Nascimento Brito tornou-se superintendente, contratando o jornalista Odilo Costa Filho para coordenar a reformulação do JB, em 1956. Nesse ano foi eleito membro do conselho executivo da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e diretor-secretário da União dos Proprietários de Jornais e Revistas.

Em 1960, assumiu o cargo de diretor-executivo do jornal e das empresas associadas. Nesse período, representou o Brasil na 16.ª Sessão da Assembléia Geral da ONU, em Nova York.

Em 1964, após a deposição do governo do presidente João Goulart pelos militares, Nascimento Brito denunciou em uma reunião da SIP os riscos a que estavam expostas as liberdades públicas no Brasil, incluindo a liberdade de imprensa. Naquele ano, tornou-se acionista majoritário do Diário de Minas e ficou na direção do periódico mineiro até 1966.

Em 1967, depois de uma viagem ao Vietnã, iniciou a publicação simultânea - no Jornal do Brasil e no jornal argentino La Prensa - de uma série de artigos intitulada O Vietnã que Eu Vi. Em 1972, promoveu a mudança do JB para sua nova sede, um prédio na área portuária do Rio. No mesmo ano, foi escolhido para compor o quadro do Centro para Relações Internacionais, nos Estados Unidos. Em 1975, assinou um acordo de cooperação técnica com o jornal chileno El Mercúrio, envolvendo o intercâmbio de notícias e a criação de uma agência de notícias latino-americana sob a forma de sociedade de economia mista. O JB passou a circular no Chile.

Em 1970, Nascimento Brito foi escolhido presidente da Associação Interamericana de Imprensa, a AII. Após tomar posse, escolheu para presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa o diretor-responsável do Estado, Julio de Mesquita Neto. Era a primeira vez que pessoas do mesmo país, que não os Estados Unidos, ocupavam as posições mais importantes da AII.

Arte - Como jornalista, recebeu os prêmios Maria Moors Cabot, Alberti Sarmiento e Jules Dubois. Nascimento Brito era defensor da qualificação profissional para o jornalista. ‘A tarefa jornalística, em todos os setores que a definem, já não pode ser exercida, como outrora, pela vocação pura e simples’, disse em uma palestra na PUC/MG, em 1971. Dizia que a profissão era uma arte moral.

Em 1971, durante o AI-5, Nascimento Brito foi chamado à Polícia Federal para explicar por que o JB publicara a lista de presos políticos que seriam trocados pelo embaixador da Alemanha, seqüestrado no Rio. Nascimento Brito ouviu do delegado que dormiria na cela. A ameaça não se consumou. Mas o diretor do jornal disse: ‘Agora vou lhe contar quem deu a informação, só para mostrar como são as coisas’. E revelou a fonte: o ministro da Justiça.

FRASES DE NASCIMENTO BRITO

‘O novo desafio da cobertura jornalística será melhor compreendido e enfrentado em termos de rigorosa qualificação profissional. Divulgar fatos e sobre eles opinar, num mundo em que eles se desencadeiam tão rapidamente e recebem a impureza de cristalizações insidiosas, é fazer cultura específica.’ (março de 1971) ‘Um jornal não se faz com reformas e revoluções meramente estéticas e sim com o aprimoramento, dia após dia, do seu conteúdo gráfico, evidentemente, e editorial, principalmente.’ (outubro de 1975) ‘O jornalismo foi para mim uma primeira opção. Ao longo do tempo, identifiquei-o como uma vocação, tardia, embora. Não lhe ouvi o chamado romântico na mocidade, mas pressenti-lhe as responsabilidades ainda jovem; aceitei o desafio.’ (agosto de 1980) ‘Acredito que a imprensa escrita terá a cada dia maior prevalência no País.

Nos últimos 20 anos, houve uma distorção em relação à importância da tevê.

Na realidade, a imprensa escrita, em especial o jornal, é o grande mote da opinião do País (...) Um jornal é um time, uma equipe com o mesmo objetivo.

Nossa imprensa não é nem pior nem melhor que a mundial e aqui no Brasil temos alguns grandes jornais, feitos por profissionais extremamente responsáveis e experientes.’ (1986) ‘O grande problema da imprensa brasileira, com honrosa exceção de poucos, é que todos são muito ordinários, se submetem direitinho ao poder’. (junho de 1990) ‘Esse jornal (JB) tem um grande patrimônio e ele se chama honorabilidade (...) Tenho 41 anos de jornal e nunca recebi nada de favor, de ninguém. É isso que espero que o jornal seja daqui a 200 anos’. (junho de 1990) (Colaborou Vanessa Spada)"

 

LM e Rodrigo Morais

"Amigos despedem-se de Nascimento Brito", copyright O Estado de S. Paulo, 10/02/03

"O corpo do ex-diretor-executivo do Jornal do Brasil (JB) Manoel Francisco do Nascimento Brito foi cremado ontem, por volta do meio-dia, no Memorial do Carmo, no Cemitério do Caju, na zona portuária do Rio. A cerimônia durou cerca de uma hora e foi acompanhada pela família e por amigos próximos. Nascimento Brito morreu às 7h40 de sábado, aos 80 anos, vítima de falência cardíaca, depois de passar 19 dias internado no Hospital Copa D’Or, em Copacabana, por causa de um acidente vascular cerebral.

Suas cinzas serão depositadas no mausoléu da família, no Cemitério São João Batista. Segundo sua filha Maria Isabel Brito, ainda não há data prevista para a cerimônia. Hoje, as cinzas deverão ser entregues à família. Durante 51 anos, o empresário comandou o Jornal do Brasil (JB) e esteve à frente da reformulação do jornal na década de 50.

No velório, realizado na capela principal do Memorial do Carmo, estiveram presentes o prefeito do Rio, César Maia (PFL), o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), o arcebispo emérito do Rio, dom Eugenio Sales, o presidente de honra da Fifa, João Havelange, e o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho.

Durante o velório, o cardeal d. Eugenio Sales ficou responsável pelas exéquias. O religioso, que há 30 anos escreve artigos para o JB, destacou a coragem como a principal característica do ex-diretor da empresa e seu papel na resistência à ditadura. ‘Durante o regime militar, havia um entendimento nosso. Ajudou-me em muitas atitudes a serem tomadas. Foi um homem de coragem. Isso é importante se aplicado para o bem.’

Irmão - O presidente de honra da Fifa, João Havelange, um amigo de infância de Nascimento Brito, a quem se refere como Maneco, classificou-o como um ‘orientador’. ‘Perdi mais do que um amigo. Perdi um irmão. Maneco foi um paladino do jornalismo brasileiro. Eu me acostumei a lê-lo e a seguir sua orientação. Foi a perda não só de um amigo, mas de um homem de cultura, de saber.’"


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