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ROBERTO MARINHO (1904-2003)
Míriam Leitão
"Não desistir", copyright O Globo, 8/08/03
"Os empreendedores permanecem nas empresas que criam. Mesmo quando se afastam do cotidiano. Mesmo quando morrem. Isso porque o fundador, aquele que realizou a empresa do nada, tem um carisma tal que fica na personalidade, no DNA das empresas. Eles são empreendedores porque são especiais, e especiais porque são empreendedores.
Quando vim trabalhar no GLOBO, há quase 13 anos, o jornalista Roberto Marinho já não era o homem que antes circulava pela redação. Cruzei com ele algumas vezes na redação. Foram raros os contatos. Mas as histórias passadas estavam aqui na redação. Sua marca, seu jeito, seu projeto. Depois, fui para a TV, para o rádio, para a TV a cabo. E reconheci a mesma marca: a da modernidade e do respeito ao trabalho do profissional, do convívio com a diversidade do pensamento, com a obsessão pelo Brasil e seus dilemas. Recentemente, fiz um programa na Globonews em que entrevistava simultaneamente três governadores: um estava em Rio Branco, Acre; outro, em Brasília, e o outro em Salvador, Bahia. Quando as três pontas foram ligadas por satélite, lembrei do pioneirismo da emissora fundada por Roberto Marinho que saiu por esta enorme federação ligando todas as pontas para que o Brasil falasse, visse, conhecesse o próprio Brasil. E, principalmente, se reconhecesse como o mesmo país.
O mundo hoje é dominado pelos modernos executivos profissionais, novos padrões de gerenciamento, decisões colegiadas, auditorias. É assim que o capitalismo se sofisticou. Mas o mais fascinante na economia de mercado ainda é o fato de que algumas pessoas conseguem fazer empresas. Elas criam empresas, superam dificuldades, produzem riqueza, empregam, são as partes vivas da economia. Não há manuais que as expliquem.
Roberto Marinho foi assim. Ele fez crescer a empresa em ambiente espantosamente adverso e teve um extraordinário sucesso. Para fazer comentários e coluna, refleti, nas últimas horas, sobre o ambiente econômico no qual a empresa nasceu e prosperou. As dificuldades iniciais foram tantas que qualquer um desistiria. A economia se constrói com homens que não desistem diante da incerteza, percalços, revezes. Esta é a marca que Roberto Marinho deixou."
Paulo Rabello de Castro
"O verdadeiro imortal", copyright O Globo, 8/08/03
"A imortalidade não existe. Não propriamente, como atributo dos existentes. Aliás, até porque a existência é a negação da imortalidade. Tudo o que teve um começo, por definição, terá seu fim.
A imortalidade surge, subjuntivamente, pela persistência da lembrança e pela retenção da memória coletiva da Humanidade. É nos outros e pelos outros que nos imortalizamos. Inclusive, às vezes, pela extensão dos nossos erros e desacertos, é que somos lembrados.
A preocupação com a imortalidade, além de inútil, pode revelar-se o mais poderoso obstáculo à sua realização. Não se conhece um único ‘imortal’ que se tenha preocupado em sê-lo. Pude recolher essa percepção de um imortal - o professor T. W. Schultz, Prêmio Nobel de Economia (1979) - que me comentou, certa vez, sobre sua reação pessoal ao receber a mais cobiçada comenda intelectual do mundo atual: ‘É preciso chegar lá, para a gente sentir que não muda nada.’
Creio que o enigmático sorriso do dr. Roberto Marinho, ao mesmo tempo terno e sagaz, como ele geralmente aparece nas recentes fotos publicadas por ocasião de sua passagem, a mim, pelo menos, reflete e repete, sem palavras, a mesma mensagem do meu saudoso professor Schultz: ‘Tudo isso não muda nada...’
De fato. Roberto Marinho permanecerá sempre o mesmo, pelo que fez e pelo que aconteceu, em cada dia de sua longa vida. Nós é que mudamos, por causa dele. Apesar de ele, pessoalmente, não haver mudado nada, ou muito pouco, por nossa causa. Porque tudo que fez, fê-lo para cumprir seu tempo, já que a hora era aquela.
Não estaria aí a chave do enigma da imortalidade? Que pensará o herói, o soldado que pressente o risco do sacrifício máximo da própria vida, ao lançar-se à frente dos balaços num gesto que só a coragem irrefletida pode impulsionar? O gesto, que depois será lembrado por haver posto fim ao fogo inimigo, salvando a pele de todos os demais companheiros, não terá custado mais do que o desprendimento do mártir. Para este, o gesto final não terá mudado nada para si, salvo pela perda da sua própria vida material, já que somente esta atitude far-lhe-ia sentido, se houvesse um depois. Para todos os outros, sim, este gesto terá feito toda a diferença do mundo, por ter calado o inimigo e salvado o resto da tropa.
Tal paradoxo marca a extensão do sucesso criativo, empresarial e afetivo de Roberto Marinho, com suas idéias, transformadas em projetos de vida, de suas empresas, transformadas em benchmarks de qualidade e de seus conviventes, transformados em tocheiros de sua memória.
Cada um terá sua história para contar sobre ele, como eu também teria meu pequeno fragmento, compondo o que seria um maravilhoso mosaico, um incrível mural feito de ladrilhos dos mais diferentes tons e tamanhos. Para quem compôs este grande mosaico, a obra está pronta, concluída, e não importa mais. Ela fala e falará por si mesma.
O verdadeiro imortal é aquele que, afinal, consegue apenas cumprir integralmente a finalidade do seu tempo. Não importando que seja curto, ou cabendo num simples gesto, ou longo e pedregoso, composto das iniciativas mais diversas, ou até anônimo, despojado de qualquer memória humana, desde que tenha servido para cumprir sua parte no grande script universal.
Como diz o impagável sorriso desse imortal brasileiro, cidadão do mundo e amigo do universo, para ele mesmo sua passagem tampouco muda nada, menos para nós que agora ficamos mais ricos pela imortalidade do seu exemplo."
José Sarney
"Um repórter que se fez legenda", copyright O Globo, 8/08/03
"Cada país e povo têm seu período de grandes desbravadores, personalidades fortes, que abrem caminhos, não aceitam resistências e cumprem seu caráter missionário.
Uns o fazem na descoberta de territórios, ocupação de terras, não têm limites na coragem nem na determinação da vontade de aventura. Outros são evangelizadores, condutores de gerações, na tarefa de transmitir ensinamentos, criar escolas.
Outros ainda são os visionários de progresso, os capitães de indústria, os promotores da riqueza. Em geral são pioneiros, senhores do desconhecido, arquitetos de novos espaços em todos os domínios do saber e do fazer humanos.
Roberto Marinho foi um desbravador, uma destas personalidades fortes, que abrem caminho, que vencem as resistências e constroem novos espaços para sociedade. Ele não foi o injustiçado, o que se perdeu no caminho, o que viveu frustrações. Toda a sua vida foi uma trajetória de construção e vitória, condenada, como ele mesmo acentuava, ao sucesso.
Tinha as virtudes do jornalista profissional, a vontade determinada, a coragem sem temeridade, a visão precisa do futuro e uma extraordinária capacidade de liderança e chefia, linha vertebral da sua personalidade. Todas suas responsabilidades na vida pessoal não o faziam perder a visão do bem público, do interesse nacional, e, nisso, era um político com a noção exata do homem de Estado.
Gostava de se assinalar como repórter, mais que como articulista. Este, o da análise, da interpretação. O outro, aquele que lida com fatos e o desejo de divulgá-los.
Presenciei algumas vezes esse gosto incontido de Roberto Marinho pela notícia, pelo furo, pela informação. Muitas vezes, como presidente da República, tive o privilégio de usufruir das idéias e do testemunho do homem que vivera momentos cruciais de nossa História, que convivera com todos os grandes homens de seu tempo, políticos, cientistas, artistas, escritores. Uma memória viva do país, observador privilegiado, e, em sua grande inteligência e acuidade, capaz de julgamentos e conclusões exatas e profundas.
Em algumas dessas conversas, quando abordava questões de governo, ele, com extrema lealdade, separava do fato as reservadas razões de Estado. E aí me perguntava o que podia divulgar, um pouco daquilo que se pratica no jornalismo, em relação às fontes: o off e o on . ‘Posso divulgar?’ Quando dizia sim, seus olhos brilhavam. Pedia licença para usar o telefone e ei-lo, no exercício de todo o seu prestígio de homem mais importante da comunicação no país, a chamar a redação de O GLOBO, descobrir onde estava o redator e passar-lhe a informação.
Homem de grande educação, afável, cavalheiro, fina sensibilidade, nunca, nem de leve, tentou usar seu poder para influenciar decisões de governo.
Roberto Marinho tem um lugar definitivo na história da comunicação no Brasil. Ele explorou, quando ela engatinhava, todas as potencialidades da televisão. E dela o Brasil passou a ser, na técnica e no conteúdo, referência mundial, bem como o império que ele construiu em todos os ramos da informação, do jornal à internet. Tinha a grande e excepcional virtude de formar equipes, descobrir talentos, delegar, cobrar, acompanhar. Exemplo maior, a formação de seus filhos João Roberto, Roberto Irineu e José Roberto, preparados para seguir a sua obra, como estão fazendo com grande competência.
Foi um trabalhador infatigável. Da redação dos jornais guardou o espírito crítico e o gosto pela informação. Modernizou o jornal e a televisão, não só na introdução de equipamentos de ponta, mas também no conteúdo, na linguagem, na forma e no estilo de fazer.
Como jornalista, distinguiu-se pela precisão na linguagem, indo ao âmago das questões; e, em momentos difíceis da vida nacional, os seus famosos editoriais indicaram e influenciaram rumos.
Sua solidariedade implicou, muitas vezes, em gestos de resistência, quando abrigou com grande generosidade, nas suas empresas, colegas de jornal perseguidos por idéias que podiam ser muito diferentes das suas.
No centro da personalidade de Roberto Marinho sempre estiveram o homem de espírito público, de sensibilidade artística, promotor das artes e grande amante da pintura, grande defensor da natureza, amante de pássaros, bichos e peixes, e o homem de formação cristã, reunindo uma família que cultiva os seus valores e preserva o seu espírito.
Sua personalidade de muitas facetas sintetizou as virtudes dos pioneiros que constroem impérios enquanto cultuam e exercitam os valores do espírito.
Pessoalmente tive a felicidade de desfrutar do seu convívio e de sua amizade. Com sua morte desaparece uma legenda da História contemporânea do Brasil. Uma figura humana inconfundível que fez parte do imaginário brasileiro do século XX."
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