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ROBERTO MARINHO (1904-2003)
Luís Nassif
"Um empreendedor nato", copyright Folha de S. Paulo, 8/08/03
"Nos anos 50, o jornal ‘O Globo’ ainda não tinha o peso editorial de hoje, mas a rádio era bastante influente. Tanto que teve papel decisivo no suicídio de Getúlio Vargas, abrindo seus microfones para Carlos Lacerda. Houve algumas experiências na área da revista, com uma publicação acanhada, ‘Rio Magazine’, se não me engano, que tentava emular a ‘Sombra’, a grande revista sofisticada dos anos 40.
Mas a grande aventura empresarial de Roberto Marinho no campo da mídia, algo só superado pelo império de Assis Chateaubriand, foi a fundação da Rede Globo.
Em meados dos anos 60, a televisão estava dividida entre a poderosa Tupi, dos Associados, a Record, dos Machado de Carvalho, a Excelsior, dos Wallace Simonsen.
Marinho entrou na área com lances de pura audácia e visão estratégica. Sua parceria com o grupo Time-Life -alvo de CPI, dentro do clima conspiratório do período- foi jogada de larga visão.
Os americanos entraram com capital, mas, acima de tudo, com know-how. Ensinaram como organizar comercialmente o negócio, como analisar os indicadores de audiência, como gerir aquele bicho TV que mal engatinhava.
Ao mesmo tempo, Marinho foi buscar no mercado o que havia de melhor, do tino comercial de Walter Clark à visão de TV de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Não apenas isso. Conferiu poder e participação nos negócios a ambos e profissionalizou a empresa, acabando com o estilo ‘bico’ que dominava o jornalismo da época.
Quando percebeu que já dominava o veículo TV, começou a pressionar os americanos para que saíssem. Chegou a oferecer os 50% da Time-Life para o banqueiro Walther Moreira Salles, por US$ 5 milhões da época. O negócio não prosperou porque os americanos relutaram em sair.
Coincidência ou não, teve início uma pesada campanha no Congresso contra a presença da Time-Life, capitaneada pelo senador João Calmon, um dos membros do condomínio dos Associados.
Com pressão por todo lado, os americanos aceitaram sair do negócio. Em vez de sócios, Marinho conseguiu um financiamento salvador do banco Nacional, por meio de seu diretor no Rio, José Luiz de Magalhães Lins.
Comprada a parte dos sócios, a Globo explodiu nos anos 70 como o primeiro veículo de massa nacional na área de entretenimento. Foi das primeiras empresas brasileiras a ter padrão internacional de qualidade, a analisar o telespectador como cliente, a planejar cada passo da programação. Ao mesmo tempo, Marinho dava prosseguimento à sua estratégia transformando ‘O Globo’, até então um jornal popular, em publicação com peso editorial. E, em seguida, o Sistema Globo de Rádio em uma das maiores redes de emissoras do país.
Dos anos 70 em diante o poderio da Globo deu margem a inúmeras interpretações conspiratórias, de que só teria sido possível com a ajuda maciça do regime militar.
Foi muito mais que isso. Quase se envolveu com política no início da década de 80, no controvertido episódio Proconsult -de apuração das eleições nacionais. Depois se tocou de que era muito mais poderosa e permanente que as idas e vindas da política. E se tornou uma instituição nacional."
Daniel Piza
"Babélicas", copyright O Estado de S. Paulo, 10/08/03
"Em países culturalmente mais maduros, um personagem da história como Roberto Marinho e sua obra, as Organizações Globo, seriam tema de diversos livros, especialmente de livros que não se confundiriam nem com encômios nem com panfletos. Mas ele morreu pouco conhecido, envolto pela névoa de elogios dos que cercam os poderosos, e esse é obviamente um déficit cultural. Afinal, a maioria dos brasileiros assiste a no mínimo 3 horas por dia de TV Globo - sua sobremesa diária de informações, valores e comportamentos.
Odiar o que a Globo representa era, e em menor grau é ainda, um esporte da esquerda universitária. Me lembro de quando reuni os amigos para uma sessão do documentário do Channel Four (inglês) que fazia um resumo das acusações contra o grupo, a começar pelo acordo com a Time-Life sob auspícios do regime militar. Desde então até a famosa edição do debate entre Lula e Collor em 1989, a história das ligações políticas da Globo é muito falada e pouco pesquisada; consta que um de seus principais assessores, Jorge Serpa, circulava com muita intimidade nos gabinetes militares. Além disso, todo império desperta antipatia, por sua arrogância e falta de sutileza. No entanto, o de Roberto Marinho se estabeleceu também por competência e talento e se expandiu pelo Brasil graças a uma série de decisões estratégicas. Em terra de maus empreendedores, quem sabe administrar é rei.
As telenovelas, por exemplo, saíram do modelo hispano-americano e o superaram. Misturando tipos melodramáticos, alternando cenários regionais e urbanos e explorando assuntos quentes, elas se tornaram um dos maiores focos de identidade nacional. O telejornalismo também soube aliar a notícia local, em todos os cantos do país, com os grandes temas do dia, tudo devidamente encerrado por uma matéria edificante. Nos fins de semana, os programas de auditório, os de esporte e a revista ‘cabe-tudo’ Fantástico também se tornaram marcas registradas. E os programas de humor e as adaptações literárias fizeram sempre o contraponto de vanguarda. Com tudo isso, em pouco mais de três décadas a Globo formatou a grade cotidiana do brasileiro de todas as classes - e as vezes em que foi ameaçada foram poucas e breves.
Eu gostaria de saber mais sobre a participação real de Roberto Marinho, que sempre teve a sabedoria dos poderosos de contratar os ‘futuros ex-inimigos’, em muitas dessas decisões que fizeram da rede o que ela é. Gostaria de saber até que ponto as coisas foram previstas ou imprevistas. Mas quem sabe um Fernando Morais não escreva, em breve, uma história desse Chatô pós-moderno, rei do Brasil na segunda metade do século 20, menos aventureiro e mais profissional, que deixou herança tão mais sólida e duradoura.
Zapping
Não que a Globo não ande em má fase. As novelas da seis e da sete decaíram muito. A das nove, que poderia se chamar Mulheres Enlatadas, soa como conversa de comadres. O telejornalismo é apenas correto e o Globo Repórter caiu na mesmice ecológica. Os programas de auditório são insuportáveis e as transmissões esportivas colecionam gafes e gritos. Os Normais, como previsto, não tem mais para onde ir. O que sobra é pouco, muito pouco, embora sempre superior ao que as outras emissoras abertas fazem.
O que vejo, além de alguns jogos de futebol (de preferência na ESPN Brasil) e alguns capítulos de novela (também por sociologia, enquanto folheio algum livro ou revista), são alguns sitcoms (Sex and the City, Seinfeld, etc.), o Milênio da GloboNews, o Inside Actor’s Studio e alguns documentários no GNT e, eventualmente, filmes nos Telecines. Mas tenho saudades de quando me distraía com HBO e Bravo na TVA.
Lágrimas
Ou uma verdadeira chuva de lágrimas: os músicos Compay Segundo, Benny Carter (duas provas de que a música, como o vinho, traz longevidade, e não as malhações nas academias), Célia Cruz, Paulinho Nogueira e Noite Ilustrada e os comediantes Bob Hope e Rogério Cardoso - todos foram fazer do céu um lugar muito mais divertido.
Também lamentável a morte, no Rio, de Wilson Coutinho, editor e jornalista, crítico de arte raro por sua capacidade de unir densidade analítica e fluência verbal.
Cadernos do cinema
O cinema me divertiu pouco nas férias. Muito Longe do Paraíso, de Todd Haynes, com bela fotografia e o talento de Juliane Moore, tenta ser sutil, mas na verdade é moralmente esquemático, em sua correção política e estética. Tomamos partido facilmente.
E Dez, de Abbas Kiarostami, embora curto e interessante, é tedioso por causa da câmera fixa. O cruzamento daquelas histórias universais com a realidade local, que faz pensar em como a sociedade de consumo pode produzir ‘monstrinhos’ numa cultura fortemente machista e fatalista, poderia ser igualmente mostrado em outra dinâmica narrativa.
O ludopédio
Acompanhei a Copa Ouro, mas os problemas não estiveram apenas na altitude da última partida. Kaká teve momentos incisivos, fez dois golaços contra a Colômbia e, apesar de individualista, provou que é o craque de sua geração.
Diego é bom, só que continua prendendo demais a bola para tentar sofrer falta. Robinho, que era endeusado por todos os comentaristas, exceto um, de novo exagerou nos dribles e errou nas finalizações. E um centroavante fez falta, embora Nilmar seja um atacante com potencial. O restante foi mediano.
Os comentaristas também começam a perceber que o Campeonato Brasileiro, que acaba de iniciar o returno, tem nível sofrível. Com a saída recente de mais jogadores para a Europa (como Deivid, já fazendo falta ao Cruzeiro), a tendência é piorar. O Brasileirão se tornou um campeonato de jovens inexperientes e veteranos desanimados. Pode verificar que os melhores times - Cruzeiro, Santos, São Paulo - são os que destoam um pouco disso, graças aos elencos e técnicos. Mesmo assim, ninguém vai compará-los com o Palmeiras de 94 ou o Corinthians de 99, para ficar em dois exemplos do último decênio.
Por que não me ufano
A grande ingenuidade dos analistas foi supor que o apelo popular de Lula e uma hiperdosagem de ortodoxia econômica fossem bastar para o país se ajustar em direção a um ‘ciclo virtuoso’. Cansei de escrever, durante a campanha eleitoral, que a guinada oportuna e oportunista de Lula no segundo trimestre de 2001 criaria expectativas altamente contraditórias em diversos setores da sociedade. Eis o preço sendo pago, e num país com tantos problemas ele jamais seria barato. É hora de governar.
Minha preocupação maior é com a indefinição e a incapacidade gestora. A recriação da Sudene (cujo problema exclusivo seria a corrupção), os desmandos do ministro da Ciência e Tecnologia (atingindo agora, com seu populismo, os centros de excelência), os ensaios do BNDES (como a transposição da Bacia do Tocantins para um ultra-assoreado Rio São Francisco) e a tunga tributária crescente (no ISS, por exemplo) mostram um governo perdido e voraz ao mesmo tempo. Ai de nós.
Aforismos sem juízo
Todo encanto se quebra. Se não se quebrasse, não seria encanto."
Mariana Jacob
"Salto para a saúde", copyright Jornal do Brasil, 8/08/03
"Uma série de fatores contribuem para a longevidade, desde hereditariedade até os hábitos pessoais. Mas tão importante quanto a longevidade é o que defino como ‘longevitalidade’, ou seja, a vitalidade física e mental do organismo. E nisto o Dr. Roberto Marinho foi um exemplo. Além da disciplina com que cuidava de sua saúde e dos esportes por ele praticados - que em muito contribuíram para sua longevidade -, o presidente das Organizações Globo manteve-se vital até o fim. Como se sabe, pensou, criou e trabalhou até o último momento.
Segundo classificação da Organização Mundial de Saúde, uma pessoa longeva é aquela que vive por mais de 90 anos. A longevidade está diretamente ligada à hereditariedade. Entretanto, os avanços da medicina a tornaram mais freqüente: as vacinas previnem as doenças, a cada dia descobre-se um antibiótico mais potente, os remédios permitem que se viva por muitos anos convivendo com doenças como a hipertensão e os métodos cirúrgicos se sofisticaram.
Mas no que depende de cada um de nós - e o exemplo de Dr. Roberto é prova disso -, o segredo para a longevidade reside na educação e disciplina quanto à saúde. Deve-se fazer controle médico anual, mesmo que não se sinta nada preocupante, e praticar esportes seguindo as orientações de cardiologistas e ortopedistas.
Alimentar-se corretamente e evitar o excesso de peso são importantes precauções contra problemas como artrose e distúrbios da coluna. E, igualmente essencial, é manter a mente ativa. Assim, chega-se à tão sonhada longevidade, acompanhada da vitalidade física e mental do organismo. Mariana Jacob é médica geriatra e colunista da Domingo"
Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho e José Roberto Marinho
"Ampliar o compromisso", copyright O Globo, 8/08/03
"Neste momento de extrema dor, a manifestação de respeito, carinho e admiração do povo brasileiro pela figura de nosso pai nos comoveu, nos emocionou e nos consolou. A imagem de dois estádios de futebol, logo após o anúncio de sua morte, com jogadores, árbitros, dirigentes e, fundamentalmente, o povo prestando um minuto de silêncio é uma cena que guardaremos para sempre em nossa memória. Da mesma forma, foi eloqüente o minuto de silêncio que a Câmara dos Deputados também fez em homenagem a Roberto Marinho, interrompendo uma votação importante, envolvendo pontos de uma reforma tão polêmica como a da Previdência. Também as palavras sobre a sua importância, vindas de jornalistas, artistas, escritores, políticos, empresários, esportistas e gente do povo nos tocaram profundamente. Seremos eternamente gratos por estes gestos.
MAS MAIS do que nos consolar, todas estas manifestações reforçaram em nós a convicção de que a morte de Roberto Marinho só aumenta a nossa responsabilidade. Porque deixam claro que o povo brasileiro reconhece espontaneamente não somente a relevância de nosso pai para a vida do país, mas principalmente de sua obra. Uma obra que sempre se pautou pela defesa do patrimônio nacional, da cultura brasileira, e dos valores mais caros ao Brasil.
O POVO brasileiro se vê em nossos jornais, rádios, televisão, internet e na Fundação Roberto Marinho. Porque somos brasileiros trabalhando para brasileiros. Quando, hoje, avaliamos o legado de nosso pai, temos orgulho de todos os nossos veículos, seja O GLOBO, onde tudo começou, ou o ‘Extra’ e o ‘Diário de S.Paulo’, iniciativas mais recentes, ou o Sistema Globo de Rádio, Editora Globo, a Globosat e a Globo.com. Porque retratam e defendem o nosso país. A TV Globo é uma emissora com seis horas diárias de jornalismo de qualidade no ar e com uma produção artística genuinamente nacional em volume sem igual no Brasil. É nela que o nosso povo se informa e se diverte, o que a torna um fator importante de integração nacional. Tudo isso demonstra que a obra de nosso pai é uma contribuição decisiva para a manutenção da nossa cultura e para defesa dos valores democráticos do nosso povo.
A VIDA de Roberto Marinho foi sem dúvida vitoriosa, e esta é a imagem que o povo brasileiro guarda dele. Mas ele foi vitorioso também porque soube superar uma a uma as crises, algumas graves, que se puseram em seu caminho. Em nosso longo convívio, aprendemos com ele a buscar sempre a verdade; a fazer tudo com a qualidade que o nosso povo exige, e com a ética de que não podem abrir mão os homens de bem. E com ele aprendemos como manter no rumo as empresas vitoriosas que fazem parte das Organizações Globo. Obstáculos virão, mas, como nosso pai, saberemos superá-los.
PORQUE também com ele aprendemos a lição mais importante: a obra de Roberto Marinho partiu de um ideal dele, mas só pôde ser concretizada porque foi o resultado de uma aliança entre jornalistas, artistas, escritores, profissionais da cultura e o povo brasileiro. Não somente preservar, mas ampliar essa obra é o nosso compromisso. E ela será ampliada, não apenas porque este é o nosso desejo, mas porque pretendemos manter intacta esta aliança que a originou. Esta é a nossa intenção, esta é a nossa determinação, este é o nosso compromisso."
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