|
JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu
"Paulinho Moreira... Franco", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 9/05/03
"Paulinho Moreira Leite, que deixa a direção de Época para voltar a ser repórter, agora em Nova York, foi meu foca no Jornal da Tarde, de São Paulo, no início dos anos 70. Talvez tenha sido o aprendiz mais talentoso: esperto, sempre de bom humor, estudava e treinava para escrever bem. Rapaz ainda por cima bonito e de boa voz, sugeri que fizesse uma experiência na televisão e o apresentei a José Itamar de Freitas, então Diretor-Geral do Fantástico. Durante algum tempo, Paulinho encantou o pessoal do programa e, principalmente, as meninas da Globo, porém resolveu fazer as pazes com a vocação e voltou à mídia impressa; fez bela carreira, como sabemos. Recentemente, em meio à crise que assaltou Época, foi obrigado a demitir parte da equipe. Uma das vítimas do chamado passaralho escreveu-me para comentar o degredo americano desse que, de uma hora para outra, se transformou em ex-chefe e ex-amigo. E, em pleno exercício da mágoa, o demitido, que ainda perambula pela rua da amargura, perpetrou a frase que provocou esta reação de Janistraquis: ‘Considerado, vamos publicar na coluna, Paulinho vai entender; não devemos perder a piada... nem o amigo!’. Ei-la, a frase impiedosa: ‘Paulinho Moreira Leite é que nem Itamar Franco - quanto mais longe, melhor’.
******
Notícia maluca
Deu na seção de falecimentos do Estadão:
‘MISSAS -- Etty Fraser. Hoje, às 12h30, na Igreja do Orfanato de São Judas Tadeu, atrás da Igreja de São Judas (7º dia)’.
Roliça e saudável nos seus 72 anos bem vividos e melhor interpretados, a atriz recebeu a repórter do jornal, que a visitou para reparar o malfeito, pois o falecido fora seu marido e companheiro de palco, Chico Martins. Dizia a matéria: ‘Ela viu com humor o equívoco - a troca de nome do seu marido pelo seu - na página de falecimentos do Estado. ‘Já me aconteceu antes’.
Janistraquis quedou-se apalermado com a derradeira frase: ‘Considerado, se algo tão absurdo já aconteceu antes com a Etty, está desmoralizada aquela conversa de que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar!!!’. É verdade.
******
Êêêêêêêêpaaaaa!!!!
Chamadinha para a editoria de Cultura de O Globo on-line: Claudia Abreu mete e sente medo. Na minha idade, coisa tão explícita provoca sustos preocupantes e, mesmo antes de ler o texto, corri a beber dois copos de suco de maracujá, porém Janistraquis me substituiu no computador e gritou lá do escritório: ‘Considerado, fique frio que não é o que você está pensando!’. Refeito, pude ler: ‘Atriz vive pela primeira vez nos palcos o fantasminha Pluft, que tem medo de gente’. Ainda bem, ainda bem, suspirei, e mais tranqüilo fiquei com a observação do meu secretário: ‘O título é deveras assustador, mas poderia ser pior. Que tal Claudia Abreu sente medo e mete?’
******
Roldão perde a paciência
Abaixo do título Papa bate mais um recorde, o Correio Braziliense mandou ver: ‘Apesar das doenças que o afetam, João Paulo II se supera cada vez mais: hoje completa 24 anos, seis meses e 15 dias à frente da Igreja Católica. Já tem o quarto papado mais longo da história’.
O Diretor da sucursal desta coluna em Brasília, Roldão Simas Filho, escreveu ao jornal: ‘Não entendi o motivo da comemoração; afinal, 1º de maio não é data ligada ao Papa. Nem é aniversário dele (é no próximo dia 18). Ele não é o papa mais velho: João Paulo II vai fazer 83 anos e Leão XIII passou dos 90 anos. O papado de João Paulo II completará 25 anos daqui a cinco meses e 15 dias, se Deus quiser, e aí pode ser lembrado, mas mesmo assim não será recorde. Qual foi então o recorde que o Papa bateu hoje?’.
******
Tá tudo pirado!
Chamada de capa do site do UOL: Aluna é baleada em faculdade do Rio; Garotinho determina operação em morro.
Meu secretário ficou revoltado: ‘Considerado, é o absurdo dos absurdos! Ora bolas, se a aluna foi baleada na faculdade, trata-se de grande sacanagem Garotinho determinar que ela seja operada justamente no morro de onde veio a bala! Além do mais, o acesso é ruim e no tal do Turano nem existe hospital equipado para isso; e, ainda por cima, Garotinho não é médico!!!’.
Huuumm... a situação é mesmo de deixar qualquer um pirado; piradíssimo.
******
Artista de cinema
Janistraquis passou os olhos no site Direto da Redação, leu as graves considerações intelectuais de Leila Cordeiro acerca do cinema brasileiro, considerações ilustradas com puxões nas orelhas de Cacá Diegues, e não resistiu: ‘Considerado, Leila Cordeiro não é aquela bonitona dos olhos verdes que a gente via na Globo? Pois ela acha que morar em Miami é um importantíssimo estágio cultural!’ É mesmo; algo como cursar a Sorbonne.
******
Nota dez
De Augusto Nunes, em sua coluna do Jornal do Brasil, referindo-se ao ‘Curral dos Idosos’, criado pelas empresas de ônibus do Rio de Janeiro para evitar que os maiores de 65 anos exerçam (com alguma dignidade) seu direito à passagem gratuita: ‘O Brasil tem produzido gerações sucessivas de crianças traídas. Vai-se tornando também a terra da velhice torturada.’
******
Errei, sim!
‘SÃO PAULO, USA - Sesquipedal digressão da Folha de S. Paulo, para a qual Janistraquis preferiu não reservar quaisquer comentários, por dispensáveis: ‘São Paulo pode ser considerada a oitava cidade dos Estados Unidos em número anual de crimes (...). A Polícia Civil estima que o Rio de Janeiro ocuparia o quinto ou quarto lugar no índice das cidades mais criminosas dos Estados Unidos’.(julho de 1991)"
JORNALISMO & POLÊMICA
José Paulo Lanyi
"Sobre polêmicas", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 7/05/03
"O jornalismo brasileiro é feito de glórias e de fiascos - como qualquer outro, mundo afora. Escrevo-o para reforçar a aversão aos pensamentos generalistas. Estes ganham corpo em nossa contemporaneidade - vento às costas, parece fadada a capitular ao rabo da sereia do laissez-faire, mergulhada em champanhe e em boas palavras de encorajamento.
Repudio os que vivem das polêmicas. Deixei-o claro no artigo ‘O embuste bem pago’ (leia no arquivo desta coluna). De igual modo, considero danoso ao exercício do bom jornalismo o pensamento dos que - por nobres e pacificadores que sejam - escoram-se em preconceitos para minimizar os embates.
Evocam uma neutralidade superior. Pairam absolutos sobre os contendores e, mais grave, sobre os matizes da dissensão - incluam-se as causas, o mérito e as conseqüências pessoais e coletivas - tudo isso seria indigno de um exame. Rechaçam a prudência e alinham os debatedores. Serão esses grosseiros e vaidosos. A soberba, dirão os ‘neutros’, é o mote da ação e da reação; tudo o que dista de um ideal estético reconhecido como ‘elegante’ será classificado como ‘grosseria’, como ‘de baixo nível’.
A vaidade, em minha opinião, é um mal, é uma raiz que, de fato, impedirá o movimento das marés das nossas certezas. A vaidade não volta atrás, não pede desculpa ao leitor, não assume as suas falhas. A vaidade não tem crédito. É humana? Sim. Seremos vaidosos, todos, aqui e ali? Sim. Em todos os momentos? Alguns, sim; outros, não. O argumento genérico de que a mais dura das polêmicas sempre encerrará um punhado de corações necessariamente vaidosos é uma falácia, à larga distância do rigor mínimo do pensamento. Pedir que se examine, criteriosamente, a produção intelectual e a história de vida dos ‘polemistas’ será entendido, uma vez mais, como ‘vaidade’. Mesmo que uma rotina de anos de trabalho o desminta.
Não deveria ser assim. Sobretudo, ao dançar da pena de jornalistas, profissionais que têm o dever de mensurar com base em informações. Há uma agravante no julgamento superficial e estabanado: não raro esse dados são públicos. Mas o preconceito não gosta de pesquisar. Mais: o preconceito também é vaidoso, está acima do bem e do mal, é ‘equilibrado’ e põe-se a repreender os ínferos.
Responder ou não responder
Responder ou não a um ataque é decisão solitária, cabe ao agredido, não à platéia. Quer-se pregar um ‘corolário’: o de que não responder é atributo dos sábios e dos elegantes. Quem despreza o agressor mas lhe responde, em verdade não despreza o ofensor.
Pensamentos como esse solapam a engrenagem civilizatória, cujo combustível, grosso modo, é o atrito. A cultura cristã poderia explicar a fixação pelo virar da outra face. Mas não é só. O conceito de ‘superioridade obrigatória’ dos que se calam é, antes, um sintoma de uma peste sorrateira que, em silêncio, abate a tudo e a todos, dentro e fora das redações. Teremos, pois, de demitir 500 profissionais de uma só vez: a culpa será da crise; todos têm de entender o corte; as interjeições do demitido serão ‘deselegantes’; as demandas trabalhistas serão deploradas - claro, tudo sob a etiqueta da meiguice. Há, ainda, os que, mui calmamente, dão guarida às decisões as mais nocivas para os seus leitores. Basta, como exemplo, a direção apertar a mão de um governo. Todos seremos, a partir de então, elegantemente antiprofissionais. Não há o que reclamar. Nossas edições mancas serão revestidas com o pano do brasão de um governo que, graças aos céus, nunca vai acabar - porque logo virá mais um.
A crítica da mídia não deve criticar pessoas, dizem outros. Se o fizer, sofrerá os necessários contra-ataques- quaisquer que sejam eles, quaisquer que sejam os métodos da reação, éticos ou antiéticos. Não importa. Bateu, com ou sem razão, é porque quer aparecer e tem de apanhar. Reagiu ao contra-ataque? É ‘personalista’.
O próprio humor é inaceitável, suponho eu. Ainda que tenha o poder de ridicularizar, com base em provas de distorção de caráter, sob o bafo de práticas públicas criminosas, esse, o sagrado humor, será uma manifestação inequívoca de desequilíbrio e de mau gosto - outra conclusão subjetiva. Nove entre dez jornalistas enaltecem o talento, a sagacidade do José Simão. Eu estou com a maioria, embora não goste de tudo o que ele escreve. Pois bem: o que ele faz é jornalismo humorístico. Uma piada do Zé Simão é um petardo, é uma crítica. Por que o colunista da Folha é tão apreciado? Porque ele é inteligente, tem boas tiradas e quase sempre escolhe bem o alvo. Poucos jornalistas dirão que ele é ‘vaidoso’ e ‘de mau gosto’, em seu exercício diário. Por quê? Porque ele é pago para escrever a coluna. O Zé Simão é contratado pelo jornal e deve cumprir a sua obrigação de criticar. O texto de Simão deve conter piadas sobre os fatos e os personagens públicos. Em contraposição, o partícipe de uma ‘polêmica’, ainda que tenha cumprido o seu dever, ainda que por isso mesmo tenha sido agredido, deve manter a ‘elegância’, não pode usar do artifício do humor.
A palavra é a roupa da idéia, pontificava o semiólogo suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913). Não penso que devamos usar o mesma traje em todas as ocasiões. Lembro a todos: jornalistas estão sujeitos a críticas diretas. Nenhum jornal acorda e, cheio de palavras novas, vai sozinho para as bancas.
A submissão ao ‘mercado’ criou o que classifico de ‘jornalismo neutrox’ - neutro, perfumado, limpinho, asséptico. Se determinado programa de televisão é antiético, ‘tem o público dele’ (traduzindo: é um produto e deve ser aceito na prateleira, muita gente gosta); se uma jornalista escreve mentiras, ‘tem o público dela’; se, na redação, outro foi o prejudicado, ‘felizmente estou longe disso, eles que resolvam’. O ‘jornalista neutrox’ é assim: ‘se o mau-cheiro está longe das minhas narinas, os sujos que resolvam’. Não nos esqueçamos, porém: mentira cheira mal. Goste-se ou não, alguém tem de meter a mão nessa nojeira. É também para isso que nós, jornalistas, existimos, afinal."
|
|