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DICIONÁRIO DA TV GLOBO
Martha Mendonça
"‘O almanaque da telinha", copyright Época, 13/7/03
"Quando a novela Escrava Isaura foi ao ar, em 1976, Gilberto Braga, que adaptou o romance para a TV, foi proibido de usar a palavra ‘escravo’ no texto. No período, anterior ao processo de abertura política, a Censura preferiu que ele usasse o termo ‘peça’. A curiosidade faz parte do Dicionário da TV Globo (Jorge Zahar, 940 páginas, R$ 59), obra com 1.500 verbetes relativos à área de dramaturgia e entretenimento da emissora desde sua criação, em 1965. Há sinopses, comentários e bastidores sobre 220 novelas, 56 minisséries, 21 seriados, 49 humorísticos e 164 musicais que se confundem com a história do país.
Além da ação da Censura, os bordões e modismos criados pelos programas são o grande destaque do dicionário -iformações que servem tanto para estudantes e teóricos da comunicação quanto para telespectadores curiosos. Lembrar do corte de cabelo usado por Tônia Carrero em Pigmaleão 70 (1970), que terminou por ganhar nome igual ao da novela, ou saber que houve aumento de 80% na venda de perucas no país graças ao Sinhozinho Malta, personagem de Lima Duarte em Roque Santeiro (1985), mistura informação com puro prazer.
‘A idéia é que o leitor veja sua vida refletida na história da programação da Globo’, diz Luiz Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação. Não é para menos. Em quase 40 anos de existência, a emissora sempre apostou numa produção própria, nacional. E a dramaturgia, quando não traz a adaptação de algum romance da literatura nacional, embute na trama elementos do cenário político-social do país. Não há como negar que em novelas como Vale Tudo, Pátria Minha ou Que Rei Sou Eu? o brasileiro se viu na televisão.
O Dicionário da TV Globo é um dos primeiros resultados do Projeto Memória Globo. Desde 1999, um grupo formado por jornalistas, sociólogos e antropólogos começou a fazer entrevistas com atuais e antigos funcionários da emissora com o objetivo de resgatar as histórias de quem viveu essas quatro décadas da que é hoje a maior rede de televisão do Brasil. Em dezenas de horas de áudio e vídeo, a equipe do Projeto Memória percebeu que tinha nas mãos um arquivo de cultura popular sem precedentes.
O livro é dividido em seções: de modas criadas por personagens de novelas a informações tecnológicas. De personagens da cultura nacional a trilhas sonoras feitas especialmente para determinados programas. Numa seção, são destacados os grandes talentos nacionais surgidos na própria Globo, como Glória Pires e Malu Mader. ‘Tivemos dificuldades em relação aos programas mais antigos, que não têm informação bibliográfica. Além disso, muitas fitas foram perdidas em três incêndios na emissora’, diz Sílvia Fiuza, coordenadora do Projeto Memória.
O segundo volume do dicionário deverá ser de telejornalismo e esporte, temas considerados de execução mais difícil. A equipe do Projeto Memória estuda a melhor forma de editar um material que, desta vez, inclui depoimentos e questões polêmicas, como, por exemplo, o debate entre Lula e Collor em 1989. Só o Jornal Nacional já tem quase 90 páginas."
POR QUE LER CONY
Flavio Pinheiro
"Novo guia para os perplexos", copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 11/7/03
"Renato Lessa é cientista político e leitor voraz de boa literatura. Admite que suas preferências literárias são ‘legionárias e promíscuas’. Mistura Virgílio, Dante, Shakespeare, Molière, Celine, Kafka, Joyce, Thomas Mann, Eça de Queirós, Jorge de Senna, Bioy Casares, Jorge Luis Borges, Primo Levi e Elias Caneti. Entre os brasileiros os obrigatórios Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, mas também Cornélio Pena, Marques Rabelo, Mario Filho e, é claro, Carlos Heitor Cony.
Leitor atento de tudo que Cony escreveu, nesta entrevista Lessa monta um guia do que ler, por onde começar e o que é absolutamente indispensável na vasta obra do escritor. Informação do Crucificado é, para ele, o melhor livro de Cony, embora considere Tijolo de Segurança uma ‘obra-prima’. Muita gente não entendeu porque em seu último livro, A Tarde da sua Ausência Cony repete no fim um capítulo que estava no início. ‘Entendo o efeito literário, mas saí do livro com a sensação de Ter sido vencido por uma escolha formal’, diz.
Se um dia fosse condenado a ser um livro, como aconteceu com a renitente comunidade de bibliófilos de Farenheit 541, obra de Ray Bradbury, hesitaria entre Guia dos Perplexos, de Maimônides, e os Ensaios de Michel de Montaigne. Leia a entrevista sobre Cony:
Por onde começar a ler Carlos Heitor Cony? Qual a importância de seus primeiros livros e por qual deles se deve começar uma leitura de Cony?
A obra de Cony é um universo com múltiplas entradas. Minha própria experiência de leitor - uma experiência em grande medida constituída pela leitura precoce de Carlos Heitor Cony - a cada reencontro com os textos e a obra imagina diversos começos possíveis. Por isso, temo que minha resposta a esta questão seja um tanto confusa.
Com o passar do tempo e com as sucessivas sedimentações de leituras repetidas, creio que uma das boas vias de acesso pode ser preenchida pela arte dos detalhes, tão disseminada nos textos de Cony. Uma forma de promoção do detalhe, aparentemente minimalista, mas que acaba por constituir átomos de sentido, cada qual dotado da carga dramática e expressiva do conjunto. Assim, imagino um primeiro contato hipotético com a obra de Cony através de uma pequena crônica, publicada em 1964, no heróico livro O Ato e o Fato: Crônicas Políticas (Ed. Civilização Brasileira), intitulada ‘Da salvação da pátria’. Nela Cony narra um episódio que eu mesmo, aos dez anos, vi pela antiga TV Rio - nosso saudoso canal 13 -, qual seja o da ‘tomada’ do Forte Copacabana, no dia 31 de março de 1964, por um oficial do Exército - o então Cel. Montagna (mais tarde general, por bravura). O referido oficial desceu de um Citröen preto, na esquina da Joaquim Nabuco com a praia e, após esbofetear um atônito sentinela, coloca dois paralelepípedos no meio da então pista única da Av. Atlântica, ‘para impedir os tanques do I Exército’, suposta reserva legalista que infelizmente acabou não chegando. Na crônica vemos um Cony observador dar lugar ao ator: ao fim de tudo, ele mesmo com o bico do sapato derruba a ínfima pilha de paralelepípedos, revelando de forma absolutamente desdramatizada o absurdo e a falibilidade da suposta barricada, de seu autor e, suspeito, do gênero humano.
A partir desta experiência minimalista, uma via nobre de acesso pode ser percorrida por dois romances notáveis, A Verdade de Cada Dia (1957) e Tijolo de Segurança (1958), imediatamente posteriores à primeira obra, O Ventre. A leitura desses dois belos e tristes romances urbanos pode ser uma útil antecipação à fortíssima carga dramática e literária da obra de estréia. Esses três livros antecedem a grande obra prima de Cony, Informação ao Crucificado, livro publicado em 1961.
Paulo Rónai, em iluminada apresentação ao livro A Verdade de Cada Dia, sugere que o grande tema de Cony é a família. O comentário, já idoso de mais de quatro décadas e não mais publicado, merece transcrição: ‘O grande assunto de Cony é a família. Emprego o termo à falta de outro, porque a família vista pelo nosso escritor é uma entidade especial, com muitíssimo pouco daquilo que a palavra normalmente evoca: seres coagidos convivendo mau grado seu, presos, trancafiados no mesmo cárcere, que se observam desconfiados, com inveja e ódio. Impedidos, pelas paredes da cela, de ver o mundo além, vivem remoendo melindres antigos, procurando anos a fio o sentido de palavras e gestos, até que a interpretação, afinal encontrada, os afunda mais em seu sofrimento. Dilacerados por forte sede de amor, machucam-se em brigas sem fim, e de cada uma saem mais infelizes, tanto mais que toda sua revolta não lhes pode alterar o fato central da existência, a condenação.’ Rónai resume a caracterização com uma sentença forte e inspirada: ‘Assim, cada romance entreabre a porta de outro compartimento do Inferno’.
O material, digamos, empírico à disposição de Rónai - que escreveu o prefácio à segunda edição, saída em 1963 em uma coleção inventada pelo Ênio Silveira, chamada Biblioteca Universal Popular (e financiada por José Luiz de Magalhães Lins, definido por Ênio como ‘um banqueiro a serviço dos interesses nacionais’) - era composto pelos romances de Cony até então publicados: O Ventre, Tijolo de Segurança, o próprio texto prefaciado, Informação ao Crucificado e Matéria de Memória. Da primeira fase de Cony, portanto, ainda não tinham sido publicados e/ou escritos (pela ordem): Antes, o Verão (1964), Balé Branco (1966), Pessach: A Travessia (1967) e o último e escatológico Pilatos (1974), para ficarmos só nos romances. O conjunto de livros considerados por Paulo Rónai - diminuto se considerarmos o conjunto da obra de Cony - permitiu um juízo apurado e profético. Se tomarmos, por exemplo, o mais recente livro de Cony - A Tarde de sua Ausência - é impressionante a consistência da apreciação de Rónai. De fato, como evitar a sensação de que ali, neste texto tão recente e centrado em uma família em completa dissolução, cada movimento ‘entreabre a porta de outro compartimento do Inferno’?
Portanto, se tomarmos o juízo de Rónai como referência, o par de obras composto por A Verdade de Cada Dia e Tijolo de Segurança pode ser considerado uma ótima ante câmara para o universo de Cony. Ali estão motivos perenes de Cony: a falibilidade humana, a cena urbana, a toponímia carioca, o desespero sempre contido e a forte associação entre tristeza e lucidez.
Qual o melhor livro desta primeira fase?
A resposta a esta pergunta é, na verdade, uma nova forma de responder à questão anterior e, sendo assim, tornar o conjunto de respostas ainda mais confuso. O melhor livro - desta e de todas as outras fases - é Informação ao Crucificado (embora considere Tijolo de Segurança uma obra prima). Digo isto a despeito do próprio Cony - em geral o melhor guia para Carlos Heitor Cony -, que tem preferência declarada por Pilatos. Há uma corrente de interpretação da obra de Cony que, privilegiando Informação ao Crucificado, associa este autor a uma tradição literária católica - composta por Jackson de Figueiredo, Alceu de Amoroso Lima, Gustavo Corção e Octávio de Faria. Eu não iria tão longe. É certo, no entanto, que a religiosidade nos textos de Cony é muito forte, quando não seja pela farta erudição católica. No entanto, creio que a religiosidade de Cony tem um quê de paganismo e heresia. Mas, para que essa opinião faça sentido, é preciso falar da centralidade de Informação ao Crucificado no conjunto da obra. Ainda que o livro tenha sido precedido por outras obras a ele, portanto, literariamente anteriores, sustento que Informação ao Crucificado precede existencialmente todos os livros escritos por Cony. A crermos na chave auto biográfica - e parece não haver motivos para crer em outra direção - Informação ao Crucificado narra a experiência pessoal de Cony no seminário maior da arquidiocese do Rio de Janeiro. Uma experiência vida de forma extremamente intensa e cujo resultado líquido é um estado permanente de dúvida e descrença. Ao mencionar a experiência pessoal de Cony com a religião e com a saída da religião, não pretendo adotar uma forma naturalista de entender sua literatura. A biografia do autor não explica a sua literatura. Antes, creio que a chave interpretativa para os textos está contida nos próprios texto, e Cony na medida em que escreve a sua experiência nos fornece uma chave dessa natureza.
Em termos mais diretos, sustento que a obra de Cony pode ser interpretada como uma forma de literatura pós-lapsária. Uma literatura precedida pôr uma experiência - literariamente construída - de queda no absurdo e na precariedade da vida. O momento dessa queda é a informação prestada ao crucificado: Deus acabou. Lembro-me que em uma conversa com Cony - em um seminário que participamos juntos - mencionei sua hipótese sobre a morte ou o fim de Deus, ao que ele corrigiu-me: Deus não morreu, simplesmente acabou, tal como uma conta bancária, que pode ser reativada a qualquer momento pôr algum depósito ou herança de uma tia velha e solteira.
A sensação da queda é construída passo a passo no texto da Informação. Um dos eventos centrais é o diálogo de João Falcão com o arcebispo - na época D. Jaime de barros Câmara, um das mais obscurantistas e reacionárias autoridades da igreja católica no Brasil - concluído com a dura observação do cardeal: ‘Eu não acredito em nada de bom em quem não acredita em nada...’ D. Jaime praticamente expulsa Falcão/Cony da igreja, e pôr isso muito a ele devemos, nós que amamos a literatura. Ao mesmo tempo a religiosidade mantém-se intacta, de uma forma pagã e herética, na qual os santos subsistem à falência de Deus e de sua igreja. Ao longo da obra, é possível encontrar deliciosos momentos de anti clericalismo e humor, como no nome de um personagem de A Verdade de cada Dia - um escroque completo - batizado como Marcelino de Jesus, em duvidosa homenagem ao Padre Marcelino Chapagnat, pio patrono dos Irmãos Maristas.
Mas, voltando ao ponto, central: Informação ao Crucificado pode ser lido como momento deflagrador de uma literatura a respeito da queda, povoada por seres falíveis, defeituosos, tristes e a despeito disso agarrados de algum modo à vida. Não me parece aleatório o fato de que o último livro da primeira fase de Cony - então apresentado pôr ele como seu último livro seja Pilatos, um dos momentos máximos da escatologia e da degradação humana na literatura brasileira.
O desfecho de Informação ao Crucificado foi fundamental para o não alinhamento de Cony a uma literatura católica. Qualquer outra saída, seja pela obediência, seja pelo fideísmo, teria outras conseqüências. A opção de Cony fez com que a dúvida o constituísse como seu próprio personagem.
Mas, é preciso falar também de Pessach: a Travessia. Considerar a travessia nesse livro concretizada e que, em um certo sentido, complementa a que não foi efetuada em Informação ao Crucificado. Em Pessach, são as mesmas razões apresentadas por João Falcão - i. e., Cony - a D. Jaime de Barros Câmara a respeito de como evitar o pecado, baseadas no princípio da coação interior e não no da obediência a autoridade externa, que estão presentes na decisão de Paulo - e Cony pode ser tudo menos inocente quando batiza um personagem seu com o nome de Paulo - de incorporar-se à luta armada. Em Informação, o motivo interno deu vazão à dúvida e à descrença; em Pessach, à aposta pascaliana.
Dos livros da nova fase literária de Cony - reinaugurada com Quase Memória - qual o que mais lhe agrada? O que é perfeitamente descartável na obra de Cony? Você entendeu a intenção de Cony, no desfecho de seu novo livro?
Gosto muito de A Casa do Poeta Trágico, na qual os motivos do primeiro Cony - se é que posso expressar-me deste modo - estão bastante presentes. Aqui não há o lirismo e o humor de Quase Memória e o desvairado e delicioso surrealismo - associado à nostalgia ferroviária, da qual compartilho por razões familiares - de O Piano e a Orquestra. A despeito da opinião de Cony a respeito de Quase Memória, trata-se de um livro pungente e delicioso.
Em princípio não descartaria nada na obra de Cony. Diria apenas que em alguns momentos de sua obra eu não pude sentir os efeitos conyanos habituais. Nesse sentido não é que não goste, mas Romance sem Palavras passou-me um tanto desapercebido. Em A Tarde de sua Ausência encontro alguns motivos básicos da obra, já assinalados pôr Rónai. Encontro ainda um dos capítulos mais bem escritos por Cony desde sempre, justamente um os que se repetem ao final do livro. Entendo o efeito literário pretendido, mas saí do livro com a sensação de que fui vencido pôr uma escolha formal, eu que esperava um desdobramento substantivo.
O que mais o cativa na literatura de Cony?
Meu principal fardo profissional consiste em lidar com a tradição intelectual do ceticismo; suas origens remotas, suas redefinições na modernidade e sua presença no quadro filosófico contemporâneo. Pois bem, meu primeiro contato com o que muito tempo depois aprendi ser o ceticismo deu-se na leitura precoce e sempre presente dos livros de Cony. O que sempre me encantou em Cony foi a visão da falibilidade humana, da associação entre tristeza e lucidez - presente na idéia e que a compreensão de como as coisas se dão efetivamente é um preâmbulo para a infelicidade. Paradoxalmente, essas características são cruciais para que uma dimensão da escrita de Cony seja possível: o seu humor invulgar. Um humor fino, genuíno e cortante, posto que sustentado na tal compreensão pós-lapsária da nossa existência. Ao mesmo tempo, tudo isso entremeado com passagens belas e sublimes, como luzes jogadas nas faces de seres que vivem a obscuridade da vida. O que me encanta em Cony é o que me encanta em Francis Bacon e El Greco.
Seria um presente poder contar com edições críticas da obra de Cony, que nos trouxessem de volta os belos textos e orelhas de Antonio Houaiss, Paulo Rónai, Leandro Konder, Ênio Silveira, Mário da Silva Brito e Antonio Callado.
Brasas na tela
Deu no site da Variety. Estão em curso negociações para Milos Forman (diretor de Amadeus) dirigir o filme baseado em ‘As Brasas’, esplêndido romance do húngaro Sandor Marai publicado no Brasil pela Companhia das Letras. O elenco é estelar: Sean Connery, Winona Ryder e Klaus Maria Brandaeur. Já trabalha no roteiro Jean-Claude Carriere, roteirista de filmes de Luis Buñuel. ‘As Brasas’ conta a história de dois homens que foram amigos inseparáveis mas que não se vêem há 41 anos depois de uma misteriosa ruptura que só no esperado reencontro será afinal decifrada. A figura de uma mulher, que oscila entre os dois, é fundamental para esclarecer o que aconteceu. Marai nasceu em 1900. Em 1948 fugiu da Hungria. Em 1979 suicidou-se nos Estados Unidos."
MERCADO EDITORIAL
Ubiratan Brasil
"Muitas editoras novas, mas sem espaço nas livrarias", copyright O Estado de S.Paulo, 12/7/03
O avanço da tecnologia e uma manutenção relativamente barata permitem o fácil surgimento de novas editoras. O problema está no afunilamento - hoje, no Brasil, existem cerca de 3 mil editoras para 1.500 livrarias. ‘Não temos facilidade para expor nossos produtos, especialmente nas megastores’, comenta Sérgio Pinto de Almeida, da Edições Papagaio, que relançou o importante Panamérica, de José Agrippino de Paula.
Aclamado pelos tropicalistas, Panamérica recebeu generosa cobertura de mídia, outra das principais dificuldades para editoras pequenas. ‘Até matéria na Globonews eu consegui, mas mesmo assim não houve nenhum pedido das livrarias’, conta Almeida que, apesar da importância dos títulos, não emplacou nenhum sucesso.
‘Na verdade, uma editora tem de ser uma empresa viável, não rentável’, ensina Uri Eliat Horpaczk, há dois anos à frente da Landscape, especializada em biografias, policiais e grandes reportagens. Os números comprovam sua tese - segundo a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro do ano passado, realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional dos Editores (Snel), houve uma queda de 4% no faturamento do setor editorial (R$ 2,18 bilhões em 2002 contra R$ 2,27 bilhões em 2001). E só aconteceu um aumento (7%) na quantidade de exemplares vendidos graças às compras feitas pelos programas governamentais (PNLD, PNBE e Leia Mais).
Horpaczk tem uma teoria sobre o grande número de novas editoras: a crise do mercado de trabalho. ‘Muitos profissionais competentes acabam desempregados; assim, juntam suas economias e se lançam nessa aventura’, acredita ele, garantindo que, mesmo depois de dois anos, ainda não conseguiu cobrir os investimentos.
Os custos são pesados. Segundo Cláudia Pinheiro, da editora Hedra, o preço de gráfica e papel não diminuiu, mesmo com o recuo da cotação do dólar.
‘Estamos no mercado há quatro anos e já deveríamos viver do nosso catálogo, o que não acontece’, explica. ‘Por isso, temo pelo aumento de editoras, pois a bolha pode estourar.’
A técnica básica de sobrevivência é baratear custos. Como, por exemplo, contar com a colaboração de escritores que aceitem publicar suas obras por selos desconhecidos. É o caso de Marçal Aquino, que lançou Faroestes pela Ciência do Acidente do colega Joca Reiners Terron. ‘Fiquei apaixonado pelo trabalho gráfico que ele dedica aos livros, por isso aceitei a proposta’, conta o escritor, que colaborou com as vendas, participando do lançamento em sete cidades. ‘O alcance foi relativo, mas realizei um desejo estético.’
Outra solução econômica é oferecida por gráficas pequenas: a impressão sobre demanda. Nesse processo, a editora só autoriza rodar a quantidade de exemplares que necessita naquele momento. Assim, evita-se o risco de ficar com uma grande sobra de tiragem. ‘Mas as pequenas só imprimem o miolo, pois a capa, que normalmente é mais trabalhada, é confeccionada em gráficas maiores e sempre na quantidade total da tiragem’, conta Horpaczk.
O crescimento das pequenas e médias provocou o surgimento, no ano passado, da Liga Brasileira de Editoras, a Libre, disposta a proporcionar uma maior participação de seus membros (67 atualmente) em questões econômicas, políticas e sociais. A primeira medida foi a criação da Primavera dos Livros, feira realizada no Rio e em São Paulo, em que não havia nenhuma obra de grande editora.
O sucesso convenceu a liga a montar um estande único na Bienal do Rio deste ano. ‘Fomos bem, mas não aconteceu aquele sucesso todo cantado pelos organizadores’, comenta Cláudia Pinheiro. ‘Houve muito prejuízo.’
A Libre agora acerta um acordo com o Sebrae a fim de fazer um levantamento dos principais problemas do setor e buscar soluções. ‘Ainda estamos no início da parceria, mas, na Feira de Livros de Ribeirão Preto, já vamos dividir um estande’, conta Isabella Marcatti, da Editora 34."
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