|
ELEIÇÕES 2002
Daniel Piza
"Política em pó", copyright O Estado de S. Paulo, 13/10/02
"Não quero soar como estraga-prazeres da ‘festa cívica’, mas três coisas desta campanha, entre tantas outras, atentaram contra a democracia à moda da casa: 1) a duração de praticamente um ano, desde que uma série de filmes publicitários do PFL lançou o nome de Roseana Sarney; 2) a escolha de seis cargos na mesma eleição, especialmente os de presidente e governador; 3) a convergência de propostas dos candidatos, todos se dizendo de ‘centro-esquerda’. Democracia supõe controle social da atuação dos políticos, e os dois primeiros itens diluem esse controle. E supõe pluralismo, troca de idéias, para que tudo não seja reduzido a marketing.
Não por acaso, até agora ninguém propôs corte de gastos, mal se falou no combate à corrupção (!) e no conteúdo da educação, e a queda das importações se tornou dogma.
Você viu o relatório do Bird sobre educação e tecnologia na América Latina, divulgado esta semana? Está tudo ali: a necessidade de aumentar a inovação e a capacitação e, para isso, o papel da abertura às importações e à competição. Mas, pelo jeito, aqui se vai continuar acreditando na intuição tropicalista.
Você também deve ter lido sobre a União Européia, que convidou outros dez países (os do Leste Europeu, mais os bálticos e Chipre e Malta) para compor o bloco comercial. Parâmetros macroeconômicos são exigidos - por exemplo, o déficit orçamentário de um país não pode ser superior a 3% do seu PIB. Ou seja, para ampliar o comércio internacional (‘globalização’) não cabem premissas subkeynesianas que vêem benefício temporário em gerar inflação. A economia mudou, embora tantos economistas continuem os mesmos.
Lula tem tudo para ganhar enquanto José Serra disser quase o mesmo que ele diz, sem o seu carisma de humildade. Serra não é muito diferente de Lula; é ligeiramente menos intervencionista e heterodoxo. Há, portanto, menor risco de retorno da inflação e do isolamento e maior chance de continuidade para as boas iniciativas de FHC - que existiram e não poucas. Mas Lula, que tanto diz querer negociar, não pode fugir às perguntas. The Economist, por exemplo, sugere que ele siga Tony Blair e nos primeiros dias já institua a autonomia do Banco Central e defina regras austeras. Temos todo o direito de duvidar.
O governo Fernando Henrique Cardoso termina num curioso paradoxo: tanto seu legado como seu desgaste favoreceram Lula. O legado, porque Lula hoje é obrigado a defender medidas e metas que no ano passado jamais sonharia defender. E o desgaste, porque Lula conseguiu simbolizar mudança sem exagero num ano em que o desempenho do Brasil está sendo para lá de medíocre.
O voto em Lula - e o PT sabe - é em muitos aspectos conservador. Exprime um vago desejo de mudança? Não, exprime antes um vago desejo de que alguns retrocessos - desemprego e violência, sobretudo - sejam revertidos. Lula, se for eleito, o será mais para arrumar do que para transformar.
O programa do PT, mais que o dos outros, prevê gastos públicos acima do disponível na atual conjuntura e estrutura. E quem vai governar não é Lula, mas o partido, que se acostumou a ocupar a máquina pública como cogumelos à sombra. E que será feito da aliança com José Sarney, Orestes Quércia, o ex-malufista José Alencar e outros? Poucos parecem entender o custo econômico desse programa e o custo político dessas alianças, mesmo depois de oito anos de FHC (que fez, diga-se de passagem, uma aliança bem menos heterogênea). Para governar, não basta ter uma prancheta generalista e ‘vontade política’.
Reforma política já! Ok, gente como Quércia, Maluf, Pitta, Eurico Miranda e Collor foi rejeitada. Mas e os retornos de Jader Barbalho e Antonio Carlos Magalhães ao Senado? E o neto de ACM? O filho de Ratinho? E o Prona de Enéas e Havanir e seus estafetas barbudos? A reforma política, claro, não vai evitar que pessoas estapafúrdias votem em políticos estapafúrdios, mas pelo menos pode cercear seus poderes. Fidelidade partidária, cláusula de barreira, suspensão de direitos eletivos, correção da representatividade - tudo isso já deveria ter sido adotado, como em qualquer democracia decente.
A Prestígio lançou edição de O Príncipe, de Maquiavel, livro obrigatório. E com um prefácio que é ouro 18 quilates: A Originalidade de Maquiavel, de Isaiah Berlin, um dos maiores ensaístas do século 20. Berlin mostrou como a originalidade de Maquiavel não foi dissociar política e moral, mas distinguir a moral realista e a moral cristã, teológica, que sempre trabalha com a hipótese de uma determinação final para o comportamento humano. Há coisas incompatíveis e insolúveis na vida real, notou Maquiavel. E por isso algumas das melhores virtudes cristãs - generosidade, respeito - são ainda mais consistentes quando associadas à coragem e à criatividade que cada indivíduo, munido de observação empírica e de espírito público, livre das ilusões criadas pelas aparências, pode desenvolver. Só quando abandona o ideal da conciliação plena é que o homem pode realmente conciliar contrários de forma virtuosa.
Olhaí, Lula. É como dizia o velho De Gaulle: ‘Em política, ou se trai o país ou o eleitorado. Prefiro trair o eleitorado’."
Zuenir Ventura
"Rosinha ou de novo Garotinho?", copyright O Globo, 13/10/02
"Para uma jornalista francesa que me entrevistou depois das eleições, pude dizer sem patriotada que estava civicamente feliz por ser brasileiro e orgulhoso com o resultado, já que nenhum Le Pen estava no segundo turno, aliás, nem no primeiro, e não corríamos o risco de ter um Bush na Presidência. Não me parece pouca coisa, ainda mais que o eleitor teve que se submeter a um teste de disciplina e paciência nas filas, imposto pela imprevidência da Justiça Eleitoral.
Sei que foi uma eleição para vários gostos, e houve também o que lamentar. Não é fácil, por exemplo, conformar-se com o fato de que a maior votação do país para deputado federal tenha cabido a quem tem como mensagem o tom raivoso e o próprio nome: Enéas. Pode haver absurdo maior? Pode. Ele carregar consigo para Brasília mais cinco candidatos, um dos quais com 275 votos, quando há gente que vai ficar de fora com 70 mil.
Entre aquelas notícias que levam o eleitor a dizer ‘que que adiantou?’ está a volta de Jader Barbalho, ACM e Arruda, mas por outro lado, no capítulo avanço democrático, há o expurgo de Collor, Maluf, Newton Cardoso, Quércia, Eurico Miranda. Em termos de tendência, a que mais me preocupa, com risco de parecer elitista ou preconceituoso, é essa onda evangélica que mistura Igreja e Estado, crença e política, religião e ideologia. Alega-se, como Garotinho tem feito, que os evangélicos pagam impostos, são cidadãos, são eleitores e podem, portanto, fazer política.
Claro que podem, mas o problema não é esse: nada contra a crença num país de muitas crenças e descrenças. Mas, sim, contra seu uso político. Não são os evangélicos que estão sendo politizados, mas a política é que está sendo evangelizada, e a marca que algumas dessas seitas carregam consigo é o fundamentalismo, a intolerância e o messianismo. Sabe-se que essa mistura no poder é perigosa.
A presença crescente de bispos e pastores no Congresso e nas assembléias inquieta tanto quanto se, em seu lugar, estivesse a hierarquia católica ou de qualquer outra religião. Não foram os cidadãos, os nomes civis que se candidataram, mas os cargos e funções: bispo tal, pastor ou pastora tal. O bispo Crivella, depois de eleito para o Senado, disse: ‘Os religiosos têm uma contribuição a dar a esse país. Isso não tem nada a ver com misturar política com religião’. Como não tem? Ele é o próprio desmentido ao que diz. É evidente que os mais de três milhões de eleitores que votaram nele não o fizeram por sua história política no estado, que é insignificante se comparada à de um Brizola ou Artur da Távola, mas por fidelidade à sua pregação religiosa.
O fenômeno faz com que tudo passe pela religião, inclusive as celebrações profanas, se é que se pode empregar essa última palavra no caso. Assim como na comemoração de um gol, os jogadores evangélicos levantam a camisa para mostrar a de baixo com inscrições do tipo ‘Só Jesus salva’, Rosinha festejou sua vitória vestindo não a camiseta de campanha com seu nome, mas outra com o lema ‘Jesus é o Senhor’ (a de Garotinho era ‘O Senhor é Jesus’), indicando que foi um triunfo religioso, não político.
Rosinha como protagonista e Garotinho agora como coadjuvante vão ter que administrar um estado que precisa mais de providências terrenas do que divinas. Em outras palavras, necessita mesmo é de tratamento, não de salvação, até porque o Senhor vai estar ocupado também com o resto do país. Não se sabe ainda como a dupla vai funcionar. Ela diz que ele terá o cargo que quiser; ele ainda não disse se além do cargo vai fazer o que quiser. Em caso de bola dividida, qual a opinião que vai prevalecer, a dela, sem experiência administrativa, ou a de quem foi governador?
O problema dos celulares vai ser um bom teste. O marido, como se sabe, fez vista grossa à presença dos aparelhos na prisão, alegando que graças às gravações podia-se controlar o que os bandidos planejavam, esquecendo que até morte eles continuaram comandando por telefone. Já ela está procurando pretexto para remover os bloqueadores instalados, alegando que prejudicam os moradores do bairro, quando só duas ruas parecem estar com problemas. Rosinha promete estudar o assunto. Espera-se que estude bem, antes de devolver os celulares a Fernandinho Beira-Mar.
O que se quer saber em suma é se teremos o retorno disfarçado de Garotinho. Em matéria de segurança, estará de volta uma política de leniência? Se houve algo de bom na rápida administração Benedita, foi o combate severo e inteligente ao narcotráfico. A melhor prova é o esperneio desesperado dos que estão presos. Respeitando os direitos humanos, ela mostrou que ‘bandido bom é bandido vivo’, como escreveu o jornalista Marcos Sá Corrêa. Morto em confronto com a polícia, Elias Maluco podia virar herói na sua comunidade; vivo e preso, foi o que se viu: um pé-de-chinelo cabisbaixo, pedindo clemência."
Renata Lo Prete
"Volta à TV acentua duelo de ‘mudança’ x ‘situação’", copyright Folha de S. Paulo, 15/10/02
"Na estréia da nova temporada de propaganda eleitoral gratuita, Luiz Inácio Lula da Silva apresentou-se mais ‘mudancista’ do que antes. Em contraste, José Serra investiu, por meio de depoimento da atriz Regina Duarte, no medo da mudança, e mostrou-se mais colado ao governo do que nos programas do primeiro turno.
Inaugurando o tom plebiscitário que deverá marcar sua comunicação na etapa final da campanha, o candidato do PT à Presidência exibiu os apoios de Anthony Garotinho (PSB) e Ciro Gomes (PPS), eliminados da disputa na votação de 6 de outubro.
‘Os que defendiam mudança agora estão juntos’, disse Lula. Garotinho e Ciro pediram votos para o ex-adversário e afirmaram que o país precisa de ‘mudança’. O vice da chapa, José Alencar, foi escalado para repetir bordão que se tornou recorrente no discurso petista: ‘Três quartos do eleitorado votou contra o governo’.
No horário de Serra, foi outro o plebiscito oferecido ao eleitor. ‘Tô com medo’, disse Regina Duarte na primeira cena do programa noturno. Entre seus temores estão a volta da inflação e o risco de que se percam, com a eventual vitória da oposição, conquistas do período tucano. ‘Não é para jogar tudo fora.’ O candidato do PT, segundo a atriz, ‘não é mais o Lula que eu conheci’.
Serra não abandonou a tentativa de explicar em que sua administração seria diferente da atual -’emprego e segurança’, mesmo binômio da fase anterior da propaganda. ‘Ao contrário do que o PT quer fazer você acreditar, não será o terceiro mandato do Fernando Henrique.’
Foi, no entanto, mais enfático na defesa de programas federais como Bolsa-Escola e Bolsa-Alimentação, citando o presidente de maneira explícita e elogiosa. Na mesma linha de Regina Duarte, advertiu que ‘este governo fez muitas coisas importantes, que não devem ser interrompidas’.
A questão dos debates, cabo de guerra entre os candidatos desde a semana passada, apareceu com força nos programas de estréia.
Debates em pauta
Para vacinar Lula contra a acusação de que o petista foge do confronto direto, o publicitário Duda Mendonça cuidou de abrir e fechar o horário petista listando debates de que o candidato participou -mais pesquisas que indicariam sua ‘vitória’ nesses eventos- e avisando que ele estará presente, na antevéspera da eleição, no programa da TV Globo.
No bloco tucano, Serra disse ‘não entender’ por que Lula se recusa a debater mais de uma vez no segundo turno. No rádio, sempre mais enfático que a TV, o locutor foi além, observando que o petista ‘tem medo’ e ‘não sabe o que vai dizer’ nos debates.
Os dois presidenciáveis deram espaço à conquista de aliados.
Em clima de celebração, Lula recebeu petistas e políticos de outras siglas em um programa cujo sentido era destacar o arco de apoios em torno de seu nome. As adesões incluíram imagem de Roseana Sarney no leito de hospital onde a senadora eleita se recupera da extração de um tumor.
Colagem de reportagens televisivas enfatizou o crescimento do PT no Congresso. O quadro serviu de gancho para Lula se dizer em condições de garantir, se eleito, ‘a tão falada governabilidade’.
Do lado de Serra, a conquista de apoios foi tema apenas no programa da noite, no qual apareceram, entre outros, os tucanos Aécio Neves e Tasso Jereissati e o peemedebista Michel Temer.
À tarde, boa parte dos dez minutos foi tomada pela cobrança de debates. No mais, voltaram à pauta itens como realizações do candidato na Saúde e sua ‘capacidade de fazer coisas’. À noite, houve espaço também para rápida menção a problemas de administrações petistas, tema que deverá entrar com força nos próximos programas tucanos.
Uma diferença marcante entre a propaganda dos dois candidatos foi o relacionamento com a disputa paulista. Lula teve papel de destaque no programa de José Genoino. Serra teve apenas o nome exibido na vinheta de abertura do horário de Geraldo Alckmin.
Em comum, apenas a corte ao eleitorado feminino. Na propaganda de Lula, a âncora do tema foi Marta Suplicy. Serra elogiou os dotes de sua vice, Rita Camata, e previu que ‘um dia a gente vai ter uma mulher presidente.’"
***
"Programas vêm com formatos diferentes", copyright Folha de S. Paulo, 15/10/02
"Os dois presidenciáveis exibiram à tarde, na estréia da propaganda, programas de formato bem diferente.
Lula recebeu petistas e políticos de outras legendas em um auditório. No palco, chamou e pediu aplausos para os ex-adversários Garotinho (que participou em depoimento gravado) e Ciro.
Encerrado o horário do PT, os dez minutos de Serra foram ocupados por entrevista do candidato ao jornalista Alexandre Machado.
Apresentador, nos anos 80, do programa ‘Vamos Sair da Crise’, na TV Gazeta, Machado esteve envolvido, no final de 2000, na tentativa de trocar o nome da Petrobras para ‘Petrobrax’.
À época, o jornalista era consultor da presidência da estatal. Devido à repercussão negativa, a idéia foi abandonada pelo governo.
Grávidas recicladas
Comercial de Serra exibido ontem usou grávidas que haviam aparecido nos últimos programas de Lula no primeiro turno. Acompanhando as imagens, um locutor elencou realizações do tucano para mulheres quando foi ministro da Saúde."
|
|